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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Josefa, avó de José Saramago, sentada na soleira da porta, aberta para a noite estrelada, para o céu de que nada sabia e por onde nunca viajaria, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disse, com a serenidade dos seus noventa anos e o fogo duma adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer". Assim mesmo e disto se sabe por que Saramago estava lá nessa noite estrelada e imensa e, com ternura, deixou testemunho nas suas Pequenas Memórias.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Um velho recorte de uma crónica de António Guerreiro publicada no Público de

10 de Setembro de 2021

quarta-feira, 20 de maio de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Continuo a lamentar que a Fundação José Saramago ainda não tenha deitado mãos à tarefa de reunir as cartas que José Saramago trocou com os seus pares e com os seus leitores, apesar das muitas observações que Saramago foi deixando ao longo da vida que é um trabalho importantíssimo.

Apenas existe um volume com a Correspondência trocada com José Rodrigues Miguéis, organização e notas de José Albino Pereira, publicado pela Editorial Caminho, em Abril de 2010.

É desse livro que respigamos uma carta de José Rodrigues Miguéis, datada de Nova Iorque no dia 21 de Maio de 1971:

«Querido Saramago:

Chegou-me há semanas o seu livro de crónicas, que venho agradecer-lhe com algum atraso, porque tencionava, e não me tem sido possível, fazê-lo com mais largas considerações. Pelo que lhe escrevi há tempos, quando me deu a ler algumas delas, já Você sabe o que delas penso. A leitura do volume só me conformou nessa opinião. Não creio que nenhum outro cronista nosso escreva hoje de maneira tão toante, directa e moderna – e tão bem! – sobre os pequenos e grandes quotidianos da nossa vida: humanidade, ironia, e um pessimismo sorridente, isento de amargura. Algumas são pungentes, como a Neve Preta, outras de um sereno humor que contrasta com o tom geral da nossa literatura e jornalismo. Embora reunidas em volume, se acentue o efémero das crónicas de jornal, estas guardam a flagrância dos apontamentos de um pintor-poeta que percorre a paisagem do dia a dia e do lugar, ou a outra, mais funda, das memórias.»

Legenda: entrada de 8 de Agosto de 1998 no Último Caderno de Lanzarote

sexta-feira, 3 de abril de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de para em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez. Depois, foi morrendo no meio de um sonho, estava em Nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendo os ombros e sorrindo também, Nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas. Ainda havia nele um resto de vida quando sentiu que uma esponja embebida em água e vinagre lhe roçava os lábios, e então, olhando para baixo, deu por um homem que se afastava com um balde e uma cana ao ombro. Já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava.

José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Legenda: pintura de Rubens

segunda-feira, 30 de março de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


«José Saramago pode deixar de ser um autor de leitura obrigatória no 12.º ano, podendo os professores escolher em alternativa uma obra de Mário de Carvalho. Esta é uma das alterações previstas na proposta de revisão das aprendizagens essenciais de Português, um documento do Ministério da Educação, que está em consulta pública até dia 28. Alunos do secundário devem ler 60 minutos por dia, ser capazes de interpretar, recriar e debater os textos que lêem e serão avaliados também pela postura e dicção nas apresentações orais.»

Inês Schreck no Público, 30 de Março

A posição da Fundação José Saramago:

«E agora quero também agradecer aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de agora: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar.»

Com esta frase terminava José Saramago o seu discurso  de agradecimento do Prémio Nobel, a 10 de dezembro de 1998. A Fundação José Saramago considera conveniente recordá-la diante das notícias ontem tornadas públicas, relativas a uma possível alteração na lista de livros de leitura obrigatória para o 12.º ano, que se encontra em consulta pública até ao dia 28 de abril.

A posição da Fundação José Saramago será sempre a de agregar, de não excluir, não colocar em comparação ou oposição. Daí que deixemos à Comissão responsável por esta alteração na lista de livros de leitura obrigatória para o 12.º ano a sugestão de trocar a palavra “ou” pela palavra “e”, juntando a José Saramago o escritor Mário de Carvalho, merecedor de toda a admiração e abrindo assim a porta a que outras e outros escritores participem também na formação das novas gerações de leitores.

De qualquer forma, não podemos deixar de colocar duas questões:
— Qual o critério para esta alteração?
— Se esta alteração também abrangerá outros autores que integram o cânone da Literatura Portuguesa, colocando-os como de leitura sugerida e não obrigatória?

 

Lisboa, 30 de março de 2026

domingo, 29 de março de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Segundo o Expresso, José Saramago pode deixar de ser obrigatório no 12.º ano; Camilo Castelo Branco passa a leitura obrigatória.

A proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais de Português, atualmente em consulta pública pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação, retira a obrigatoriedade de obras de José Saramago no ensino secundário.

Na prática, as escolas deixam de estar obrigadas a escolher uma obra do escritor no 12.º ano, passando a poder optar por outros autores. Atualmente, o programa prevê a leitura integral de “Memorial do Convento” ou de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

A proposta prevê ainda que Camilo Castelo Branco passe a leitura obrigatória neste nível de ensino e abre a possibilidade de escolha de obras como “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, de Mário de Carvalho.

Segundo responsáveis da área, a revisão procura aumentar a diversidade de autores e temas trabalhados nas escolas, permitindo maior flexibilidade na escolha das obras.

A alteração, que retira da obrigatoriedade o único Nobel português da Literatura, poderá suscitar debate no meio académico e cultural.

O documento está em consulta pública até 28 de abril e poderá ser ajustado antes de entrar em vigor no próximo ano letivo.

Entretanto, o Rui Ornelas enviou-nos um texto, da autoria de Daniel Bento, publicado na NetLetter, e que passamos a apresentar:

«A vida podia ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe arrancar as pétalas”. Quando se lembraram da famosa citação de José Saramago em “Memorial do Convento”, Rui Taveira, José Taveira e Sofia Oliveira não tiveram dúvidas: tinham encontrado a frase que inspiraria o projeto que tinham em mãos.

“Todas as nossas ideias começam com uma frase, geralmente de um autor que gostamos. Tentamos fazer uma ligação da arquitetura com o mundo das artes. Pode ser a literatura, o cinema ou qualquer outra área”, explicam à NiT, acrescentando que olham para o seu trabalho como “poesia materializada”.

