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sábado, 15 de agosto de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


Ainda por Agosto fazemos uma outra visita aos Clássicos do Meu Pai que, diga-se não constavam apenas de Música Clássica, também algumas canções ligeiras de que muito gostava, como é o caso de Release me e a versão de que mais gostava era do velho Dino.

Recordemos:

«Sempre gostei de Dean Martin, o velho Dino, mesmo quando fazia de canastrão nos filmes com o Jerry Lewis.

Terei comprado este “EP” por volta de 1968.

Para além de “Chapel In The Moonlight, Little Ole Wine Drinker, Me, The Green, Green Grass of Home”, tem “Release Me”.

O meu pai adorava esta canção.

 Não há vez alguma que a Aida a ouça, que de imediato não se lembre do meu pai.

Era um excelente contador de histórias e, nas sessões de audição de música, dita ligeira, aproveitava para as contar.

Umas verídicas, outras imaginadas, outras, enfim, não se sabe bem como.

Esta é uma dessas histórias:

O velho morrera.

A família reunida na biblioteca, ouviu o advogado enumerar a relação dos bens legados.

À medida que a leitura avançava a boca dos familiares ia tomando a aforma e o tamanho de um enorme “Ah!”

-  papel e canetas para os que nunca lhe escreveram;

- tesouras de poda e mangueiras de rega para os que sempre desprezaram as suas rosas e   

  orquídeas;

- fósforos, cinzeiros e caixas de charutos para os que se irritavam e ficavam agoniados

  cada vez que puxava de um dos seus esplêndidos “Cohiba”;

 - o resto, que era tudo, para a governanta que lhe servia conhaque nas noites de Inverno.»






sábado, 8 de agosto de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


Volta e meia, daremos uma saltada aos Clássicos do Meu Pai.

Hoje, ficamos com Elgar.

«Ao longo dos tempos, o meu pai foi um atento espectador das transmissões televisivas dos “Concertos para Jovens” de Leonard Bernstein, dos “Concertos Promenade”, dos “Concertos de Ano Novo.”

Dos “Concertos Promenade” gostava particularmente da última noite, onde infalivelmente, aparecem a "Marcha de Pompa e Circunstância" de Elgar, o “Rule, Britannia”, e “Jerusalem", com toda a sala a cantar em coro. Nunca conseguiu encontrar um disco, ao vivo, de uma das últimas noites dos Proms, mas ouvia, com regularidade, a “Marcha de Pompa e Circunstância”. 

Lembro-me do dia em que  telefonou a dizer que comprara o disco na “Discoteca Melodia” e que isso merecia uma garrafinha.

Comovia-se com os “Concertos de Ano Novo”, principalmente quando o maestro se dirigia ao público, na Grande Sala do Musikverein cheia de glamour e flores, e aos milhões de espectadores espalhados pelo Mundo, gritava o seu “Prosit Neujahr”, a habitual saudação de Ano Novo.

E nos anos em que, juntamente com o meu pai, vi o concerto, lá estava ele a informar que os bilhetes para o concerto do ano seguinte esgotavam logo nos primeiros dias de Janeiro.

Curiosamente, na entrevista que, em finais de Outubro, António Lobo Antunes concedeu a Ricardo Araújo Pereira, e publicada pela “Visão”, ele diz:

“Eu vejo sempre o concerto de Ano Novo, com música do Strauss, e comovo-me ate às lágrimas.”».

sábado, 9 de agosto de 2025

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Este livro de Ignacio Peiyró sobre o cantante Julio Iglesias, fez-me lembrar que o meu pai gostava de uma canção do Julito: Un Canto a Galicia.

Foi ele que comprou o single que ainda se encontra nas  prateleiras da Biblioteca da Casa.

Uma outra maneira de entrar em Os Clássicos do Meu Pai.

Como é que um marxista-leninista, nascido em Lisboa, se demora numa canção destas?

Podia-se perguntar tudo ao meu pai que ele respondia.

Mas sabíamos que havia coisas para as quais não dava qualquer sinal explicativo.

Algo a que um dia chamou prazeres secretos.

Do mesmo, são parcas as informações que possuímos sobre o lado familiar do lado paterno.

Quando a conversa chegava a um determinado ponto, ouvia-se o ensurdecedor silêncio.

Pela parte da mãe, de quem muito gostava, o avô era galego e, por motivos desconhecidos, desaguou em Cernache do Bonjardim. Talvez seja desse avô galego que o meu pai agarrou o gosto pela canção, talvez o lembrar morriñas, saudades, ribeiras, algo que só ele poderia contar, venha esse gosto por Un Canto a Galicia.

O livro, já aqui referido, escrito pelo jornalista, tradutor, escritor e director do Instituto Cervantes de Roma (que também já dirigiu o Cervantes em Londres) Ignacio Peyró, esta biografia do popular cantor espanhol Julio Iglesias é o “retrato social, político e antropológico da Espanha moderna: do franquismo à democracia, do glamour à imprensa cor-de-rosa, da pobreza à internacionalização”, diz a editora sobre esta obra que “junta alta cultura com música ligeira.”

No prólogo, o autor refere: “Em minha casa não se ouvia Julio Iglesias, mas — para um madrileno de 1980 —, a sua presença aqui e ali foi inevitável: já na infância, mais do que anacrónico, parecia um cavalheiro algo flutuante no tempo, aquele espanhol cujo bronzeado rivalizava com o de Nat King Cole. Depois (...) criou um espaço só seu.”

Eu quero che tanto, e ainda non o sabes.

eu quero che tanto, terra do meu pai.

Quero as tuas ribeiras que me fan lembrare,

os teus ollos tristes que me fan chorare.

Un canto a Galicia, hey, terra do meu pai.

Un canto a Galicia, hey, miña terra nai.

Teño morriña, hey, teño saudade,

porque estou lonxe de eses teus lares.

Teño morriña, teño saudade,

porque estou lonxe de eses teus lares.

De eses teus lares, de esos teus lares,

Teño morriña! Teño saudade!

domingo, 25 de maio de 2025

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Charles Aznavour.

Nasceu em Saint-Germain-des-Prés no dia 22 de Maio de 1924, filho de imigrantes arménios que eram artistas de teatro.

Se ainda andasse por aqui, a encantar-nos, teria feito 101 anos.

Terá composto mais de 850 canções, algumas imortais, vendeu mais de 200 milhões de discos,

O meu pai gostava muito de Charles Aznavour.

Duas canções em particular: La Mamma e La Bohéme.

Para além do começo de Thais do Anatole France: «En ce temps-là le désert etait peuplé d’anachorètes.», nas conversas que mantinha, introduzia frases. Uma delas era um provérbio francês «Si jeunesse savait, si vieillesse pouvait», também uns versos de Baudelaire que referiam que no fundo das garrafas vazias fica sempre uma certa tristeza.

O meu pai, de uma certa maneira, foi  um boémio, e pegando na frase que amiúde citava , se o novo soubesse e o velho pudesse, talvez o remetesse para a canção do Aznavour, La Bohéme, de que muito gostava, aliás Aznavour considerava a sua melhor canção: porque falava de uma época que os mais jovens não podiam conhecer, quando Montmartre tinha lilases pendurados nas janelas e, se na maior parte dos dias não tinham de comer isso não os deixava de acreditar, ser-se jovem, ser-se louco.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


DISQUES POP - MPO 3.056 - 1961

FESTIVAL DE SAN REMO 1961 - TONY DALLARA

Na televisão a preto e branco de antes 25 de Abril, a transmissão do Festival da Canção de San Remo era uma festa. O meu pai era um assíduo e interessado espectador. De todos os que viu ficou-lhe uma canção: “Al Di La”, vencedora na edição de 1961. Não descansou enquanto não comprou o disco.

Mas uma noite ouviu no programa “Quando o Telefone Toca”, a versão de “Al Di La” cantada pela Connie Francis. Passou anos à procura dessa versão. Nunca a encontrou. Faltava ainda muito tempo para aparecer o Amazon & Companhia.

Também andei à procura mas também não tive sucesso. Só há uns vinte anos a encontrei, em CD numa colectânea da Connie Francis, a tal versão do “Al Di La”, mas o meu Pai já não estava cá para a ouvir. 



sábado, 22 de abril de 2023

OS CLÀSSICOS DO MEU PAI


O meu pai tinha Lisboa dentro dele.

Como Marilyn Monroe, espantava-se com os que diziam que as noites são para os sonhos. Servem para sonhos, mas para muito mais.

Trabalhava noite dentro, o fecho do jornal, quem saberá hoje o que isso é, jogatanas de poker, que abandonou quando nasci, ceias com os camaradas do jornal, amigas com quem bebia aguardente Ferreirinha ao balcão de um qualquer ao bar, sapatos de tiras e pões, conversas sem fim.  

O lindíssimo poema «Amélia dos Olhos Doces» do Joaquim Pessoa, caía-lhe como uma luva, umdos seus clássicos.

Quando para o meu pai gravei em cassettes as canções de que ele muito gostava, o aviso de que teria de lá estar a «Amélia dos Olhos Doces», foi dos primeiros avisos para que não houvesse esse esquecimento.

 Amélia dos Olhos Doces

quem é que te trouxe

grávida de esperança?

Um gosto de flor na boca.

Na pele e na roupa

perfumes de França.

 

Cabelos cor de viúva.

Cabelos de chuva.

Sapatos de tiras

e pões, quantas vezes

não queres e não amas

os homens que dormem

contigo na cam.

 

Amélia dos Olhos Doces

Quem dera que fosses

apenas mulher.

Amélia dos Olhos Doces

se ao menos tivesses

direito a viver!

 

Amélia gaivota

amante ou poeta.

Rosa de café.

Amélia gaiata

Do Bairro da Lata.

Do Cais do Sodré.

 

Tens um nome de navio.

Teu corpo é um rio

onde a sede corre.

Olhos Dcoces. Quem diria

que o amor nascia

onde Amélia morre?

 

Cabelos cor de viúva.

Cabelos de chuva.

Sapatos de tiras

e  pões, quantas vezes

não queres e não amas

os homens que dormem

contigo na cama.

O pai do Carlos Mendes, foi meu pediatra. Militante comunista, Abílio Mendes de seu nome, consultório num 1º andar na Travessa do Calado, teve vários e sérios problemas com a ditadura de Salazar. Muitas vezes telefonavam do consultório a dizer que o Sr. Doutor, por estar em viagem, teria que remarcar a consulta para um outro dia. As viagens ocorriam para os calabouços pidescos.

 Esta música de sábado lembra também Joaquim Pessoa que há uns dias partiu para onde as nuvens da sua infância sobrevivem, e os velhos desejos nunca se apagam.

MÚSICA PELA MANHÃ

A música deste sábado teria que incidir sobre as canções que o Carlos Mendes fez para alguns poemas do Joaquim Pessoa.

Justamente «Amélia dos Olhos Doces», uma canção de que o meu pai muito gostava, e sendo um dos seus Clássicos, já há muito aqui deveria ter desaguado, mas o mundo dos livros, das músicas é demasiado vasto para o pouco tempo que, cada vez mais intensamente, vou tendo.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Petite Fleur é uma lindíssima e apaixonada música.

Aquele clarinete de Sidney Bechet é para nos acompanhar por uma vida.

Eu já me tinha esquecido, mas o Luís Miguel Mira fez o favor de refrescar o que metade do meu cérebro já mantinha quase desaparecido.

Havia na casa do meu pai um EP da Vogue de Petite Fleur, gravado ao vivo. Toda a capa era Bechet e o seu clarinete, num concerto em Paris, talvez  de Março de 1952. Quando se colocava a agulha do pick-up, que ao lado do rádio Blaupunkt convivia no móvel desenhado e feito pelo meu pai, na faixa certa, ouvia-se Bechet dizer: «et maintenant Petite Fleur» e aquele clarinete envolvia toda a casa.

Naqueles tempos comprar discos não era coisa fácil. Havia a Valentim de Carvalho, mais tarde a Melodia, a Universal, a Discoteca do Carmo e espalhadas pela cidade uma série de casas de elctrodomésticos que vendiam discos.

Alguém terá dito ao meu pai para comprar o disco, como mais tarde lhe disseram para comprar o Volare no azul pintado de azul do Dean Martin, Domenico Modugno só o comprou muito depois.

Como referência musical, o meu pai só na música clássica tinha os seus favoritos e alinhamentos. O jazz apenas pela casa entrou com o Louis Armstrong, um/dois discos, o Paul Robeson e esse EP do Sidney Bechet.

Esse EP, como tantos outros discos não entrou na Biblioteca da Casa.

Durante anos e anos procurei-o pela Feira da Ladra e nunca o encontrei. Tão pouco o consigo encontrar na internet. O disco mais velho de Petite Fleur que se encontrou é o que ilustra o texto doMiguel.

Há dezenas de versões cantadas de Petite Fleur.

Se o meu por aqui andasse, diria que Petite Fleur não é para ser cantada, única e exclusivamente tocada, e apenas pelo clarinete de Sydney Bechet.

Danielle Darrieux que nos deixou, em 2017, com 100 anos e alguns meses, talvez o encontre ao balcão de um qualquer bar a whiskar, e lhe diga qualquer coisa, por exemplo, que já tem idade de se deixar de teimosias.

sexta-feira, 19 de março de 2021

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Hoje é o Dia do Pai.

Sempre me disseram que esta coisa dos Dias, seja do que for: Pai, Mãe, Mulher, etc., são um negócio. Contudo, as escolas, principalmente nos jardins de infância, cultivam a ideia de os miúdos fazerem desenhos em cartolina, em azulejos, para levar aos pais. Essa parte ainda aceitei, depois, já crescidinhos, tratei de dizer, aos meus filhos, que não contassem comigo para esse folclore.

Importa agora dizer-vos, que o meu pai, por motivos que nunca descortinei claramente, tinha pela cultura alemã uma profunda admiração: o Natal, música clássica, livros (gostava de Goethe, Karl Marx, adorava Rainer Maria Rilke e lamentava que Rilke tivesse nascido em Praga e não numa qualquer cidade alemã) e tudo acabava com  ele a dizer que não havia nada no mundo como os electrodomésticos de marcas alemãs, de carros não falava porque nunca teve carta de condução.


Eu era miúdo, teria uns 8 anos, lembro-me de ele ter chegado a casa com um disco de 78rpm do trompetista Eddie Calvert a tocar uma velha canção «Oh, Mein Papa». Ele adorava esta canção e quando fazia anos, gostava de a por a tocar. O disco partiu-se e alguns anos antes de ele nos deixar, consegui encontrar na Feira da Ladra, um EP do Eddie Calvert. O disco terá pertencido a alguém chamado Ilda que lhe terá sido oferecido em 21 de Fevereiro de 1964, mas as coisas não terão corrido bem, vendeu o disco e riscou a dedicatória.

Hoje, lembrei-me do meu pai, o melhor ouvinte e conversador que tive, e chegaram até mim as noites de Verão em Almoçageme, numa velha casa alugada, sentados no alpendre a ouvir o silêncio, ao longe a ronca do Cabo da Roca, ele a beber o seu whisky, eu a beber o meu gin-tonic.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Já por aqui escrevi que na casa do meu havia uma série de discos pertencentes a um colecção da Philips, que dava pelo nome de «Popular Favourites», uma selecção de cantores e orquestras norte-americanos.

Lamentavelmente – estranhos caminhos!... – nenhum desses discos chegou aos dias de hoje.

A metade adormecida do meu cérebro consegue lembrar-se que num desses discos aparecia a canção I Wonder As I Wonder interpretada pela Jo Stafford. Mais tarde vim a saber que a canção surge em diversas colecções de Canções de Natal. Uma passagem fugaz pelo You Tube mostrou um álbum de Natal da Jo Stafford  e a canção surge também num álbum de Natal dos Peter Paul and Mary, um conjunto muito cá de casa.

Por um longínquo Natal, o meu pai apareceu em casa com EP da Polydor com canções de Natal.

Não havia televisão.

Depois do jantar, o pai reuniu a família, e colocou o disco no prato do gira-discos.

Canções de Natal em alemão.

Aliás, o meu pai tinha a ideia que o Natal é essencialmente nórdico.

Perguntei-lhe um dia porquê, disse que não sabia bem, lera num qualquer livro, mas, acima de tudo, sentia-o assim.

Um silêncio de claustro, o avô com uma lágrima ao canto do olho, o encanto espelhado nos rostos, uma família na serena paz de uma noite silenciosa.

