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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

OLHAR AS CAPAS


 Dedicácias

Seguido de Discurso da Guarda

Jorge de Sena

Nota Prévia de Mécia de Sena

Guerra e Paz Editores, Lisboa, Março de 2010

 

A César o que é e César

 

Se se tem génio, quanto a gente diga

é pretexto para ser-se desprezado:

que mau é tudo (embora sirva sempre

para todos fazerem disso o melhor de si mesmos).

Se se é medíocre e para mais dotado

de partes baixas de que os outros possam servir-se

por procuração (e em Portugal toda a gente sonha

com dar o cu dos outros como se fora o próprio),

tudo é pretexto para ser-se admirado,

respeitado, amado em poluções nocturnas,

e quanto se diga – ou mesmo se não diga –

é maravilhoso até por não dar sombra.

Nem vale a pena pensar duas vezes

e acabar este poema que sei – sem dúvida –

ai muito mau, não é verdade, amigos?

 

                  LONDRES, 5 de Fevereiro de 1973

terça-feira, 8 de abril de 2025

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Arte de Música

Jorge de Sena

Prefácio: Jorge Vaz de Carvalho

Posfácio: Jorge de Sena

Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2024

 

MISSA SOLENE, OP. 123, DE BEETHOVEN

 

Não é solene esta música

ao contrário do nome e da intenção.

Clamores portentosos, violência obsessiva

(por sob apelos doces, lacrimosos)

De um ritmo orquestral continuado,

Tanta paixão gritada, tanto contraponto

Que teimosamente impede que na tessitura

Das vozes e dos timbres se interponha hiato

Não de silêncio mas de um fio só

De melodia, por onde a morte

Penetre interrompendo a vida.

 

É medo, um medo-orgulho, feito

de solidão e de desconfiança. Não

piedosa tentativ para captar um Deus,

ou ardente anseio de união com Ele.

Não é também, com tanta majestade,

a exigência de que Ele exista,

porque o mereça quem assim O inventa.

 

É um medo comovente de que O não haja

para remissão dos pecados, bálsamo

das feridas, consolo

das amarguras, dádiva

do que se não teve nunca

ou se perdeu para sempre. É

desejo ansioso de que um Agnus Dei

se interponha (ao contrário da morte) mediador e humano

entre um nada feito música

e outro possivelmente Deus.

E a esperança desesperada e que seja

uma grandeza nossa quanto fique,

de pé, no intervalo entre ambos.

 

                                                       2/11/1964 

terça-feira, 11 de junho de 2024

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Rever Portugal

Textos Políticos e Afins

Edição Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço

Prefácio: Jorge Fazenda Lourenço

Capa: João Botelho

Guimarães Editores, Lisboa, Abril de 2011

Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido abatido. Claro que esse aproveitamento não teria sido possível se ele não tivesse escrito Os Lusíadas. Porque para além de encher-se a boca com a Fé e o Império, que nem uma nem outra eram para Camões o que eram para o Dr. Salazar, o poeta que servia para mais nada senão para exercícios de gramática estúpida, o que, tudo junto, chega para gerações lhe terem ganho alguma raiva e perdido o gosto de o ler. E há mais e pior: quando no liceu líamos Os Lusíadas éramos proibidos de ler (e não estudávamos) as passagens consideradas mais chocantes pela pudicícia hipócrita desta nossa sociedade de sujeitos felizmente desavergonhados que fingem lamentavelmente possuir a virtude que não têm, e vivem a perseguir os reprimir os pecados alheios.

domingo, 28 de janeiro de 2024

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Jorge de Sena Vinte Anos Depois

Edições Cosmos, Lisboa, Março de 2001

 A Câmara Municipal de Lisboa organizou, através das suas Bibliotecas Municipais, um Colóquio para assinalar os vinte anos da morte de Jorge de Sena. As actas deste Colóquio deram origem ao presente volume. Integrado neste encontro tiveram lugar outras manifestações como o visionamento dos filmes «Os Salteadores» de Abi Feijó, e «Sinais de Fogo», um recital de poesia dita por Luís Lucas, música tocada por Nuno Vieira de Almeida, baseado no livro «A Arte Da Música», livro de Jorge de Sena publicado em 1968 e mais tarde incluído em «Poesia II» editado em 1988.

Colaborações, entre outros:

Joaquim-Francisco Coelho, Almeida Faria, Fernando Guimarães, João Rui de Sousa, Eugénia Vasquies, Luís Francisco Rebello, Jorge Fazenda Lourenço, Eugénio Lisboa, José-Augusto França.

«À morte de Jorge de Sena, em 1979, fiz uma aula de História da Arte na minha Universidade, com a leitura deste poemas, uns atrás dos outros, e projecção das obras referidas – e foi,  assim somente, uma lição com certeza mais útil do que todas  as mais que dei na minha cadeira. Pela emoção intelectual e sensitiva que nenhum outro poeta português poderia assim provocar, em conhecimento vivido ou convivido, de obras de arte ao longo de mais de dois mil anos…»

 

Do texto de José Augusto França.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

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Correspondência
(1943-1977)

Jorge de Sena/João Gaspar Simões
Incluindo o carteio de Mécia de Sena
Organização, estudo introdutório: Filipe Delfim Santos
Capa: Ilídio J.B. Vasco
Guerra e Paz Editores, Lisboa, Maio de 2013

Lx. 22/2/952

Gaspar Simões,

Não quero deixar de agradecer-lhe a referência longa, cuidadosa e atenta, que dedicou no Diário Popular ao meu Indesejado. Muito obrigado.
Só lamento que não tenha dito que a peça está pronta desde fins de 1945, visto que foi lida, tal qual publicada agora, em março de 1946. E isto é importante, porque é anterior à publicação de todas as peças do Montherlant, anterior a Christopher Fry, anterior a todas as peças históricas citadas no seu artigo. Mas não se pode exigir tudo.

Gratamente o

Jorge de Sena

sexta-feira, 19 de julho de 2019

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Novas Andanças do Demónio

Jorge de Sena
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 93
Portugália Editora, Lisboa, Agosto de 1966

Este conto é um conto breve. É mesmo brevíssimo. De resto, se não fosse breve, muitíssimo breve, correria o risco de não ser um conto. A obrigação principal dos contos, mais que dos homens, é conhecerem os seus limites.

domingo, 23 de junho de 2019

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 Correspondência
(1969-1978)

Jorge de Sena
Carlo Vittorio Cattaneo
Edição: Mécia de Sena, Jorge Fazenda Lourenço e Joana Meirim
Tradução do italiano. Jorge Vaz de Carvalho
Guimarães Editores, Lisboa, Novembro de 2013

Lamento que V. não tenha recebido a sua bolsa (alguém a recebeu em vez de si?). e vejo que o encargo de organizar a biblioteca do Instituto é assim como um prémio de consolação (ao menos pagam-lhe). Quanto ao prémio de poesia… meu caro: os prémios de poesia só se dão aos consagrados, aos amigos dos consagrados, aos amantes ou às amantes dos consagrados e dos júris. E, para ser-se um consagrado e recebê-los, é preciso ou ser-se um milagre de diplomacia e de bonomia com os idiotas deste mundo, ou fazer parte da pandilha. Eu que o diga, que nunca concorri pessoalmente a nenhum, mas que várias vezes entrei em prémios a que os editores, concorriam, por mim. Há anos, não sei se lhe contei, apesar de oposições velhas de anos, e muita raiva surda, o Prémio Nacional do Diário de Notícias foi votado para mim (50 contos que me faziam um arranjo enorme, caríssimo) – não havia saída, eu ia ganhar… ah, havia uma saída, não podiam premiar-me porque sou cidadão brasileiro (e viva a dupla nacionalidade das pátrias irmãs… ) e não apanhei o prémio que foi para o sujeito que tem apanhado sempre (é a terceira vez) os prémios que me tiram, o Torga.

(Duma carta de Jorge de Sena, datada de 16 de Novembro de 1971, para Carlo Vittorio Cattaneo).

sábado, 9 de fevereiro de 2019

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Sobre Cinema

Jorge de Sena
Organização e Introdução de Mécia de Sena
Co-organização e Notas de Manuel S. Fonseca
Capa: Luís Miguel Castro
Cinemateca Portuguesa. Lisboa, 1988

Devemos agradecer a Gloria Swanson a coragem inexcedível com que aceitou assumir a interpretação de uma imagem simultaneamente transposta e no íntimo exacta do seu próprio destino de grande astro. A inteligência certeira com que representou a aflitiva deshumanização final de toda uma teoria mistificada da vida ficará na história do cinema como um dos getos mais corajosos que uma celebridade terá executado, e só comparável, na sua essência, à mensagem que Charlot nos trouxe, como um testamento perante o qual nos devemos curvar rendidos, nas suas Luzes da Ribalta. O final de Sunset Boulevard, aquela descida triunfal para a prisão e o manicómio, com a dádiva do público de um rosto gloriosamente prestigiosos e mesquinhamente envelhecido, que só a loucura de uma derradeira aparição angustiosamente nimba, é uma despedida em beleza, uma lição de humanidade, um manifesto de consciência artística.

(Extracto do texto lido, na sala do Cinema Tivoli, sobre Sunset Boulevard de Billy Wilder).

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

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Entrevistas
1958-1978

Jorge de Sena
Selecção de Jorge Fazenda Lourenço
Capa: João Botelho
Babel, Lisboa, Março de 2013

Escrever, para mim, não é sacrifício: é um prazer. É também um acto moral e social. Eu sempre achei que a criação literária é uma criação comprometida, , ainda que a pessoa não esteja comprometida, digamos no sentido partidário. Mas está comprometida com todo um ideal de justiça, de liberdade, de visão social do mundo. Tudo isso representa um comprometimento sem o qual a literatura acto moral e social. Tudo isso representa um comprometimento sem o qual a literatura para mim não existe.

Da entrevista dada a Baptista-Bastos e publicada no Diário Popular de 30 de Setembro de 1976

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

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Sinais de Fogo

Jorge de Sena
Nota: Mécia de Sena
Prefácio: Arnaldo Saraiva
Capa: A. Saldanha Coutinho
Edições 70, Lisboa, Maio de 1981

Uma saciedade contraditória, como de saudade lancinante que se adiasse tranquila sem deixar de ser agudamente física, se me ajustava à frustração humilhada. Limpei-me com o lenço. Olhei aflito em volta, com a sensação que antes não tivera de milhares de olhos escarninhos a observar-me o ridículo. Mas não havia ninguém. Caminhei até ao murete da linha dos comboios, e procurei na vedação de arame, que encerrava as linhas pelo outro lado, uma abertura por onde passar. Encontrei-a mais adiante. Como num entressonhar, fui andando até chegar a uma azinhaga ao fim da qual via postes de eléctrico. Foi quando uma onda asfixiante de bem-estar, um bem estar irónico, sardónico, casquinante, estourou dentro de mim num silenciosos grito que retiniu nos tímpanos, nos muros, na atmosfera já sombria da azinhaga.
- Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço…
Febrilmente, e ao mesmo tempo com a serenidade de quem está seguro de que as vozes lhe falam e não vão calar-se (eu já ouvia as cadências continuar-se), escrevi:

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre-
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego-
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte-
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor nos traiu-
Quanta traição existe em possuir-te a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro-
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará-
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só-
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na ausência indestrutível que
nos faz ser um no outro-
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida-
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam-
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

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80 Poemas

Emily Dickinson
Selecção, tradução e prefácio: Jorge de Sena
Nota Preliminar: Márcia de Sena
Capa: João Botelho
Guimarães Editores, Lisboa, Outubro de 2010

Morri pela Beleza mas mal eu
Na tumba me acomodara,
Um que pela Verdade então morrera
A meu lado se deitava.

De manso perguntou por quem tombara…
. pela Beleza – disse eu.
- A mim foi a Verdade. É a mesma Coisa.
Somos irmãos – respondeu.

E quais na Noite os que se encontram falam –
De Quarto a Quarto a gente conversou –
Até que o Musgo veio aos nossos lábios –
E os nossos nomes  -  tapou.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

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Poesias Escolhidas

Selecção, prefácio e notas: Jorge Fazenda Lourenço
Capa: Rochinha Diogo
Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1989

Os trabalhos e os dias

Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e principio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.

À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.

Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.

domingo, 7 de maio de 2017

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40 Anos de Servidão

Jorge de Sena
Prefácio: Mécia de Sena
Colecção Círculo de Poesia nº 92
Moraes Editores, Lisboa, Setembro de 1982

Deixem-se de fingir de heróis da esquerda,
com bancos e bancas de advogados, redacções,
editoriais, automóvel, bolsas e cátedras,
quintas herdadas, páginas literárias.
Deixem-se de uivar em defesa de ismos
que nenhum vos pertence ou a que pertenceis
a não ser para dançar a dança desnalgada
dos que não têm vergonha do povo português.
O único ismos em consonância com os arrotos
de bem comidos, e rosnidos de instalados
naquilo que criticam disfarçando-se,
é o relismo - de reles. Nada mais.


15/1/72

quinta-feira, 13 de abril de 2017

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Correspondência
1959-1978

Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena
Notas Prévias de Mécia de Sousa e Maria Andresen Sousa Tavares
Capa: Ilídio J.B. Vasco
Guerra e Paz, Lisboa, Fevereiro de 2010

Desculpe o longo silêncio: você sabe que eu tenho a maior vocação para falar ao telefone e nenhuma vocação para escrever cartas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 22 de janeiro de 2017

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Correspondência
1949-1978

Jorge de Sena/Eugénio de Andrade
Organização: Mécia de Sena
Apresentação: Isabel de Sena
Notas: Jorge Fazenda Lourenço
Capa: Ilídio J.B. Vasco
Guerra e Paz, Lisboa, Outubro de 2016

Querido Jorge:

Recebi simultaneamente a tua carta e original de Cavafy, há já alguns dias, mas não tive ocasião de te escrever logo após a leitura dos poemas, como gostaria de ter feito. Comparei mesmo alguns poemas com a tradução do Pontani. Como imaginava, a tua tradução é incomparável, particularmente, os poemas breves, os mais difíceis de traduzir, pelo risco que alguns correm de se transformarem numa quase banalidade madrigalesca, o que acontecia com as traduções francesas, a que não escapam mesmo as traduções mais belas. É um prodígio o que consegues. E se podes afirmar, apoiado em Goethe, que não há grande poema que não possa ser traduzido, seria indispensável juntar que tudo vai do tradutor. Ora o Cavafy teve a sorte de te encontrar no caminho. Se dou mais relevo às traduções dos «eróticos » (achando igualmente notável o que fizeste dos três poemas do Cavafy que prefiro – «O deus abandona Marco António», «Ítaca» e «À espera dos bárbaros») é tão-só porque considero a tradução de tais poemas mais difíceis que os outros. A matéria, além de muito frágil é, em outro sentido, delicada. Tu resolves tudo com uma franqueza, uma elegância e uma frescura verdadeiramente notáveis. Reparo até que os poemas têm uma força explosiva que só intuíra nas traduções francesas ou italianas, receando até que tais poemas constituam um pequeno escândalo, justamente, como muito bem referes no teu prefácio, que é muito corajoso, pela nobreza moral que revelam, isentos, como são, dos perversos conceitos de «pecado».
As traduções deram-me uma grande alegria.Este livro pertence-me. A primeira vez que traduziste o Cavafy, lembras-te?, foi para mim, numa noite em tua casa, talvez depois da leitura de As Evidências. Quando apareceram as tuas primeiras traduções no Comércio, estimulei-te, através de correspondência, no sentido de publicares novas traduções. Quando o editor me pediu a indicação de alguns poetas estrangeiros para a colecção que iniciou com o Lorca, o Cavafy, traduzido por ti, foi dos primeiros nomes que apontei. «Um deus abandona Marco António» e «A origem» são poemas que me acompanham desde a tua tradução no Comércio. (Pude assim notar agora as variantes, importantíssimas, lendo agora «A Origem» neste teu volume).
Felizmente que a alegria que me deu o teu livro me compensou da melancolia da tua carta. O que sobretudo lamento, nesta história do prémio, é que por via de o não receberes sejamos privados de nova visita tua. Tu já sabes o descrédito que tem para mim a chamada glória literária. Ser-se Namora, para me servir da tua expressão, é coisa que suponho não interessa a ninguém. Que importa o êxito? Tu não és um escritor para multidões, não no fundo o desejaste nunca ser. De um certo êxito suponho que terás até desprezo. Podes estar tranquilo: a tua obra está aí, e brilha, e aquece. Ela pertence aos melhores, como bem sabes. É pena, realmente, que a tal ilha, Taiti ou outra qualquer (a minha fica no mar grego), não esteja nunca senão no nosso desejo. Que havemos de fazer? Suportar é tudo – não foi o Rilke que disse? Suportar– não há para nós outra solução sob pena de abdicarmos de sermos homens.
Na próxima carta já te direi quais são os teus 50 poemas que prefiro. Tenho o maior gosto em indicar-tos.
Lembranças afectuosas à Mécia. Para ti o maior abraço do muito
teu,
Eugénio

(Carta de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena, datada de 21 de Maio de 1969)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

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Correspondência

Eduardo Lourenço/Jorge de Sena
Organização e notas: Mécia de Sena
Capa: Maria J, Matos
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, Abril de 1991

E por aqui me fico, que esta já vai desmedida. Vamos a ver se nos encontramos na pátria ingrata, ou algures na Europa. Lembra-te, em qualquer caso, de que, estando eu em Lisboa, estarei na minha casa do restelo, cujo telefone é 610405 (vem na lista em meu nome). E que, não estando eu em casa, ou estando no Porto eventualmente, vive lá uma família que toma conta da casa e pode receber recados. Por sinal, é uma família de retornados de Angola, que perderam absolutamente tudo quanto tinham, e fazem parte de um largo clã familiar muito ligado por gerações de amizade angolana a mim e à minha família, Os membros do dito clã receberam de repente, em Lisboa, 30 pessoas sem nada, e apelaram para mim. Por certo, para certa esquerda estúpida, que eu albergue retornados deve ser uma horrorosa traição.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

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Correspondência (1952-1978)

Jorge de Sena/António Ramos Rosa
Edição: Mécia de Sousa e Jorge Fazenda Lourenço
Colaboração: Agripina Costa Marques e Inês Espada Vieira
Guimarâes Editores, Lisboa, Outubro de 2012

Uma conversão radical se há-de dar, no meu corpo ou no meu espírito, ou em ambos, ou então a morte purificadora. O seu bom conselho de não me deixar devorar pela solidão e de tomar posse dela tem sido possível de certo modo, dentro das minhas fracas possibilidades, mas o que se impunha era uma matéria real em que essa posse não se volatizasse a todo o instante. Infelizmente a minha saúde não tem melhorado e, desprovido de meios económicos e qualquer assistência médica, estou simplesmente entregue a esta tensão desesperada de superação, a esta vontade de me salvar.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

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Diários

Jorge de Sena
Introdução: Mécia de Sousa
Edições Caixotim, Lisboa, Outubro de 2004

Recebi uma carta do Margarido em que me pede colaboração para uns cadernos que pensa publicar com o Egito Gonçalves. Como hei-de dar a uns e recusar a outros? – E quando é que a vida me permitirá que trabalhe em obra e não em traduções e artigos para ganhar dinheiro mísero, não perder contacto e justificar a oferta de alguns livros que não posso comprar.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

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Os Grão-Capitães

Jorge de Sena
Edições 70, Lisboa Setembro 189

Meu pai era uma personagem mítica que eu quase só via à hora de jantar, durante uns quinze dias, de três em três meses. A sua chegada era prenunciada por um cheiro a encerados e a pó espanejado que se espalhava pela casa toda, cujas portadas de janela se semicerravam como para conservar, em estado de graça e de jazigo de família, aquele ambiente de silêncio e treva premonitória. Não se sabia nunca ao certo essa chegada. Ele não escrevia senão de raro em raro, e minha mãe, para calcular a demora da viagem, ia de vez em quando, comigo pela mão, aos portais da Companhia de Navegação ver, no quadro onde registavam o movimento dos barcos, em que porto das Áfricas o navio de meu pai saíra ou entrara. Quando eu já sabia ler, mandava-me lá a mim, e ficava-se meio oculta na esquina da rua creio que para, aos empregados que a conheciam, não mostrara que não sabia mesmo onde o marido andava. Telefonar, e não tínhamos telefone, não lhe ocorria; apresentar-se de cabeça erguida fosse onde fosse era contra os seus princípios. E, muito provavelmente, nem os empregados se lembrariam de achar estranho que ela, ainda que muitas cartas recebesse naquele tempo sem aviões, fosse ver a rota do navio. Eu, a quem tantos compartimentos da casa eram defesos, ficava durante e após as limpezas, e até ao dia da chegada, encurralado de todo, e sem nada que sujasse ou me sujasse. E odiava aquela expectativa, ao mesmo tempo que esperava curiosamente o que o meu pai traria: caixotes de vinho da Madeira, cachos de bananas, frutas várias em cestas, às vezes manipansos dos pretos, que me eram dados para eu brincar.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

OLHAR AS CAPAS


Correspondência

Jorge de Sena e José-Augusto França
Organização e notas: Mécia de Sena
Introdução: José-Augusto França
Biblioteca Autores Portugueses
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa Junho de 2007

Neste país, a fome de tachos é insaciável.