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terça-feira, 5 de dezembro de 2023

QUE O PARIU!

15 de Maio de 1967

Telefonaram-me de «Publicações Dom Quixote» a convidarem-me para uma recepção em honra do poeta Ievtuchenko que se encontre, há dias, em Lisboa (facto que os jornais ainda não anunciaram). Agradeci, dei uma resposta vaga e não fui. Com toda a sinceridade, interessa-me pouco o carne-e-osso desse Poeta-Turista que anda a pavonear-se pelos países fascistas poe reclamo próprio.

- Mal chegou e apareceram os fotógrafos – contou-me hoje o Baptista-Bastos – parecia histérico aos berros: est´+a aí algum fotógrafo americano? Algum fotógrafo americano?

- Que o patiu! – Disse eu comigo. – Não o conheço. Ele, se quiser, que me procure!

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume II

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

SENSAÇÃO...

16 de Setembro de 1969

Ouvi agora, transmitido pela Rádio, Dido e Eneias de Purcell. Sensação, como sempre da Hora da Morte.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume VIII

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

SOLIDÕES

4 de Agosto de 1968

Os homens só se sentem verdadeiramente sozinhos, quando olham para o céu.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume V

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

PARA GANHAR UMAS COROAS!...

2 de Julho de 1968

Depois da extinção dramática da Sociedade de Escritores apareceu no mercado uma edição clandestina dos contos de Luandino Vieira (impressos no Brasil como constava do livro). A pedido da mulher do escritor, condenado a 14 anos de cadeia, o advogado Pires de Lima queixou-se da falsificação à Judiciária e esta acabou por descobrir que o livro havia sido secretamente editado em Lisboa pelo dono de uma tipografia - ´pasmo dos espantos maiores! – por um inspector da Pide!

Inquirido pelo Dr. Pires de Lima das razões do facto, o falsificador explicou:

- Foi para ganhar umas coroas!

A mulher do Luandino que se encontra tuberculosa. Pede 200 contos de indemnização.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume V

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

MUTILAÇÃO DO FUMO DO PASSADO

 

28 de  Maio de 1968

Fechou o Martinho.

Que se passa em Lisboa, onde já se respira tão pouco?

O Abelaira telefonou-me. Alarmado, a dar-me a notícia fantástica.

- Mas será verdade? – perguntei incrédulo.

- É… - Disse-me o Magalhães Godinho… A notícia vem no jornal da tarde.

Silêncio inquieto diante desta mutilação do fumo do passado.

- E agora?

- Talvez o Palladium nos Restauradores.

Pois seja o Palladium.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume IV

sábado, 4 de dezembro de 2021

GOSTAR DE FUTEBOL

10 de Maio de 1968

O incomparável violinista soviético David Oistrakh está em Lisboa. E ontem, depois de um concerto triunfal no Império, foi convidado para uma recepção em casa da Marquesa do Cadaval.
O russo porém recusou e preferiu ir assistir a um desafio de futebol em que jogava o Eusébio – hoje o português mais conhecido em todo o mundo pela maneira como joga à bola.
- O Choskatovich ainda gosta mais de futebol do que eu – confidenciou o genial violinista não sei a quem.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume IV

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

TORNAR A SOLIDÃO FRATERNA

1 de Novembro de 1967

O Socialismo não pode ignorar a solidão nem a incomunicabilidade dos homens que vivem longe uns dos outros, cada qual na sua ilha. A missão do socialismo é justamente incendiar essa solidão e lançar pontes de fogo de ilha para ilha.

Eis o que me apeteceu gritar, há dias, a dois parvos que, palermamente  parvos, identificavam com a burguesia esses materiais de angústia, tão desprezados por alguns socialistas aparentes.

E no entanto essa riqueza pertence-lhes por inteiro na medida em que os homens lhes pertencem.

Socialista; homem que sofre com a consciência de tornar a solidão fraterna.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume III

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

NÃO TENHO FEITO OUTRA COISA

29 de Outubro de 1967

Aliás, em raras excepções, durante toda a vida, não tenho feito outra coisa senão ouvir.

Em jovem ouvia os velhos.

Em velho ouço os jovens.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume III

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

OXALÁ

27 de Julho de 1967

Oxalá o Socialismo leve muitos, muitos séculos a construir, para o homem não ficar desempregado da Esperança.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume III

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

GOSTO DO VENTO

18 de Julho de 1967

Noite quente… Sento-me na varanda (tal qual o meu pai fazia no verão), a sentir o vento na cara.

Gosto do vento.

Mão de alguém a afagar-me…

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume III

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

PORTUGUESES CAPAZES

20 de Abril de 1967

Quatro assaltantes, de armas de plástico em punho, roubaram 29 700 contos da sucursal do Banco de Portugal na Figueira da Foz e desapareceram numa avioneta.

Não se fala de outra coisa e a Rosalia contou-me que ouviu noi autocarro esta discussão incrível:

- Devem ter sido estrangeiros…

Então, um patriota reagiu assim, estranhamente indignado:

- Estrangeiros?... Então, você julga que não há portugueses capazes de fazerem uma coisa dessas, hem?

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume II

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

DESPRAZER DESELEGANTE

17 de Maio de 1967

Não te vingues. A vingança é o desprazer deselegante dos homens.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, volume II

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

SALAZAR? NÃO CONHEÇO!

19 de Abril de 1967

Soube hoje que o Salazar escreveu pessoalmente ao embaixador de Portugal em França a pedir-lhe que organizasse uma homenagem, ou coisa parecida, à pintora Vieira da Silva (que é agora cidadã francesa em virtude do marido ter adquirido essa nacionalidade, depois de lhe negarem a cidadania portuguesa por ser judeu e apátrida).

O embaixador, claro, rata sabida, mandou consultá-la por portas travessas.

Mas a grande pintora europeia limitou-se a responder:

-Salazar? Quem é? Não conheço. Não é das minhas relações.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume II 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

A POESIA É MORTAL!...

6 de Abril de 1967

Todas as manhãs me imponho este pensamento, para resistir às vaidades literárias que tanto desfeiam os homens, maníacos da imortalidade:
Zé Gomes,
a Poesia é mortal. Uma espécie de respiração que se pega às palavras até às vezes com certa aparência de eternidade – mas afinal, mal o Poeta morre, acaba por se desvanecer no hálito do último estertor…

E então, acredita, por mais que a família, os amigos e os leitores cândidos teimem e lutem, ninguém consegue deter a transformação das palavras em folhas secas para o Outono varrer…

Sim, Zé Gomes: a tua poesia morrerá contigo! Os teus livros não passarão, no futuro, de cemitérios de palavras ocas…

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume II

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

ENQUANTO ME AQUEÇO

15 de Janeiro de 1967

Uma velha oliveira (talvez plantada pelo meu pai) morreu. E então, friamente (frieza apenas perturbada por um leve esboço de adeus sentimental do Alexandre), cortámo-la aos bocados e deitámos-lhe fogo.

Ei-la a arder na lareira da casa de Albarraque (agora parece um dragão a vomitar lume das ventas monstruosas…)

Enquanto me aqueço, penso como gostaria de escrever um livro que narrasse a amizade fantástica entre mim e uma árvore… Uma árvore estranha com reacções humanas…

Ah! se eu vivesse até os cem anos… com a cabeça lúcida!

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume II

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

AINDA POR CIMA TARTAMUDEANTE

12 de Janeiro de 1967

Telefonei ao Vergílio Ferreira para lhe expor os motivos da minha recusa – sim, porque recusei definitivamente colaborar na sessão de homenagem a Raul Brandão em Guimarães.

Sem tempo para reler e estudar o Húmus, a Farsa, Os Pobres, A História de um Palhaço, etc.., que raio queriam eu fosse lá dizer? (ainda por cima tartamudeante.) Repetir as banalidades vãs do costume? Coroá-lo de lugares-comuns?

Não. Raul Brandão merece palavras sempre virgens e ideias acabadas de nascer, com sabor a fonte…

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, II

sábado, 24 de julho de 2021

UM CERTO PÂNICO

9 de Janeiro de 1967

Durante certas leituras noto às vezes, com pânico, a despreocupação com que salto palavras e períodos, sem me sentir aflito de não perceber o que leio.

Que significa verdadeiramente isto? Cansaço? Incapacidade de manter a atenção? Velhice impersistente? Carência vital?

Ou apenas busca rápida do que interessa à necessidade da minha sede – para então parar e beber com sofreguidão?

Claro que acabo sempre por me inclinar para esta hipótese – assim me consolo.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume II

quarta-feira, 30 de junho de 2021

PERDER E GANHAR TEMPO

7 de Janeiro de 1967

Passo de novo os meus dias com a sensação de «perder tempo», agravado agora pela tragédia de não saber como «ganhá-lo».

José Gomes Ferreira em Dias Comuns  Volume II

sexta-feira, 4 de junho de 2021

TRAGÉDIA DE NÃO SABER...

7 de Janeiro de 1967

Passo de novo os meus dias com a sensação de «perder tempo», agravado agora pela tragédia de não saber como «ganhá-lo».

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume II

quarta-feira, 26 de maio de 2021

PARA UM ETERNO DEPOIS DE AMANHÃ...

3 de Janeiro de 1967

 Reparei hoje no seguinte: com o desfazer dos anos, cada vez se dilui mais em mim a ideia da morte.

Dir-se-ia que, graças a determinantes fisiológicas e resultados psicológicos, já entrei naquele primeiro estádio saudável da velhice natural que se caracteriza pelo adiamento da morte para o futuro longínquo de um eterno depois de amanhã…

O abismo afasta-se… Sempre mais depressa do que os pés do viandante…

 José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume II