quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

VENEZUELA: OS DIAS SEGUINTES

Marco Rubio, Secretário de Estado da presidência de Donald Trump, nasceu em Miami, filho de cubanos que, depois da chegada de Fidel de Castro, refugiaram-se em Miami.

Anticomunista primário, há longo tempo que tem em marcha a ideia, o sonho, em que toda a América Latina preste vassalagem a Trump, o velho regresso ao enorme quintal dos Estados  Unidos.

A Venezuela foi o primeiro passo, mas já foram deixados avisos à Colômbia, ao México, a Cuba, ao Brasil.

1.

Donald Trump assumiu que os Estados Unidos estão "preparados" para um segundo ataque à Venezuela, caso a presidente interina do país, Delcy Rodríguez, deixe de colaborar com as autoridades norte-americanas.

2.

Um jornal de Hong Kong referiu esta terça-feira, 6 de janeiro, que a tomada do controlo político da Venezuela pelos Estado Unidos poderá comprometer infraestruturas sensíveis da China no país sul-americano, incluindo estações de rastreio de satélites e ativos no sector petrolífero.

No entanto, o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou no domingo que Washington não permitirá que “inimigos dos EUA controlem esses recursos”, numa referência direta à China e à Rússia.

A China é também o maior investidor estrangeiro na Venezuela e um dos principais compradores do seu petróleo, de acordo com o jornal. 

3.

A líder da oposição da Venezuela, María Corina Machado, agradeceu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pelas "acções valentes" que levaram à captura do líder venezuelano, Nicolás Maduro. São "um enorme passo para a humanidade, para a liberdade e para a dignidade humana".

Jornais norte-americanos alimentam a ideia de que Corina caiu em trumpalhada desgraça  no dia em que não recusou o Nobel da Paz e não declarou que o prémio deveria ter sido atribuído a Donald Trump.

Talvez um dia se saiba das verdadeiras razões que levaram o Comité norueguês a atribuir a Maria Corina Machado o Nobel da Paz.

4.

"Cerca de 200 dos nossos melhores norte-americanos entraram no centro de Caracas, onde aparentemente os sistemas de defesa aérea russos não funcionaram muito bem, capturaram um indivíduo procurado pelas autoridades norte-americanas com apoio das nossas agências de segurança, sem que nenhuma morte tenha ocorrido" entre os militares dos EUA, disse Hegseth, citado pela agência de notícias Europa Press.

Donald Trump garante que controla a Venezuela, mas, em Caracas, ontem tomou posse um novo Parlamento alinhado quase a 100% com Maduro e a antiga vice do agora prisioneiro dos EUA prestou juramento enquanto presidente interina. Com esta indefinição, e Delcy Rodríguez aos comandos do país, a diáspora venezuelana que celebrou a queda de Nicolás Maduro aguarda agora um sinal para saber se pode regressar a casa.

5.

Nas ruas de Caracas vive-se uma enorme indefinição.

"Nestas circunstâncias, ninguém vai correr para casa", explicou à agência AFP Ligia Bolivar, socióloga venezuelana e ativista de direitos humanos que vive na Colômbia desde 2019."Não houve mudança de regime na Venezuela, não há transição", disse, contrariando a tese de um diplomata norte-americano, que descreveu "um novo amanhecer".

Para alguns dos oito milhões de venezuelanos que fugiram do país ao longo da última década de ruína económica e repressão, a alegria de ver Maduro ser levado a um tribunal de Nova Iorque foi temperada pelo conhecimento de que o regime aguentou o choque de perder o líder.

6.

A escalada militar dos EUA contra o regime chavista, que culminou na captura de Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, na madrugada de sábado, levou Caracas, nos últimos meses, a adotar uma série de medidas para reforçar a segurança pessoal do então chefe de Estado. A mais emblemática delas foi a ampliação do papel de guarda-costas cubanos em sua equipe mais próxima, em meio ao temor de que pudesse ser traído pelos seus compatriotas. Além de ter designado mais oficiais de contra-espionagem de Havana para as forças armadas venezuelanas. Agora, de acordo com os governos da Venezuela e de Cuba, 32 militares cubanos foram mortos durante a operação americana. Os mortos registados eram membros das forças armadas e serviços secretos. 

Quanto a uma intervenção em Cuba, Donald Trump referiu que não seria necessário, pois "o país cairá por conta própria".

No entanto, não descarta uma intervenção na Colômbia e descreve o Presidente, Gustavo Petro, como um "homem doente" e narcotraficante. Petro negou as acusações, alertando Trump para não o difamar.

7.

Antes da invasão da Venezuela o consumo de pizzas no Pentágono deu o sinal que algo iria aconrecer.

 A "Pentagon Pizza Index" é uma teoria que sugere que um aumento nas encomendas de pizza pode indicar o lançamento de operações militares de grandes proporções nos EUA. Embora não tenha fundamento científico, é baseada na lógica de que os funcionários do Pentágono trabalham até mais tarde nessas situações e, por isso, fazem mais encomendas.

8.

As Nações Unidas manifestaram, nesta terça-feira, uma profunda preocupação com a dramática operação dos Estados Unidos na Venezuela, alertando para o facto de esta ter claramente "minado um princípio fundamental do direito internacional".

"Os Estados não devem ameaçar ou usar a força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado", disse Ravina Shamdasani, porta-voz do gabinete dos direitos da ONU, aos jornalistas em Genebra.

9.

Donald Trump avisa que a Gronelândia é fundamental para a segurança dos Estados Unidos.

«Trump quer comprar a Gronelândia e a Dinamarca já vendeu território aos EUA no passado
Como se lê esta quarta-feira no Live Blog do jornal Sermitsiaq, um dos dois jornais da Gronelândia, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está a discutir as opções para anexar a Gronelândia, “um importante objectivo de política externa” dos EUA e uma “prioridade de segurança nacional”. A hipótese da intervenção militar não está posta de parte, mas a preferência parece ser, de acordo com uma fonte da Administração norte-americana, a aquisição do território que se fosse um país independente seria o 12.º maior em área do mundo. E 50 vezes o tamanho da Dinamarca.

O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, garantiu, citado pelo Guardian, no fim-de-semana, que “não há qualquer razão para entrar em pânico ou para ficar preocupado”. A Gronelândia “não está para venda e o nosso futuro não se decide por publicações nas redes sociais”.

António Rodrigues no Público

10

«Quando tudo se desmorona à nossa frente e teimamos em fazer de conta que não vemos, há sempre Martin Niemöller* para recordar onde tudo acaba quando julgamos que nunca chegará a nossa vez. Adaptando o que ele disse, depois de libertado, ao que Trump está a fazer com o mundo: primeiro bombardeou o Irão, achámos muito bem, porque podiam ter um projeto nuclear. Depois, bombardeou a Nigéria para proteger os cristãos, não protestámos, porque somos cristãos. Quando invadiu a Venezuela, reagimos com cautelas, porque o regime era uma ditadura. E depois, quando se voltar de novo para a Gronelândia, vamos entregar a ilha, porque não podemos ficar sem aliado. E, se ele um dia quiser os Açores, podemos protestar à vontade, porque já não haverá ninguém para nos ouvir.»

Paulo Baldaia no Expresso.

Sem comentários: