Mostrar mensagens com a etiqueta Alberto Pimenta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alberto Pimenta. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

MAS QUE MEMÓRIA

mas que memória
podemos ter
de nós?
e de qual tempo?

deste tempo exterior
em que
depois de criados
e decifrados
os consensuais alfabetos
da exploração
da vida
chegou o projecto Stardust
com material inalterado
desde o início
do sistema solar,
que não nos diz
se então já havia actos de amor
e portanto
não nos diz nada (?)

é preciso emparedar o demente
que propõe que podia haver
o que não há.
e outros
como ele.

acham-se todos
cada vez mais
perdidos
no meio do próprio ruído,
carregando
males
e mails
como se a diferença
entre ambos estes termos
não fosse
apenas o espaço
de uma ou outra letra,
e a ressonância
da voz do homem
que treme fora como a terra dentro.


Alberto Pimenta


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O DIA TEM 24 HORAS

 o dia tem 24 horas

 
os canais de televisão
em conjunto
fazem delas perto de 100
 
a banca
para organizar
os seus assaltos súbitos
à bolsa
e vice-versa
trabalha em conjunto ou em separado
mais de 300 horas por dia
que depois
podem render
mais de cem mil salários anuais
de cem mil trabalhadores
 
os curso de balística
do exército e da polícia
ocupam entre todos eles
muitas centenas de horas
por dia
a treinar
a fatalidade e o erro científicos
 
para derrotarem o adversário
em décimas de segundos
ou menos
os atletas treinam
sem trégua
milhares de horas por ano
durante vários anos da sua vida
 
o homem aproveita
engenhosamente
o tempo
e nos intervalos
produz os novos escravos
do novo tempo
 
os donos dele
sucedem-se
 
o tempo tem dono
e é hereditário

Alberto Pimenta em Resumo: a poesia em 2012

quinta-feira, 29 de maio de 2025

ARUSPICISMO

 numa sondagem da opinião pública

                  apurou-se que

               a opinião pública

   coincide com a opinião pública

                  e considera

                        que

          a única opinião pública

    autorizada pela opinião pública

                          é

       a verdadeira opinião pública

                             isto

                      ao contrário

                          do que

             pretende fazer crer

            certa opinião pública

                        a qual

                    não coincide

com a verdadeira opinião pública

 

Alberto Pimenta em Poesia 71

terça-feira, 10 de maio de 2022

OLHAR AS CAPAS


Bestiário Lusitano

Alberto Pimenta

Capa: Alberto Pimenta

Edição do Autor, Lisboa, 1980

(Nota do autor no final do livro: «Escrito durante o ano de 1979, segundo o lema de B. Brecht: «Outros que falem da sua vergonha, eu falo da minha.»)

AS PALAVRAS DO PAPAGAIO

aprrendi a dizer o que aprendi a dizer, diz ele

aprendi a dizer que aprendi o que aprendi a

dizer, diz ele, aprendi a dizer que não aprendi

o que não aprendi a dizer, diz ele, comecei a

dizer o que aprendi a dizer, diz ele de dentro

da sua gaiola, aprendi a dizer o que dizem que

se pode dizer, diz ele de dentro da sua gaiola,

mas como dizem que o que se pode dizer apenas

é o que já foi dito, diz ele de dentro da sua

gaiola, só aprendi a dizer o que já foi dito,

diz ele, e como não aprendi também a dizer o

que ainda não foi dito, diz ele, não sei se só

digo aquilo que sei ou se só sei aquilo que

digo, e assim é e tenho dito, diz ele de dentro

da sua gaiola, batendo as asas de mau modo.

segunda-feira, 23 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Quando se meteu a um diário dos dias difíceis, sabia das dificuldades, da rotina das notícias, dos dramas, dos números. 

Sabia, mas diz que vai continuar.

Tal como um dia viu Na Vida de Bryan dos Monty Python.


1.

O poeta Alberto Pimenta tem 83 anos.

Disse recentemente:

«Sei lá quem sou. Sou alguém que anda talvez à procura ainda de qualquer momento que chegue para me dizer quem sou. Ainda não chegou. Continuo à procura.»

2.

Uma criança, com cerca de 10 anos, foi alvejada no pescoço, este domingo, por outra criança, quando estavam a brincar com uma arma de fogo no bairro da Bela Vista em Setúbal.

3.

Um especialista chinês:

«Esqueçam a ideia de que a pandemia na Europa vai acabar num futuro próximo. Têm de se preparar para uma longa batalha.»

4.

Contra os açambarcamentos, um supermercado dinamarquês colocou gel desifectante a 5,50 por frasco. Quem quiser levar dois, ou mais, passará a pagar 134 euros.

5.

Voltando a Albert Camus, a Sísifo ao seu mito e à fragilidade da existência humana e fiquemos com as palavras finais desse livro espantoso:


«Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até ao cume de una montanha, de onde ela tornava a cair, em consequência do seu próprio peso.
Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

Se dermos crédito a Homero (A Ilíada), Sísifo era o mais sábio e o mais prudente dos mortais.
No entanto, segundo outra tradição, tinha tendências para o ofício de bandido. Não vejo nisto a menor contradição.

(…)

Já todos compreenderam, que Sísifo é o herói absurdo. Tanto por causa de suas paixões como pelo seu tormento. O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a sua paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível na qual o seu ser se empenha em não terminar coisa alguma. É o preço que é necessário pagar pelas paixões desta terra.
Não nos dizem nada sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime.

(…)

Não há sol sem sombra e é preciso conhecer a noite.O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias. No instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando para sua rocha, contempla essa sequência de acções sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte.
Assim, convencido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. o rochedo ainda rola.

Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta as rochas.
Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil.
Cada grão dessa pedra cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros (cumes) basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.»

6.

Os números, sempre os terríveis números:

No mundo já morreram 378.394 pessoas.

Em Portugal o número cifra-se nas 23 mortes

7.

Dizem que estamos em guerra.

Mas não se vê o inimigo.

Foi-nos reservada a pior das indignidades.

Recopio palavras de Albert Camus em O Mito de Sísifo:

«Não há sol sem sombras e é preciso conhecer a noite.»


Legenda: Dom Quixote de Pablo Picasso

terça-feira, 11 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Mas a história é uma série de interrogações não de respostas.

Alberto Pimenta

terça-feira, 12 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


& Etc. – Prolegómenos a uma Editora
Catálogo da Exposição

Coordenação editorial, capa e concepção gráfica: Paulo da Costa Domingos
Autores de textos e imagens:
Alberto Pimenta, Almeida Faria, Carlos Ferreiro, Inês Dias, João E. Cutileiro, Jorge Silva Melo, Maria Inês Cordeiro, Paulo da Costa Domingos, Ricardo Álvaro, Telma Rodrigues, Vitor Silva Tavares
Livraria Letra Livre, Biblioteca Nacional, Lisboa. Fevereiro de 2017

Vitor Silva Tavares foi um Homem raro. Genuíno, naturalmente vertical, lúcido, felino, livre-livre como um pardal-de-telhado que transporta a Liberdade no voo, Senhor de uma «grande razão» e de uma sabedoria e dimensão existencial para além das medidas curtas desta mesquinha alfaiataria humana, certo até à medula da sua altitude e profundidade. Vitor Silva Tavares despediu-se deste mundo e já não mora aqui. O editor-poeta da nossa Legião dos Únicos, dos «últimos dos últimos», viaja na sua Automotora a caminho do Fundão, da «chafarica», Pasárgada, & et. Obrigado por esta boleia generosa e atá à próxima estação.

(Do texto de Ricardo Álavro)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC


Passo da entrevista de Alexandra Lucas Coelho a Vitor Silva Tavares em que se fala da colaboração do Vitor com essa extraordinária difusora cultural e política que é Eduarda Dionísio, filha do pintor e poeta Mário Dionísio:

Eduarda Dionísio (com quem trabalhou na associação Abril em Maio e recentemente no jornal PREC) diz que não há coisa de que o Vítor Silva Tavares goste mais do que a tipografia, e o Alberto Pimenta (um dos autores mais da casa, na & etc) crê que a fusão inseparável da estética e da ética é o que melhor o define. Tudo o que disse sobre a artesania do livro se relaciona bem com essa fusão.
Agora preside à Abril em Maio, que está num limbo. O que o fez querer pertencer a este colectivo? Como resistência – não sei se a palavra é a boa?

É essa. É a única.

Um dia a Abril em Maio pediu para aqui uns livritos, disse onde era, à Graça, fui lá a um debate, um rés-do-chão de uma casa antiga, fiquei encantadíssimo por ver aquele espaço e reencontrar finalmente a Eduarda Dionísio, que conhecia de nome. Sabia-a filha de quem era, mas nunca tinha tido relacionamento próximo.

E ao saber que aquela coisa tão encantadora que ali estava, onde um disco daqueles que não aparecem em lado nenhum – sei lá, o García Lorca a tocar piano – está ao lado de uma garrafa de azeite, de um boneco de barro, de um livro; ao ver o tipo de pe, ssoas, a miudagem; ao ver que também ali não havia nenhum propósito lucrativo, era uma associação cultural propriamente dita, e que também ela não dependia de nenhuma espécie de subsídios, nem disto nem daquilo, ou não estivesse lá a Eduarda Dionísio: havendo afinidades que não se podem circunscrever ao ideológico, que têm a ver com a maneira de estar e de fazer cultura, alheia ao “mainstream”; eu, que jamais tinha pertencido a qualquer clube resolvi ser sócio daquele.

Estava longe de imaginar que iria filiar-me numa associação que tinha a sua morte anunciada. Ser sócio não é só pagar a quota. Não posso abandonar o etc, onde faço de tudo, sou eu que varro também o chão, essas coisas, a minha disponibilidade está repartida, sempre. De qualquer modo tive trabalhos, iniciativas, ideias na Abril em Maio, daquela pulga eléctrica que é a Eduarda Dionísio. Tenho uma grande ternura por ela, uma grande admiração por aquela capacidade de mobilizar e de fazer, também pela sua capacidade de organização, eu que sou desorganizado. Muitas afinidades. De tal modo que não me interessa assim tanto a Abril em Maio. Quando gosto de uma pessoa, sou de uma fidelidade total. Só estou lá porque lá está a Eduarda, cultivando com ela o mesmo tipo de fidelidade. É um mau feitio que me quadra muito bem. Quem me dera ter dez por cento daquele mau feitio. É sempre recto.


Sempre falou no trabalho como uma fruição, parte da vida, dos amigos. É raro as pessoas estarem numa coisa porque gostam muito de alguém. Têm objectivos, têm projectos, podem ganhar isto, aquilo.

Eu e a Eduarda gostamos de fazer coisas. Com as mãos, com os pés, com a língua. Não vamos teorizar muito sobre as coisas. Temos afinidades, é escusado estar a gastar saliva. Entendemo-nos muito bem. Podemos passar logo para a acção e mobilizar outros para esse trabalho.

A ideia do PREC?

Nasceu aqui. O título foi meu. Quem tiver ideias sobre o nome a dar a esta folha, que é para ler e não para ver, portanto vamos inundar a mancha com letras, uma letra vale mais que mil imagens...

Isso hoje é um verdadeiro PREC.

Exacto. Então, quem tiver ideias ponha no papel. E eu tenho aqui uma que é uma dupla provocação: desta porta para fora, quando sair, e desta porta para dentro, para as cabecinhas de todos nós que aqui estamos. A minha proposta é chamar-lhe PREC.
Ponto dois, toda a gente vai associar PREC ao processo revolucionário em curso. Só que nós vamos utilizar cada número para aquilo que nos der na bolha, e assim subvertermos a própria ideia feita do PREC, porque no interior das letrinhas vamos sempre meter coisas distintas, o que foi praticado com algum humor.

PREC porquê? Porque é PREC, sim senhor, contra-corrente, o próprio formato, outra vez o papel manteigueiro, e, à semelhança dos velhos jornais, encher aquela página literalmente com um corpo tão pequenino que vale pela mancha. É, em sim mesmo, uma afirmação estética, tipográfica. Depois, se as pessoas quiserem ler, com esforço, claro, até têm lá coisas para ler.

E de um trabalho tão duro, por vezes até às duas, três da manhã, conseguirmos um momento lúdico de trabalho, sempre a rir, e sem expectativas.

Fazemos as coisas porque temos de as fazer, porque está na nossa condição. Depois já não é connosco, já está para fora de nós. E a mim tanto me faz que haja só uma pessoa que tenha lido, criticado aquilo, como dez mil, uma que fosse. Aí não tenho espírito de missão, nem aqui dentro. Isto não é nenhuma igreja, não há aqui nenhuma crença, faz-se porque se tem de fazer, está na nossa condição fazer, fazer assim, saber porque fazemos assim. Perseguimos, sim, uma ideia de harmonia, de beleza, de intervenção, e sabemos que é uma resistência. Resistência é a palavra, à falta de ar vigente, ao obscurantismo, à criação permanente de falsos mitos passageiros.

Legenda: pormenor do Subterrâneo 3 onde se encontra instalada a &etc.
Estantes com arquivos e os exemplares mão esgotados dos livros &etc. A secretária e a cadeira de recosto onde o Vitor se sentava à conversa com quem ia aparecendo. Falta, na secretária, a máquina de escrever. Sim, porque ali nunca houve compudadores.

domingo, 25 de setembro de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


“comprei um bilhete e um cartucho de amendoins e
entrei no cinema. tu compraste um bilhete e um
cartucho de amendoins e entraste no cinema, sen
támo-nos na mesma fila, lado a lado. eu abri o meu
cartucho de amendoins, tu abriste o teu cartucho
de amendoins, com um ruído exactamente igual ao
meu. voltei-me para ti e mostrei os dentes. tu
voltaste-te para mim e mostraste os dentes. quan
do a luz apagou, tu pousaste o teu cartucho de a
mendoins no colo e eu pousei o meu cartucho de
amendoins no colo. com a mão direita comecei a le
vantar-te a saia. para me facilitar a tarefa, tu
levantaste levemente as nádegas do assento. com
esse gesto, caiu-te do colo o cartucho de amendo
ins. assim que os amendoins acabaram de se espal
har no chão, abaixei-me para tos apanhar, mas es
queci-me do meu cartucho de amendoins, o qual me
caiu igualmente ao chão. gastei um tempo enorme
a procurar e a recolher todos os amendoins. lembro
me de que passei o tempo quase todo até ao inter
valo recolhendo amendoins. todo o tempo tu
não deixaste de suspirar e de gemer, embora esti
vesse apenas a decorrer um documentário sobre
o narciso e nenhum drama comovente. a voz do lo
cutor lembro-me que dizia: «no começo da primave
ra, quando montes e vales acordam do longo sono
de inverno, centenas e centenas de narcisos ele
vam as douradas cabeças em todas as frestas e a
brigos do solo, e lançam seu olhar inocente pelos
portentosos rochedos e pelas raízes nodosas da
floresta.» isto, como certamente te lembras, foi
antes do intervalo. depois, quantas vezes, oh quan
tas vezes não deixaste cair e eu não deixei cair
os amendoins que nos restavam. e ora eu, ora tu,
de cada vez descíamos a procurá-los, e a colhê-los
com suaves, ternos guinchos. o filme, no dizer da
crítica, era daqueles que se não podem perder.”

Alberto Pimenta em  “Poemas Com Cinema”, antologia organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queiroz, Rosa Maria Martelo, Assírio &Alvim, Novembro 2010

quinta-feira, 31 de março de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


A EVOCAÇÂO DO CHIMPANZÉ

“comprei um bilhete e um cartucho de amendoins e
entrei no cinema. tu compraste um bilhete e um
cartucho de amendoins e entraste no cinema, sen
támo-nos na mesma fila, lado a lado. eu abri o meu
cartucho de amendoins, tu abriste o teu cartucho
de amendoins, com um ruído exactamente igual ao
meu. voltei-me para ti e mostrei os dentes. tu
voltaste-te para mim e mostraste os dentes. quan
do a luz apagou, tu pousaste o teu cartucho de a
mendoins no colo e eu pousei o meu cartucho de
amendoins no colo. com a mão direita comecei a le
vantar-te a saia. para me facilitar a tarefa, tu
levantaste levemente as nádegas do assento. com
esse gesto, caiu-te do colo o cartucho de amendo
ins. assim que os amendoins acabaram de se espal
har no chão, abaixei-me para tos apanhar, mas es
queci-me do meu cartucho de amendoins, o qual me
caiu igualmente ao chão. gastei um tempo enorme
a procurar e a recolher todos os amendoins. lembro
me de que passei o tempo quase todo até ao inter
valo recolhendo amendoins. todo o tempo tu
não deixaste de suspirar e de gemer, embora esti
vesse apenas a decorrer um documentário sobre
o narciso e nenhum drama comovente. a voz do lo
cutor lembro-me que dizia: «no começo da primave
ra, quando montes e vales acordam do longo sono
de inverno, centenas e centenas de narcisos ele
vam as douradas cabeças em todas as frestas e a
brigos do solo, e lançam seu olhar inocente pelos
portentosos rochedos e pelas raízes nodosas da
floresta.» isto, como certamente te lembras, foi
antes do intervalo. depois, quantas vezes, oh quan
tas vezes não deixaste cair e eu não deixei cair
os amendoins que nos restavam. e ora eu, ora tu,
de cada vez descíamos a procurá-los, e a colhê-los
com suaves, ternos guinchos. o filme, no dizer da
crítica, era daqueles que se não podem perder.”

Alberto Pimenta em “Poemas Com Cinema”, Assírio &Alvim. Lisboa, Novembro 2010