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quarta-feira, 15 de abril de 2026

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Para o poema de amanhã, lembrei-me do Eduardo Guerra Carneiro e peguei na Profissão de Fé, livro de poemas, uma bonita capa do Rogério Petinga, editado pela Quetzal no ano de 1990 e que me custou 900 escudos, ao câmbio de hoje seriam 4 euros e 50 Cêntimos.

Na contra capa do livro encontra-se um texto do Manuel João Gomes, seu amigo, e disse de mim para mim que este texto também poderia ser um dos Itinerários do Eduardo.

Aqui fica:

«É hoje vulgar dizer-se: "Isto anda tudo ligado, como diz o poeta." E qual é o poeta que diz: Isto anda tudo ligado? Camões? Pessoa? Não. Isto anda tudo ligado é o título dum livro que Eduardo Guerra Carneiro publicou em 1970.
O que para o poeta andava ligado naquele já remoto ano de 1970? Tudo: a cerveja, os Beatles, uma mesa de café numa pequena vila perto de Tomar, um poema da Camilo Pessanha, a Twiggy (inventora de minissaia), a memória "destes anos, destas cidades mornas onde com vagar enlouqueço", enlouquecemos, enlouqueceremos. E também Allen Ginsberg, Joan Baez a cantar, a estação de Nelas, uma enorme bebedeira na Covilhã, Walt Whitman, os guerrilheiros que saem do Vavá "com uma citação à bandoleira". E outra vez a cerveja: as letras "que escorrem pela caneta como a cerveja pelos cantos da boca"...
Poesia em prosa, prosa de poeta incorrigível, melancólico, irónico, um tudo-nada romântico. Poesia às vezes jornalística, quotidiana e quotinocturna, em cima do acontecimento. Antes, durante e depois da ressaca. Confissões, recordações da terra natal, paisagens, retratos.»

domingo, 25 de janeiro de 2026

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


O Eduardo foi  poeta e um homem de jornais. 

Sempre. 

Em 1975 esteve na Guiné-Bissau a escrever, a ensinar, experiência que deixou, Outubro de 1975,  em artigos publicados na Vida Mundial. Ele que já antes dissera que tinha muito para aprender neste negócio dos jornais:

«Por entre sorrisos de acolhimento e de chalaça alinhavo a prosa jornalística, obviamente sintética. Entrego-me receptivo,  à espera das notícias. Rápidas e maduras escorregam-me das mão se, às tantas, com medo que se quebrem,  os meus joelhos unem-se e as amparo. Grávido pareço. Presunção? Talvez não. De água benta nem sei. Apenas águas das cheias em telex. Ah!, prosa, prosa! Danada me  saíste por essas linhas fora. Não sei que te fazer para sacudir de ti tanto lirismo que em ganga se move entre os linguados. O solo lusitano tinge as mãos e o sol inexistente do solstício violenta-me de turismo. Levanto me simpático. Rabisco umas ternuras. O Ribatejo inteiro é um oceano! Que tirada, ó poeta! E as notícias? Mobilizo recursos que nem sei onde metê-los. Encaixa poeta, encaixa! Tens muito que aprender neste negócio.»

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Sentir saudades?

O poeta Zé Gomes Ferreira amiúde dizia: «saudades. Só do futuro!»

Mas não há começo de ano que não se lembre do Eduardo Guerra Carneiro e do seu último itinerário.

Há 22 anos, corriam as primeiras horas de um novo ano, quando o poeta e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, envolvido por uma imensa amargura, cansado de muita coisa, cansado de estar por aqui, se mandou da janela para o pátio da casa onde vivia em Lisboa. A notícia quase foi isso.

Baptista-Bastos, recordando o amigo e camarada de profissão, titulou um artigo no Público : «O poeta que se atirou para o céu».

Eduardo Guerra Carneiro deixou passar o Natal, sabe-se lá porquê, para se suicidar.

Era previsível, disseram os amigos que lhe eram chegados. Parecia ser esse o caminho por ele traçado, depois de uma filha ter morrido.
A pouco e pouco foi dizendo «escrevo com medo de ser tarde».
Marilyn Monroe, actriz que ele muito venerava e amava, também ela um dia deixou escrito, ou num dia qualquer, com alguém desabafou: «É Natal! Quem tenho? Ninguém! Para que preciso de viver?»

Sempre gostou muito do Eduardo Guerra Carneiro. Ao longo destes anos em que nos deixou, aos seus livros tem recorrido e pena tem que tão poucos o conheçam: «vivia dos cafés e das conversas, de uma poesia lírica feita na continuação do mesmo gesto imparável de viver, vivia de um desarrumada ligação entre a vida e letras, letras e tinta, rotativas e provas. E a sua morte escolhida prolonga a sua arte, ele tantas vezes abandonado a si mesmo, indefeso, estóico, solitário, libertário e tímido, rapaz para sempere de província apostrofando a desordem da cidade», escreveu Jorge Sila Melo.

