Ovelho recorte que há dias publicámos sobre o encerramento da Editora/Livraria Cotovia, revelava que o seu proprietário apenas publicava os livros de que
gostava. O dinheiro era dele, a editora era dele, a escolha era dele e não
estava para cedências, fossem elas quais fossem.
Nunca
encontrei o livro, especificamente não sabia da sua existência, mas fiquei a
saber que João André editou um livro sobre os começos dos poemas de Jorge de
Sena e isso é tão importante quando se sabe que muitos poemas não têm título e
apenas funciona o começo de cada poema.
Apesar
de saber que os livros de Poesia do Jorge de Sena têm um Índice dos Primeiros
Versos, achei a edição do João André uma coisa maravilhosa.
1.
Portugal foi em 2025 o quinto país do mundo que mais milionários recebeu, ao mesmo tempo que se vai sabendo que o risco de pobreza ou exclusão social ameaça 2,1 milhões de pessoas.
2.
Por
vezes vem-me à memória os tempos do confinamento provocado do Covid desce até nós.
As
horas em que não sabíamos nada uns dos outros.
Há um Diário por aqui.
«Sexta-feira 13.
Dia de azar.
Feitiços. Bruxas. Gatos
pretos. Não passes por debaixo de escadas. Não abras o chapéu-de-chuva dentro
de casa. Não tenhas relógios parados dentro de casa.
Em tempo de pandemia
valerá a pena falar de sextas-feiras 13?
Bluff absolutamente
inútil?
O papel todo branco à espera, ninguém sabe bem de quê!...»
3.
Dom
Quixote de Miguel Cervantes.
Está
lá tudo.
Um
livro impar que não é tão lido como se apregoa por aí.
Mas
muito poucos, mesmo muito poucos admitem que não o leram.
5. Não se pode ser português e assim suave, sem se sentir, primeiro, alguma raiva e, depois, uma melancolia incurável. Disso se morre por vezes. Disso terá morrido o pintor Bernardo Marques, compadre o poeta José Gomes Ferreira
4.
Como
dizia a mulher do tipo que se atirou do Viaduto Duarte Pacheco: a vida tem as
suas compensações.
5.
Existem
4800 médicos estrangeiros inscritos na Ordem dos Médicos mas apenas 976 têm
contrato com o SNS. em 2025 as duas maternidades onde se realizaram mais partos
são de hospitais particulares; seis em cada dez partos em hospitais privados
são feitos com recurso a cesarianas, o dobro do que se verifica no sector
público.
6.
«Sá
de Miranda já falava do desconcerto do mundo, Camões aprofundou o desconcerto
do mundo, Vieira sentiu na pele o desconcerto do mundo, Nicolau Tolentino
denunciou em versos autocomplacentes o desconcerto do mundo, o desconcerto do
mundo persegue-nos. Do renascimento ao barroco, da arcádia lusitana ao
romantismo, do modernismo ao surrealismo, passando pelo neo-realismo e demais
ismos, sempre o desconcerto do mundo, sempre esta sensação de injustiça, de
premiação do mal e desprezo do bem. Ainda hoje, o desconcerto do mundo. Uma
guilhotina suspensa por fios débeis sobre as nossas consciências.»
Hmbf em Antologia do Esquecimento
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