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quarta-feira, 4 de março de 2026

OLHAR AS CAPAS

 

A Águia

N.º 52, 53, 54 – Abril, Maio e Junho de 1916

Director: Teixeira de Pascoaes

Teófilo Braga, Gomes Leal, Raul Proença, Jaime Cortesão, Marcelino Mesquita, João de Barros, Leonardo Coimbra, Augusto de Castro,  Augusto Gil, Augusto Casimiro, entre outros

Renascença Gráfica, Porto



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


A memória é outro mundo, com outras criaturas.

Teixeira de Pascoaes.

domingo, 23 de novembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


...há momentos em que o mundo se nos oferece como paraíso

Teixeira de Pascoaes.

Imagem de Idílio Freire

domingo, 29 de janeiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Retratos de Sombra

António Mega Ferreira
Capa: Ilda David
Assírio & Alvim, Lisboa, Abril de 2003

A casa já lá estava há muito, quando ele, «enfermo ou elegíaco», curado ou desconsolado de um hipotético amor inglês que correspondia a um «impossível lusitano», resolveu que era nela que queria morrer. Tinha 34 anos e andava às voltas com Marânus, esse poema interminável, constantemente revisto, alterado, rasurado, reescrito, cujos primeiros manuscritos vêm datados do porto, do Mar da Irlanda, de Londres, de Amarante. Marânus andava à procura de casa? E não intuíra já Teixeira de Pascoaes (1877-1952) que a casa do seu herói era o Marão grandioso, genésico, cósmico? Não se perdera ele (e não se encontrara, também) pelos caminhos da «alta e santa montanha omnipotente/ de onde os montes, em círculos infindos,/parecem afastar-se vagamente,/ e em brumas e saudades se diluem…»?
A decisão, anunciara-a, em remate de conversa desconchavada e irónica, ao seu sócio de banca, Magalhães e Silva, no escritório acanhado da rua das Taipas, onde viera aterrar após a digressão por Inglaterra: «Vou regressar à minha aldeia. Quero morrer onde nasci… É pagar uma dívida sagrada». Era novo para morrer, tão novo, que ali viveu quarenta e uma nos, até que a vida se lhe extinguiu, em 14 de Dezembro de 1952. E que sonhos, que desvairadas fantasias, que lumes postos nos montes e que caveiras nos penhascos, que amorosos e extenuados retratos da impossível Leonor, que dor (e que exaltação) de estar a viver de fantasmas e sombras, de espectros e anjos, de incêndios e tempestades. Tudo isso lho desatou e ateou a casa, aquela casa, «o velho pardieiro da infância», a cujo portão de ferro, o que fecha, com as três fechaduras da casa, o terreiro grande, assomou, num dia de 1911, o advogado Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcellos: «em conclusão, o poeta venceu o advogado, adoecendo ou tirando forças da fraqueza». Daí em diante, Teixeira ficava entregue a Pascoaes.

sábado, 28 de janeiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Como conceber Cesário sem Lisboa? Como conceber Pascoaes sem o Marão?
(Ó meu fino, meu ladino Cesário, meu garoto das ruas, meu desamparo lisboeta remanchando pela cidade, «enviesando» Lisboa para melhor a mostrares.
Ó meu bom e grave Pascoaes, meu cismático poema penedo, meu profundo, abissal murmúrio, espaço para flutuar ou me despenhar, céu para lá chegar!).

Alexandre O’ Neill em Coração Acordeão

OLHAR AS CAPAS



Coração Acordeão

Alexandre O’Neill
Selecção de Vasco Rosa
Capa: André Carrilho
O Independente, Lisboa 2004

