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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

OBSERVAÇÃO DO INVERNO

Àrvores de janeiro sem o dom

da folhagem: os seus ramos são linhas

de espessura variável

umas com

 

outras delas saindo, espinhas

dum peixe irregular ao qual o frio

deixouy

somente os ossos finos,

 

e bada noutras folhas se renova

não há cura

para o tempo, ele será o ramo

de folhas diferentes

 

Gastão Cruz em Resumo: a poesia em 2011

sábado, 12 de julho de 2025

CONVERSANDO


Em miúdo pensava muito, não eram sonhos, porque não me lembro de sonhar, com barcos, comboios, aviões, moinhos de vento.

Duvido que coisas destas façam, hoje em dia, pensar um único miúdo.

Durante muito tempo fui guardando, num caderno, palavras, poemas, fotografias de barcos, comboios, aviões, moinhos de vento.

Como este poema de Gastão Cruz publicado  no nº 5, Fevereiro de 1960, dos Cadernos do Meio-Dia, coordenação do António Ramos Rosa:

 

Erguem-se os braços como velas altas

como um comboio que largasse a linha

e fosse perseguido alucinado

 

Sobem os braços nos outonos verdes

nas primaveras em que a folha cai

 

Braços com mar por dentro

e sol por fora

que nadam na vida

sem redes nem areia

e são pontes de todos os espaços

 

Braços ontem

nas tardes de hoje e noites de amanhã

terça-feira, 30 de julho de 2024

NO FOGO DAS ESTRADAS

 

No fogo das estradas é que
o medo de ter
tempo de mais as mãos pousadas
no amor nas espáduas
na amargura do rio
é que molhar as mãos
na água dos joelhos e andar
um pouco mais ainda sobre o fogo
das pernas e alcançar a terra
o ar do tronco o vapor o
movimento infindável do corpo em torno
do amor é que o mar as estradas
é que a locomoção por sobre a mágoa
no fogo das estradas é que tudo
se pode incendiar


Gastão Cruz em A Doença

quarta-feira, 24 de julho de 2024

A BOCA OUVE O SOLUÇO

A boca ouve o soluço das palavras

a terra expõe a fala

e provoca essa queda de palavras

nos lábios

Gastão Cruz em Teoria da Fala

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

AVE FUGAZ

Releio os meus poemas procurando

entendê-los: mas o o que é compreender

a poesia? Alguma coisa nos versos pus senão

a brusca vida que me resistia?

 

Com palavras tentei superar a mortal

evidência dos dias e por vezes

mais do que eles morri sobrevivendo

às várias formas de amor perdido

 

Terminavam os dias e eu via

na vagarosa obscuridade vinda

confirmado esse vácuo que nenhuma

ilusão já podia diferir

 

Então a poesia só servia

para evitar que tudo a morte recolhesse;

o fruto árido tombado da luz era

entre a realidade e as palavras disputado

 

Procuro conhecer a existência

actual dessa ilusão, agora mais real

do que quando morria e só a fala

a podia reter, ave

 

fugaz, incerta

voz que me leva

a desejar saber se creio ainda

na vida inverosímil da poesia

 

Gastão Cruz de Escarpas em Resumo: a poesia em 2010.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

FALÁMOS TANTOS ANOS DE TÃO POUCO

Falámos tantos anos de tão pouco
entre os campos
do corpo
a fala fende os dentes
o corpo que te ouve ampara
a tua fala

É o último dia mas que dia
poderia deter assim a boca
dizíamos ainda que viríamos
ouvir-nos um ao outro
a fala dolorosa encontra os dentes
e olho a tua boca como um corpo


Gastão Cruz

quinta-feira, 12 de maio de 2022

ÀS VEZES DESPEDIMO-NOS TÃO CEDO

Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos

Gastão Cruz


domingo, 20 de março de 2022

DE CADA VEZ

Contínua realidade que me sorves os dias

como hei-de responder-te se vives incluída

dos meus olhos abertos nas ávidas e frias

pedras incertas da vida

prisioneira do espelho que embacias

de cada vez que a turva suicida

torna ao morrer visíveis

as formas com que comes os meus dias


Gastão Cruz em Rosa do Mundo

domingo, 7 de março de 2021

FALÁMOS...


