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quarta-feira, 24 de abril de 2024

OLHAR AS CAPAS


MFA e Luta de Classes

Ramiro Correia, Pedro Soldado, João Marujo

Biblioteca Ulmeiro nº 2

Editora Ulmeiro, Lisboa s/d

Vasco Gonçalves, a defesa lúcida dos trabalhadores, o democrata que não pactuava com manobras palacianas, que não aceitava pressões externas humilhantes, que sabia bem como a divisão dos militares progressistas enfraquecia perigosamente a Revolução, é objecto de uma das mais demagógicas campanhas de difamação de que há memória neste País (período fascista incluído), campanha que, por vezes, atingiu a vileza, pela mentira, pelo despudor, pela ausência de ética, pela irresponsabilidade. 

domingo, 14 de abril de 2024

OLHAR AS CAPAS

Ascensão, Apogeu e Queda do M.F.A.

1º Volume

Diniz de Almeida

Edições Sociais, Lisboa s/d

- Então  o Sr. Dr. Mário Soares já sabia do Golpe do 11 de Março… - perguntou intencionalmente Vasco Gonçalves, ao que o visado se justificaria, visivelmente embaraçado:

- Bem, eu na realidade tive conhecimento dele com uns dias de antecedência, mas isso não significa nada… o Dr. Cunhal, por exemplo, também soube com antecedência que ele se ia dar…

- Sim… sim…, - retorquiu severamente Vasco Gonçalves – mas a diferença é o que o Dr. Álvaro Cunhal avisou-me e o Dr. Mário Soares não…

quinta-feira, 21 de março de 2024

NOTÍCIAS DO CIRCO

Passavam 18 minutos da meia-noite quando, após duas idas ao Palácio de Belém, o presiedente Marcelo Rebelo de Sousa, indigitou Luís Montenegro como primeiro-ministro do reino.

O tempo que entretanto passou desde que um parágrafo de um comunicado da Procuradoria Geral da República, pôs fim ao governo de maioria absoluta de António Costa e lançou as eleições legislativas para o dia 10 de Março.

Entretanto, as amarguras do nosso quotidiano não param de crescer.

Registo, nem sei bem o porquê, uma entrevista do Fernando Alves à Bárbara Reis, publicada no Público de 7 de Janeiro de 2024, e só agora lida, em que ex-trabalhador da TSF, dizia que, vindo de Luanda, chegou a Lisboa no dia em que o Vasco Gonçalves largou os papéis no ar em Almada «aquela coisa operática».

segunda-feira, 3 de maio de 2021

FARIA HOJE 100 ANOS


«Conheci o Vasco Gonçalves mal. Ele gostou muito desse cartaz “Povo MFA, MFA Povo”, e quis oferecer-lhe o original. Fui a São Bento, ele disse-me que gostava muito dos meus bonecos, nem era dos meus cartazes, era mais dos meus desenhos. Fui recebido, ofereci-lhe o original e ele ficou muito agradecido. O Vasco Gonçalves parecia-me um daqueles revolucionários dos tempos antigos, já não havia homens daqueles. Irritava-se, exaltava-se. Havia uma honestidade, digamos, estomacal, naquele homem, que não sentia nos outros. Depois tinha aquele ar. Os outros tinham um olhar dúbio. Tinha-lhe uma grande admiração, e ele aparecia nas exposições, pude falar com ele. Fiz um cartaz, em que fui odiado em Portugal por isso: coloquei-o entre o soldado e o camponês. O cartaz foi arrancado por tudo o que era sítio. O Mário Soares ficava histérico, quando via esse cartaz! Também lhe ofereci esse cartaz. Concluindo: tenho uma boa impressão do Vasco Gonçalves.»

