Pobre de quem procura e não encontra.
Infeliz de quem espera e não alcança.
Movem-se os olhos,
apuram-se os ouvidos,
e quando as mãos se agitam numa esperança
afundam-se nos bolsos e emudecem.
A máquina da
História, que fabrica
os dias do futuro
com a sucata das horas do presente,
alimenta-se de ecos, de palavras,
de vozes fátuas, de melífluos cantos,
do bafo morno das gargantas pródigas
em bordados, em rendas, em matizes.
Olho em redor
e vejo os homens todos separados
em grupos, cada um da sua cor.
São vermelhos, são verdes, são cinzentos,
alguns são amarelos como o oiro,
todos na mesma praça, aglomerados,
mas cada um voltado ao seu quadrante.
As vozes interferem-se,
e o conjunto
é um estentor de vozes,
de baixos, de barítonos, de tenores,
sopranos e contraltos.
Desço também à praça
e nela me diluo e me confundo.
E aqui estou. Por aqui deambulando,
ouvindo e observando
o próximo e o distante,
perscrutando,
tentando adivinhar o pensamento alheio,
olhos postos nos olhos,
procurando,
buscando aqueles cujas mentiras
mais se aproximam das minhas verdades.
António Gedeão de Novos Poemas Póstumos em Obra Completa
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