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quarta-feira, 14 de agosto de 2024

FOI NA LEITARIA DE BAIRRO ANTIQUADO

Foi na leitaria de bairro antiquado

que pela primeira vez

                                  me apaixone

                                                      pela realidade

Os drops brilhavam na semiobscuridade

daquela tarde de setembro

Um gato andava em cima do balcão no meio

                                               dos chupa-chupas

                           e dos rebuçados

               e das ena pá pastilhas elásticas

 

Lá fora as folhas caíam ao morrerem

 

O vento empurrava o sol para longe

 

Entrou a correr uma rapariga

Trazia o cabelo molhado da chuva

Os seus seios não conseguiam respirar na loja

                                                             apertada

Lá fora as folhas caíam

                           e gritavam

                                           Cedo de mais! Cedo

                                                         de mais

Lawrence Ferlinghetti em Como Eu Costumava Dizer 

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

AUTOBIOGRAFIA

A vida que levo é muto sossegada.

Passo os dias no café do Mike

a admirar os campeões

do Grupo Dante de Bilhar

e os viciados dos matraquilhos.

A vida que levo é muito sossegada

na zona leste da Broadway.

Sou americano.

Sempre fui um rapaz tipicamente americano.

Lia o Magazine dos Rapazes Americanos

e tornei-me escuteiro

nos subúrbios.

Sentia-me o Tom Sawyer

ao pescar caranguejos do rio na Bronx

mas a pensar no Mississípi.

Tive uma luva de baseball

e uma bicicleta American Flyer.

Distribuí o Woman´s Home Companion

às cinco da tarde

e o Herald Tribune

às cinco da manhã.

Ainda julgo estar a ouvir o barulho do jornal ao cair

nos terraços para onde eu o atirava.

Tive uma infância infeliz.

Vi Lindberg aterrar.

Olhei com saudade para o meu torrão natal

mas não vi nenhum anjo, ao contrário do Thomas Wolfe.

Fui apanhado a roubar lápis

no supermercado

no mesmo mês em que fui promovido a Escuteiro-Chefe.

Derrubei árvores para o Departamento da Agricultura

e sentei-me nelas.

Desembarquei na Normandia

num barco a remos que se voltou.

Vi os exércitos tão cultos

na praia de Dover.

Vi pilotos egípcios em nuvens púrpura

lojistas a correrem os taipais

ao meio-dia

salada de batatas e flores

em piqueniques anarquistas.

Estou a ler «Lorna Doone»

e uma biografia do João Máximo

que era o terror dos capitães de indústria

e tinha sempre uma bomba na gaveta da secretária.

Vi os homens da limpeza desfilarem

no dia comemorativo de Colombo

atrás das fanfarras ruidosas

e malcheirosas.

Há que tempos que não vou visitar os Claustros

ou as Tulherias

mas continuo a fazer tenção

de lá ir.

Vi os homens da limpeza desfilarem

debaixo da neve que caía.

Comi cachorros quentes nas feiras.

Ouvi o Discurso de Gettysburg

e os discursos de Ginsberg.

Gosto disto aqui

e não voltarei

para donde vim.

Também eu, como o Ginsberg,

viajei em vagões-jota vagões-jota vagões-jota.

Também eu viajei no meio de desconhecidos.

Estive na Ásia.

Estive com Noé na Arca.

Quando Roma foi construída

estava eu na Índia.

Estive na Manjedoura

com o Burro.

Da Montanha Branca

ao sul de São Francisco

vi o Distribuidor Eterno

e no Luna Parque vi a Mulher que Ri

na Barraca das Gargalhadas

sob uma bátega de água

mas sempre a rir.

Tenho ouvido à noite os ruídos

das grandes pândegas.

Tenho vagueado tão solitário

como as solitárias multidões.

A vida que levo é muito sossegada.

Passo os dias à porta do café do Mike

a ver o mundo passar por mim

em tão variados sapatos.

Empreendi uma vez

uma viagem a pé à volta do mundo

mas quando dei  por mim estava em Brooklyn.

Não consegui fugir à Ponte de Brooklyn.

Em silêncio maquinei

exílio e engenho.

Voei demasiado perto do sol

e as minhas asas de cera derreteram-se.

Ando à procura do meu Velho

que nunca conheci.

Ando à procura do Chefe Perdido

com quem voei.

Os jovens deviam ser exploradores.

O lar é o lugar donde se parte.

Mas a minha Mãe nunca me preveniu

de que havia cenas como esta.

