sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Sentir saudades?

O poeta Zé Gomes Ferreira amiúde dizia: «saudades. Só do futuro!»

Mas não há começo de ano que não se lembre do Eduardo Guerra Carneiro e do seu último itinerário.

Há 22 anos, corriam as primeiras horas de um novo ano, quando o poeta e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, envolvido por uma imensa amargura, cansado de muita coisa, cansado de estar por aqui, se mandou da janela para o pátio da casa onde vivia em Lisboa. A notícia quase foi isso.

Baptista-Bastos, recordando o amigo e camarada de profissão, titulou um artigo no Público : «O poeta que se atirou para o céu».

Eduardo Guerra Carneiro deixou passar o Natal, sabe-se lá porquê, para se suicidar.

Era previsível, disseram os amigos que lhe eram chegados. Parecia ser esse o caminho por ele traçado, depois de uma filha ter morrido.
A pouco e pouco foi dizendo «escrevo com medo de ser tarde».
Marilyn Monroe, actriz que ele muito venerava e amava, também ela um dia deixou escrito, ou num dia qualquer, com alguém desabafou: «É Natal! Quem tenho? Ninguém! Para que preciso de viver?»

Sempre gostou muito do Eduardo Guerra Carneiro. Ao longo destes anos em que nos deixou, aos seus livros tem recorrido e pena tem que tão poucos o conheçam: «vivia dos cafés e das conversas, de uma poesia lírica feita na continuação do mesmo gesto imparável de viver, vivia de um desarrumada ligação entre a vida e letras, letras e tinta, rotativas e provas. E a sua morte escolhida prolonga a sua arte, ele tantas vezes abandonado a si mesmo, indefeso, estóico, solitário, libertário e tímido, rapaz para sempere de província apostrofando a desordem da cidade», escreveu Jorge Sila Melo.

Em 1970 publicou um livro a que chamou Isto Anda Tudo Ligado. E deste título se passou a fazer remate para conversas e prosas. Sim, isto anda tudo ligado, como dizia o poeta.

«Foi então que o barulho das luzes começou a sentir-se.
Foi então que o barulho das luzes começou a crescer.
Foi então que o barulho das luzes começou a entusiasmar.
Qual a cor das luzes do futuro?»


No seu livro O Revólver do Repórter deixou escrito:

«Abro as janelas para o rio, meto o papel na máquina, acendo um cigarro e penso: “Que grande solidão!”»

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