João Abel Manta entrevista ao Público, s/d.

terça-feira, 25 de abril de 2017

NOME DE ABRIL


Só algo de muito transcendente me leva, no 25 de Abril, a não descer a Avenida.
Fico sempre com a ideia de que, em cada ano, está mais gente e hoje via-se muita gente jovem.
Há pouco, nas reportagens da televisão, confirmei a ideia.
E muito feliz, e comovida fiquei, quando por mim alguém passou levando um cartaz com um nome: Vasco.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Astrónomos Portugueses

Pedro Alvim
Capa: José Araújo
Editorial Caminho, Lisboa, Julho de 1978

Como quem acende o bico do esquentador, e abre a torneira do lavatório chamando a água quente – assim o começo das manhãs. O dia era sempre uma palavra de ordem, uma toalha molhada pelos olhos, um pente correndo os cabelos… O dia, primeiras horas logo, era o ambiente a modificar: eles sabiam das sílabas mal colocadas, das vogais que não riam um acento agudo, do til ondulado sem expressão de voo. Uma outra estrofe, um outro sentido. Esta, este:
«É verdade que, em toda a nossa história, houve sempre portugueses que, por espírito mesquinho de classe, estiveram de cócoras diante do estrangeiro, prontos a sacrificarem os interesses da Pátria a interesses não nacionais. Todos nós conhecemos os nomes de tais homens, e execrámo-los. Durante séculos e séculos, como bicho dentro da maçã, o partido castelhano corrompeu e desfibrou o País até o levar aos opróbrios de 1580; mais perto de nós, foram os integralistas (ora de imitação francesa, ora de figurino germanófilo e nazi) que se entregaram à mesma tarefa. Hoje, erguem-se vozes a cantar loas à Europa – não à Europa dos trabalhadores, claro, mas à Europa dos monopólios e das sociedades multinacionais. Ontem, houve quem servisse Castela contra a arraia miúda; hoje há quem deseje colocar as classes laborais portuguesas na situação de fogueiras da fornalha da Europa capitalista…» (1)
Interrogavam-se:
«Alguém um dia falará assim?»
Respondiam:
«Certamente que sim!»
«E se vier a traição e calar estas palavras…?»
Como quem acende o bico do esquentador, e abre a torneira do lavatório chamando a água quente – assim a circulação das palavras certas no começo das manhãs invertas.


(     (1) -Vasco Gonçalves, «Discurso de Almada», Agosto/75

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1975


7 de Setembro de 1975

Fim do V Governo Provisório, o governo de passagem, tal como lhe chamou Costa Gomes, no dia em deu posse a Vasco Gonçalves.
Não teve mais de um mês de vida.

Mário Murteira no seu livro Depois das Revoluções:

 Para quem, como o autor destas linhas, teve a honra de ser colaborador do general Vasco Gonçalves durante o IV e V Governos Provisórios, é bem claro que o “gonçalvismo” como sistema de poder, ou concepção do seu exercício, não existiu. Em rigor, acrescente-se, só pode voltar a falar-se de “poder político em Portugal (verificado o desmantelamento do regime anterior ao golpe do MFA) precisamente depois do 25 de Novembro de 1975. E qualquer pessoa razoavelmente objectiva e informada sabe que o II, III, IV e o V Governos Provisórios, todos tendo Vasco Gonçalves como primeiro-ministro, foram bem distintos entre si, por corresponderem a diferentes fases do processo português desencadeado (inadvertidamente?) pelo 25 de Abril. A análise deste faseamento, e da sua lógica interna e externa, está por fazer, e esperemos que não sejam – uma vez mais – estrangeiros a explicar-nos o que se passou em Portugal nos anos febris de 1974 e 75. Aliás, quem poderá gabar-se de tê-lo já totalmente apreendido, em rigor e profundidade, para além das propagandas? (…)
O chamado gonçalvismo nunca existiu. Existiu, sim, no Portugal recém-libertado, um movimento social anti-capitalista que entre Março e Novembro de 1975 atingiu o clímax. Em 16 de Novembro desse ano, no Terreiro do Paço, entre algumas centenas de milhares de manifestantes, pareceu-me que a revolução era possível. Mas tratava-se de um equívoco. A revolução é em última análise, uma questão de poder. E o poder não estava nas ruas de Lisboa ou nos campos do Alentejo.