Fiel a esta visão, o trio desenhou uma casa inovadora na ilha de Yakushima, no Japão, local classificado como Património Mundial da UNESCO. Batizada “Life could just be” — como no início das palavras de Saramago — o projeto foi criado para o prestigiado concurso internacional NOT A HOTEL Design Competition 2026.

O resultado final tornou Rui, José e Sofia parte dos 10 finalistas da segunda edição da competição, tendo-se destacado entre as mais de mil submissões de 113 países. 

Os três arquitetos decidiram participar um mês antes do fim das submissões. “Uma equipa espanhola entrou em contacto connosco para entrarmos juntos. Ainda não estávamos a par, mas respondi logo a dizer que também estávamos a concorrer”, recorda Rui, que se apressou a ligar ao irmão e à amiga para os desafiar.

Nenhum hesitou. Até porque, ao contrário dos concursos em que já tinham participado, em Portugal, “havia muito menos limitações”. A única exigência era que todos os profissionais tivessem menos de 40 anos e desenhassem um T3, com suites e piscina, em Yakushima. “A nível de criatividade, estávamos soltos.”

Os três têm valências em áreas complementares. Rui trabalha no atelier de arquitetura Frederico Valssassina, enquanto o irmão, José faz parte do estúdio de imagens em 3D uto.vz. Conheceram Sofia durante a faculdade, criativa que agora trabalha a solo. “Somos super próximos e, sempre que há uma competição, queremos participar”, confessa.

O primeiro passo foi estudar o “ambiente super específico” da região, um local tropical e com muita chuva. Através de videos e imagens, perceberam que naquele terreno, onde não havia grande envolvente, poderia haver problemas como a humidade ou a densidade da vegetação.

A solução foi a escolha de materiais que pudessem envelhecer bem e não “propostas artificiais”. Optaram por opções como o betão para que, ao longo do tempo, o musgo que pode aparecer no exterior ou manchas mais escuras “não fossem vistas como algo a evitar, mas como a casa a pertencer cada vez mais à ilha.”

Vista de fora, a habitação foi pensada como um volume mais pesado, quase como uma pedra que pertence aquele solo. “Tentámos encontrar um bom equilíbrio entre aquilo que a [plataforma japonesa de casas de férias de luxo com design de autor] Not a Hotel gosta e o que a localização pedia”, explica Rui.

Juntaram ainda uma pala na parte da frente, “como uma folha suspensa” que esconde o resto da moradia. É um “momento mais leve” que recebe a pessoa e que lhe permite “absorver o máximo possível da ilha” com relativa proteção: não estamos fechados, vemos a chuva e sentimos o vento, mas ao mesmo tempo é um espaço coberto.

Todos os detalhes foram pensados para fazer uma casa luxuosa, mas não de forma convencional. Rui, José e Sofia interpretaram o conceito do “luxo do tempo” à sua maneira, respondendo a uma questão que se colocaram uns aos outros várias vezes: o que é uma casa de férias que seja uma pausa neste ritmo frenético?

Acabaram por perceber, explicam, que “a ilha, por si só, já tinha todo o valor necessário” e que a abordagem nunca seria competir com a beleza do local. “Decidimos fazer um projeto que passasse despercebido, quase invisível. Algo que fosse aceite e que permitisse conhecer a ilha por dentro.”

Quanto à possibilidade de ver a casa construída, começam por defender que, mais do que “aos problemas do mundo real”, é a parte criativa da arquitetura que os três mais gostam de explorar. “Damos muita importância a esta parte teórica. As formas representam essa ambição criativa e poética.”

Não escondem, por isso, a felicidade de terem sido reconhecidos por um júri que incluiu nomes como Bjarke Ingels ou Sou Fujimoto. “Tentámos manter uma postura confiante, mas sabíamos que podia não dar certo. A oportunidade de fazer esta viagem, conhecer estes arquitetos é o prémio mais incrível.”

A verdade é que já se imaginam sentados num terreno em Yakushima, a segurar um malmequer, mas sem lhe arrancar as pétalas. “Por serem já sabidas as respostas, ou por serem estas de tão pouca importância que descobri-las não valeria a vida de uma flor”, como termina a citação de Saramago.»

terça-feira, 17 de março de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Quando por nós descobrimos algo que nos agrada e acompanha pela vida, isso tem outro valor, um valor superlativo.

Jorge Luís Borges dizia que a existir um paraíso, teria a forma de uma biblioteca.

No seu Último Caderno Saramago deixou escrito:

«Continuarei a dizer que a literatura não muda o mundo, mas cada vez maisb vou tendo razões para acreditar que a vida de uma pessoa pode ser transformada por um simples livro».

Como é que Saramago descobriu as palavras?

Em livros, em entrevistas deixou expresso como aconteceu essa descoberta.

Na longa conversa que manteve com a Juan Arias, disse:

«Não tive um livro meu até os dezoito anos e, mesmo assim, os livros que tive, os que comprei, comprei com o dinheiro que um colega mais velho que eu me emprestou. Creio que foram uns trezentos escudos, o que equivaleria a um euro e cinquenta centavos. Com isso pude comprar alguns livros.(1) Antes, eu já havia lido muitíssimo nas bibliotecas públicas, lia de noite. Depois de jantar ia andando, apesar de ficar longe de casa, até a Biblioteca do Palácio Galveias, e até a hora de fechar lia tudo o que podia, sem nenhuma orientação, sem ninguém que me dissesse se aquilo era muito ou pouco para mim. Lia tudo o que me parecia interessante. Os nossos autores eu conhecia pelas aulas, mas tudo o que tinha a ver com autores de outros países, nada, não tinha a menor ideia, mas depois você vai se dando conta de que existe um senhor que se chama Balzac e outro Cervantes, et cetera. Pouco a pouco ia entrando por esse bosque e encontrava frutos que depois fui assimilando, cada um à sua maneira». 

Não chegou à Universidade, mas as respostas encontrou-as nos livros em que tinha  começado a estudar, e quando trabalhava, como serralheiro mecânico numa oficina de reparação de automóveis, utilizou o período nocturno da Biblioteca de Galveias para uma procura de respostas às perguntas que. no dia-a-dia lhe ocorriam.

Como deixou escrito em A Caverna:

«Felizmente, existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro? Que ensinava a cozer os barros, e o livro finalmente convocado, aparece, está aqui nas mãos de marta enquanto o pai e o livro, finalmente convocado, aparece.»

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Na sua Viagem a Portugal, quando José Saramago passou por Aveiro, quis ir comer ao Palhuça, onde tinha comido uma sopa de peixe que lhe ficou na memória.

Assim Saramago nos conta:

«Quando ao viajante dá o apetite do almoço, vem dos confins da memória uma recordação. Em Aveiro comeu ele, há muitos anos, uma sopa de peixe que até hoje lhe ficou na retentiva do olfacto e das papilas da língua. Quer verificar se os milagres se repetem, e vai perguntar onde é o Plhuça, quwe assim se chama a casa de pasto onde se dera a aparição. Já não há Palhuça está agora a cozinhar para os anjos, ou talvez para a princesa Santa joana, a sua patrícia, acima deste cinzento céu. Baixa o viajante a cabeça, vencido, e vai comer a outro lado. Não comeu mal, mas nem a sopa era do Palhuça, nem o viajantes era o mesmo: tinham passado muitos anos.

O que terá levado, sem dar qualquer palha, Saramago a ir comer a outro lado. Para além da ausência do Palhuça, que desagrado sentiu o viajante? 

Ele esteve por Aveiro há uns três anos, andou à procura do Café Trianon, onde Mário Sacramento reunia com amigos e camaradas, mas o café deu lugar, como um pouco por toda a parte, a um banco.

Pelos inícios dos anos 60, esteve a passar férias, em casa de avós, no Fontão, e lembrava uma caldeirada de enguias comida em Angeja, a cor amarelada, o sabor do açafrão.

Foi o que pediu: caldeirada de enguias à moda de Aveiro.

A juntar à má cara do dono do Palhuça, que queria que os clientes se despachassem para dar lugar aos que na rua esperavam por lugar, a caldeirada estava um desastre.

Uma aguada amarelada repleta de batata (pouco saborosa, diga-se,  a receita pede batata “olho de perdiz”), 4 enguias, nenhum golpe de vinagre, nenhuma tira de pimento, um verdadeiro desconsolo!...

Tal como escreveu Saramago: deveria ter ido comer a outro lado.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 

José Saramago não gostava do Natal. Tão pouco de festas de aniversário.

Talvez reflexo de uma infância e de uma adolescência muito difíceis o Natal, para Saramago, não foi um toque de mágica. 

Deixou escrito numa crónica; para incréus empedernidos como eu, o caso não tem assim tanta importância: é mais uma das trezentas mil datas assinaladas de que se servem inteligentemente as religiões para aferventar crenças que no passar do tempo se tornariam letra morta e água chilra. 

De uma maneira seca, quase definitiva, finalizou um poema: É dia de Natal. Nada acontece.

Podia ser Natal e não ser farsa, como escreveu António Manuel Ribeiro numa canção dos “UHF”.

Na obra lida de José Saramago, encontrei três abordagens ao Natal.

O poema Natal em Os Poemas Possíveis,  a crónica A Neve Preta em Deste Mundo e do Outro e outra crónica em A Bagagem do Viajante que, precisamente, intitulou Natalmente crónica.

Tenho conhecimento que na revista “Colóquio/Letras” nº 151/152, Fevereiro 2000, totalmente dedicada a José Saramago, está publicado um conto inédito: Natal.

Fica aqui o excerto de A Neve Preta que consta do livro de crónicas Deste Mundo e do Outro:

«Estes pequenos filhos dos homens têm andado pelas minhas crónicas. Mas de crianças tenho falado como quem as conhece bem, só porque também por lá passou. E agora pergunto: que são as crianças? Dez mil pedagogos se preparam para me responder. Afasto de antemão as respostas, umas que já conheço, outras que adivinho, e torno a perguntar: que são crianças?

Que seres estranhos são esses que viram para nós os seus rostos frescos, que nos perturbam às vezes com um olhar subitamente profundo e sábio, que são irónicos e gentis, débeis e implacáveis, e sempre tão alheios? Temos pressa de os ver crescer, de os admitir no clã dos adultos sem surpresas. Somos impacientes, nervosos, porque estamos diante de uma espécie desconhecida... Quando passam a ser nossos iguais, falamos-lhes da infância que tiveram (a que recordamos, como observadores do lado de fora) e sentimo-nos quase ofendidos porque eles não gostam de ouvir lembrar uma situação em que já não se reconhecem. São adultos, agora: outra espécie humana, portanto.
Nessa infância está, por exemplo, a história que vou contar e que devo a um desses tais encontros de acaso. E depois de eu a reproduzir aqui, dir-me-ão se não tenho razões para insistir: é preciso cuidado com as crianças... Não o cuidado comum, que tende a prevenir acidentes, aqueles que aparecem sob esta rubrica nas notícias dos jornais, mas um outro cuidado, mais melindroso e subtil. Eu explico.
Uma professora mandou um dia aos seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Não falou assim, claro. Disse uma frase como esta: «Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira.» Assim ou não assim, os alunos fizeram o trabalho. Apareceu tudo quanto é costume aparecer nestes casos: o presépio, os Reis Magos, os pastores, S. José, a Virgem e o Menino Jesus. Mal feitos, bem feitos, toscos ou apuradinhos, os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da professora. Ali mesmo ela os viu e apreciou. Ia marcando «bom», «mau», «suficiente», enfim, os transes por que todos nós passámos. De repente... Ah, mas é preciso muito cuidado com as crianças! A professora segura um desenho nas mãos, e esse desenho não é melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está perturbada; o desenho mostra o inevitável presépio, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
«Porquê?», pergunta a professora, em voz alta, à criança. O rapazinho não responde. Talvez mais nervosa do que quer mostrar, a professora insiste. Há na sala os cruéis risos e murmúrios de rigor nestas situações. A criança está de pé, muito séria, um pouco trémula. E, por fim, responde: «Fiz a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu...»
Daqui por um mês chegaremos à Lua. Mas quando e como chegaremos nós ao espírito de uma criança que pinta a neve preta porque a mãe lhe morreu?»

José Saramago em Deste Mundo e do Outro, página 189.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

SUBLINHADOS SARAMGUIANOS


Ao passar os olhos pela Loja Frenesi, vi que a 2ª edição

de Levantado do Chão de José Saramago está à venda.

Paulo da Costa Domingos, há longo tempo, proprietário da Frenesi, adianta:

LEVANTADO DO CHÃO

JOSÉ SARAMAGO
capa e arranjo gráfico de José Araújo
Lisboa, 1983
Editorial Caminho
4.ª edição
210 mm x 137 mm
368 págs.
exemplar estimado; miolo limpo
VALORIZADO PELA DEDICATÓRIA MANUSCRITA DO AUTOR
95,00 eur (IVA e portes incluídos)

«É o livro charneira na obra do escritor. Antes, independentemente das suas qualidades reconhecidas entre pares na arte, era um escritor encurralado por um crónico reduzido número de vendas; o vertente romance projectá-lo-á entre os leitores vulgares de Lineu, trazendo-lhe uma justa admiração crescente. A controvérsia que sempre os seus romances causaram – a pontos de um ministro de Estado passar a ser conhecido pela triste figura de ignorante que fez ao vetar a candidatura de Saramago a um prémio literário – radica apenas no preconceito ideológico contra as vozes de um partido político. No geral os seus adversários nunca o leram, porque a maior homenagem a um escritor é ser lido.
Do vertente livro disse a professora universitária Maria Lúcia Lepecki:
«[...] Construído numa dignidade de linguagem de todo invulgar, numa beleza conteudística e formal quase dolorosa, espelho do modo afectivo e inteligente como José Saramago está no mundo enquanto homem político e intelectual, Levantado do Chão é, mais que envolvente, avassalador. Uma força da natureza, se tal é lícito chamar a um produto cultural.»
Esta 4.ª edição ainda apresenta impresso na portada um núcleo de dedicatórias, encimado por «À Isabel [da Nóbrega], sempre», que o escritor fará desaparecer em posteriores reedições.»

 

Este pormenor das dedicatórias que José Saramago retirou, a partir de um certo tempo, retirando o nome de Isabel da Nóbrega para passar a colocar Pilar del Rio, tem servido a muito boa gente para desmerecer o nome de José Saramago.

Saramago pronunciou-se por várias vezes sobre o assunto, garantindo que as dedicatórias fizeram sentido na altura em que essas edições foram publicadas. E essas edições, já esgotadas, permanecem em sintonia com as inclinações amorosas da altura, o tempo em que os livros foram escritos.

No Cais, aqui e aqui, tratámos o assunto.

Em 19 de Setembro de 2021, na sua crónica no Ipsilon, do jornal Público,António Guerreiro citava uma observação, a propósito das dedicatórias, feita por Joana Mourão Carvalho:

Saramaguiano que sou, tento alhear-me destas miudezas, porque sabe-se que as paixões são o que são, e o importante está na obra de José Saramago. 

domingo, 30 de novembro de 2025

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

«Contei noutro lugar como e porquê me chamo Saramago. Que esse Saramago não era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo o meu pai a declarar no Registo Civil da Golegã o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcionário (chamava-se ele Silvino) estava bêbado (por despeito, disso o acusaria sempre meu pai), e que, sob os efeitos do álcool e sem que ninguém se tivesse apercebido da onomástica fraude, decidiu, por sua conta e risco, acrescentar Saramago ao lacónico José de Sousa que meu pai pretendia que eu fosse. E que, desta maneira, finalmente, graças a uma intervenção por todas as mostras divina, refiro-me, claro está, a Baco, deus do vinho e daqueles que se excedem a bebê-lo, não precisei de inventar um pseudónimo para, futuro havendo, assinar os meus livros. Sorte, grande sorte minha, foi não ter nascido em qualquer das famílias da Azinhaga que, naquele tempo e por muitos anos mais, tiveram de arrastar as obscenas alcunhas de Pichatada, Curroto e Caralhana.

Entrei na vida marcado com este apelido de Saramago sem que a família o suspeitasse, e foi só aos sete anos, quando, para me matricular na instrução primária, foi necessário apresentar certidão de nascimento, que a verdade saiu nua do poço burocrático, com grande indignação de meu pai, a quem, desde que se tinha mudado para Lisboa, a alcunha desgostava. Mas o pior de tudo foi quando, chamando-se ele unicamente José de Sousa, como ver se podia nos seus papéis, a Lei, severa, desconfiada, quis saber por que bulas tinha ele então um filho cujo nome completo era José de Sousa Saramago. Assim intimado, e para que tudo ficasse no próprio, no são e no honesto, meu pai não teve outro remédio que proceder a uma nova inscrição do seu nome, passando a chamar-se, ele também, José de Sousa Saramago. Suponho que deverá ter sido este o único caso, na história da humanidade, em que foi o filho a dar o nome ao pai. Não nos serviu de muito, nem a nós nem a ela, porque meu pai, firme nas suas antipatias, sempre quis e conseguiu que o tratassem unicamente por Sousa.»

José Saramago em As Pequenas Memórias

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Não gosto de Fundações.

Em Junho de 2007, a Fundação José Saramago fez 18 anos.

 

Texto de Pilar del Río:

«As pessoas, quando nascem, desconhecem o seu destino; as instituições, por outro lado, quando são criadas têm já traçados os seus dias, modos e objetivos de tal forma que descumprir o programa planejado não é fracassar – ato humano – senão é, ou pode ser, um delito. As instituições nascem amparadas por um programa que devem cumprir, não nascem para ser felizes, como as pessoas, embora na origem de algumas instituições o objetivo da felicidade não esteja distante. Digamos que a Fundação José Saramago nasceu para combater o esquecimento, a insensatez, o desprezo a que os seres humanos estão condenados. Ou seja, no fundo nasceu para que o humaníssimo desejo de felicidade possa ser cumpridos não só na vida pessoal daqueles que a geraram, amamentaram, cuidaram e a levaram à maioridade que agora tem, os 18 anos que acaba de completar, vividos dia a dia, tantas vezes contras as marés mais inclementes lançadas por deuses que de mar – e de amar – sabem muito pouco.

Maioridade. Na tarde em que José Saramago aceitou a idéia que lhe foi sugerida por Fernando Gómez Aguilera de criar uma fundação que interpretasse a sua visão de mundo, ou seja, colocasse em marcha uma Fundação que tivesse em conta os seus desejos de vida digna para os seus semelhantes, naquela tarde, decisiva na vida de José Saramago, não se falou de datas, porque há projetos que não têm data de validade. Dizer, naquela época, 18 anos, talvez significasse pouco, mas agora sabemos que, dia a dia, 18 anos é muito, é um esforço invisível que penetra na terra como fertilizante, que está presente e que atua, não se reforma, nem ofende ou humilha, simplesmente repete as palavras de uma declaração de princípios que demonstra que o outro é importante, está aqui, que é nossa incumbência, e nela seguiremos.

A Fundação nasceu para compartilhar culturas e abrir espaços. Também para dizer, na hora certa e também fora de hora, que a Declaração dos Direitos Humanos é uma constituição suprema da humanidade e que enquanto houver pessoas sem teto, sem água, sem escola e sem cuidado médico, viveremos fora da ordem que deveria governar o mundo; e que se permitimos que haja guerras, que a Terra esteja repleta de violência e genocídios (ostensíveis ou silenciosos), é porque aquilo que nos diferencia dos outros seres vivos, o uso da razão e a potência da consciência, desapareceu do planeta. O que levaria a retirar do dicionário e da vida o conceito de dignidade e colocar no seu lugar o “salve-se quem puder” que cada dia está mais em voga.

A Fundação nasceu para contrariar esse modelo, também para ser eco das melhores vozes que existem. Música, teatro, poesia encheram a casa central da Fundação e se espalharam pelo mundo como mensagem de convivência e reconhecimento, cumprindo assim o que está escrita na certidão de nascimento da fundação. A Declaração Universal de Deveres Humanos, projeto irrenunciável que obriga as pessoas, a sociedade e as instituições, tem um passo lento mas permanente. “A vida”, dizem, “já é muito difícil para assumirmos mais deveres”, e não é assim, pelo contrário, se todos estivéssemos implicados com a defesa do meio ambiente, do trabalho que se realiza, do lugar no mundo de todos e de cada um, a existência seria mais agradável para os mais de oito mil milhões de seres humanos que integramos o arquipélago Terra. Existem projetos para que a vida não seja este desespero, a Fundação conhece-os e expande-os, essa é a sua obrigação, nisso militamos. A Fundação José Saramago, que agora completa 18 anos, nasceu para ser, humildemente, uma proposta que enaltece as pessoas, culturas, vozes, projetos e vontades que lutam para superar a cegueira da razão. Seu âmbito de ação é o universo e o coração dos seres humanos. A Fundação é um lugar e um espaço, tem obrigações irrenunciáveis e um mestre. Não é pretensão chamar mestre a José Saramago se, dia a dia, ao ler os seus livros, descobrimos novas generosidades, que é o material de que está feita a Fundação e que define aqueles que a mantêm. Passaram 18 anos desde o dia fundacional. Seguimos.»

domingo, 10 de agosto de 2025

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


O maior número das casas em que viveu com os pais, quartos alugados, diga-se, talvez uma dezenas situavam-se na Rua Morais Soares, Rua Carrilho Videira, Rua Sabino de Sousa, Rua Heróis de Quionga, Rua Padre Sena de Freitas, (« quando principiou a guerra civil espanhola era aí que residíamos»),Rua Carlos Ribeiro («tinha eu 22 anos quando saí para casar com a Ilda Reis»)

«Lembro-me de dormir no chão, no quarto dos meus pais»

A primeira escola que frequentou foi na Rua Martens Ferrão.

É aqui que se descobre, face à certidão de nascimento, que o rapazito não se chama José de Sousa mas sim José de Sousa Saramago.

Tal como se pode ler em As Pequena Memórias:

«Que esse Saramago não era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo o meu pai a declarar no Registo Civil da Golegã o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcionário (chamado ele Silvino) estava bêbado (por despeito disso o acusaria sempre o meu pai) e que, sob os efeitos do álcool e sem que ninguém se tivesse apercebido  da onomástica fraude, decidiu por conta e risco acrescentar Saramago ao lacónico José de Sousa que o meu pai pretendia que eu fosse.»

E chegamos à Escola Primária do Largo do Leão, para onde José Saramago foi transferido depois de passar a primeira classe na escola da Rua Martens Ferrão. Curiosamente, também na Escola do largo do Leão, andou José Cardoso Pires.

Mas voltemos aos testemunhos das Pequenas  Memórias.

José Saramago não consegue recordar o nome próprio do director da escola, apenas o raro apelido de Vairinho (hoje


quarta-feira, 2 de julho de 2025

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Os grandes livros terão que ser lidos mais do que uma vez.

E em cada leitura se descobre novos motivos de encantamento. Olhemos grande parte dos livros de José Saramago. Por exemplo: O Ano da Morte de Ricardo Reis, Ensaio Sobre a Cegueira, Manual de Pintura e Caligrafia, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Memorial do Convento.

Peguemos em Memorial do Convento.

Teria uns sete anos quando os pais, numa excursão com vizinhos, o levaram até ao Convento de Mafra e o quanto a estátua de São Bartolomeu lhe chamou a atenção, ao ponto, de passados muitos anos, voltando a Mafra, olhando a estátua ter dito de si para si: «Um dia, gostava de poder meter isto num romance.»

Assim terá nascido Memorial do Convento.

«Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos.»

Para o caso, Memorial do Convento.

O sublinhado que aqui me trás, foi a releitura (página 169) da apresentação da Passarola a Domenico Scarlatti.

Para além do músico, entram o Padre Bartolomeu Lourenço, Baltazar, Blimunda e… cerejas.

“Na sua frente estava uma ave gigantesca, de asas abertas, cauda em leque, pescoço comprido, a cabeça ainda em tosco, por isso não se sabia se viria a ser falcão ou gaivota., É este o segredo, perguntou, Este é, até hoje de três pessoas, agora de quatro, aqui está Baltasar Sete-Sóis, e Blimunda não se demora, anda na horta. O italiano fez uma pequena vénia na direcção de Baltasar, que respondeu com outra mais profunda, ainda que inábil, sempre era ele o mecânico, e além disso estava sujo, enfarruscado da forja, em todo ele só brilhava o gancho, do muito e constante trabalho. Domenico Scarlatti aproximou-se da máquina, que se equilibrava sobre uns espeques laterais, pousou as mãos numa das asas como se ela fosse um teclado, e, singularmente, toda a ave vibrou apesar do seu grande peso, cavername de madeira, lamelas de ferro, vime entrançado, se houver forças que façam levantar isto, então ao homem nada é impossível, Estas asas são fixas, Assim é, Nenhuma ave pode voar sem bater as asas, A isso Baltasar responderia que basta ter forma de ave para voar, mas eu respondo que o segredo do voo não é nas asas que está, E esse segredo não o posso saber eu, Não posso dar mais que mostrar o que aqui se vê, Já isso basta para que eu agradeça, mas, havendo esta ave de voar, como sairá, se não cabe na porta.


Baltasar e o padre Bartolomeu Lourenço olharam-se perplexos, e depois para fora. Blimunda estava ali, com um cesto de cerejas, e respondia, Há um tempo para construir e um tempo para destruir, umas mãos assentaram as telhas deste telhado, outras o deitarão abaixo, e todas as paredes, se for preciso. Esta é que é Blimunda, disse o padre, Sete-Luas, acrescentou o músico. Ela tinha brincos de cerejas nas orelhas, trazia-as assim para se mostrar a Baltazar, e por isso foi para ele sorrindo e oferecendo o cesto.

(…)

Sentaram-se todos em redor da merenda, metendo a mão no cesto, à vez, sem outro resguardar de conveniências que não atropelar os dedos dos outros, agora o cepo que é a mão de Baltasar, cascosa, como um tronco de oliveira, depois a mão eclesiástica e macia do padre Bartolomeu Lourenço, a mão exacta de Scarlatti, enfim Blimunda, mão discreta e maltratada, com as unhas sujas de quem veio da horta e andou a sachar antes de apanhar as cerejas. Todos eles atiram os caroços para o chão, el-rei


 que aqui estivesse faria o mesmo, é por pequenas coisas assim que se vê serem os homens realmente iguais. As cerejas são grossas, carnudas, algumas já vêm bicadas pelos pássaros, que cerejal haverá no céu para que também lá possa ir alimentar-se, chegando a hora, este outro pássaro que ainda não tem cabeça, porém se vier a ser de gaivota ou vulcão podem os anjos e os santos confiar que comerão as cerejas intactas, pois, como se sabe, aqueles são aves que desprezam o vegetal.

domingo, 18 de maio de 2025

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Terminamos hoje a pequena viagem que realizámos pelo prefácio que Miguel Real e Filomena Oliveira entenderam escrever para As 7 Vidas de José Saramago. 

A partir de agora, outra viagem se segue: a que abrange as 7 Vidas de um escritor maior na História da Literatura Portuguesa.

 «… o comunismo de Saramago imprime à sua obra um carácter de resistência cultural e política, como, igualmente, expressão de uma coerência ideológica que nenhum poder, dinheiro ou fama consegue subverter. Neste sentido, a figura de Saramago é encarada como a de um homem à margem, crítico feroz das instituições centrais e dominantes do poder e, como um anarquista do século XIX ou dos princípios do século XX, privilegia as comunidades dos pobres atrvés do ataque aos ricos. Numa palavra, Saramago é um hereje – para a Igreja, é um blasfemo e um sacrílego; para o Estado, um radical extremista, uma espécie de acrata moderno; para o seu Partido, um militante imune às regras partidárias; para o cidadão comum, um homem que superou as adversidades triunfando na vida.»


«… a Literatura pode resgatar um país e fazer admirar a sua cultura, ainda que o país seja pequeno e, sobretudo, internacionalmente insignificante. Passeia-se por Estocolmo «e protegeu-se da neve com um típico capote alentejano.»

«… o jovem Saramago já frequentava o São Carlos, onde entrava à socapa, para o «galinheiro, por amizade do porteiro, que era amigo do seu pai.»

Citamos, agora, uma frase da primeira entrevista que José Saramago concedeu, após a atribuição do Nobel da Literatura. Concedeu-a a Dolors Massot, enviada do jornal espanhol ABC à Feira do Livro de Frankfurt.

A frase é

«O mais importante do mundo é saber dizer não à injustiça».

Por fim:

«No regresso a Portugal, no dia 13, as primeiras declarações na sala VIP do aeroporto, decerto previamente meditadas, consubstanciam a relação existente entre a sua obra e acultura portuguesa:

«Não estou a regressar, eu nunca saí de Portugal. Pertencemos àquilo que nos fez. Esquecer-me de Portugal seria esquecer-me do próprio sangue e sem ele não podemos viver.»

Legenda: Enquanto andámos a ler o prefácio do livro de Migeul Real, a ilustração deste e dos anteriores Sublinhados Saramaguianos foi feita com recortes dos Dossiers da Biblioteca da Casa sobre José Saramago.

domingo, 11 de maio de 2025

SARAMAGUEANDO


 «Para Saramago, a vida sucedeu como no interior de um labirinto. Ele o disse, nas Intermitências da Morte: «labirinto sem portas. Ora aí está uma excelente definição da vida» , «como já deveríamos saber, a representação mais exacta, mais precisa, da alma humana é o labirinto. Com ela tudo é possível».

Do prefácio a As 7 Vidas de Saramago.

 

Porque os autores referem citações, uma de As Intermitências da Morte e outra de A Viagem do Elefante, entendemos de interesse ir busca-las aos livros e coloca-las aqui:

«Viver aqui, o que se chama viver, não vivo, Não entendo nada, falar consigo é o mesmo que ter caído num labirinto sem portas, Ora aí está uma excelente definição da vida, Você não é a vida, Sou muito menos complicada que ela, Alguém escreveu que cada um de nós é por enquanto a vida, Sim, por enquanto, só por enquanto,»

As Intermitências da Morte de José Saramago, pág. 205

«Como já deveríamos saber, a representação mais exacta, mais precisa, da alma humana é o labirinto. Com ela tudo é possível.»

A Viagem do Elefante de José Saramago, pág. 239

«…o mais provável é termos a 19 de maio um Parlamento com os mesmos problemas de governabilidade daquele que tivemos no último ano. Se assim suceder, concluiremos que o país se encontra politicamente congelado e que as eleições estavam, no essencial, decididas à partida. Dezenas de horas de debates, centenas de comentários, páginas sem fim de análise e, afinal, há uma certa persistência da realidade, que teima em nos dar sinais que se impõem ao ruído.»

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Avançamos um pouco mais no prefácio que Miguel Real e Filomena Oliveira ser útil escrever para o seu livro: As 7 Vidas de José Saramago.

A pág. 23 os autores fazem o realce que sempre acompanhou Saramago, desde a adolescência ambicionava: escrever. E é a escrita que lhe salva a vida, concluem.

«Fracassado como serralheiro e empregado de escritório (que só a pobreza o obrigou a ser), como editor, tradutor, jornalista e político, encontra realização aos 60 anos naquilo que desde a adolescência sempre desejara: ser escritor. O sucesso dos seus livros, harmonizando um ideal de justiça social com personagens encantatórias e uma escrita radicalmente transgressora, reinventando esteticamente a realidade, torna-o conhecido no mercado editorial nacional, iniciando-o também no internacional. É a narração de uma vida heterodoxa de Jesus, um Cristo humano, só humano, que consolida a sua revelação ao mundo (e assim é derrubada, perto dos 70 anos, a sexta muralha de Josephville: ser um escritor internacional). Finalmente, censurado pelo Estado, isola-se numa ilha com o seu novo amor, só conhecido aos 64 anos, e, solitário, redige um dos melhores romances do século xx numa mesa de pinho de pés roídos pelos seus três cães, descrevendo, à semelhança dos cegos de Bruegel, o estado da humanidade — cegos seguindo outros cegos em direção ao abismo —, livro que o encaminha para a obtenção do Prémio Nobel da Literatura em 1998 (sétima muralha conquistada: afinal, Josephville, criada através de livros, não era uma cidade onde se sentisse bem, harmonizado com os outros, era o mundo inteiro).

Para Saramago, a vida sucedeu como no interior de um labirinto. Ele o disse, nas Intermitências da Morte: «labirinto sem portas. Ora aí está uma excelente definição da vida» , «como já deveríamos saber, a representação mais exacta, mais precisa, da alma humana é o labirinto. Com ela tudo é possível» . No seu caso, a chave do labirinto (a escrita) estava lá, sempre esteve, mas a porta não se deixou abrir até ao ano de 1980. A imagem do labirinto que exprime nos romances, ele o experimentou na própria vida. Nunca a sua vida desenhou uma linha reta e Saramago universaliza o confuso sentimento de desorientação na vida até à década de 80, experimentando diversas formas de existência. De fracasso em fracasso, batendo a uma porta fechada ou a várias ilusórias, compensado pela ascensão social de membro do operariado à burguesia intelectual jornalística, em 1980, com 58 anos, Saramago era, para todos os efeitos, um derrotado da vida: um fracassado social (não tinha profissão com rendimento certo, não tinha emprego fixo senão o expediente da tradução), político (a revolução socialista, em que participara como protagonista, falhara), e literário (era um escritor mediano, que os grandes editores não desejavam nos seus catálogos, experimentando por três vezes a rejeição de editores).

A elite política e intelectual da cidade repudiava-o, anatematizando-o como, mais do que comunista, um radical. Ele ousara forçar os portões da cidade: crescido no Estado Novo, fora um pobre destinado ao humilde ofício de serralheiro; depois, a seguir à Segunda Grande Guerra, um parvenu, levado por sorte e acaso para uma editora ao serviço de trabalhos de produção; no final da década de 60 afirma-se como cronista e poeta, mais como cronista do que poeta, e torna-se, já na década de 70, um revolucionário, olhado com sobranceria, se não desprezo, pela elite política, jornalística e intelectual.»


Legenda: a ilustração deste e próximos Sublinhados Saramaguianos será feita com recortes dos Dossiers da Biblioteca da Casa sobre José Saramago.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Continuamos a palmilhar os passos que Miguel Real, no prefácio a As 7 Vidas de José Saramago, vai fazendo dos dias, dos anos do autor.

Lá atrás ficámos no íntimo desejo de José: «Idealizava ser escritor desde a adolescência — assim o dissera aos amigos, quando opinavam sobre o destino de adultos de cada um —, mas só tem o seu primeiro livro aos 12 anos.»

«Na juventude, pede um empréstimo de 300 escudos para comprar livros que, desprovido de estante em casa e de dinheiro para a comprar, acomodara num armário da cozinha. Consegue passar a empregado de escritório (e assim se dá a conquista da primeira muralha de Josephville: de operário a pequeno-burguês dos serviços) e casa. Continuando a ler, de forma autodidata, fazendo-se acompanhar sempre de um ou dois livros na mão, publica um romance falhado aos 25 anos e escreve um outro, que já não consegue publicar, vivendo com angústia os fracassos editoriais. Com mais de 30 anos, desprovido de contactos nos meios intelectuais e universitários, conhece, num café da Baixa de Lisboa, um diretor literário que o convida a integrar o setor de produção de uma editora, o que lhe muda radicalmente a vida (segunda muralha: o escritor falhado e leitor torna-se editor, convivendo com escritores portugueses de nomeada) — por lá trabalha durante cerca de 12 anos como «serviçal» de intelectuais, no papel de intermediário entre os autores e os tipógrafos; ele é o funcionário que põe os livros na rua. Assim vai granjeando contactos, sobre os quais — elo mais fraco — se sente honrado. Edita um livro de poesia e depois um outro, ambos totalmente estranhos à atmosfera poética da década, faz traduções do francês, escreve crónicas para jornais e crítica literária para uma grande revista de oposição política, alcançando, então, alguma notoriedade entre o meio jornalístico à época, repleto de escritores que classifica de «corporação literária» — de que se sente alheado apesar de fazer parte dela, profissionalmente (terceira muralha: a conquista de um lugar entre a intelectualidade dominante). Revoltado contra a cidade totalitária, que não lhe reconhece valor, contra a guerra colonial, contra a prisão de amigos e a opressão política do regime, adere ao Partido Comunista Português (PCP), pressupondo que a sua cidade ideal, Josephville, só poderia ser conquistada politicamente. Dá-se uma revolução na cidade — Saramago assume a direção de um dos maiores jornais e aí escreve como um comunista puro, sem jogos diplomáticos de poder (quarta muralha: a tentativa de construção política de Josephfille, uma sociedade sem classes. A revolução sucumbe e ele fica desempregado, não recebendo sequer o apoio dos seus camaradas, que o presumem excessivamente radical. A nova classe política afasta-se de quem tanto se comprometeu com a revolução — Mário Soares, o principal dirigente político do Partido Socialista, representa, então, para Saramago, o seu principal inimigo. Regressa à tradução, donde tira o sustento, escreve contos e um «ensaio de romance» de grande qualidade, de acordo com o espírito literário da época, que aponta para a desconstrução das categorias clássicas do romance. Visto que poucos leitores cativa, como no caso do livro anterior, só lhe resta experimentar aquilo que desde a adolescência desejara ser, o tudo ou o nada: isola-se no Alentejo, a região mais pobre de Portugal, e vive entre os camponeses, ouve as suas histórias, os seus anseios familiares, os desejos sociais, as histórias encantadas. Regressado a Lisboa, começa a escrever novo romance, retratando-lhes a oralidade, as histórias de humilhação e miséria, as aspirações centenárias; escreve como os camponeses falam, desprezando as indicações da gramática, da arte tradicional de bem escrever um romance. O livro não é aceite por duas editoras, que, com a fama de comunista do autor, nem o devem ter lido, mas encontra acolhimento numa casa editorial de esquerda, recentemente criada, e provoca o espanto dos leitores — não pelo tema, suspeito, inconveniente (a necessidade de uma reforma agrária), mas pelo tom, pelo estilo, pelas audácias morfológicas e sintáticas.»


Legenda: a ilustração deste e próximos Sublinhados Saramaguianos será feita com recortes dos Dossiers da Biblioteca da Casa sobre José Saramago.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

É José Saramago quem o lembra no seu Viagem a Portugal:

«Mal vai à obra se lhe requerem prefácio que a explique, mal vai ao prefácio se presume de tanto. Acordemos, então, que não é prefácio isto, mas aviso simples ou prevenção, como aquele recado derradeiro que o viajante, já no limiar da porta, já postos os olhos no horizonte próximo, ainda deixa a quem lhe ficou a cuidar das flores. Diferença, se a há, é não ser o aviso último, mas primeiro. E não haverá outro.»

A lembrança prefacial vem a propósito do livro de Miguel Real e Filomena Cabral As 7 Vidas de José Saramago. Os autores entenderam que um livro de 747 páginas sobre a obra e a vida do nosso Prémio Nobel, necessitaria de um prefácio e não o fizeram por menos: tem 53 páginas.

Que diria Saramago?

Durante dias, semanas, talvez meses, andarei às voltas com este livro. Do que achar interessante, farei Sublinhado Saramaguiano.

E começarei pelo prefácio, mais concretamente com a epígrafe que os autores escolheram:

Uma biografia verdadeira é aquela que narra menos os factos acidentais da vida de um homem e mais o sentido da sua existência.

LEÔNCIO, O GREGO, O Livro das Biografias

 «Escrever uma biografia não é fácil. Escrever uma biografia de um homem controverso, crítico, denunciante e acusador das sem-razões por que a História tem sido construída — e das iniquidades que se espalham hoje na paisagem do mundo — pressupomos ser menos fácil ainda. Nenhuma biografia é escrita para agradar ou desagradar ao leitor; esta não pretende agradar aos que se revêm nas palavras de Saramago nem aos que condenam a sua figura. Uma biografia é escrita segundo a consciência do seu autor: entre milhares de fontes e de factos, o autor seleciona os que considera terem sido marcantes na existência do biografado, desenhando- -lhe o arco da vida entre o nascimento e a morte. A existência de Saramago foi construída segundo dois motes maiores: a Literatura e a Injustiça. O primeiro exprime-se na criação estética, o segundo, na denúncia das desigualdades sociais e das instituições e personalidades que lhes dão cobertura. Eis o sentido de As 7 Vidas de Saramago — duas colunas que permanentemente se elevam, paralelas, e, entre elas, os factos que as sustentam, vida a vida, das sete que viveu. De facto, se a continuidade da existência da vida de Saramago é estabelecida pela Literatura e pela denúncia das Injustiças, os momentos de rutura são dados pelo modo como ambas são praticadas período a período. Cruzámos e sintetizámos estas duas inspirações permanentes da vida de Saramago na palavra Josephville, «a cidade do José», criada pelo autor. 1998 é o ano do Prémio Nobel, a conquista da derradeira muralha de Josephville, a cidade ideal de José Saramago referida na crónica de jornal «A Cidade» (que abre o livro Deste Mundo e do Outro),1 contraposta à cidade real de que desde menino se sentia expulso, ou, pelo menos, excluído. Filho de um casal rural sem terra migrado para a cidade — uma mãe analfabeta e lavadeira de escadas e um pai polícia de bairros pobres de Lisboa —, sente o peso da discriminação, tem de viver em casas partilhadas ao longo da infância de interromper os estudos no liceu, é transferido para uma escola técnica por carência de recursos da família, conclui um curso de Serralharia Mecânica e torna-se serralheiro do, então, principal hospital da cidade, enquanto frequentava, à noite, a única biblioteca aberta até às 23 horas. Idealizava ser escritor desde a adolescência — assim o dissera aos amigos, quando opinavam sobre o destino de adultos de cada um —, mas só tem o seu primeiro livro aos 12 anos.»

Legenda: Contra capa de As 7 Vidas de José Saramago.