Cansado do útero materno

descanso.

Tenho viajado.

Visitei a cidade dos Fantasmas.

Conheço a maçada das massas.

Ouvi chorar o Kid Ory.

Ouvi um trombone a pregar.

Ouvi Debussy

filtrado pelo meu lençol.

Dormi numa centena de ilhas

onde os livros eram árvores.

Ouvi pássaros

cujo chilreio parecia o dobrar dos sinos.

Usei calças de flanela

e passeei-me pela praia do inferno.

Vivi numa centena de cidades

onde as árvores eram livros.

Que metropolitanos que táxis que cafés!

Que mulheres de seios cegos

e membros perdidos no meio de arranha-céus!

Nas encruzilhadas

vi estátuas dos heróis.

Danton em lágrimas na entrada de um metropolitano

Colombo em Barcelona

a apontar nas Ramblas para o Ocidente

na direcção do American Express

Lincoln no seu trono de pedra

E um enorme Rosto de Pedra

no Dacota do Norte.

Bem sei que o Colombo

não inventou a América.

Ouvi uma centena de Ezra Pounds domesticados.

Deviam ser todos libertados.

Já passou imenso tempo desde que fui guardador de rebanhos.

A vida que levo é muito sossegada.

Passo os dias no café do Mike

a ler os anúncios classificados.

Li de ponta a ponta

as Selecções do Reader´s Digest

e notei a perfeita identificação

entre os Estados Unidos e a Terra Prometida

onde todas as moedas têm a inscrição

«Em Deus Confiamos»

mas as notas de dólar não a têm

porque elas próprias já são Deus.

Todos os dias leio os anúncios da secção «Precisa-se»

à procura de uma pedra uma folha

uma porta jamais encontrada.

Nas Páginas Amarelas

ouço a América a cantar.

Ninguém diria

que a alma passa crises.

Todos os dias leio os anúncios

e noto a ausência da humanidade

nessa triste pletora de caracteres de imprensa.

Vejo que esvaziaram o Lago de Walden

para no sue lugar construírem um parque de diversões.

Vejo que estão a obrigar o Melville

a comer a sua própria baleia.

Vejo que vem aí uma nova guerra

mas quando ela vier não estarei eu cá para tomar parte.

Li os desígnios do destino

escritos nas paredes do telheiro.

Fui eu quem ajudou o Kilroy a escrevê-los.

Marchei pela Quinta Avenida acima

tocando clarim num pelotão cerrado

mas apressei-me a voltar para o Casbah

à procura do meu cão.

Noto que há uma certa semelhança

entre os cães e eu.

Os cães são os verdadeiros observadores

dos altos e baixos

da terra de Molloy.

Calcorreei becos e vielas

Estreitas de mais para Chryslers.

Vi uma centena de carroças do leite sem cavalos

num lote de terreno devoluto em Astoria.

Tenho ouvido o solo do ferro-velho.

Tenho percorrido as auto-estradas

e acreditado nas promessas dos cartazes

Atravessado as planícies de Jersey

e visto as Cidades Planas

E sulcado as terras ermas de Westchester

cruzando-me com bandos errantes de nativos

em station wagons.

Tenho-os visto.

Eu sou o Homem.

Estive lá.

Sofri

um tanto ou quanto.

Sou Americano.

Tenho passaporte.

Mas não sofri em público.

E sou novo de mais para morrer.

Sou um homem que se fez a si-próprio.

E tenho projectos para o futuro.

Estou na bicha

para um bom emprego.

Talvez me mude

para Detroit.

Ando a vender gravatas, mas isso

não passa de um trabalho temporário.

Sou um tipo às direitas.

Sou um livro aberto

para o meu patrão.

Sou um mistério impenetrável

para os meus amigos mais íntimos.

A vida que levo é muito sossegada.

Passo os dias no café do Mike

a contemplar o umbigo.

Sou uma parte

da longa loucura deste corpo.

Tenho vagueado em vários bosques nocturnos.

Tenho-me amparado em portais embriagados.

Tenho escrito contos despenteados

sem qualquer pontuação.

Eu sou o Homem.

Sofri

um tanto ou quanto.

Sentei-me em cadeiras de cansaço.

Sou uma lágrima do sol.

Sou uma colina

onde os poetas correm.

Inventei o alfabeto

depois de observar o voo das gruas

que fazem letras com as pernas.

Sou um lago numa planície.

Sou uma palavra

numa árvore.

Sou uma colina de poesia.