Editorial do Jornal Novo, da autoria de Artur Portela Filho:



 Opinião de Armando Pereira da Silva publicada no Diário de Lisboa:


A FRETILIN propôs a Portugal a abertura de negociações sobre a independência de Timor.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1975


5 de Setembro de 1975

ARTIGO DE OPINIÃO de Manuel Anta publicado no Diário de Lisboa.

A FRETILIN controla Dili que apresenta uma aparente calma.

PELA PRIMEIRA VEZ, a África do Sul admitiu que as suas tropas entraram em território angolano.

NA REUNIÃO DE TANCOS, face aos resultados verificados, Vasco Gonçalves renunciou à chefia das Forças Armadas para que tinha sido, há dias, por Costa Gomes.
Foi reestruturado o Conselho da Revolução. Sai a maioria dos conselheiros afectos a Vasco Gonçalves. O Conselho de 29 passa para 19 conselheiros. O grupo dos Nove consolida a sua posição.

BALANÇO das acções terroristas no período de Maio a Agosto de 1975:

Assaltos:                             105
Bombas, petrados               34
Incêndios                             20
Apedrejamentos                   5
Atentados atiro                     3
Espancamento organizado  1

Alvos políticos:

PCP                                            77
MDP/CDE                                 31
Sindicatos                                    7
Informação/Cultura                   7
FSP                                              5
Outros partidos de esquerda   13
Militares                                      4
Acções de intimidação              24   

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Dossier Terrorismo, Edições Avante, Lisboa, Junho de 1977

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

OS IDOS DE AGOSTO DE 1975



19 de Agosto de 1975

É ESTE O DESTAQUE, de 1ª página, que o Diário de Notícias dá ao discurso de Vasco Gonçalves, ontem, em Almada.
Mário Castrim, no seu Canal de Crítica, coloca em título:
Tudo muito simples: era apenas um trabalhador entre trabalhadores.
Natália Correia em Não Percas a Rosa:
O que é alarmante é perceber-se que, se os militares moderados não apearem imediatamente o manicómio gonçalvista, o povo saudará com frenético entusiasmo todo e qualquer movimento que derrube o poder.


VERGÍLIO FERREIRA no seu Conta-Corrente:

Ontem o Vasco Gonçalves largou discurso. Espectáculo extraordinário de desespero, de paranoia. Que se segue? Até quando vai isto durar? Que nos espera? A guerra civil é hoje visível no horizonte. Onde acolher os meus sessenta anos? Uma bala que passasse extraviada e decidisse a questão. Faz agora imensa falta um pouco de saúde a mais e de anos amenos.

VIOLÊNCIA À SOLTA NO NORTE DO PAÍS é o que vai acontecendo desde Julho e que agora, em Agosto,  se intensifica chegando já ao centro do país.
Os alvos dos ataques continuam a ser os Centros de Trabalho do Partido Comunista e as sedes do MDP/CDE. A onda de violência é desencadeada por elementos do ELP a que se associam populares descontentes e instigados pelos púlpitos e folhas paroquiais, numa tentativa de instalar um clima de terror e ódio.
De modo algum estes actos de violência constituem apenas fenómenos isolados e têm como modelo o que já se passou no Chile.
Ontem, grupos de indivíduos não identificados, atacaram o Pavilhão gimnodesportivo de Alcobaça, onde se realizava um Comício do PCP com a presença de Álvaro Cunhal.
Os desacatos começaram ao princípio da noite e só foram controlados perto das 2,30 horas após a intervenção de forças militares do R.I. 7 de Leiria e do RI 5 das Caldas da Raínha.
Dezenas de feridos tiveram de ser conduzidos ao Hospital de Alcobaça e alguns ficaram internados,
Hoje, em Angra do Heroísmo, durante violentos distúrbios, foram destruídas as sedes do PCP, MDP/CDE e MÊS.
Ainda hoje, em Ponte de Lima, um brutal ataque ao Centro de Trabalho do PCP, ocasionou um morto e centenas de feridos.
Durante o dia foram distribuídos panfletos pela cidade:
Custe o que custar, e doa a quem doer. Acabou de se esgotar a nossa paciência (senhores) comunistas e seus lacaios: agora ou vai ou racha. Fora da nossa querida terra. Queridos limianos: não podemos deixar de estar atentos com os traidores comunistas e seus lacaios porque agora já querem mudar de casaca para dizerem que foram enganados, para depois apunhalarem pelas costas os nossos queridos pais e filhos.
Em Braga, durante a madrugada, foram vandalizadas as montras da Livraria Vitor, propriedade do historiador e militante do MDP, Vitor Sá.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
ContaCorrente de Vergílio Ferreira.
- Não Percasa Rosa de Natália Correia.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

OS IDOS DE AGOSTO DE !975


18 de Agosto de 1975

Vasco Gonçalves, em Almada, profere um discurso de hora e meia a que alguns historiadores e cronistas teimam em balizar como o fim do gonçalvismo.
Poderiam dizer que chegara a hora da verdade,
Ou como se explicava Eduardo Prado Coelho, num artigo em O Jornal, citando Cohen-Bendit, quando este dizia que as barricadas não servem para mais nada a não ser para uma coisa: saber quem está de um lado e quem está do outro.
Do discurso de Vasco Gonçalves;
No dia em que se escrever a história destes últimos quinze meses e se trouxer a lume as traças e as manhas de alguns dos seus autores e figurantes, uns cujos nomes andam nas gazetas nacionais e estrangeiras, como paladinos da revolução e da liberdade, outros conspirando nos corredores e nos cantos da sombra, haverá decerto quem fique surpreendido. No entanto, para a grande maioria do nosso povo, a quem não se pode enganar eternamente, a boa-fé, as revelações que se fizerem não serão mais do que a confirmação daquilo que ele já há muito suspeita.
Chegou, enfim, a hora da verdade da revolução portuguesa. A partir deste momento não fica mais campo para os socialistas de palavras, para os falsos socialistas. É bom que todos estejam conscientes desta questão e façam um esforço no sentido de verem, para além das campanhas de intoxicação e de ataque que ultimamente têm chegado a algumas organizações e figuras entre as quais eu me encontro. A questão é entre aqueles que querem exercer o Poder no sentido de ajudarem os outros a tomar o seu destino nas suas próprias mãos e aqueles que, pretendendo exercer o Poder em nome do povo querem perpetuar a sua exploração. A questão coloca-se entre os que são socialistas nos actos e os que são socialistas nas palavras. A questão não é, pois, de oposição entre Vasco Gonçalves e Fulano ou Vasco Gonçalves e Sicrano. Não se trata, pois, de um problema de individualidades. A questão, repito, não é esta. A questão é mais profunda, só se pode pôr no campo da luta de classes, no campo da opção de classe, pondo as coisas claramente.
A Revolução não é de ninguém, é de todos. Por isso, agora que o fascismo - mercê das nossas hesitações, ambiguidades e querelas subalternas - está a levantar cabeça para recuperar o perdido em 25 de Abril, todos os antifascistas, todos os patriotas, todos os democratas, seja qual for o partido político a que pertencem, devem unir-se numa frente de defesa das liberdades democráticas, inabalável e indestrutível!

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Discursos de Vasco Gonçalves, Edição de Augusto Paulo da Gama, 1976.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

OS IDOS DE AGOSTO DE 1975


13 de Agosto de 1975

NO SEU LIVRO, A Resistência, José Gomes Mota relata, com detalhe, as conspirações que iam sendo construídas, primeiro para a elaboração do Documento dos Nove, segundo para a formação de um VI Governo Provisório:
Como o V Governo tinha uma esperança que não ia além de dois meses, era necessário encontrar rapidamente uma solução que pudesse ultrapassar definitivamente a crise aberta pelo abandono do IV Governo Provisório dos representantes dos partidos socialistas e popular democrático.
Reuniões com elementos do Grupo dos Nove e Otelo Saraiva de Carvalho acontecem em casa do próprio Gomes Mota.
Na entrevista à Agência espanhola Pyresa. Mário Soares chega a lançar a ideia de que Melo Antunes daria um bom Primeiro-Ministro.
Mas, ainda segundo Gomes Mota, a escolha recai em Carlos Fabião.
Nos próximos dias se dará conta do que então vai acontecendo neste Agosto de há quarenta anos.

CONTINUARAM a chegar em massa retornados de Angola.
Aos mais necessitados é-lhes dado 20, 50 ou 100 escudos para as primeiras despesas.
Entretanto o IARN vai resolvendo os problemas de alojamento.
De fonte não oficial, corre a notícia de que tropas da África do Sul entram no território para dar apoio à FNLA e à UNITA.

MIGUEL TORGA no seu Diário:
Coisa curiosa: esta revolução soçobra por inércia. As pessoas não actuam, por comodidade ou desleixo, à espera que as coisas se resolvam por si. Os próprios partidos praticam uma política morosa, de espera galegos. No fundo, todos reconhecemos intimamente a nossa mediocridade e não tentamos ecder-nos. Se depois a História nos confirmar, tanto melhor. Diante do comportamento de certos homens, fica a gente a pensar se estaremos em face de desencantados, de abúlicos, de cépticos ou de mistificadores.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

A Resistência de José Gomes Mota – Edições Jornal Expresso, Lisboa Junho de 1976.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

OS IDOS DE AGOSTO DE 1975


10 de Agosto de 1975

DE CANÇÕES  também se fez o Verão Quente de 1975.
Por estes dias, há 40 anos Companheiro Vasco cantava-se nas manifestações, ouvia-se na telefonia.
A canção pertence ao lado B deste single. 
Poema de Alfredo Vieira de Sousa e música de Maria do Amparo e Carlos Alberto Moniz.
O lado A tem Daqui Ninguém Arranca Pé, poema de Mário Castrim e música de Pedro Osório.


O embaixador Frank Carlucci parte, em plena crise político-militar, para Washington e antes de partir avista-se com Costa Gomes.
A Casa Branca lamentava quanto as investigações em curso no Congresso após o golpe no Chile dificultavam a actividade da CIA.


Henry Kissinger não se mostra agradado com o trabalho desenvolvido, em Portugal, pela organização.
No dia 8, o Diário de Lisboa publica um artigo sobre a actuação da CIA em Portugal:
A CIA esforça-se neste momento por arranjar «uma solução chilena para a Revolução portuguesa» - assevera o seu antigo agente Philip Agge numa «Carta ao Povo de Portugal», tornada pública no passado dia 1.
Agee vai mais longe: a CIA entrou com dinheiro para as eleições num gesto de apoio ao Partido Socialista. A infiltração, essa, dataria do tempo em que o PS ainda se encontrava no exílio.

Fontes:
- Acervo pessoal;

Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

sábado, 8 de agosto de 2015

OS IDOS DE AGOSTO DE 1975


8 de Agosto de 1975

COSTA GOMES dá posse ao V Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves, e apresenta-o como uma solução transitória, necessária para evitar uma  detioração da crise.
Como o PS e o PPD recusaram participar no governo, Vasco Gonçalves teve grande dificuldade em constituir o governo, mas não se poderá dizer que a qualidade e competência estivessem ausentes.
De referir que Otelo recusou ser vice-ministro e numa carta, tão descabida como indelicada, dirigida a Vasco Gonçalves, Otelo proíbe-o de visitar as unidades militares integradas no COPCON e pede ao general que descanse, repouse, serene, medite e leia.
Constituição do Governo:
Vasco Gonçalves – Primeiro-ministro
José Teixeira Ribeiro, António Arnão Metelo - Vice-ministros 
Silvano Ribeiro – Ministro da Defesa
Alfredo Cândido de Moura - Ministro Administração Interna
 Joaquim Rocha e Cunha Ministro da Defesa
Mário Murteira – Ministro do Planeamento e Coordenação Económica
José Joaquim Fragoso - Ministro das Finanças
Mário Ruivo – Ministro dos Negócios Estrangeiros
Henrique de Oliveira e Sá - Ministro do Equipamento Social e Ambiente
José Emílio da Silva – Ministro da Educação e Cultura
Fernando Baptista -  Ministro da Agricultura e Pescas
José da Silva Lopes – Ministro Comércio Externo
Manuel Macaísta Malheiros - Ministro do Comércio Interno
Fernando Quitério de Brito – Ministro da Indústria e Tecnologia. 
Costa Martins – Ministro do Trabalho
Francisco Pereira de Moura – Ministro dos Assuntos Sociais
Henrique Oliveira e Sá – Ministro dos Transportes e Comunicações
Correia Jesuíno - Ministro da Comunicação Social.
Discurso da tomada de posse de Vasco Gonçalves
Senhor Presidente da República
Camaradas das Forças Armadas
Senhores Ministros
Portugueses:
Com a tomada de posse do V Governo Provisório, damos um passo importante para a superação de mais um momento difícil da nossa Revolução.
As dificuldades na formação deste Governo mais não são que reflexos dos problemas cada vez mais complexos que a marcha do processo revolucionário nos traz.
Já o tenho dito em outras ocasiões, mas nunca é demais repetir que a substituição do velho pelo novo é sempre dolorosa e difícil.
Neste momento, e aproveitando uma conjuntura particularmente complicada no desenvolvimento do nosso processo revolucionário, em que as dificuldades económicas resultantes do desmantelamento do sistema económico velho, da crise do capitalismo internacional, dos erros por nós cometidos, se entrelaçam com a grave situação de Angola, com o aumento das pressões internacionais sobre o nosso País e com a incapacidade das forças, a quem a Revolução objectivamente serve para encontrarem um caminho firme de avanço neste processo de transição para o socialismo, as forças reaccionárias, as forças que não pretendem a construção do socialismo em Portugal, desencadearam uma forte ofensiva que tem deparado com aliados onde devia ter inimigos jurados.
Na tentativa de superação da crise económica que o país atravessa, empenhará este Governo todo o seu esforço, sendo a tónica dominante dirigida à execução de medidas imediatas e pontuais.
A par de outras acções que se impõem para já e que estão na fase final de elaboração, serão imediatamente promulgadas algumas medidas moralizadoras e de austeridade, que o momento actual exige.
Temos também consciência que o mundo rural, tradicionalmente sacrificado, pouco ou nada beneficiou no aspecto económico com a libertação política iniciada em 25 de Abril de 1974, alargando-se mesmo as diferenças de nível de vida relativamente às populações urbanas.
Por isso o nosso esforço irá incidir, prioritariamente no sector agrícola.
É pois necessário que os trabalhadores dos outros sectores da vida nacional ponderem a actual situação e sejam realistas. A grande tarefa do momento, para todos os portugueses conscientes e patriotas, é a de conquistar mais revolucionários para a Revolução.
Uma outra tarefa que se colocará a este Governo em colaboração estreita com as Forças Armadas e com o Povo Português será a do combate sereno mas firme às forças reaccionárias. No combate aos fenómenos de neo-fascismo que ultimamente se têm multiplicado no nosso país serão usadas severidade na repressão e determinação na tomada de medidas que tornem irreversível a construção do socialismo em Portugal, única forma de afastar para sempre o perigo do renascimento da opressão fascista.
Aos trabalhadores portugueses que nos têm dado os melhores exemplos revolucionários caberão as principais tarefas na construção do socialismo. Mais do que nunca o momento exige-lhes realismo reivindicativo, defesa da sua unidade de classe e construção da unidade indispensável com os trabalhadores do campo, com a pequena burguesia e com sectores da média burguesia.
A todos os portugueses e forças políticas patriotas e progressistas, ao Povo Português, faço um apelo à reconciliação, à unidade em volta das Forças Armadas —garantes do processo revolucionário e da democracia —, à construção de uma frente que englobando todos os portugueses que têm por objectivo a edificação do socialismo em Portugal torne irreversível o processo revolucionário iniciado a 25 de Abril.

