Escolha um trabalho que ame
e não terá de trabalhar um único dia da sua vida.
Confúcio
José
Saramago escreve:
«Morreu
o Fernando Assis Pacheco. A notícia abalou-me profundamente. Não éramos o que
se chama amigos, mas havia entre nós relações muito cordiais, de simpatia e
respeito mútuos, e a admiração que sentia por ele não a sinto por muitos.
Morreu daquele coração que desde há anos o vinha ameaçando. Morreu numa
livraria, provavelmente o lugar que ele próprio teria escolhido para quando
tivesse de sair da vida.»
O mesmo volume dos Cadernos, José Saramago volta a Fernando Assis Pacheco e estamos a 22 de Dezembro de 1995:
«Carmélia, que veio com
a mãe passar as festas connosco, trouxe-nos o último do Jornal de Letras,
dedicado, em parte, a Fernando Assis Pacheco. Leio os poemas dele que lá vêm,
inéditos, e irresistivelmente penso que Tolentino, se vivesse neste tempo,
teria por força de escrever assim. Espero que se encontrem muito mais inéditos
comos estes nos papéis que o Assis Pacheco deixou: há obras tão fecundas que
continuam a crescer depois da morte do seu autor. Veja-se este soneto, por
exemplo que só agora foi escrito:
O corpo mal talhado em
cujo abdómen
cresceu um aneurisma
durante anos
que por fim o condena à
cirurgia
vascular de emergência
transportado
com terror de sirenes
por dois homens
de bata branca amáveis
que procuram
tocar prà frente a dura
traquitana
𝘷𝘢𝘪 𝘷𝘦𝘳 𝘴𝘳. 𝘗𝘢𝘤𝘩𝘦𝘤𝘰 é 𝘴ó 𝘶𝘮 𝘴𝘶𝘴𝘵𝘰
chega a Santa Maria
gracejando
mas à vista da sala
fica mudo
onde o afeitam já
sumariamente
vinte minutos mais e o
ascensor
leva o pobre do corpo
até à faca
não pensa noutra coisa:
o seu enterro
Esta é a capa do JL nº 1429, que se supõe ser o último
número.
O director, José Carlos de Vasconcelos, escreve um
angustiante texto em que nos diz que o «JL
não pode morrer?...»
«… porque não sei o que dizer aos nossos
leitores e amigos sobre o futuro do JL. Não sei mesmo se ele voltará a sair…»
Quando em Março de 1981, surgiu o JL, Fernando Namora
gostou muito «sob todos os aspectos»,
Natália Correia também, porque «vem dar a
mão àqueles que estão ávidos de estímulos culturais para se libertarem da
intoxicação política», Miller Guerra também gostou porque há muito se
aguardava um jornal como o JL, mas acabou por notar que a «natureza da colaboração e a sua qualidade, embora excelentes, tornam a
sua leitura, pelo menos para algumas camadas de leitores, um pouco pesada.».
Teresa Clara Gomes foi taxativa:
«Desiludiu-me. Esperava um jornal que me
desse gosto ler., saiu-me mais um dever que um prazer. Acho o conjunto pesado,
tanto na paginação como no conteúdo. Lamento, além disso, o tradicional
elitismo do conceito de cultura subjacente à maioria dos textos. Diz-se que é
um jornal de letras, artes e ideais, e os ideais quase não tocam o tecido cultural
do nosso quotidiano. Esquecem-se, além disso, certas expressões culturais que
nascem de criadores não intelectuais. Espero que isso seja e acidental e não
corresponda a uma intenção dos responsáveis.»
No editorial poderia ler-se: «O JL é, ou pretende ser – na sua origem, no seu estilo e nos seus
objectivos, -algo de novo entre
Nós (…) queremos ser um quinzenário de
cultura potencialmente para toda a gente. Recusamos, pois os códigos das
linguagens cifradas e os exercícios herméticos para pretensos iluminados».
Havia um espaço a ocupar e entendeu-se que o JL iria preencher
esse espaço. Passados 44 anos, salvo alguns episódios, não o terá conseguido.
O JL saía, então, às terças-feiras e custava vinte e
cinco escudos.
É esta a ficha técnica e os colaboradores do 1º número do JL.
Sempre fui um gostador de crónicas de jornal.
Já
o disse por aqui mais que uma vez. Há também uma rubrica, Cronicando por Aí
que, volta e meia, aloja crónicas que vou lendo.
Ia
dizer que quase de certeza fiz colecção das crónicas que o Fernando Assis Pacheco
escreveu para o jornal Record, todos os sábados, entre 22 de Abril e 25
de Novembro de 1972.
Ao
contrário de uma certa múmia, sou mais de dúvidas do que certezas, mas um dia
perguntei à minha mãe sobre as caixas que deixara na despensa quando saí de lá.
«Foram para o lixo! Era
só papelada velha!...»
Comprava
os jornais no Kioske da Paiva Couceiro e, se o tempo não era de chuva, abancava
num banco do jardim da Paiva e devorava a crónica do Assis.
Faltam
as crónicas do Record mas tenho esta, a que encima o texto, mas que, por
artes não sei de quê, um dia encontrei dentro do Cau Kien: um resumo, foi publicada
no Diário de Lisboa s/d, muito antes do 25 do 4.
A
mãe de nariz torcido.
-Falta um botão nos
calções.
- Se calhar caiu…
- Se calhar puseste-o
na caixa dos jogadores. Mostra lá.
O grande Zarra: uma peça para museu, Assis dixit.
Texto
de Fernando Assis Pacheco para a contracapa de No Antigamente Na Vida de
José Luandino Vieira.
Textos de:
Regina Louro,
Francisco José Viegas, Mário Cláudio, Fernando DaCosta, Eugénio de Andrade, Fernando
Assis Pacheco, Hélia Correia, José Cardoso Pires, Mário Ventura, Al Berto,
Lídia Jorge, Viale Moutinho, João de Melo
Capa: João
Machado
Círculo de
Lisboa, Dezembro de 1991.
A vila de Peniche estava toda retalhada por água. Uma
pequena casa envelhecera mesmo dentro do mar, sobre um montículo de pedra e
sedimento. Os pássaros soltavam os seus gritos, feitos para superar o estrondo
das tormentas. Os barcos acolhiam-se ao redor do grande lombo de cimento e
rocha que com eles dormitava, num embalo.
- Foi uma ilha, sabe?
- O quê?
- Peniche.
Mas sob as rodas sentia-se a firmeza do alcatrão.
Mário parou o carro junto ao forte que era agora um
museu da Resistência.
-Quer entrar? – perguntou.
- Não – disse a mãe. Parecia muito desinteressada.
Talvez sentisse fome ou não quisesse, não suportasse recordar-se mais. Dava
aquela viagem por cumprida.
A prisão, pensou ele, tinha a matéria e a alma de um
rochedo. Estava misturada com as ondas. Talvez o seu avô se confortasse com
aquela presença familiar, talvez se distraísse com as fúrias e os arrulhos da
rebentação. Alguns homens haviam-se atirado, nadado para longe, confiando no
mar e não na terra para fugir. Isso fora ainda antes de ele nascer, supunha;
fora há muito tempo já. As coisas que os moveram, que os trouxeram para aqui,
também se consumiram e passaram. «Nunca conhecerei as suas vidas.»
Arrancou devagar, contra o sol baixo.
- No Verão, é tudo bem diferente – disse a mãe. – Há muita
gente, os dias são compridos. Espero que fosse Verão quando ele vinha. Hás-de
pintar um qiadro do Verão.
Mário riu-se:
- Para quê? A mão não gosta.
- Gosto – respondeu ela. – Não entendo, mas nós nunca entendemos muita coisa.
Fernando Assis
Pacheco, quando entrevistou Carlos Paredes para os seus Retratos
Falados, intitulou a entrevista: «O Filho do Rei Artur».
Carlos Paredes
era um homem que detestava falar de si próprio.