Falámos tantos anos de tão pouco

entre os campos

do corpo

a fala fende os dentes

o corpo que te ouve ampara

a tua fala

 

É o último dia mas que dia

poderia deter assim a boca

dizíamos ainda que viríamos

ouvir-nos um ao outro

a fala dolorosa encontra os dentes

e olho a tua boca como um corpo

Gastão Cruz em A Teoria da Fala

domingo, 21 de fevereiro de 2021

OLHAR AS CAPAS


A Doença

Gastão Cruz

Colecção Novos Poetas nº 7

Capa: João da Câmara Leme

Portugália Editora, Lisboa, Novembro de 1963


Tudo o que puderes dizer-me

agora que ainda não é noite

enquanto ainda não se espera

a solidão mas talvez já a

morte agora que passamos

o rio sem que a noite

já sem a noite

atravessamos tudo diz-me tudo

o que subitamente se desprende

de tudo diz-me sem que na voz sem

que o sentido do que dizes seja o

que ardidos sentimos na escuridão

do sangue sem que o medo o amor

ou a vida o rio que

passamos a tarde

que sentimos tudo

digam

quarta-feira, 1 de julho de 2020

LUZ GERAL


As carruagens cheias como praças
que se movem à luz geral do ensaio
repetem dia a dia a mesma viagem:

os versos partem para a humanidade
mas a humanidade para onde parte?
Sabemos as paragens em que saem

e entram os que irrompem pelo palco;
até tornar-se fogo há-de crescer
continuamente a luz mortal do ensaio

Gastão Cruz em resumo: a poesia em 2010

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A ROSA DOENTE


A rosa que adoece
é um leito e um corpo.
Penetrou nela o verme
que em segredo a destrói.

É um verme invisível
um insecto da noite.
A vida destruída:
oculto obscuro amor.

Gastão Cruz em A Teoria da Fala

sábado, 29 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Cadernos do Meio-Dia
Nº 5

Coordenação de António Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Fernando Moreira
Ferreira, Hernâni de Lencastre
Capa: Baptista
Edição dos Coordenadores, Faro, Fevereiro de 1960

Ruínas

Um sopro passará sobre a cidade
e ela será relevo de destroços
sob os ossos sem cor desmedulados
das gerações que nunca nascerão

As raízes queimaram-se na terra
ruíram pelas ruas casas feridas
e os homens vão nascendo para a morte

Há na cidade um ritmo de ruínas
em todos nós um ritmo de ruínas

há partos glaciais dentro da morte

Poema de Gastão Cruz

domingo, 19 de maio de 2019

METÁFORA


Escolho o silêncio assunto antigo para
falar deste domingo: descrevê-los
o silêncio o domingo será como
falar da escuridão e que metáfora
mais certa se as há certas, para a ínfima
luz própria metafórica do dia

A tua voz então vem como nave
a si mesma sulcar-se, na penumbra
tornando-se, não sei se mais igual
ou mais diversa do escuro sentido
do sentido, o tema interrompendo
do poema: o silêncio o domingo

Gastão Cruz

Legenda: imagem de Brent Benger

domingo, 24 de março de 2019

O SOM DO MUNDO


Releio poemas mudo-os de lugar
no livro que crescendo devagar
me exaspera, por vezes um poema
faz-me crer que prendi acaso o tema

quer ao som das palavras quer ao mundo
outros talvez como este nem ao menos
chegam ao fim ou terminados caem
no limbo conhecido de múltiplas esperas

e é o mesmo mundo que me inspira
que de dizer me impede os sons precisos
dia após dia até que (por fim ditos
os segredos no vácuo do silêncio

tanto tempo retidos, o amor
que da vida nunca se solta e é isso
que o torna algumas vezes impossível)
a espera recomeça em novos limbos


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 15 de março de 2019

BARCO


Vou hoje começar a recordar-te
embora a luz entrando sob o arco
escasso da realidade possa dar-te
a ilusão ainda de que o barco

simplesmente balouça mas não parte
Já partiu afinal do porto parco
onde vieste perceber a arte
de nada ser; no mesmo barco marco
lugar como num ventre: igual escala
é a perda da vida que ganhá-la

Gastão Cruz

Legenda: pintura de Edward Hopper

domingo, 22 de abril de 2018

OLHAR AS CAPAS



Teoria da Fala

Gastão Cruz
Capa: Fernando Felgueiras
Cadernos de Poesia nº 24
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1972

Canção da Ama

Quando as crianças cantam sobre a relva
e nos vales as vozes se confundem
as memórias da minha juventude
crescem e o meu rosto empalidece.

Vinde, já não há sol
e o vapor da noite alastra.
A vossa primavera e o vosso dia – em jogo foram gastos;
o inverno e a noite sê-lo-ão em disfarce.