1. Conheci Jorge de Sena em 1958 quando o jornal Encontro publicou aquele Soneto que começa: “Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo/ mesmo no mal que consentis que eu faça”. Pio XII, Papa, tinha morrido e o soneto era dedicado à memória dele “que quis ouvir, moribundo, o ‘Allegretto’ da Sétima Sinfonia de Beethoven”. Era o primeiro Papa que morria na minha vida consciente e nessa altura — não sabendo o que soube depois — era mesmo o Pastor Angelicus. Comoveu-me que Jorge de Sena, não-católico — ou melhor, como um dia escreveu, um católico que não era nem podia ser católico, apostólico, romano, mas sim e apenas católico porque não era convictamente cristão — juntasse as lagunas dele às nossas e as juntasse nesses versos sublimes.
Essa razão obscura e a
clara e luminosa beleza do soneto levaram-me a ler a obra poética anterior de
Sena: “Perseguição”, “Coroa da Terra”, “Pedra Filosofal”, “As Evidências”. Li
também “Fidelidade” que a Morais publicou em 1958 e que acaba com o “Como de
Vós”. Entre 1958 e 1959, descobri o maior poeta português depois de Pessoa.
Mais de trinta anos passados, continuo o pensar o mesmo. Embora saiba que esta
afirmação continua a ser evidente e não era aceite por Sena que considerava
Pessoa e Sá-Carneiro como o seu Sá de Miranda e o seu Bernardim.
“As Evidências” é o
livro maior que se publicou em língua portuguesa neste segunda metade do
século. Com a eventual excepção de “Metamorfoses”. E o mais belo soneto da
nossa história é o soneto XXI de “As Evidências”, escrito a 16 de Abril de
1954. “Perdem-se as letras. Noite, meu amor,/ ó minha vida, eu nunca disse
nada./ Por nós, por ti, por mim, falou a dor./ E a dor é evidente — libertada”.
2. Conheci Jorge
de Sena em 1959, em casa do António Alçada, numa dessas reuniões clandestinas
em que sonhámos fazer a Revolução de 11 de Março. Discutia-se acaloradamente se
o primeiro “decreto” a sair era o que acabava com a Pide ou o que acabava com a
Censura Jorge de Sena interrompeu com outra prioridade. O primeiro decreto
devia era acabar com a Universidade de Coimbra Todos nos rimos muito, mas ele
não estava a brincar. Por mim, demorei muitos anos até o perceber.
Também não estava a
brincar quando, numa brincadeira de lugares futuros, pediu o de Embaixador em
Londres. Para não ter que ficar cá. Muito mais tarde, disse: “Porque o problema
não é salvar Portugal, mas salvar-mo-nos de Portugal”. Ele não se salvou.
3. Em Agosto de
1959, aos 39 anos, Jorge de Sena saiu de Portugal e foi viver para o Brasil. Em
1963, escrevi-lhe a convidá-lo a colaborar em “O Tempo e o Modo”.
Foi o começo de uma
correspondência regularmente mantida ao longo de sete anos. Para além da
espantosa colaboração de Jorge de Sena n'”O Tempo e o Modo”, devo-lhe várias
dezenas de cartas (páginas enormes, 40 linhas, escritas a máquina) em que por
tudo se interessava, por tudo perguntava. “É que nunca ninguém que me respeite
apelou para mim em vão. Às vezes, nem os que não me respeitam”.
4. Em Outubro de
1965, aos 45 anos, Jorge de Sena deixou o Brasil e fixou-se em Madison,
Wisconsin, USA.
Em 1968, voltou a
Portugal, após uma ausência de cerca de nove anos. Quando ele chegou, estava eu
na América e tinha incluído Wisconsin no meu itinerário, de propósito para o
visitar.
Foi em Dezembro de
1968, havia neve e um frio bom. Jorge de Sena não estava mas estavam Mécia de
Sena e os nove filhos que tinham tido. Pessoalmente, não conhecia ninguém, mas
fui recebido como se se tratasse de alguém da família. Naquela casa cabia muita
gente e jantares de 10 e 15 pessoas pareciam fazer parte do quotidiano. Foi lá
que conheci Adolfo Casais Monteiro. Salvo erro, foi ele quem levou um dia, como
presente, o “Dido e Eneias” de Purcell, na gravação EMI dos Mermaid de Geraint
Jones, com a Flagstad e a Schwarzkopf. Desde essa noite, o “Remember” é, para
mim, um sinal de união indissolúvel com eles. Revivi isso tudo há poucos anos —
já depois da morte de Jorge de Sena — quando, pela primeira vez, vi a ópera, em
Paris, com Jessye Norman no papel de Dido.
“Diz-me assim devagar
coisa nenhuma/ o que à morte se diria, se ela ouvisse,/ ou se diria aos mortos
se voltassem.”
5. Voltei no Natal
de 68, ainda Jorge de Sena estava em Lisboa. Lembro-me de um almoço na Gôndola
com o Vasco Pulido Valente. E lembro-me da sala cheia da Sociedade Nacional de
Belas Artes para uma conferência que ele lá foi fazer. Já tinha saído o número
especial de “O Tempo e o Modo” (Abril de 68) em que se dizia na cinta que seria disputado no
futuro a peso de ouro. Foi durante a conferência que reparei que Jorge de Sena
não se sentia à vontade, com aquela reviravolta de imagem face àquele ambiente
delirantemente consagratório que eu concelebrara. Essa conferência, sobre
Portugal na América ou Portugal no mundo, já não me lembro bem, parecia ser
feita de propósito para contrariar os meus “clichés”.
Grande parte dos ouvintes eram jovens e —1968—contestatários. No final,
reagiram com apupos e provocações ao jeito do tempo. A festa pareceu-me
estragada e saí dali com uma enorme incomodidade. Jorge de Sena, não. Olhou-me
a rir, nada zangado e perguntou-me se eu continuava a achar que as coisas
tinham mudado. “Daqui a vinte anos” — disse-me ele — “vão ser iguais aos outros
ou piores”. Era tão estúpido que não o tomei muito à letra. Não foi preciso
esperar tanto tempo.
6. De longe em
longe, voltei a vê-lo nos anos 70, quando cá vinha, antes e depois do 25 de
Abril. Depois, a notícia da doença. Depois, mais nada.
Lembro-me de ter ouvido
alguém contar que pouco antes de morrer perguntou à Mulher: “Ainda falta
muito?”. Treze anos antes, em 1965, escreveu-me no dia da morte de Eliot. E
dizia: “Você, que é jovem, não sabe ainda o que isto é de ter-se mais de
quarenta anos e começar a ver sumirem-se aqueles que foram as luzes vivas da
nossa juventude”. Quando Jorge de Sena morreu, eu tinha mais de quarenta anos.
Tinha quase a idade que Jorge Sena tinha quando Eliot morreu. (E Deus) “Não nos
aguarda — a mim, a ti, a quem amaste/ não nos aguarda, não. Por cada morte/ a
que nos entregamos el’ se vê roubado,/ roído pelos ratos do demónio/ o homem
natural que aceita a morte/ a natureza que de morte é feita”.
Para trás, ficaram seis
instantâneos em forma de retrato. Mas como fazer de outra maneira? Quando
preparei o tal número especial de 1968, pedi um retrato a Jorge de Sena. E ele
respondeu-me (da América): “Fui tirá-lo de propósito, porque já estou farto dos
velhos retratos de sempre. O pior é que, nesta América, ou se vai a um
fotógrafo de arte, que custa uma fortuna, ou a gente fica com cara de director
de banco”.
Não sendo fotógrafo de
arte (nem por uma fortuna) estes instantâneos foram a forma que encontrei de
não ficarmos — nem ele nem eu — com cara de director de banco.
João Bénard da Costa
Lido
em Poemas para Jorge de Sena

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