Teixeira de Pascoaes: um rosto de pedra atormentada, um olhar de infatigável espião das sombras, um sorriso bom como o fogo das lareiras…
Teixeira de Pascoaes ou a bondade do que é grande, a «bondade» do Marão…
«Teixeira de Pascoaes? Pois sim… Pois sim…», diz o cretino que sempre aparece ao nosso lado, como um anão saltitante, quando a morte dum grande poeta ou de qualquer outro «’anormal» nos dá, em bloco, todas as razões de o amarmos sem reservar sentimentos, sem aguardar cautelosamente que tudo seja dito para tomarmos partido, para assumirmos a atitude «conveniente», o ponto de vista «a ter», o gosto a exibir…
«Pois sim… Pois sim…» como se fosse meter o poeta do Regresso do Paraíso num encolher de ombros ou num arroto de despeito… (E eu pensava, com aquele extremo cansaço, aquela imensa vontade de desistir que nos assalta quando topamos com certos «especialistas» de poesia: «Talvez não arrotes o mesmo quando chegares à minha idade…»)
«Pois sim… Pois sim…, como se fosse possível reduzir o poeta a uma «filosofia», arrumar em quatro palavras Teixeira de Pascoaes, momento da nossa poesia, mastro desse barco de loucos que é a nossa poesia portuguesa!
«Pois sim… Pois sim…», como se fosse possível à mediocridade fazer passar os gigantes por moinhos, os grandes poetas por moinhos de palavras…
Tudo isto – a morte de Pascoaes, o atrevimento dos ignorantões, a necessidade adulta de conhecer e ajudar a conhecer, das raízes aos ramos e dos ramos aos pássaros, a árvore da poesia que resiste e cresce neste chão português – tudo isto precipitou em mim a lembrança do grande poeta, desse pequeno homem simples, desse velho de fácil convívio e «impertinente» juventude.

AINDA TEIXEIRA DE PASCOAES


Pela leitura da Correspondência trocada entre Jorge de Sena e Eugénio de Andrade, constata-se que ambos eram entusiastas da obra de Teixeira de Pascoaes.

Após a morte de Teixeira de Pascoaes, Jorge de Sena tem a ideia de organizar uma edição dos «Cadernos de Poesia» sobre o poeta. Eugénio de Andrade, em carta datada de 19 de Dezembro de 1952, escreve:


Na Biblioteca do meu pai, não havia um único livro de Teixeira de Pascoaes.

Quando em Junho de 1966 li A Memória das Palavras dei com os encómios que o José Gomes Ferreira dedica a Pascoaes:

«A conselho de Leonardo Coimbra comprei o Sempre e então aconteceu o abismo. De súbito ruíram-se-me na alma anos e anos de falsa literatura, de improvisos à Bocage, de construções de palavras de caliça, sem subterrâneos, com que a pátria oficial das escolas sufoca desde a infância verdadeira poesia a correr em fontes de borboletas absurdas…»

Meti conversa com o meu pai sobre Teixeira de Pascoaes e ele disse-me que era escritor que não o entusiasmava. 

O meu pai era das pessoas menos saudosistas que até hoje conheci.

Nestas circunstâncias, e tendo respeito por opiniões de gente como José Gomes Ferreira,  e como gostei sempre de melhorar a minha vasta ignorância, andei pelas livrarias, alguns alfarrabistas, em demanda de um qualquer livro de Teixeira de Pascoaes.

Não tive qualquer ponta de sorte e mesmo ao longo dos tempos nunca encontrei obras de Pascoaes.

De modo que Pascoes é uma das muitas lacunas que transporto.

E, pelo andar da carruagem, penso que assim continuará a ser.

Por sinal, José Gomes Ferreira, refere, já naquele tempo, a dificuldade em encontrar livros de Pascoaes:

«Sim. Já lá vão anos sem fim desde a última vez que falei com Teixeira de Pascoaes, aqui, diante desta montra… (Sinto que vou indignar-me!) sim, exactamente aqui, diante desta montra (Vem, indignação, vem!), onde nunca, nunca, nunca, NUNCA me lembro de ter visto exposto um único livro de versos do Poeta. Nem aqui, nem em qualquer outra montra de Lisboa, aliás. Só nos alfarrabistas, para educação das traças.
Dir-se-ia que Teixeira de Pascoaes não existe.»

Remato este evocação de Teixeira de Pascoaes, folheando a História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes, capítulo intitulado «Teixeira de Pascoaes e a evolução do Saudosismo»:

«A designação de Saudosismo pertence, em sentido restrito e corrente, a um movimento estético e doutrinário que tem como figura central o poeta Teixeira de Pascoaes. Embora influenciado pela estética simbolista, o saudosismo deve considerar-se sobretudo com um desenvolvimento do misticismo panteísta que se acentua na fase declinante da geração de 70.»