Em 1970 publicou um livro a que chamou Isto Anda Tudo Ligado. E deste título se passou a fazer remate para conversas e prosas. Sim, isto anda tudo ligado, como dizia o poeta.

«Foi então que o barulho das luzes começou a sentir-se.
Foi então que o barulho das luzes começou a crescer.
Foi então que o barulho das luzes começou a entusiasmar.
Qual a cor das luzes do futuro?»


No seu livro O Revólver do Repórter deixou escrito:

«Abro as janelas para o rio, meto o papel na máquina, acendo um cigarro e penso: “Que grande solidão!”»

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO

Todos os itinerários que o Eduardo fez, tinham em vista coisas simples, mas muito importantes: os amigos, «as amigas e os amigos do Grupo Jantarista do Cais do Sodré», o pão quente de madrugada, uma cerveja clara, os livros, todas as coisas, que eu digo simples e que fizeram a história da vida do Eduardo.

 

Livro

 

Percorro livre o livro.

Não tenho cartilha. Bebo as letras.

Risco o livro. Leio em voz alta.

Liberto-me do livro e livre

atravesso as ruas. Mas ao livro

regresso e nele me deito.

A ternura das páginas íntimas.

O esboço de outro livro. Nos livros

soletro o que nele não está.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Rua Azedo Gneco em 1949.

Onde?

Será Chaves? Será Vila Real? Será Porto? Será Lisboa?

Por vezes, o Eduardo, quando fala de ruas, nem sempre  indica a cidade.

Importa saber?

Rua Azedo Gneco em 1949.

O Eduardo fala de escadas de serviço, junto-lhe traseiras de casas, de que tanto gosto. Vão desaparecendo na voragem dos prédios demolidos para abrir construções novas.

«Rua Azedo em 1949. Nas escadas de serviço: corridas, perseguições, casas abandonadas, outras escadas de serviço. O terrível pormenor de uma tesoura aberta, a discussão, o pontapé a atingir-lhe o sexo que logo ali sangrou. Daí. A clínica, raios ultra-violetas, vergonha, e um sinal agora nítido na erecção que talvez excite e interesse e que lhe faz recordar uns clandestinos pães com marmelada ou os livros Zé Fagulha comprados em Natal precário de que mais tarde se fala nas obras completas ao referir a destruição de qualquer coisa a exigir muitas mais páginas.»

Eduardo Guerra Carneiro em É Assim que se Faz a História

Legenda: fotografia Shorpy

domingo, 20 de abril de 2025

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


No último dia de Março de 1979, o Diário de Lisboa, anunciava que ia começar a publicar, em folhetim, O Imenso Adeus de Raymaond Chandler, numa tradução de Mário-Henrique Leiria, há muito esgotado.

Para a apresentação do folhetim foi pedido ao Eduardo Guerra Carneiro para que realizasse a tarefa. Uma feliz ideia, porque o Eduardo sabia mesmo do assunto: de livros, de copos, de policiais, do Mário-Henrique Leiria, do Raymond Chandler, de cartas que há muito devia ao Zé Emílio, e tudo isso, algo mais que ele sempre esgalhava muito bem, ajudou-o no Itinerário encomendado pelo chefe de redacção.

Como se pode ler acima no recorte do Diário de Lisboa, chamou-lhe Com Chandler e Marlowe nos Bares do Cais do Sodré, e que o Eduardo nunca incluiu em nenhum dos livros onde reuniu crónicas e textos publicados na imprensa.

Começa assim:

«Marlowe entra no “English-Bar”, despe a trincheira, sacode-a da chuva de Março que, em morrinha, como em Vigo ou no Porto, ainda pinga, atira o chapéu para o bengaleiro e pede um “gimlet” duplo.
Humphrey Bogart está ao balcão e sorri-lhe, de esguelha, com o paivante aceso ao canto da boca. A “magrinha” ainda não tinha chegado. Eu bebia gin tónico, numa mesa do canto com o Chandler. O Mário-Henrique Leiria não pôde vir: mandou recado a dizer para bebermos dois ou três copos por ele. Lauren Bacall chegou agora, senta-se à nossa mesa e pede-me um cigarro na sua voz rouca, inconfundível. Reparo que Bogey está com ciúmes. Como não quer a coisa, de uma velha telefonia vem uma música de piano: “Casablanca”. Afinal Bogart deve estar ainda à espera da Ingrid Bergman. Chandler, que nada tem a ver com isto, começa a falar da Cabeleira de Prata.»

Agora pode entrar o tal Zé Emílio que é história que se pode ler na página 54 do tal caderdinho de capa vermelha onde, como dizia o velho, tudo anda ligado:

«Eu sei bem que te devo carta mas, sabes bem: words, words pouco valem para a saudade, é a palavra exact, saudades de ti, ó meu amigo a quem não disse quanto queria. Cheguei a ir, sabes , como no «Imenso Adeus» do Raymond Chandler, beber dois copos, para mim e para ti, a um outro lugar dos que gostavas. Mas, que é isso? A lírica ternura de que às vezes me acusavas.»

E, para fazer um The End adequado para este Itinerário, desengate-se um pedacinho do policial que aqui nos trouxe:

«Gosto dos bares à tardinha, logo que abrem. Quando ainda há ar fresco e limpo e tudo está luzidio e o tipo do bar dá a última olhadela aoa espelho para verificar se a gravata está direita e o cabelo bem liso. Gosto das garrafas arrumadas nas prateleiras do fundo e dos copos bem brilhantes e da sensação de antecipação que se tem. Gosto de ver o homem misturar a primeira bebida da tarde e pô-la no bar com o pequeno guardanapo bem dobrado ao lado. Gosto de a saborear sem pressa. A primeira bebida sossegada num bar sossegado – é estupendo!
Eu concordei.
- O álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é intenso e o terceiro é rotina. Depois só resta despir a rapariga.
- E isso é mau? – perguntei-lhe.»

quinta-feira, 6 de março de 2025

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Quando começaram, ele deixou escrito que Os Itinerários do Eduardo andavam à volta de poemas seus, de textos que se passeiam pelo livrinho de capa vermelha.

Mas não só, por vezes aparecem por outros caminhos.

É o caso do itinerário de hoje que agarra num livro do Baptista-Bastos «O Cavalo a Tinta-da-China» e um do Eduardo «O Revólver do Repórter».

O Eduardo e o Bastos, para além das conversetas várias em bares, entre cigarradas e copos, trabalharam no Diário Popular. Lembra o Eduardo na crónica, a que chamou «Um soco no estômago», «o retrato de uma solidão que dói» que vem no livro atrás referido:

«Recordo a sala grande da redacção do Diário Popular, conversas de afecto e companheirismo. Recordo, antes e depois, as palavras escritas, os pequenos papéis da solidariedade, o tique nervoso do acender um cigarro, o gesto de agarrar um copo para outra bebida.»

Agora: um soco no estômago. A crueza do vazio. A dolorosa sensação de um frio interior. A cidade cercada, os campos desolados, as conversas perdidas, as ruínas circulares de aldeias remotas envoltas em neblina.

É como se caminhasse com o peso da memória de várias gerações traídas. Fantasmas entram no discurso e riem nas caveiras brancas de tanta ingenuidade.» 

Tempo para voltarmos ao livro do Baptista-Bastos:

Clara espera. Tem um livro na mão. Leu algumas páginas, pousou-o, olha para Manuel, volta a ler algumas páginas, pousa de novo o livro.

- Que livro é esse?

Clara cerra as persianas, volta a pegar no livro, dirigisse-se para o espelho, contempla-se, faz uns gestos grotescos, mima alguém, ri, continua com o livro na mão, ouve-se um estalido da madeira do armário, Manuel segue todos os seus movimentos, Clara lê em voz alta:


Vai então, contador de histórias, e constrói

a nave dos milagres. Procura tudo e todos

nos mínimos sentidos, no lírio das barmas,

na nuvem secreta, nas formigas, no bosque

que se forma ao virar da esquina.

É no real que encontras o sentido último

do mais profundo e mágico mundo novo.


- Que livro é esse?

- Do Eduardo Guerra Carneiro. Trouxeste-o há dias.

- Ah!, pois. Estive a beber com ele.

- Pois. Já vinhas com uns dedos acima do nível.

- Gosto de beber com ele. É um tipo cordial e louco.

- É bom poeta?

- É muito bom poeta.

- Suficientemente bom?

- Quem o é?

- Quem vence a morte – diz Clara, mais baixo, e retém o olhar em Manuel. – Quem morre e permanece vivo

- Ou aqueles que disseram coisas que ninguém tinha dito até então.»

Legenda: Baptista-Bastos no Ritz Club, fotografia tirada do catálogo da Exposição Baptista-Bastos: Prosador do Mundo, Museu do Neo-Realismo, Abril 2008.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO

O Itinerário de hoje do Eduardo percorre as páginas do Cinéfilo, no tempo em que Abril estava quase a rebentar. Trata-se do nº 26 de 30 de Março de 1974 e os pés do Eduardo encaminharam-no para o velho Coliseu dos Recreios nas Portas de Santo Antão para ver e ouvir Patxi Andión, um basco de quem as esquerdas em Portugal gostavam muito, começando por mim que lhe fui colecionando primeiro os singles e depois os LPs. Sem perceber absolutamente nada, comprei-lhe o LP Joxe María Iparraguirre Patxi Andion’ en era.

Patxi Andion foi revelado em Portugal em 1969, pelo programa Zip-Zip.

Das duas primeiras vezes que tentou cantar em Portugal, a PIDE expulsou-o do país. Acabou por actuar pela primeira vez em 24 de Novembro de 1973

Em Portugal actuou pela primeira em 24 de Novembro de 1973 no Cinema-Teatro Monumental, a segunda vez em 24 de Março de 1974. Em ambos, dezenas e dezenas e dezenas e dezenas de agentes da PIDE foram ouvindo o que ele tocava e dizia.

«A minha relação com Portugal, a música e a língua portuguesa é de absoluto amor, é uma paixão que existe desde a década de 1960», disse em entrevista à Lusa, já Abril por aí andava.

Ele que sempre disse que uma canção se constrói com palavras e música, mas o que verdadeiramente tem uma função, são as palavras, que entende que os poemas não são herméticos, pois a canção primeiro sente-se e depois entende-se, claro que uns entendem melhor do que outros mas em definitivo todos sentem, ele que se diz um tipo que trabalha arduamente naquilo que sabe e pode fazer, e lembra sempre o avô que lhe costumava dizer que falar é demasiado importante para o fazermos continuamente porque quem fala muito, necessariamente, terá de dizer muitas asneiras.

Chegou a dizer: «Já não me tratam em Espanha tão mal como antes. Passei toda a fome que podia passar, fizeram-me todo o mal que podiam fazer. Mas eu não desisti. Segui lutando, fazendo o mesmo. E no fim, as pessoas viram; aquele tipo não faz aquilo por modo, mas porque quer, porque sente.»

Para o Cinéfilo, o Eduardo reportou sobre o espectáculo e escolhemos estas palavras:

«Quatro mil estavam no Coliseu. Silêncio, luzes e palmas. Toda a força possível: verde que te quiero verde. Estavam todos lá. Com ele. Assim, tudo poderia estar definitivamente em tudo. Todos estarmos em tudo e todos sermos afinal tudo, maneira de dizer: todos com todos. O que sentimos ao sentirmos tudo. Sentimento total.
A palavra exacta, minuto a minuto. Não perder o sentido, a exacta procura de todos, de tudo. A calma violência da total aventura: ondas e não uniforme paisagem. Patxi junto ao mar, a pequena aldeia, a mesa de madeira, o copo de vinho tinto, o sol, a tarde, o domingo a escorrer, como azeite, sobre os homens, as coisas, as palavras. Palavras claras de Patxi que podem corresponder a um copo que se oferece, a uma fatia de pão que se recebe.
Espectáculo? Total Participação? Comoção. Plenitude, talvez. O pão a crescer na terra, o corpo a corpo da poesia e da canção. Um homem simples frente a 4 mil portugueses.»

Em 18 de Dezembro de 2019, em Cubo de la Solana, sua terra natal, um estúpido acidente de automóvel, expulsou-o da vida.

Ficaram a música, as palavras.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Demoro-me no último texto de Isto Anda Tudo Ligado, editado em Janeiro de 1970.

O tempo que o Eduardo Guerra Carneiro, fala será antes dessa data.

«Ouve agora o cantar da andorinha, a água da fonte, a sirena da fábrica, o saxofone quebrado mas que ainda solta nítidos gritos. Ouve também a tua voz e todas essas magníficas vozes rasgando o silêncio do tempo, dos tempos, de todo o tempo.»

Tempo de silêncios. De angústias.

Ou como dizia o outro:

Que terei eu feito ao tempo? Sento-me na esplanada e tento em vão, procurar o tempo perdido mas não é possível ser-se Proust, nem mesmo a brincar.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

VELHOS RECORTES


 Gosto de crónicas

Lidas em jornais e revistas.

Quando publicadas em livro, compro.

Esta é um velho recorte do Expresso  (sem data) que reproduz parte de uma das crónicas que Ana Cristina Leonardo publicava no semanário

A essas crónicas deu título: Isto Anda Tudo Ligado que soa ao título de um livro do Eduardo Guerra Carneiro, por quem, certamente, tinha amizade e admiração

Por motivos que ninguém explicou - pelo menos que tivesse lido... - as crónicas deixaram de ser publicadas. O mesmo aconteceu às crónicas do Manuel S. Fonseca.

Neste momento, Ana Cristina Leonardo publica, todas as sextas-feiras, uma crónica no suplemento Ipsilon do Público.

Posteriormente, publica-as no seu blogue Meditação na Pastelaria. 

sábado, 10 de agosto de 2024

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


O de hoje, será um estranho Itinerário do Eduardo.

Mil e Outras Noites é uma antologia poética do Eduardo Guerra Carneiro, publicado em Maio de 2018, pela Língua Morta, com selecção de Miguel Filipe Mochila, prefácio e posfácio de Vitor Silva Tavares.

Um bonito livro de um dos bons poetas e jornalistas deste país.

Fizeranm-se 300 exemplares!

Quantos foram vendidos?

A abrir o livro, esta nota:

«Eduardo Guerra Carneiro (Chaves, 1942 – Lisboa, 2004) levava isto muito a sério que, em momentos, a escrita terá sido das poucas coisas que o segurou à vida, lhe deu alento, adiando o fim. Não se vê a linha que separa a poesia do resto que por cá foi fazendo. Mas tal como não se pode viver todos os dias, daí também se observa um espaçado silêncio entre cada livro, e se entende a nota dissonante, a aparência descabelada da sua poesia. Obedecemos, por isso, nesta recolha a uma ordem fiel à cronologia da obra.»

Repete-se: fizeram-se 300 exemplares!

Também se repete a pergunta:

Quantos foram vendidos?

Vitor Silva Tavares que tão bem o conheceu, que tanto gostava dele:

«Como se diz dos elefantes, também ele se considerou morto e morreu. Foi-se indo morrendo. Deixando-se matar nele até que se matou. Subscrevendo o homicídio.»

O livro é de 1973, publicado pela Assírio & Alvim e chama-se É Assim que se Faz a História.

«O princípio de tudo num P.S.: Há tantos silêncios… Porto Covo abriga ainda uma canção, dois ou três maços de cigarros vazios, um spray para a garganta que lá ficou esquecido, uma aventura dos anos cinquenta que repetimos nos nossos trinta anos. Falavas de um tempo de escuridão total: as trevas. Um P.S.: Tantas coisas que não se podem deixar escritas…»

Legenda: a imagem que se reproduz é a contra capa de Mil E Outras Noites 

domingo, 28 de julho de 2024

OS ITINEÁRIOS DO EDUARDO


Uma guerra terrível em África.

Milhares de mortos, milhares de feridos, milhares de estropiados, milhares que ainda acordam a meio da noite num pesadelo de tiros e granadas e minas a rebentarem…«uma guerra que nos fere e dói que mais não seja por ser guerra em vão».

O poeta Eduardo Guerra Carneiro andou por Mafra, a aprender ninguém sabe o quê, um enorme desespero sempre, uma angústia enorme.

Em Mafra teve como companheiros de companhia, ou de pelotão, o Adriano Correia de Oliveira, o Nuno Guimarães, o José Cid.

Começamos o percurso do Eduardo de hoje no seu 3º livro Algumas Palavras (1969) :

 

Em certos meses mafras se povoam

de soldados novos São meses sol

de guerra que aqui dentro vai roendo

as mãos e lá fora vai matando

homens São meses morse

denso que já sabe ao som

do erro Ao sol da morte


E desaguamos, tinha que ser!, no livrinho de capa vermelha:

«Lá te foste embora, António. De ideias ao ombro; todo vestido de bombazina. Estou a ver-te na Praça da Batalha, já lá vão uns anos. Não me dossete nada mas parece que o adivinhava no castanho da bombazina, na pressa em ires embora, nas poucas palavras que disseste. De que cor são os lagos da Suiça?»


E ainda:


«Vai a correr, de Mauser nas mãos, por longos corredores, escuros e baptizados. Cerradas filas o aguardam num terreiro cercado. O verde da paisagem está sujo por centenas de homens armados, vestidos de verde».

sábado, 20 de julho de 2024

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


«As motos roncam no circuito

de Vila Real e lá estou eu, pendurado

no muro das traseiras, a espreitar a Norton

que vem à cabeça, curvando, espectacular,

na rampa de São Pedro. O cheiro a gasolina

embebeda a catraiada. É quase tão bom

como o incenso do mês de Maria. Baba-se

o tontinho da cidade e alguns padres

deitam foguetes e apanham as canas.

As motos cortaram já a meta, quando chega

a notícia de um desastre na Timpeira.

Mas a festa prossegue, com a feira

dos pucarinhos, e o barro negro de Bisalhães

racha-se na cabeça dos feirantes.»

 

A alegria que Eduardo Guerra Carneiro nos transmite de uma Vila Real da sua adolescência, neste poema tirado de Contra a Corrente.

Um itinerário diferente daquela figura amável com memórias, sonhos, encontros, desencontros, as marcas incisivas do prazer – e do conhecimento da dor», como tão bem o retratou Vitor Silva Tavares.

Um itinerário de imprevisto, diga-se. 

Mas que imprevisto?


sábado, 23 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


              Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


Hoje, esta viagem começa com um toque de ordem pessoal.

Apesar de diversas tentativas, não consegui bilhete para o espectáculo de Patxi Andión no Coliseu no dia 23 de Março de 1974.

A verdade: o acto de cantar é um acto que responsabiliza a pessoa que canta e os que a escutam.

Isso, e algo mais, muito mais, era Patxi Andion, o mestre que cantava com todo o mar por trás.-

Tentou cantar duas vezes em Portugal mas puseram-no na fronteira.

Mas às três foi de vez. O semanário Cinéfilo, na secção “Sete Dias da Semana”, entre outras coisas tão abonatórias como justas, dizia que era um espectáculo, pela qualidade certa, a não perder.

Uma semana depois, também no Cinéfilo, Eduardo Guerra Carneiro, escrevia sobre o espectáculo:

«Quatro mil estavam no Coliseu. Silêncio, luzes e palmas. Toda a força possível: verde que te quiero verde. Estavam todos lá. Com ele. Assim, tudo poderia estar definitivamente em tudo. Todos estarmos em tudo e todos sermos afinal tudo, maneira de dizer: todos com todos. O que sentimos ao sentirmos tudo. Sentimento total.
A palavra exacta, minuto a minuto. Não perder o sentido, a exacta procura de todos, de tudo. A calma violência da total aventura: ondas e não uniforme paisagem. Patxi junto ao mar, a pequena aldeia, a mesa de madeira, o copo de vinho tinto, o sol, a tarde, o domingo a escorrer, como azeite, sobre os homens, as coisas, as palavras. Palavras claras de Patxi que podem corresponder a um copo que se oferece, a uma fatia de pão que se recebe.
Espectáculo? Total Participação? Comoção. Plenitude, talvez. O pão a crescer na terra, o corpo a corpo da poesia e da canção. Um homem simples frente a 4 mil portugueses.»

O escritor César Oliveira também esteve nessa noite no Coliseu, e deixou registo no seu livro de memórias Os Anos Decisivos:

«Este clima que andava no ar, este “sentir na pele” de que alguma coisa teria de acontecer, a seguir ao fracasso do 16 de Março, foi exemplarmente experimentado num espectáculo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com o cantor basco Patxi AndionA sala estava, literalmente, a abarrotar. Agentes da PIDE/DGS circulavam na sala, nos corredores, na rua do Coliseu. Perto, por detrás do Teatro Nacional, carrinhas da Polícia de Choque. Patxi Andión percebeu e sentiu o clima electrizante que se viveu e “puxou” e tornou a “puxar” pelo público. Ao cantar “El Maestro” – “al explicar una guerra/siempre se muestra remiso/explicando claramente/quien venció y fue vencido” – praticamente toda a vasta sala, desde a plateia aos camarotes, balcão e geral, estava de pé, punhos erguidos, soltando-se algumas vozes em “Viva a Liberdade! Abaixo o Fascismo!” Foi, sem sombra de dúvidas para qualquer espécie, um dos momentos mais altos e com uma carga dramática e épica mais intensa que até hoje pude ver num espectáculo musical.”

Patxi Andion morreu em 19 de Dezembro de 

No jornal Público de 23 de Março de 1984, fazia-se a evocação do mesmo dia, dez anos atrás. A coordenação pertencia ao jornalista Cesário Borga que deu a palavra ao radialista e jornalista Adelino Gomes:

«Um oficial procura-me na “Seara Nova”, Alguém lhe dissera que eu tinha trabalhado na RTP e que era um homem ligado à rádio. A pergunta veio directa: “É capaz de me fazer o croquis das instalações da Televisão do Lumiar»”. Fiz um sumário das instalações e o oficial instou-me para lhe dar pormenores sobre os polícias que lá prestavam serviço e as armas que usavam, as horas do fecho da e missão, o número indispensável para pôr uma emissão, no ar, etc., etc. Foi quando lhe perguntei para que era aquilo tudo. Prontamente o oficial respondeu: “vamos dar um golpe de estado dentro de dias e precisamos de ocupar a Televisão”.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

REVISÃO DE NOTÍCIAS LIDAS


 Hoje, vamos reler uma notícia assinada por Teresa Serafim, publicada no Público de 7 de Dezembro do passado ano.

Guardei o recorte, mas há dias por aqui se falou de um livro publicado pela Ulmeiro,  ressuscito a notícia.

Com o apoio da Junta de Freguesia de Benfica, a livraria Ulmeiro voltará a ter um espaço físico no bairro que a viu nascer em 1969 e após 50 anos na Avenida do Uruguai foi obrigada, em 2019, pela especulação do senhorio que exigiu um estúpido e impossível aumento de renda, a mudar-se para um espaço na Fábrica de Braço de Prata.

Fundada por José Ribeiro, regressará à Avenida do Uruguai, no mesmo lado da antiga livraria, continuando como livraria-alfarrabista, terá uma galeria de arte também actividades culturais, com sessões de leitura. Na reabertura, deverá ter uma exposição sobre os 50 anos da Ulmeiro, que incluirá material de uma antiga exposição e uma série de fotografias novas.

O novo espaço chegará com a Primavera e José Ribeiro gostaria que fosse a 21 de Março para coincidir com o Dia Mundial da Poesia.

«Recomeçamos num espaço mais pequeno e queremos continuar a contribuir para alguma actividade no bairro. A Ulmeiro é um espaço que fazia falta», disse José Ribeiro

Fazia falta não só a Benfica e arredores, aos seus muito dedicados clientes e frequentadores para uma converseta a propósito de tudo e mais alguma coisa, mas especialmente a José Ribeiro.

Estive tentado a titular esta futura vida da Ulmeiro colocando-a num Itinerário do Eduardo. Pela simples razão que, entre tantos livros publicados pela Ulmeiro, tenho especialíssima dedicação ao livrinho de capa vermelha do Eduardo Guerra Carneiro: Isto Anda Tudo Ligado.

No tempo de crise da Ulmeiro, ainda sem saber qual o futuro, recordo uma frase do José Ribeiro:

«No bairro há pessoas que descobriram que a livraria existe e estamos cá há 47 anos, é engraçado.»

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Eduardo Guerra Carneiro está, a uma esquina da Avenida de Roma, onde ainda se situa o Café Luanda, e olha. Do outro lado da praça o Café Vavá.

Apenas olha, tirando uma Lisboa, Verdes Anos, que não mais é o que era, não pensa em nada de concreto.

Onde estás agora, Eduardo?


«Os guerrilheiros que saem do Vavá benzem-se à sua maneira, como se a próspera guerrilha se fundasse em qualquer casa além da linha. Sábios de nascença citam nomes e têm decorada uma biblioteca, tal qual alguns desenraizados do Saldanha - mas de modo diferente. Abotoam-se com esmero e engravatam-se ou não conforme as circunstâncias. Os guerrilheiros que entram no Vavá usam as citações à bandoleira e telefonam com muita assiduidade.»


Eduardo Guerra Carneiro em Isto Anda Tudo Ligado

 

Legenda: fotografia do site Lisboa ConVida

terça-feira, 17 de outubro de 2023

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO

Chove como há muito não chovia.

Os dias de guerra que se vivem longe mas que nos tocam como se estivessem por aqui acontecendo.

Dia de olhar os percursos do Eduardo.

«Os anos cinquenta a custo traçados a giz. Os anos sessenta feitos e desfeitos. A pressa de agarrar as coisas. O traço. Os anos. O fazer e desfazer de sessenta e cinco. Qual seria o giz de cinquenta e seis? O agarrar `à pressa. As coisas a custo. O traço dos anos. Os anos com pressa. A custo desfeitos.»

Em poucas palavras o traço de uma vida demasiado apressada.

Bom dia, Eduardo.

O que dele disse um amigo, Carlos Loures, quando tudo descambou e acabou no cimento do pátio da casa 0nde vivia, para os lados do Príncipe Real:

«As coisas não lhe tinham nunca corrido bem. Interrompera os estudos universitários por lhe parecer inútil o curso que frequentava. Profissionalmente, jornalista, um bom jornalista, diga-se, tinha de fazer muita coisa de que não gostava. Na vida privada, casamentos falhados, o refúgio no alcoolismo e, sobretudo, o suicídio inexplicável da sua filha, a  Catarina, destruiu a sua capacidade de resistência, provocaram-lhe o cansaço da vida que confidenciou ao Quitério. A soma de tudo isto resultou numa rápida viagem de três andares até ao cimento do pátio.»

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem. 

sábado, 23 de setembro de 2023

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


O caderninho de capa vermelha, Isto Anda Tudo Ligado continua a alimentar  estes percursos, estes itinerários.

«Antes de tudo, no meio de tudo, para além de tudo, o som de um long-play dos Beatles ouvido religiosa e solitariamente na rua Dona Luísa de Gusmão, à noite.»

Por este texto ficam perguntas: dos seus itinerários em que vila ou cidade fica a Rua Dona Luísa de Gusmão, que disco dos Beatles ouvia o Eduardo?

Quanto ao disco arrisca-se  o Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, um dos grandes discos  dos rapazes de Liverpool.

Quando eu tiver sessenta e quatro anos e de repente uma sombra pairando sobre nós.

E por esse disco um pedacinho de uma crónica do Manuel António Pina que falhou o dia em que Paul McCartey fez 64 anos, um domingo, andou pelos armários e não encontrou o vinilzinho, «talvez se tenha desvanecido para sempre num fundo e longínquo lugar, de mim ou da casa, onde não me é dado alcançar.»:

«No entanto, na minha cabeça (e, principalmente, no meu coração) ouço ainda, talvez mais nitidamente que nunca, agora que eu próprio sou (quase…) «sixty four» e que também eu fui «envelhecendo» e «perdendo cabelo»): Will you still need me, /Will you setill feed me, /When I’m Sixty-four?» Como o Sergeant Peppers todos de algum modo somos «corações solitários» e todos temos algures, dentro de nós, uma banda melancólica tocando velhas canções. Cantarolamos de novo «When I’m ixty-four» e «suddendly/there’s a shadow hanging over us», e descobrimos que o que estamos a cantar é de facto «Yesterday».

terça-feira, 29 de agosto de 2023

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Os Itinerários do Eduardo são tirados de poemas seus, mas essencialmente dos  textos de Isto Anda Tudo Ligado.

Quando apanhei o terrível susto de enfrentar que tinha perdido o livrinho de capa vermelha, andei pela internet sabendo se alguém tinha algum exemplar à venda.

Nessa andanças encontrei um texto de Carlos Loures, que é autor do 2º volume dos Cadernos Peninsulares editados pela Ulmeiro.

Carlos Loures foi amigo do Eduardo Guerra Carneiro e esgalhou um texto sobre o livro  em A Viagem dos Argonautas.

Lembrando sempre o Eduardo, reproduzo o texto do Carlos Loures, que constitui um outro dos muitos Itinerários do Eduardo, uns já feitos outros ainda por fazer:

«A frase “Isto anda tudo ligado” já é antiga, mas quem lhe deu vida nova e foros de expressão erudita foi o escritor e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, que a usou como título num seu livro de poemas Isto Anda Tudo Ligado. E este título, como disse Jorge Listopad, numa nota publicada na «Colóquio-Letras», que aparentemente é um «slogan banal», tem sido centenas de vezes utilizado, por escritores, jornalistas, por músicos (como Sérgio Godinho) e não só. Creio que muitos que o utilizam já nem o relacionam com o grande poeta e a maravilhosa pessoa que foi o Guerra Carneiro. Não é o meu caso. Fui muito amigo e companheiro de luta do autor destas palavras. O livro em questão foi o primeiro da colecção Cadernos Peninsulares que o editor da Ulmeiro, o José Antunes Ribeiro, organizou em 1970. O meu livro A Poesia Deve Ser Feita por Todos, foi o segundo livro dessa colecção e seria apreendido pela PIDE. Ambos os títulos, o do Eduardo e o meu, são hoje livros de alfarrabista. As tiragens até nem foram pequenas, mas um incêndio no armazém da editora transformou-os em raridades. Ainda há relativamente pouco tempo comprei um exemplar do meu livro com as extremidades das páginas queimadas.»

Legenda:  pormenor de uma «hors-texte» da autoria de Carlos Ferreiro e tirado do livro do Eduardo «Como Não Quer a Coisa»

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Quero dizer-vos que um destes dias apanhei um enorme susto.

Fui à estante da Biblioteca da Casa para consultar o Isto Anda Tudo Ligado do Eduardo Guerra Carneiro e não o encontrei.

Fora do sítio? Emprestado?

Há livros que não empresto mesmo e se por qualquer razão isso acontece, sei bem a quem o empresto.

Comecei a suar frio.

Onde o terei deixado?

Passaram-se os dias e antes de chegar a qualquer alfarrabista, telefonei ao José Antunes Ribeiro se ainda, perdido pelo armazém, tinha algum exemplar.

Da 1ª edição nada resta, mas em 2015 reeditou o livrinho e existem alguns exemplares.

Pedi que mo enviasse pelo correio e passados uns dias, o carteiro bateu à porta.

Voltei a relê-lo num curtíssimo golpe de asa.

Um enorme livro!

Tudo isto se passou há três anos.

Ontem, a mexer numa pasta de papelada antiga, fui dar com o meu velho livrinho  de capa vermelha do Isto Anda Tudo Ligado do Eduardo Guerra Carneiro, possivelmente, a fazer de marca para qualquer coisa  que eu consultei.

Como foi possível?

Acreditam que chorei, eu que até não sou de lágrima fácil?

Se a felicidade é possível, acreditei que é o que agora sinto.

A 1ªedição custou-me, à data de saída, 25 escudos, qualquer coisa como 1,25 euros, a 2 ª edição custou-me 10 euros, mais os portes de correio.

O livro está dividido em duas partes:  «Jardim de Alguns Objectos e Coisas Reais» com 11 poemas e «Isto Anda Tudo Ligado», maravilhosos textos curtos.

Ambas as capas são vermelhas.

Dado o tempo que decorreu, já lá vão 53 anos, caramba! como estou velho, o vermelho  está um tanto ou quanto desmaiado.

Termino esta feliz nota, copiando no Nota que o Editor, José Antunes Ribeiro, entendeu deixar nesta nova edição do livro do Eduardo:

 «Em Janeiro de 1970 este ISTO ANDA TUDO LIGADO, de Eduardo Guerra Carneiro deu início às edições da Ulmeiro, livraria e editora que aparecera um mês antes.

Esta reedição, numa pequena tiragem, numerada e assinada pelo editor, é dedicada à memória do Eduardo Guerra Carneiro que partiu no dia 2 de Janeiro numa hora triste de desespero e desencanto.

O título deste livro anda por aí dito e redito ao mesmo tempo que a memória do poeta é silenciada e ignorada.

Este foi o primeiro livro da Ulmeiro. Um grande livro. Um grande poeta, um grande jornalista. A falta que me fazes , Eduardo. Tinha uns projectos para discutir contigo. “Um dia destes falamos”! Pois é…

ISTO ANDA TUDO LIGADO.

José Antunes Ribeiro»