O bichinho das canções de Natal começou nessa noite.

A pancada levou a que hoje existam nas estantes da casa cerca de 200 discos de Natal, a grande maioria, infelizmente, são CDs, no fundo, o que é capaz de fazer da minha pessoa um modestíssimo membro Clube dos Maluquinhos das Músicas e Canções de Natal.

Não tenho qualquer disco de Natal da Jo Stafford que apenas aparece em algumas colectâneas,  pelo que a capa que encima o texto foi sacada da internet.

A canção I Wonder As I Wonder fica aqui na interpretação da Jo Stafford e dos Peter Paul and Mary.



quinta-feira, 27 de junho de 2019

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


A Aida frequenta muito esses vãos de escada que, em alguns bairros populares, vendem de tudo: livros, discos, cassettes, toda uma série de objectos que as pessoas consideram inutilidades e deles se desfazem.

Numa dessas incursões, encontrou um EP de Frankie Laine, cantor que já ninguém ouve, e outros nem sabem quem seja, e que era um dos cantores favoritos do meu pai, um dos seus clássicos.

Recordo que lá por casa existiam uns discos da Philips denominados “Popular Favourites”: orquestras e cantores norte-americanos. Um pouco por aqui, o meu pai encaminhou-me para o gosto por “crooners” e “big bands”.

Desses “Popular Favourites” nenhum exemplar chegou aos dias de hoje.
Por um tempo aniversariante, de há dois anos, uma cortesia de amigos  embrulhou-me num concerto do José Cid no “Maxime”. Ainda hoje as minhas noites são desassossegadas. Com amigos destes, os meus eventuais inimigos são um doce de crianças.., bom, adiante.

Acontece que numa das vitrinas do “Maxime”, mesmo ao lado do Bar, encontravam-se, em exposição, diversos objectos de outros bons tempos e um desses objectos, era a capa do nr. 5 dos “Popular Favourites”.

A sala escura, a não possibilidade, por causa dos reflexos, de usar “flash”, não permitiram que a fotografia fosse um tanto mais explícita. Mas ainda se consegue perceber que, neste “Popular Favourites”  passeavam-se, entre outros, Doris Day, Johnny Ray, o trompetista Harry James, Rosemary Clooney, Frankie Laine, a orquestra de Xavier Cugat.

Foi nesta colecção que ouvi, pela primeira vez, canções que ainda hoje me acompanham: “Mack The Knife” pelo Louis Armstrong, “Sixteen Tons” pelo Frankie Laine, outras, muitas, que a parte adormecida do meu cérebro já não consegue vislumbrar.

Por terças-feiras de feira da ladra, amarguras, ilusões, trapos, cacos, contradições, tenho procurado exemplares destes “Popular Favourites”, até hoje sem sucesso.

Frankie Laine é um senhor de outras músicas, de outros tempos, é ele que, nesse maravilhoso  Gunfight at the O.K. Corral ,que em português se chamou Duelo de Fogo, com o Kirk Douglas, o Burt Lancaster, a Rhonda Fleming, e o que o meu pai gostava da Rhonda Fleming, canta o tema musical composto por Dimitri Tiomkin.




quinta-feira, 30 de maio de 2019

EM ARANJUEZ PASSANDO POR COCHOFEL


João José Cochofel é um amável poeta.

Claro que já ninguém o lê, muito poucos saberão quem seja.

Quando havia tertúlias nos cafés de Lisboa, lá estava ele juntamente com o Carlos de Oliveira, o Augusto Abelaira, o José Gomes Ferreira, o Manuel Mendes.

Penso na casa de campo que tinha no Senhor da Serra, em Semide, onde na sala Ping-Pong nasceu o projecto musical Marchas, Danças e Canções.

Em Setembro de 1945, a casa de João José Cochofel no Senhor da Serra, em Semide, juntou Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e João José Cochofel.

Um ministro de Salazar disse:

«É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.»

José Gomes Ferreira, em A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:

«Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:

-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide…

- Há por lá alguma pensão?

- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou instalar-me.»

Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.

Tudo isto para vos dizer que ao folhear o 46º Aniversário de João José Cochofel, pág. 127, encontrei o poema XI de Emigrante Clandestino, com estes versos sublinhados:

«O concerto de Aranjuez aquece e refresca
esta tristeza de emigrar
sem ter para onde na bagagem.»

