Migalhas para um novo ano:
O aroma inconfundível de um bom vinho tinto, o cheiro a leite-creme acabado de queimar, o cheiro a café.
1.
«Tentei ligar um
percurso através dos salpicos ténues na neve, mas continuavam a surgir
dispersos e quando abri os olhos já estavam totalmente dissipados. Tateei
à procura do comando da televisão e liguei-a, tendo o cuidado de evitar os
balanços relativos ao ano anterior ou as perspectivas para o Ano Novo. A
surdina aconchegante de uma maratona de episódiso da série Lei e Ordem era
exactamente o que eu precisava. O detetive Lennie Brisoe tinha obviamente
recomeçado a beber e fitava o fundo de um copo de uísque de terceira categoria.
Levantei-me, deitei um pouco de mescal num pequeno copo de água e sentei-me à
beira da cama a bebê-lo ao mesmo tempo que ele, observando num silêncio
entorpecido mais uma repetição de outra repetição. Faço um brinde ao Ano Novo,
mas é um brinde a coisa nenhuma.
Imaginei o meu casaco
preto a vir bater-me no ombro.
- Desculpa, velho amigo
– disse eu -, mas andei mesmo à tua procura, sabes’
Chamei mas não ouvi resposta; cumprimentos de onda desnivelados diminuíram qualquer esperança de averiguar o seu paradeiro. É assim que acontece com o chamamento e a capacidade de ouvir. Abraão ouviu o chamamento de Deus. Jane Eyre ouviu os gritos suplicantes de Mr. Rochester. Mas eu estava surda em relação ao meu casaco.»
Patti Smith em M Train.
2.
Primeiros
anos da década de 60.
Os
tempos não eram fáceis.
No
jantar do Dia de Natal e do Dia de Ano Novo, comia-se perú assado no forno.
Uns
dias antes do Natal, ia com o meu pai ao Lavradio buscar dois perús, que tinham
vindo do Alentejo, criados a bolota e tudo o que há (ou havia) nos montados
alentejanos.
Na
Estação Sul e Sueste apanhávamos o barco para o Barreiro, ainda a vapor.
Depois
a camioneta do José Cândido Belo para o Lavradio, onde vivia um tio que
trabalhava na CUF.
Mais
de meio-dia de viagens, acreditem.
Os
perús vinham, vivos, em dois cestos de verga.
O
do Natal era logo embebedado com bagaço, depois temperado pela minha avó
materna.
O do Ano Novo ficava dentro do tanque de lavar a roupa, ia comendo uma mistura de pedacinhos de couve e milho, e a aguardar a bebedeira antes de entrar no forno.
Éramos
tantos à mesa, tanta gente morta, agora...
3.
Carruagem
do Metropolitano entre a Alameda e as Olaias, uma moça, em conversa ao
telemóvel – bem alto para toda a carruagem ouvir:
- O que te digo é que
este ano foi péssimo, mas o próximo vai ser muito pior!...
- ?
- É como te digo…
- ?...
- Janto e enfio-me na
cama, não quero saber de mais nada…
4.
Este ano, vindas não
sei de onde, as cerejas estavam a 18 euros o quilo.
De uma tisana de Ana
Hatherly:
«Quando eu era criança do que eu mais gostava era de cerejas».
5.
Vergílio Ferreira, no findar de 1978:
«Estava eu a querer saber o que vou fazer este ano. Não sei.»

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