Propriamente sobre Teixeira de Pascoaes:

«A comunicabilidade da obra de Pascoaes é muito prejudicada, e sê-lo-á cada vez mais, pela sua pretensão de atingir profundas verdades através de meras extrapolações analógicas, por certa suficiência em que se insulou, com o seu círculo de admiradores desenraizados dos problemas reais portugueses. No entanto, subsiste nalguns dos seus livros certo fôlego, certa largueza de concepção do romantismo progressista (Vida Etérea, 1906; Regresso ao Paraíso, 1912); e no seu lirismo, monòtonamente elegíaco e sombrio, há, em compensação, uma sensibilidade  vibrátil que alarga os seus motivos de interesse para fora do vulgar âmbito pessoalista e erótico: há como que um sentido franciscano de companheirismo que abrange mulheres, homens, símbolos, bichos, árvores, pedras, o Marão, Tâmega e a própria morte (Senhora da Noite, 1909; Marânus, 1911; o Doido e a Morte, 1913; Elegia do Amor, 1924; etc.).»

Legenda: José Gomes Ferreira e Teixeira de Pascoaes, fotografia tirada da Fotobiografia de José Gomes Ferreira

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

PARA NÃO LHE CHAMAR OUTRA COISA


Já li a nossa homenagem ao Pascoaes nos Cadernos. Não sendo ainda o que o nosso grande poeta merece, é no entanto uma coisa digna, limpa, com alguns depoimentos sérios. Sabe, Jorge, sinto o Pascoaes crescer espantosamente, dia a dia. Agora ao reler certos livros e ao ler outros, de prosa, que ainda não tinha lido, sinto-me envergonhado. Ele era tão grande, e nós à sua roda, não dávamos por essa grandeza excessiva! Não faz ideia, como isso, ontem à noite, ao acabar o Duplo Passeio, se me tornou evidente. Até o que não presta é de boa qualidade! Tem presente este livro? Se não tem, releia-o, peço-lhe. Algumas páginas são tão grandes como certo Rimbaud, certo Lautréamont.
O depoimento do Torga é chocante, para não lhe chamar outra coisa. Naturalmente que a obra do Pascoaes tem defeitos, todos nós o sabemos. Qual é o grande poeta que os não tem? Mas reduzi-lo a esses defeitos, como o torga faz, é… horrível! Creio que não fui só eu a ficar chocado. Muita gente me tem falado nisso.

Eugénio de Andrade, carta datada de 11 de Fevereiro de 1953, em Correspondência Jorge de Sena/Eugénio de Andrade.

Jorge de Sena, em carta datada de 3 de Março de 1953, responde a Eugénio de Andrade e refere o depoimento de Miguel Torga:

Ocorre-me, agora, a prosa de Torga, de facto bastante triste – mas não terá pelo menos a virtude de ser sincera… na medida em que mais uma vez Torga se confessa o «único»?

TEIXEIRA DE PASCOAES


15 de Dezembro de 1952
Morreu Teixeira de Pascoais, e nova glória ambígua surge no Olimpo doméstico da nossa poesia. Ao lado de dois ou três nomes recortados e fatais que reinam ali, e a qualquer evocação devota se não pode esquivar, o seu ficará sempre esfumado e contingente. Incapaz de uma visão renovada dos mitos que cantou – e eu penso na sua vivência do amor, tão banal ao lado da de Camões, ou na sua representação da morte, ainda de foice à nossa espera ao canto da rua, quando outros no-la mostravam já dentro de nós -, velho e revelho na forma e no conteúdo, por muito que se queira é difícil concebê-lo nítido e presente na memória duma posteridade que exige dos próprios deuses milagres cada vez mais concisos e originais. O pseudo-pensamento, a metafísica de caixa alta, as sínteses arbitrárias e o resto, são escuridões que só geniais relâmpagos de intuição e de autêntica beleza, marcadamente seus, conseguem iluminar. A ascese que redimiu a poesia, e é por certo a maior conquista que se fez ultimamente no campo do espírito, não a pôde entender o autor de Maránus. Ali era o transbordamento, a retórica, o caos, os sentimentos e as paixões a moverem-se sonâmbulos numa noite de luar difuso. Bardo in natura, lírico em disponibilidade permanente, por fatalidade étnica, faltou a Pascoais a compreensão de que o abandono emotivo passara a ser implacàvelmente, para que nenhum elemento impuro viesse toldar a claridade sucinta do poema. Criança no mais rigoroso e temporal sentido, o Poeta não conseguiu a ordenação adulta dos grandes criadores. E é talvez nessa infância que durou uma vida, na perplexa visão dum mundo informe, e na ingénua maneira de o testemunhar, que reside o interesse e o problema da sua personalidade e da sua obra.

Miguel Torga em Diário, Volume VI