A tal ponto que chegou a comprar um EP do Richard Anthony em que o francês canta um excerto do Concerto. Chegou a falar-me se quando encontrasse interpretações cantadas do Concerto lhe dissesse. Prazeres secretos nunca revelados.

Aqui há uns largos tempos, a Aida falou-me de que existia uma interpretação de Dulce Pontes. 

O meu já há muito que não anda por aqui, e eu não sou fã da cantora, mas o ter encontrado o poema do Cochofel fez-me lembrar que deveria ir à procura da interpretação da Dulce Pontes.

Estou certo que o meu pai gostaria e, por ele, nesta tarde asfixiante de calor, deixo-vos a Dulce Pontes com um trecho do Concerto de Aranjuez e o poema do João José Cochofel:

Aranjuez surge
com as suas águas mais vivas,
as suas sombras mais densas,
o seu sol mais estival,
que os olhos cegos de Rodrigo
trouxeram até à lonjura sem distância de ouvir
entre a pedra violenta de Toledo
 a carne lilás da caixeirinha da Gran Via
a guitarra de Yepes
O concerto de Aranjuez aquece e refresca
esta tristeza de emigrar
sem ter para onde na bagagem.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI



Estava a reler O Prazer de Matar de Fredric Brwon para colocar um pedaço de prosa com que habitualmente fazemos em Olhar as Capas.

É uma manhã quente de sábado e Sam Evans, repórter do Herald, está, na redacção do jornal, às voltas com um moscardo que lhe está a estragar a paz serena  do não fazer nada, porque nada havia para fazer.

Lembrei-me de imediato de Harry James, num 78 rotações por minuto que o meu pai amiúde punha a rodar, com o Voo do Moscardo, um interlúdio para orquestra composto por Rimsky-Korsakov.

O trompetista Harry James era um dos clássicos do meu pai, que gostava de big bands e, essencialmente, de trompetistas.

Mais abaixo ouvirão o Harry James e eu acrescento mais um pouco da prosa de Fredric Brown, no exacto momento em que Sam é chamado ao gabinete de Ed, o editor do Herald. Porque o que se segue me fez lembrar o jornalismo de sarjeta que é o Correio da Manhã, o português e todos os que se encontram espalhados pelo mundo:

«Sentei-me na cadeira em frente da secretária, e aguardei que levantasse a vista, esperando intimamente que o não fizesse. Mas fez. Disse:
- Um rapaz sofreu um acidente mortal na «montanha-russa», em Whitewater Beach. Quero uma história com interesse humano que o retrate como um estupendo moço, que diga como os pais estão inconsoláveis, et etecetera e tal… enfim esse género de coisas. Puxa ao choradinho de que o público gosta. Bem sabes o que quero dizer.
Eu sabia o que ele queria dizer.
- Já estou a chorar – respondi-lhe.»


quinta-feira, 3 de maio de 2018

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Para beber uma garrafinha de tinto, a acompanhar um petisco, qualquer motivo servia.

Mas o mais feliz de todos era irmos ver um filme do João César Monteiro: juntar o gosto petisqueiro à genialidade do João era o suprassumo do quotidiano, dizia o meu pai.

É durante a exibição de Veredas que o meu pai agarra com todos os sentidos a 7ªSinfonia de Anton Brucker que, juntamente com cantos populares de Trás-os-Montes e Alto Alentejo, mais música instrumental da Idade Média, faz parte da banda sonora deste filme datado de 1977.

Aliás, há que salientar que, para além da excelência dos diálogos, há que  mencionar as fabulosas bandas sonoras.

O mesmo se passa com os filmes de Woody Allen.


Lembrar Vitor Silva Tavares:


Por mim acontece ou aconteceu que até o escrevinhei (na orelha do volume que reúne os argumentos de Le Bassin de J.W. e de As Bodas de Deus): Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.

O bichinho da 7ª de Bruckner já andava a bailar no espírito do meu pai,  mas foi depois de ter visto Veredas que correu a comprar o CD.