J. Plácido
Júnior que assina, na revista Visão, a evocação dos 100 anos do
nascimento de Carlos Paredes, conta a seguinte história:
«Se como pessoa e músico, provocava emoções fortes em
terceiros, Paredes era, em contraponto, de uma modéstia desmesurada. Um bom
exemplo está numa história relatada pelo jornalista e escritor António Costa
Santos, que perdeu a conta às entrevistas que lhe fez. Numa dessas vezes, levou
consigo o álbum Espelho de Sons, de 1988, para o guitarrista lhe autografar a
capa. “E ele escreveu: “Com a admiração do Carlos Paredes.” António Costa
Santos ficou estupefacto: “Ó Paredes, então vai pôr-me aqui com admiração?!...
Quem o admira sou eu” Que não defendia-se o guitarrista, “O amigo é muito
importante”. Conclusão: “Não posso mostrar isto a ninguém. É uma vergonha”,
ri-se hoje António Costa Santos, embora na altura tenha ficado virado do avesso
com Paredes.”»
Fernando Assis Pacheco lembra a Carlos Paredes que, em
Maputo, foi aplaudido de pé no final do espectáculo.
Paredes lembra logo que as palmas não foram para ele,
mas para o Malangatana - «já viu o meu descaramento?» - porque
atreveu-se a pedir ao pintor que no palco pintasse um quadro enquanto ia
improvisando música de acordo com o que via surgir na tela.
«O Malangatana prezou de tal maneira este contacto com
um músico português que escolheu três telas virgens, oferecidas por um grande
pintor moçambicano seu mestre e, sobre elas fez três quadros. Entendemo-nos
perfeitamente. Eu ia vendo surgir as cores e as formas, e entusiasmava-me.»
Rui Vieira Nery,
num artigo no JL:
«Raros terão sido os criadores musicais portugueses
das últimas décadas, em qualquer género, que tanto tenham marcado, como
referência indispensável e querida, o nosso imaginário musical e o nosso prazer
elementar de ouvir música.»
O pintor Júlio
Pomar:
«O país onde o Carlos Paredes fez a sua música numa
nuvem de merda com algodão em rama por fora. O que dava arranjo a certos que
hoje ainda choram de saudades desses tempos.»
A escritora
Lídia Jorge:
Cresci e fiz-me adulta, pensando que a guitarra
portuguesa era o Paredes. Isto é, a guitarra portuguesa e Paredes eram, para
mim, coincidentes, mesmo uma única coisa.»
A este génio, a este talento do tamanho do mundo, a ditadura portuguesa, nos princípios dos anos 60, atirou-o para os calaboiços da PIDE. Esteve lá um ano e meio, acabando por expulso da função pública, após o julgamento.
Ruy Vieira Nery:
«Era um príncipe que não soubemos merecer. E no momento desta última despedida só consigo lembrar-me das palavras do Hamlet: Adeus, doce príncipe»
«No dia em que me cruzar com o russo que me atirar à cara o “Guerra e Paz” e o americano que me tente ofuscar com o Grand Canyon, eu pergunto-lhes: “Têm dois minutos e vinte e sete segundos?” Se não, pior para eles. Se sim, ficarão agradecidos para o resto da vida. Ponho-os a ouvir “Mar Goês”.
Mar Goês é a prova que sim. Sim, um dia os portugueses entraram em pequenos barcos e tornaram o mundo grande, porque completo. Havia de ser um amanuense do Hospital de São José, um tímido com andar estranho, que me confirmaria que já houve portugueses fortes. Os dedos de Carlos Paredes são como os lenhadores do pinhal de Leiria, são como o marinheiro que subia à gávea, são como o capitão que dizia por ali e não cedia.»
Ferreira Fernandes
Textos de Adelino
Gomes e Fernando Assis Pacheco
Fotografias de Abel
Fonseca, Alberto Peixoto
Alfredo Cunha, António
Xavier, Armando Vidal, Carlos Gil, Correia dos Santos, Eduardo Baião, Eduardo
Gageiro, Fernando Baião, Francisco Ferreira, Inácio Ludgero, João Ribeiro, José
Antunes, José Tavares, Lobo Pimentel Jr., Miranda Castela, Novo Ribeiro, Rui
Pacheco, Teresa Montserrat
Capa: Luís Filipe da
Conceição
Colecção: 25 de Abril,
Os Dias da Revolução nº 1
Edição Fac-simile A
Bela e o Monstro/Jornal Público
Ter um povo, ou a parte sã de um povo, respondido à memória da
violência somente com a alegria recém-descoberta, eis o que não acaba de
maravilhar-me. Outros dias vieram depois, e já sabíamos que seriam ácidos e
cortantes. Mas a explosão inicial continua nos meus ouvidos e nos meus olhos,
intensíssima. 1385, 1640, 1910 foram assim? Permito-me duvidar.
Este não é o dia seguinte do dia que foi
ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.
A Pátria não se discute: defende-se ,diziam os inqualificáveis, por tudo e mais alguma coisa, deputados da assembleia nacional e todos os defensores da ratazana de Santa Comba.
Uma guerra colonial sem sentido, cruel, inútil.
- 820 mil jovens terão sido mobilizados para Angola, Guiné e Moçambique.
- 14 mil mortos.
- 40 mil estropiados e deficientes.
- 140 mil antigos combatentes sofrem de “stress” de guerra.
Sabemos destes números.
Estarão estes números correctos?
No seu livro Memórias das Guerras Coloniais, João Paulo Guerra escreveu: não há estatísticas
para a solidão, a ansiedade, o medo, o sofrimento, a dor.
As dolorosas despedidas dos barcos na Rocha de Conde d’Óbidos.
«Ponho-me a pensar. Ou por outra, não penso peva: vou; e é chato.
Ir assim de charola é a cabronada mais miserável que se pode fazer»
Fernando Assis Pacheco em Walt
Há feridas que custam a cicatrizar, mas não podemos admitir o silêncio.
«Adeus até ao meu regresso!»
Se se lembram, não nos obriguem a esquecer.
A imagem no topo mostra um anúncio que o ultra-salazarista Francisco Casal-Ribeiro fez publicar no dia 5 de Agosto de 1967 no Jornal do Oeste:
«Tenho três filhos, qualquer deles a atingir o momento de servir a
Pátria.
Um deles é alferes piloto aviador, em vésperas de partir para África. São os meus três filhos o meu único tesouro, e se é certo que sentirei, como qualquer outro pai, a sua ausência, orgulhar-me-ei de os ver no cumprimento da missão que lhes couber. Para eles, apenas pedirei a Deus que os proteja, os traga em boa hora e com a consciência do dever cumprido».
Este mesmo deputado, um verdadeiro escroque, ou ainda muito pior, da clique salazarista/caetanista, na assembleia nacional perguntava a Mota Amaral, integrante da ala liberal, que teria dito que Portugal estava numa guerra que pode perder e que a questão era política:
«Eu bem sei que V. Exa. é
muito novo. Ó Sr. Deputado, desculpe, que idade tem?
O Orador [Mota Amaral]: – Tenho trinta anos.
O Sr. Casal-Ribeiro: – O Sr. Deputado fez serviço militar?
O Orador: – Cumpri todas as minhas obrigações militares, Sr. Deputado.
O Sr. Casal-Ribeiro: – E o Sr. Deputado foi à África?
O Orador: – Não estive na África.
O Sr. Casal-Ribeiro: – Ai que pena! Ai que pena!»
Repito: Ai que pena! Ai que pena!»
Dramaticamente miserável!
Por hoje, nada mais se adianta.
Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.
O recorte de hoje pertence ao jornal República
de 14 de Julho de 1972.
O poeta Fernando Assis Pacheco ofereceu ao autor um exemplar de Câu Kiên: um resumo e o autor demonstra a sua felicidade.
Pela oferta
e pela excelência da obra.
O mundo nunca deixou de viver sem a infernal presença da guerra.
Nunca.
Aquela guerra tinha nomes e lugares de outra
parte do mundo.
O poeta era português, queria colocar os
nomes das terras e das gentes, mas
existiam censores-analfabetos.
O poeta era Fernando Assis Pacheco.
Em Maio de 1972 chamou ao livrinho: «CÂU KIÊN: UM RESUMO».
Em Maio de 1976, finalmente, chamou ao
livrinho: «CATALABANZA QUILOLO E VOLTA.»
Neste último livrinho, o poeta escreveu:
«Catalabalanza
Quilolo e Volta é basicamente a versão original de um título que publiquei em
Maio de 1972, Câu Kiên: um resumo, tirado a 500 exemplares para ofertas.
A toponímia
vietnamita, e outros disfarces de circunstância, não têm razão de ser. Reposto
o texto tal como era, junto agora alguns poemas, todas da mesma época e quase
todos considerados para o Câu Kiên, mas então eliminados.
Catabalanza vai
dedicado a João Cabral de Andrade, um amigo morto em Angola.
F.A.P.»
Tanto em Cãu Kiên, como em Catabalanza, Quilolo
as palavras são as mesmas.
Monólogo e Explicação.
Mas não puxei
atrás a culatra,
não limpei o óleo
do cano,
dizem que a guerra
mata: a minha
desfez-me logo à
chegada.
Não houve pois
cercos, balas
que demovessem
este forçado.
Viram-no à mesa
com grandes livros,
com grandes copos,
grandes mãos aterradas.
Viram-no mijar à
noite nas tábuas
ou nas poucas
ervas meio rapadas.
Olhar os morros,
como se entendesse
o seu torpor de
terra plácida.
Folheando uns
papéis que sobraram
lembra-se agora de
haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os
ossos e não sai.
Fernando Assis Pacheco
«Pode esquecer-se a guerra, mas ela não nos esquece. Deu cabo da nossa juventude e há-de dar cabo da nossa velhice».
Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.
Pequena viagem por alguns livros que retratam a vida sombria que os portugueses viviam antes do 25 de Abril:
1.
«Entre 1904 e
1914, entre os vinte e os trinta anos, tinha viajado por toda a Europa, durante
as férias universitárias, para completar a sua educação, segundo o desejo do
seu pai. Um Verão, quando voltava de Londres, ao ir embarcar em Valência para
Nápoles, tinha passado por Portugal. Tinha posto a si mesmo mil perguntas sobre
o declínio dessa nação cujo império se tinha estendido à volta do Globo. Tinha
conhecido escritores que não escreviam para ninguém; homens políticos que
governavam para os Ingleses; homens de negócios que liquidavam os seus
estabelecimentos do Brasil e viviam de pequenas rendas, em cidades de
província, sem finalidade. Ele tinha pensado que era a pior das infelicidades
nascer Português. Em Lisboa, pela primeira vez na vida, tinha-se encontrado com
um povo que se tinha desinteressado.»
Roger Vailland em A Lei
2.
«Não há mais que silêncio em toda esta cidade. Silêncio e fome. Acabo de percorrer toda a Rua do Ouro e a Rua Augusta e reparei que ninguém falava. As pessoas cruzam-se em silêncio, e mesmo que se conheçam não se cumprimentam.»
Reynaldo Arenas em O Mundo Alucinante
3.
«Estamos catalogados, estamos empalhados dentro de uma redoma de vidro, mergulhados num frasco com álcool, isolados de tudo e com um rótulo debaixo dos pés. O rótulo puseram-no os outros; nós consentimos, acomodámo-nos e vamos vivendo com ele. Mas tudo pode desfazer-se dum momento para o outro. Sei o que fui, sei ainda o que sou. Mas tal não contribui em nada para o que serei. Um só gesto e os outros vêm ao museu onde estamos embalsamados, arrancam-nos o rótulo, não querem mais saber de nós, dizem que traímos. O que fomos? O que ainda ontem fomos? Os gestos que fizemos? Não. Não querem saber, Podem ter sido gestos da mais espantosa pureza, que em nada contribuem para que os outros nos perdoem. Pelo contrário. Esses gestos, pela sua própria beleza, mais ainda nos condenam, mais ainda nos enterram.»
Augusto Abelaira em A Cidade das Flores
4.
«Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito, o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!»
Mário Sacramento em Carta-Testamento
5.
«Nesse mesmo
dia o Tinoco deu ordem à mulher-pide que não me deixasse ir à casa de banho
enquanto eu não falasse e que as minhas necessidades eram feitas ali mesmo na
frente deles e limpas com a minha roupa.
Foi-me novamente perguntado de não falava. Garantiram-me que ia ficar nua e que depois iam entrar os cavalheiros e sair as senhoras. Perante a minha negativa a pide Madalena começou aos pontapés e a bater-me enquanto me despia. Surge então um pide com uma máquina fotográfica. O Serra dava-me murros no queixo para eu levantar a cabeça. Tinha alucinações, não conseguia manter-me de pé.
Maria da Conceição Matos Abrantes
6
Diz-lhes que se resiste na cidade desfigurada por feridas de granadas e enquanto a água e os víveres escasseiam aumenta a raiva e a esperança reproduz-se.»
Egito Gonçalves em Notícias do Bloqueio
7.
Como hei-de
amar serenamente com tantos amigos na prisão.
Fernando Assis Pacheco
«Quando
já não me indignar terei começado a envelhecer».
Em 1963, quase clandestinamente, o poeta
Fernando Assis Pacheco editou, ao cuidado da revista coimbrã Vértice, o livro de poemas a que chamou Cuidar dos Vivos.
No primeiro verso do poema Poeta no Supermercado, gritava:
«Indignar-me
é o meu signo diário».
E quando o primeiro verso de um poema é
um grito como este, estamos conversados e também tempo para recordar o poema:
1
Indignar-me
é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.
Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte…
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.
2
Um
homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.
Cheio de luz — como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.
E
adiantava:
«Quem chamou porta-aviões à Opinião foi o
Hipólito Clemente, 33 anos, livreiro, poeta de livro publicado, pintor que do
gosto em ler entende que ser vendedor de livros é tão ou mais bonito.»
Oitenta
personagens onde pontificavam escritores, jornalistas, pintores, advogados,
etc., animados de tudo e mais alguma coisa, excepto cifrões, inventaram a
«Opinião» -livraria, discoteca, bar, ponto de reunião.
No Jornalde Crítica de 22 de Outubro de 1971, sai
o primeiro aviso de que brevemente iríamos ter Opinião.
E a Opinião que conseguira lutar contra a censura pidesca encontrou situações insustentáveis após o 25 de Abril. O capital era reduzido, as dívidas foram-se acumulando, os livros tornaram-se objectos de luxo. Houve meses em que o dinheiro não chegava sequer para os salários e eram necessários dois mil contos que não foram possíveis arranjar e a Banca só emprestava dinheiro a quem o tem ou possa oferecer uma garantia, e Não havia.
Num dos seus bookcionários, Fernando Assis Pacheco resumia a situação:
Corria o ano de 1980 quando deixámos de ter a Opinião.
Mais tarde, no mesmo local, imagem no topo do texto, instalou-se a Editorial Cotovia.
Em Novembro de 2020 a Cotovia fechou portas.
Hoje, não sei o que está no espaço que foi da Opinião e da Cotovia.
Terei, um destes dias, de dar corda aos sapatos e depois dar notícias.
Tanto quanto possa saber, as crónicas que o Fernando
Assis Pacheco escreveu nos anos 60 no Diário de Lisboa. Por esse tempo nesse
jornal todos os redactores , na página 3, escreviam uma crónica, crónicas lindíssimas de um
quotidiano cinzento e triste.
A editora Prelo, em 1968, publicou O Homem Na Cidade, com
um prefácio de Mário Sacramento, que reúne algumas crónicas do Diário de Lisboa escritas pelo Pedro
Alvim, Manuel de Azevedo, Manuel Beça,
Mário Castrim, Félix Correia, Joaquim Letria, Torquato da Luz, Luís d’Oliveira
Nunes, Fernando Assis Pacheco, José Carlos de Vasconcelos.
Esta do Assis Pacheco, que encontrei num velho e
desconjuntado dossier, não está em O Homem Na Cidade.
Mas é bonita de ternurenta, daqueles quotidianos cinzentos e tristes.
Estes versos do Fernando Assis Pacheco, reencontrados
no poema Bah! Da Respiração Assistida, poderiam ter sido escritos por mim se acaso o talento passeasse por aqui:
Fora os livros
não vejo
muita outra coisa
que possa chamar
minha propriedade
Tanto o meu avô, como depois o meu pai, poderiam ter
escrito estes mesmos versos.
Uma família sem nada de seu, sem um pontinho que seja
de simpatia pelos capitalismos.
Livros e mais livros.
Como escreveu o Jorge Silva
Melo:
«E é isso mesmo esta biblioteca simples, tanto livro onde ainda vejo as mãos ansiosas folheando, os olhos ávidos, as vozes contando. E não há nada mais lindo do que sentir as sombras da vida sobre as páginas amarelecidas, sombras de vida, de dor e luz.»
Não há lápides sobre o Babii Iar.
Uma escarpa íngreme
serve de rude sepultura.
Para mim é terrível.
Tenho hoje tantos anos
como o próprio povo hebreu.
Parece-me até –
Que sou judeu.
Eis-me a delirar pelo Egipto antigo.
Aí estou –
pregado numa cruz,
agonizante,
e ainda sinto no corpo a marca dos pregos.
Parece-me que Dreyfus –
sou eu.
A pequena burguesia é o meu denunciador e juiz.
Fiquei desorientado.
Caí no laço.
Perseguido,
escarrado,
caluniado.
E as donzelas de vestido de renda
gritam
e batem-me
no rosto com as sombrinhas.
Parece-me que sou –
um garoto de Bielostok.
O sangue corre, derrama-se pelo chão.
Enfurecem-se os donos das tabernas
e cheiram a vodka com cebola.
Corrido a pontapé, fico exangue.
Em vão
suplico aos organizadores
de «pogroms».
Com o grito «Dá aos judeus, salva a Rússia!»
um tendeiro espanca minha mãe.
Parece-me que sou –
Anne Frank,
transparente como um ramo em Abril.
E amo.
E não precisos de
grandes frases.
Preciso, sim, que olhemos um para o outro.
Como é difícil ver
e cheirar.
Não estão ao nosso alcance as folhas nem o céu.
Mas podemos realmente
- e
isso é terno –
abraçarmo-nos no quarto escuro.
Vem aí alguém?
Não tenhas medo –
é o murmúrio
da própria Primavera.
Ei-la que chega.
Vem tu até mim.
Dá-me
depressa os teus lábios.
Rebentam com a porta?
Não, é o degelo.
As árvores olham ameaçadoras
como juízes.
Aqui tudo grita em silêncio.
Tiro o chapéu
e sinto-me encanecer lentamente.
E eu próprio sou
como
um grito surdo e prolongado
por sobre milhares de mortos aqui enterrados.
Sou –
cada velho aqui
fuzilado.
Sou –
Cada criança aqui
fuzilada.
Oh, meu povo russo,
eu sei que tu és
por essência internacional.
Mas muitas vezes aqueles
que
têm as mãos sujas
jogaram com o teu nome imaculado.
Eu conheço a bondade da minha terra.
Como é miserável
- e sem que lhes
estremeça uma só fibra –
que os anti-semitas pomposamente se chamem
«União do Povo Russo».
Nada em mim se esquecerá disto.
Que atroe os ares
a «Internacional»
quando para sempre baixar à cova
o último anti-semita da Terra.
Não há sangue hebraico no meu sangue.
Mas sou odiado com endurecida maldade
por todos os anti-semitas –
como se fosse hebreu.
E é por isso –
que sou um
russo verdadeiro.
Evgueni Ievtuchenko em Ievtuchenko em Lisboa
NOTA DO EDITOR
Babii Iar, e outros poemas, foram recitados pelo
autor no Teatro Capitólio em 17 de Maio de 1967.
Os poemas, constantes do livro, editado em Junho de
1967 pelas Publicações Dom Quixote, tiveram tradução directa do russo por J. Seabra-Dinis,
com a colaboração de Fernando Assis Pacheco para a versão poética final.
Depois da recitação dos poemas por Ievtuchenko, Fernando
Assis Pacheco leu a respectiva tradução.
Notas dos antologiadores/tradutores para o poema Babbi Iar: