quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O PRAZER DE ESPERAR

«Lembro-me de uma história de Federico Fellini que ouvi contar a Tonino Guerra: um dos hábitos do cineasta era chegar a qualquer encontro um bom bocado antes da hora aprazada, fosse a um reunião de trabalho ou a um jantar de amigos. Chegava a esse sítio e punha-se a fazer tempo, caminhando prazenteiro e sem dar sinais de coisa alguma ao longo da rua, para lá e para cá. Quando os amigos o surpreendiam nisto e lhe perguntavam porque não tinha tocado à porta imediatamente, a  resposta era semelhante à do fotógrafo: "O prazer de esperar."

A nossa cultura que mitifica (ingenuamente) a eficácia e o utilitarismo há muito cancelou o valor da espera. Os prazos sôfregos que incorporamos consideram-na um atraso de vida, uma excrescência irritante, bota de elástico e obsoleta. Esperar porquê? Do pronto a vestir ao pronto a comer, da comunicação em tempo real ao experimentalismo instantâneo dos afetos: a espera tornou-se um peso morto com o qual não sabemos lidar e que é preciso descarregar borda fora. Talvez este desejo de instantaneidade seja em nós um dissimulado reflexo defensivo, o medo crescente de que num mundo acelerado não exista afinal ninguém nem coisa nenhuma que nos espere. Quando todos vivem altamente pressionados, tudo se torna arriscadamente precário — é o que vamos constatando. Mas por dentro, e a medo, e sem falar disso.

Damos por nós hipermodernos, polivalentes, aparelhados de tecnologia como uma central ambulante, multifuncionais mas sempre mais dependentes, perfeccionistas mas sempre insatisfeitos, vivendo as coisas sem poder refleti-las, próximos da atividade extenuante e, no fundo, distantes da criação. Precisaríamos talvez dizer a nós próprios e uns aos outros que esperar não é necessariamente uma perda de tempo. Muitas vezes é o contrário. É reconhecer o seu tempo, o tempo necessário para ser; é retomar o tempo para si, como lugar de maturação, como oportunidade reencontrada; é perceber o tempo não apenas como enquadramento do sentido mas como formulação em si mesma significativa. Quem não aceitar, por exemplo, a impossibilidade de satisfação imediata de um desejo, dificilmente saberá o que é um desejo (ou, pelo menos, o que é um grande desejo). Quem não esperar pacientemente pelas sementes que lançar, jamais provará a alegria de vê-las florir.»

 

José Tolentino Mendonça em Para os Caminhantes tudo é Caminho

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