Também já tinha lido em A Cidade das Flores do Augusto Abelaira:

« E sorridente continuou. É o sorriso dum homem feliz que observa Santa Croce, lé em baixo. Que é livre, que está a cantar, a cantar muito de mansinho, aquele tema do primeiro andamento da Sétima de Bruckner, aquele que se repete e se prolonga ao longo da sinfonia.»

O meu pai adorava ter prazeres secretos.

Nunca os explicava, não merecia a pena, ninguém entenderia, murmurava de olho brilhante pelo vinhito.


Música: companheira de todas as horas.


sábado, 17 de março de 2018

RELACIONADOS


Lado 1

Balancê – O Que É Que a Baiana Tem - Eu Dei – Deixa Falar – Como 2Vaes” Você – Camisa Listada – Cachorro Vira-Lata

Lado 2

Samba Rasgado – Quando Eu Penso na Bahia – Adeus batucada – No Tabuleiro da Baiana – Roda Pião - Na Baixa do Sapateiro – Cantores de Rádio

Participação especial de Dorival Caymmi em «O Que É Que a Baiana Tem»,  e «Roda Pião», Ary Barroso em «Deixa Falar», Pixinguinha e Luperce Miranda em «Como Vaes Você», Sylvio Caldas em «Quando Eu Penso na Bahia», Luiz Barbosa em «No Tabuleiro da Baiana» e de Aurora Miranda em «Cantores de Rádio»

Ainda me lembro dos discos de 78 rpm de Carmen Miranda em casa do meu pai.
Não só os de Carmen Miranda, mas nenhum desses velhos discos de 78 rpm, lamentavelmente, conseguiram resistir aos tempos. Muitos e muitos partiram-se, outros foram desviados, sabe-se lá para onde.

Muitos dos discos de 78 rpm dos diversos artistas de que gostava, o meu pai conseguiu recuperá-los em colectâneas. 

É o caso deste «Balancê» que reúne alguns dos grandes êxitos da «brasileira» nascida em Marco de Canaveses.

Nos videos que se seguem, há um pequeno trecho do filme «Radio Days» de Woody Allen invocando o estilo de Carmen Miranda



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

RELACIONADOS


O meu pai não desistiu enquanto não encontrou um LP do Luiz Gonzaga, o rei do Baião, a cantar a Asa Branca que um dia existiu lá, por casa. num 78 rpm.
Este é o disco que também poderemos considerar como um dos Clássicos do Meu pai.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


O meu pai tinha uma profunda admiração por Orson Welles.

Gostava muito de O Terceiro do Homem e alinhava na conspiração de que o filme tem tudo de Orson Welles e nada de Carol Reed.

Tinha uma pancada pelo tema musical do filme, The Harry Lime Theme, tocado pela cítara de Anton Karas, e não lhe restava qualquer dúvida quando dizia que o filme foi feito para aquela música.

Ainda me lembro do 78/rpm que, na altura, comprou.

Tinha no lado B The Cafe Moxart Waltz, que também faz parte deste EP, que um dia comprei por 1 euro na Feira da Ladra.

Junte-se-lhe a paixão assolapada por Alina Valli, e o meu pai nunca leu o que João Bénard da Costa escreveu: «os olhos mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para a sedução.»

Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na linha do horizonte.

«Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim», para voltar a citar João Bénard da Costa.




segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


A notícia é da véspera de Natal.
Mas o presépio que se estendeu por parte da sala, onde estão alguns livros e discos, impediram de alcançar o LP do Exército Soviético, edição de Le Chant du Monde, velho clássico que o meu pai, volta e meia, sempre com um sorriso nos lábios, ouvia.
A notícia dizia-nos que um Tupolev, a caminho da Síria, despenhou-se no Mar Negro, com 92 pessoas a bordo.
Não houve sobreviventes.
Entre as vítimas, contavam-se 64 membros do Coro do Exército vermelho que iam participar, numa base na Síria, nas celebrações do Ano Novo.
O meu pai, certamente, gostaria de ter lido a crónica, sobre a tragédia, que Ferreira Fernandes publicou do Diário de Notícias:

Ainda li, embora fossem já velhas edições, dezenas de Reader"s Digest com hosanas aos soldados soviéticos. Foi das minhas lições iniciais de relativismo. Quando comecei a ler as revistas - ah, as lições de português de Buarque de Hollanda, pai do dicionário Aurélio e primo do cantor Chico -, já a Rússia era inimiga e tratada assim. Russo protagonista era espião acabado de ser apanhado pela antena da CIA em Viena. Aconteceu-me, por gripes de infância, misturar o espião russo, mau, com o herói tenente russo combatendo o cerco nazi de Estalinegrado - ambos do mesmo regime mas vistos pelo prisma de dez anos de distância entre duas edições da propaganda americana... Repito, grande lição de que o que é talvez deixe de o ser daqui a pouco. Mas o importante é ter Gogol, Dostoievski, Andrei Rublev e Tchaikovsky para manter marcos comuns e retomar fios condutores. Isto para dizer que fosse eu diretor do jornal faria manchete com a queda do avião russo que levava a bordo o Coro do Exército Vermelho (está bem, chamemos-lhe Ensemble Alexandrov para não espantar ofendidos) que ia cantar para soldados de Aleppo. Olha, Aleppo - outra relatividade, é certo que foi guerra e, como todas, suja, mas, acerca dos fascistas islâmicos, libertou a cidade deles. Então, sobre as vítimas da queda do Tupolev: saudemos os nossos mortos, que ainda por cima cantavam tão bem. E a manchete era para prepararmos alianças, pois vamos precisar delas.



terça-feira, 21 de maio de 2013

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI



O meu pai não era um melómano
.
Muito menos o sou e apenas o Mário chega a atingir o patamar da melomania.

A mãe, em devido tempo, colocou-o nas mãos da Dona Irene para lições de piano, mais tarde, muito mais tarde, andou pela guitarra clássica, para voltar, há meia dúzia de anos, ao piano.

Há bichinhos que ficam a morder por dentro e há que lhes abrir porta de saída.

O meu pai limitava-se a adquirir as peças por puro gosto musical mas, em alguns casos, a política também o levava a adquirir os discos.

Tempo para invocar Tchaikovsky.

Quando o tempo era muito mais lento, a oferta musical de discos de música clássica, em vinil, era limitada e a Amazon ainda era um vago sonho na cabeça de alguém.

O advento dos Cds trouxe o que dantes se procurava e não encontrávamos.

Recordo-me de uma ou duas conversas sobre Shostakovich, do desejo que exprimia em ter a sua 7ª Sinfonia, Leningrad.

Não sei se alguma vez a ouviu quando, madrugada dentro, passava horas à procura de estações de rádio europeias.

Por mim falando, só há coisa de dois anos, graças a uma natalícia oferta do Mário, a conheci.

Coloco de lado a carga política da sinfonia, dedicada por Shostakovich às vítimas de Estalinegrado durante o cerco da Alemanha Nazi, em 1942, para dizer -  dizer o quê? -  que fiquei surpreendido, agradado, que senti uma alegria que começa e acaba no  inexplicável.

E lamentar que, por desconfianças muito minhas, não a tenha ouvido mais cedo.

É bem provável que o meu pai, marxista-leninista que era, soubesse que Álvaro Cunhal reconhecia uma força artística, única a esta sinfonia, que era uma das suas peças sinfónicas preferida.

Não foi possível encontrá-la.

Mas estamos agora a ouvi-la.

Privilégios de quem gosta de sonhar que as coisas sejam assim…

Ou como diz o cego do costume: é preciso ousar ser ingénuo.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


   (O Maestro bateu com a batuta na estante
e ergueu os braços. A orquestra vai começar
a tocar o programa do costume: a abertura
do «Egmont», etc.,etc.)



Ritual do silêncio vivo nas florestas
com os homens a arrancarem das árvores
a seiva da disciplina dos violinos,
segredos de entranhas de aves,
bichos a lamberem o espelho do orgulho nas ervas,
Beethoven, vocação para passeios nas tempestades
- e que dores são estas?
Quem as sofre por nós
nas canas mordidas
pelos ventos da ventania?

Conspiração dos homens que não entendem a língua que falam,
mas de súbito o universo parece-lhes mais enigmático
e as flores menos misteriosas
- todos sentados em redor duma fogueira insensata
De cinzas em comum.

Solidão
- oiro de cada um.

José Gomes Ferreira em Poesia IV, Portugália Editora, Lisboa Dezembro 1970.