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segunda-feira, 5 de abril de 2021

ISTO AQUI É PARA SENHORAS!


Quem com ele andou, tem dezenas e dezenas de histórias para contar.

Umas serão lendas, outras terão o seu cunho de verdade. Mas todas elas mirabolantes.

Pedro Bandeira Freire, no seu livro Entrefitas e Entretelas, conta uma dessas histórias.

Bandeira Freire não sabe se por engano, por aflição, por pura provocação, Ary dos Santos foi fazer o que tinha para fazer numa casa de banho de um qualquer restaurante.

«Quando ia a sair, cruza-se com uma senhora que ia a entrar e que lhe diz: «Isto aqui é para senhoras!»

 O Ary não hesitou na resposta no tom áspero, cáustico e irónico que, quando o provocavam, era tão dele: «E então? Vejam lá! E eu sou alguma puta, não?»

quarta-feira, 9 de maio de 2018

PORQUE É QUE NÃO APRENDES?


Havia noites em que as senhoras presentes rodeavam o Galarza e ele, por vaidade, ficava imparável e não deixava de dedilhar o piano. Feliz com os dedos a correrem pelas teclas, por momentos inclinando a cabeça para trás, em busca do acorde perfeito, para ouvir melhor ou apenas para dar um ar de músico transcendente e melhor excitar as madames que estavam na sala.
Numa dessas noites de sublime inspiração, o João Franco, com a bebedeira que ainda conservaria se por cá ainda estivesse, encostou-se ao piano e durante muito tempo – o Galarza estava no seu melhor – não tirou os olhos daqueles dedos que corriam desvairados pelas teclas brancas e pretas e, com certeza às vezes pelas duas, digo eu, como se fossem autónimos ou então conduzidos por um ente celestial. Quando acabou, martelando, no bom sentido, o piano com todo o entusiasmo, levantando-se ao mesmo tempo que erguia os braços como os grandes concertistas, recebeu os mais calorosos aplausos. Tinha sido excepcional e o Joâo estava de olhos esbugalhados. De tal forma, que o Galarza lhe perguntou: «Às gostado de mé ouvir?»
E o João respondeu-lhe: «Aqui não se trata de gostar ou de não gostar. O que é espantoso é a tua força, o teu vigor, a forma como tocas. Vê-se mesmo que gostas muito de tocar, não gostas?»
E o Galarza: «Si me gusta? Me encanta!»
E o João: «Então, se é assim, porque é que não aprendes?...»
Foi corrido porta fora pelo porteiro e pelo próprio Galarza ficando com a entrada cortada.

Pedro Bandeira Freire em Entrefitas e Entretelas

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Há longos anos de portas entaipadas, o espaço que foi o Quarteto - «Quatro salas, Quatro filmes», vai ser ocupado para um espaço de escritórios, não importa de quê.

A notícia, via Lusa, foi conhecida nos primeiros meses do ano que findou.

Ontem, passei por lá, ali na Rua Flores do Lima nº 16.

Estão mesmo a decorrer obras.

Um cinema que marcou uma época.

Restam as memórias.

O Quarteto abriu portas no dia 21 de Novembro de 1975, faltavam escassos dias para acontecer a data que marca a história recente do país, houve alguém que se enganou, um sonho lindo que acabou, uma história, ainda, muito mal contada.

Taxi Driver de Martin Scorcese, A Religiosa de Jacques Rivette, All That Jazz de Bob Fosse, exibido em simultâneo nas 4 salas, e tantos, tantos outros filmes.

O último filme que vi no Quarteto, já em condições deploráveis de projecção, as alcatifas cheias de peladas, um silêncio triste, foi Às Segundas ao Sol de Fernando Léon Aranoa, que toma como ponto de partida  um despedimento colectivo ocorrido nos estaleiros de Gijón, no principio da década de 90, e conta a história de um grupo de desempregados desse estaleiro naval, uma história de desempregados, homens condenados à clandestinidade, a amargura muda remoída em cada dia, solidariedades, «como siameses: um cai, o outro ri-se, antes de perceber que caiu também»., de casa para a taberna, da taberna para casa, segundas ao sol, à espera de um golpe de asa que nunca vem.

«A questão não está se nós acreditamos em Deus. A questão é se Deus acredita em nós. Em mim, estou certo que Ele não acredita. Em ti tão pouco, Santa.»

O Quarteto foi a possibilidade de ver cinema, cinema mesmo, para além da parva ditadura das distribuidoras portuguesas de então.

Uma ideia feliz de Pedro Bandeira Freire que entregou o projecto de construção ao Arqt.º Nuno San-Payo.

O edifício era constituído por quatro salas, com lotação de 716 lugares, distribuídas pela cave e 1º andar, à entrada do lado esquerdo ficava a bilheteira, no lado direito o Bar.

O aparecimento das salas pipocas nos Centros Comerciais ditou a decadência do Quarteto.

A 16 de Novembro de 2007, o espaço foi encerrado no seguimento de uma vistoria da Inspecção-Geral das Actividades Culturais.

Não reunia as condições de segurança exigida.

Pedro Bandeira Freire morreu a 16 de Abril de 2008.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Entrefitas e Entretelas

Pedro Bandeira Freire
Capa: Luís Miguel Castro
Guerra e Paz Editores, Lisboa, Abril de 2007

Olhando para trás, e agora não posso deixar de o fazer, porque com maior obstinação vejo um túnel ao fim da luz, reconheço que tive uma existência encantada, no sentido que se dá às dos contos de fadas. Fui tocado muitas vezes pela varinha mágica com tudo o que isso possa significar de maravilhosos. Fiz obra, despontei um filho, escrevi algumas árvores e plantei vários livros, imaginei uns filmes e muitos fazem parte do meu imaginário, espaireci na rádio e na televisão, andei por esse mundo fora, fiz tudo para pintar a manta e o diabo a quatro e sete.
Tudo isto me submerge numa grande emoção e num sincero sentimento de gratidão que tenho perante a vida.
Tudo acaba? Pois acaba! E daí…