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quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Vida e Morte dos Santiagos

Mário Ventura

Capa: Antunes

Círculo de Leitores, Lisboa, Setembro de 1986

Seis meses depois de Maria da Piedade ter entrado na Casa-Mãe, o casal apareceu enfim à luz do dia, como se de mulher e marido se tratasse, aperaltados e bem penteados, para tomarem lugar na caleche que os conduziria à feira de Aires. Voltaram ao fim de dois dias, com o carro ajoujado de tudo aquilo com que Piedade se propunha substituir os apetrechos da casa em que pontificava: potes, tarraças, escudelas, formas de cobre, barranhoas, pintas, meias e quartas, alquaras, almofias e almotolias, alcudafes, moringues, jarros, pichéis, bateias, cabaças, pingadeiras e mais uma infinidade de objetos que pela primeira vez apareciam aos olhos espantados do povo de Torranjo. 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

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Alentejo Desencantado

Mário Ventura

Círculo de Leitores, Lisboa, Dezembro de 1974

Neste momento há cerca de trinta homens de Aguiar a fazer a guerra em África, e neste dia em que visitamos a aldeia – Domingo de Ramos – as crianças levam à igreja os seus ramos de flores campestres a fim de que o padre lhes lance a bênção. Depois, em obediência a uma crença ancestral, espalham as flores sobre as searas, para que estas sejam mais abundantes do que nunca.

Mas, quando nos afastamos, vai connosco a mesma dúvida:

«Se não chover nos próximos dias… Se chegarmos a Abril, e depois a Maio, e o tempo continuara seco e quente, quem poderá garantir que as searas não serão este ano tão más como nos últimos anos?...

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

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Morrer em Portugal 

Mário Ventura

Capa: José Cândido

Livraria Bertrand, Lisboa, Abril de 1975

Começou a nevar de manhã cedo, no momento em que o ar ficou mais seco, nevou durante todo o dia, e ao cair da noite uma camada muito branca e pouco segura cobria todo o Norte da Espanha. A neve tombava ainda quando o escuro e longo comboio, avultando estranhamente no manto branco, avançou pela noite dentro, com os homens que regressavam ao aseu país.

A meio da madrugada aquele comboio entrara de obcecar-me. Esperava havia horas, cercado pela neve e pela indiferença da cidade adormecida. As perguntas que fazia de quando em vez, para convencer-me a mim próprio de que o tempo passava, encontravam o eco como resposta. Só o uivo prolongado dos «mercadorias» em marcha me dizia que nem tudo dormia naquela noite sem fim, noite que reavivava o pesadelo de outras noites intermináveis.

«Quando llega el emigrante?»

Nem sequer uma palavra, apenas um encolher de ombros.  E sobre todas as coisas, pessoas e palavras que não se disseram, um frio penetrante que empurrava para a inconsciência. 

sábado, 2 de fevereiro de 2019

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Outro Tempo Outra Cidade

Mário Ventura
Capa: Manuel Dias sobre «A Parábola dos Cegos» pintura de Brueghel
Livraria Bertrand, Lisboa. Novembro de 1979

Um dia há-de dizer-se que nunca existiu em Portugal um verdadeiro fascismo. E isso só servirá para encobrir uma amarga verdade: a de que todos, mas todos estivemos envolvidos e comprometidos nesta farsa trágica que se abateu sobre nós. Quando não se pode transformar a sociedade em que vivemos, porque nos falta a força para isso ou por não o desejarmos com muita intensidade, acabamos por aceitar, involuntária mas resignadamente, que ela nos transforme e corrompa. Porquê e como, é uma coisa que não se sabe nem se pode sentir. Vê tu como este palhaço do Marcelo Caetano, que chegou a iludir e a manter em expectativa tanta e tão boa gente, crente de que o fascismo se deixaria liberalizar, acabou decorrido um a afalar das colónias e da guerra:
«O bom combate é o de poupar a nossa África às calamidades das independências fictícias, proclamadas por meio de autodeterminações ilusórias que, em homenagem a mitos reinantes, sacrificam os verdadeiros interesses dos povos e comprometem a paz no mundo.»

terça-feira, 11 de setembro de 2018

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À Sombra da Árvores Mortas

Mário Ventura
Capa: José Cândido
Livraria Bertrand, Lisboa s/d

Manolo olhou-o em silêncio, como se lhe perscrutasse as intenções. Parecia desconfiado.
- Mas tu pensas que os livros sérios circulam assim à vontade?
- Não sabia… - murmurou confuso.
O outro continuou a fitá-lo até que chegou a uma decisão.
- Verei se posso conseguir alguma coisa.
- Sabes… o que me contaste ajuda-me a conhecer mais o teu país e a compreender certas coisas que vi. E creio té que gosto mais dele…
- É do saber comum: só se ama o que se conhece bem.

sábado, 2 de setembro de 2017

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O Despojo dos Insensatos

Mário Ventura
Capa: José Cândido
Livraria Bertrand, Lisboa 1968

Vinte anos atrás a enciclopédia dedicava duas páginas a Açoreira, referindo a existência de fábricas de conserva, lagares de azeite, destilações de aguardente, moagens, agências bancárias. Hoje existem apenas as Agências bancárias, quase todas as semanas abre, os estrangeiros trocam dinheiro diariamente. O resto foi-se, na voragem de um estranho progresso, com as pessoas sentindo-se estranhas na própria terra e a abalar para outras paragens.
Na capitania estão inscritos dois mil pescadores, e ainda não há muitos anos que todos enganavam a morte e a vida arrastando-se pelas águas da Açoreira. Agora são, quanto muito quinhentos, pescando apenas no Verão, no Inverno iludem o tempo em trabalhos de vexame e de fome nos campos, e quase todos estão com um pé dentro e outro fora desta terra maldita que lhes anda a trocar as voltas desde que nasceram.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

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Conversas

Mário Ventura
Colecção Figuras nº 5
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1986

Este livro constitui o registo de uma das experiências mais interessantes da minha vida profissional, quer como jornalista, quer como escritor. Começo por ser um projecto puramente jornalístico, circunspecto e comedido, mas acabou por ser uma tarefa aliciante e divertida.

Existem várias razões para que assim tenha sido, mas todas elas radicam numa única: a liberdade da palavra trouxe também a desinibição da palavra. Com efeito, e ainda não há muitos anos, era impensável pretender que um escritor português respondesse de improviso às perguntas que lhe fossem dirigidas com o objectvo imediatista da respectiva publicação.

domingo, 15 de março de 2015

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 Março Desavindo

Mário Ventura
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 1987

- Claro, é evidente que existem as condições teóricas para que isso possa acontecer. Há uma burguesia que não é de esquerda, embora alguns pretendam absurdamente que está com a revolução, o que é um requinte de optimismo idiota se pensarmos que num dado momento ela apenas se afirmou democrata. E do outro lado há um processo revolucionário, melhor dizendo radical, que até hoje ninguém adoptou de forma coerente e até  às últimas consequências, chegando mesmo àquilo de que os jornalistas mais gostam: sangue e mortos. Não estou a brincar, admito apenas a possibilidade lógica de um processo que se pretende revolucionário. Mas se a esquerda não tem cojones ou inteligência para actuar com decisão e firmeza, também não vejo que a burguesia seja mais hábil ou voluntariosa. Se o fosse não teria perdido o seu lugar. Ainda que provisoriamente. A esquerda vai continuar a fazer a sua revolução verbal, assustando muito mas sem vontade e capacidade para fazer o que apregoa, ou seja, conquistar o Poder, e a burguesia, com a lógica habitual dos acossados, só actuará quando tiver a certeza de ganhar.
- Esqueceste-te dos comunistas – interrompeu Lozano.
- Os comunistas cumprem uma tarefa impossível: tentam arrumar uma casa constantemente sacudida por tremores de terra. Não conseguirão passar daí, embora também assustem muito.
- Diz-se que estão por detrás de tudo…
- Todos os partidos estão por detrás de tudo aquilo que fazem os militares, Cada um procura a sua marioneta.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

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A Noite da Vergonha

Mário Ventura
Capa: Guilherme Casquilho
Livraria Bertrand, Lisboa s/d

É detestável, eu sei, mas não me posso contrariar. Não consigo vê-los de outra forma que não seja a de vermes a rastejar, a rastejar sempre, eternamente, sem um momento de revolta ou de lucidez… Não vislumbro neles qualquer espécie de elevação, a não ser a de viver, se é que a involuntariedade desse acto lhes deixa qualquer mérito. Como se nada tivessem do que eu penso que faz um ser humano digno e consciente: simplicidade, raciocínio, capacidade de agir. E contudo sei que não é assim; crei até, e com convicção, que se encontram no mesmo plano que eu, e quantos deles acima de mim… Mas para o compreender, para o sentir verdadeiramente, necessito de presenciar a sua vida, os seus problemas. Assim, visto à distância, num cenário que nada tem de humano, possuem o sabor de fantoches, de bonecos articulados, a provocarem um riso amargo…