Sou uma operação de «comandos»

na zona do inarticulado

como o Elliot.

Sonhei

que os dentes todos me caíam

mas a minha língua sobrevivia

para contar como foi.

Porque sou um silêncio

poético.

Sou um banco de canções.

Sou uma pianola mecânica

num casino abandonado

numa esplanada à beira-mar

num nevoeiro espesso

mas sempre a tocar.

Noto que há uma certa semelhança

entre a Mulher que Ri

e eu.

Tenho ouvido o som do Verão

na chuva.

Tenho visto raparigas nas faixas de paragem

vítimas de complicadas sensações.

Percebo as suas hesitações.

Sou um colhedor de frutos.

Tenho visto como os beijos

têm consequências de euforia.

Tenho-me arriscado

a ficar encantado.

Vi a Virgem

numa macieira em Chartres

e Santa Joana a arder

na Bela Union.

Tenho visto girafas em selvas e ginásios

com os pescoços como o amor

entrelaçados nas circunstâncias de ferro forjado

deste mundo.

Tenho visto a Venus Afrodite

sem braços no corredor cheio

de correntes de ar.

Ouvi uma sereia a cantar

no número um da Quinta Avenida.

Vi a Deusa Branca a dançar

na Rue des Beaux Arts

no dia Catorze de Julho

e a Bela Dama sem Mercê

a tirar macacos do nariz no Chumley´s.

Ela não falava inglês.

Tinha cabelo amarelo

e voz rouca

e não se ouvia o canto de nenhuma ave.

A vida que levo é muito sossegada.

Passo os dias no café do Mike

a observar os jogadores de bilhar de bolsas

integrado naquele cenário

devorando macarroni

e li algures

o Significado da Existência

mas esqueci

exactamente onde.

Mas sou o Homem

E estarei lá.

E talvez ainda faça falar

os lábios da gente adormecida.

E talvez transforme em relva

os meus cadernos de apontamentos.

E talvez ainda escreva o meu

anónimo epitáfio

pedindo aos cavaleiros

que se não detenham.

Lawrence Ferlinghetti em Como Eu Costumava Dizer

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

POSTAIS SEM SELO


O mundo é um lugar maravilhoso para se nascer se as pessoas não se preocuparem demasiadamente com o facto de a felicidade nem sempre ser muito divertida.

Lawrence Ferlinghetti em Como Eu Costumava Dizer

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

LAWRENCE FERLINGHETTI (1919-1921)


No dia 22 de Fevereiro, vítima de doença pulmonar intersticial, morreu  Lawrence Ferlinghetti morreu anteontem em São Francisco onde vivia- à noite na sua casa em São Francisco.

Faria 102 anos no próximo dia 24 de Março que é celebrado como Dia Lawrence Ferlingheti.

Poeta, escritor, crítico de arte, tradutor, artista plástico, fundou a Livraria City Lights Pocket Book Shop. 

Preso e julgado por obscenidade por ter publicado Uivo — Howl and Other Poems, 1956 —, de Allen Ginsberg, Ferlinghetti acabou  absolvido e o poema tornou-se um bestseller internacional. O livro tinha sido impresso em Londres, enviado para os Estados Unidos e apreendido assim que chegou às livrarias. 

José Palla e Carmo que selecionou e traduziu Como Eu Costumava Dizer, escreveu uma breve nota sobre o autor para o livro que as Publicações Dom Quixote, na excelente Colecção Cadernos de Poesia, publicou em Janeiro de 1972:

«Os poemas reunidos nesta antologia foram colhidos nos volumes de poesia referidos, devendo notar-se que «Estou à Espera», «Autobiografia» e «Cão» se integram numa secção de A Coney Island of the Mind (título que pode traduzir-se por Uma Feira Popular do Espírito) intitulada «Oral Messages», que o autor faz proceder de uma advertência: «Estes poemas foram concebidos especificamente para serem acompanhados por jazz e, como tal, devem ser considerados mais como “mensagens orais” pronunciadas espontaneamente do que como poemas escritos com vista à página impressa. Da sua contínua recitação com acompanhamento de jazz resulta que eles ainda se encontram num estado de mutação.»

«Como eu costumava dizer, o amor é mais difícil de nascer nos mais idosos. Porque já percorreramos mesmos velhos trilhos muitas vezes.»

segunda-feira, 18 de junho de 2018

VEM DEITAR-TE COMIGO E SÊ O MEU AMOR


Vem deitar-te comigo e sê o meu amor
Amor deita-te comigo
Sob o cipreste
Na relva macia
Onde o vento se deita
Onde o vento morre
Quando a noite passa
Vem deitar-te comigo
Toda a noite comigo
E sacia-te dos meus beijos
E sacia-te do amor
E que os nossos dois eus conversem
Toda a noite sob o cipreste
Sem se amarem

Lawrence Ferlinghetti em Como eu Costumava Dizer

sexta-feira, 30 de março de 2018

COMO EU COSTUMAVA DIZER


Como eu costumava dizer
o amor é mais difícil de nascer nos mais idosos
porque já percorreram
os mesmos velhos trilhos muitas vezes
e depois quando a manhosa agulha se apresenta não tomam o desvio
e devoram a velha via errada enquanto
o alegre
tandem segue em voo
e o maquinista da locomotiva a vapor não reconhece
as novas buzinas eléctricas
e os velhos correm sob o impulso ferrugento cujo fim se encontra
na erva morta onde
as latas ferrugentas e as molas de colchão e as lâminas de barbear usadas jazem
e a via acaba abruptamente ali mesmo
embora as chulipas de madeira continuem por uns metros
e os velhos
dizem para si próprios
Bem
Deve ser este sítio onde temos de nos deitar
E deitam-se mesmo
enquanto a bela carruagem iluminada prossegue lá ao longe
no alto no cimo da colina
com as janelas cheias de céu azul e namorados
com flores e longos cabelos ondulantes
e todos a rirem-se e a dizerem adeus
e a perguntarem-se a si próprios o que aquele cemitério
onde a via acaba
é

Lawrence Ferlinghetti em Como Eu Costumava Dizer

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O MUNDO É UM LUGAR MARAVILHOSO



O mundo é um lugar maravilhoso para se nascer
se as pessoas não se preocuparem demasiadamente
com o facto de a felicidade nem sempre
ser muito divertida
se as pessoas não se ralarem muito com um
bocado do inferno
uma vez por outra
no preciso momento em que tudo está bem
porque mesmo no céu
não se canta constantemente

O mundo é um lugar maravilhoso para se nascer
se as pessoas não se ralarem com a morte
de outras pessoas constantemente
ou talvez apenas a morrerem à fome
de vez em quando
o que não será mau de todo
se não for a nós que isso acontece

Oh o mundo é um lugar maravilhoso para se nascer
se as pessoas não se ralarem muito
com alguns espíritos mortos
nos postos mais elevados
ou uma bomba ou duas
uma vez por outra
nos vossos rostos virados para cima
ou outras inconveniências
como aquelas que a nossa Sociedade
de Marca Registada está sujeita
com os seus homens de grande distinção
e os seus homens de grande extinção
e os seus sacerdotes
e outros serviços de patrulha

e as suas várias segregações
e comissões de investigação do congresso
e outras prisões de ventre
das quais a nossa carne tonta é herdeira

Sim o mundo é o melhor lugar de todos
para fazermos uma porção de coisas como
consagrar-nos à alegria
consagrar-nos ao amor
e consagrar-nos à tristeza
e cantarmos canções graves e termos inspirações
E nos passearmos
olhando para tudo e cheirando as flores
e troçando das estátuas e até pensando
e até beijando pessoas e
fazendo crianças e usando calças
e acenando com os chapéus e
dançando
e indo nadar para os rios em piqueniques
no meio do verão e de um modo geralmente geral
“gozando à bruta”

Sim
mas depois no meio de tudo isso
aparece o sorridente
cangalheiro”

Lawrence Ferlinghetti em Como Eu Costumava Dizer

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Como Eu Costumava Dizer

Lawrence Ferlinghetti

Selecção e tradução: José Palla e Carmo
Capa: Fernando Felgueiras
Cadernos de Poesia nº 22
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Janeiro de 1972

Foi na Leitaria de Bairro Antiquado

Foi na leitaria de bairro antiquado
que pela primeira vez me apaixonei pela irrealidade
Os drops brilhavam na semiobscuridade
daquela tarde de setembro
Um gato andava em cima do balcão no meio dos chupa-chupas
e dos rebuçados
e das ena pá pastilhas elásticas

Lá fora as folhas caíam ao morrerem

O vento empurrava o sol para longe

Entrou a correr uma rapariga
Trazia o cabelo molhado da chuva
Os seus seios não conseguiam respirar na loja apertada

Lá fora as folhas caíam
e gritavam
Cedo de mais! Cedo de mais!