EM TEMPO DE Cartas Abertas, Mário Soares envia uma a Costa Gomes:
A minha carta não é um desabafo: é uma advertência. Séria. E solene. É uma definição clara da responsabilidade de cada um, de cada campo em presença, perante o povo e perante a história.
Será ainda possível entendermo-nos? Pormo-nos de acordo nos termos de um projecto político comum que vença a crise e salve a Revolução, que assegure as liberdades, o socialismo e a esperança das massas trabalhadoras deste País?
Antes que seja tarde.
Não deixe acontecer o irremediável.

O DIRECTÓRIO (Costa Gomes, Vasco Gonçalves, Otelo) toma posição quanto ao Documento dos Nove:


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Discursos de Vasco Gonçalves, Edição de Augusto Paulo da Gama, 1976.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

OS IDOS DE JULHO DE 1975


24 de Julho de 1975

AGRAVA-SE a situação político-militar em Angola.
A ponte aérea, entre Luanda e Lisboa tem vindo a ser reforçada chegam ao aeroporto de Lisboa à volta de mil pessoas por dia.
Passarão a ser conhecidos como retornados.
Ao todo, terão regressado mais de 400 mil portugueses.

TANTO o Partido Socialista como o Parido Popular Democrático, proíbem que os seus militantes venham a fazer parte de um novo governo chefiado por Vasco Gonçalves.

Transcreve-se o comunicado do Partido Socialista, bem como um artigo de opinião de Armando Pereira da Silva, publicado no Diário de Lisboa:



VERGÍLIO FERREIRA no seu Conta-Corrente:
A situação política continua grave. Por todo o Norte do País vai despertando o ódio ao comunismo: assaltos, confrontações. A grande questão é agora a substituição do Vasco Gonçalves, que finalmente se revelou um camarada batido. O partido Socialista exige a sua rendição, os comunistas e aliados seguram-no desesperadamente. Há um erro de bom tamanho nos que nos querem infligir o comunismo e é que esse regime só é viável em povos primarizados (culturalmente, civilizacionalmente, economicamente). Nós somos europeus, que é que querem? Temos hábitos evoluídos, uma cultura que está para além da instrução, mesmo uma economia que não tem só que ver com a cortiça, um tipo de relações que vai um pouco além da do senhor/escravo, hábitos de inteligência, de vida que teriam de regressar, voltar ao princípio, à sociedade elementar generalizada do caldo de unto e do abc.

O SEMANÁRIO O JORNAL dedica largo espaço das suas páginas ao clima de anticomunismo que se tem feito sentir no centro e norte do País.
Afonso Praça, que fez a cobertura do assalto ao Centro de Trabalho do Partido Comunista Português em Alcobaça, tem este precioso apontamento que fala por si:.


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Conta-Corrente de Vergílio Ferreira

domingo, 19 de julho de 2015

OS IDOS DE JULHO DE 1975


19 de Julho de 1975

O dia em que, finalmente, a «maioria silenciosa» desceu à rua e se fez ouvir, com o Partido Socialista à frente, contra todos os radicalismos da esquerda civil e do Movimento das Forças Armadas.
A Alameda encheu-se, e estava lá de tudo para ouvir Mário Soares exigir a demissão imediata de Vasco Gonçalves e gritar:
Nós não temos medo. Não pode impunemente mentir-se ao povo português
Vasco Gonçalves não tem idoneidade moral nem política para ser o primeiro-ministro de Portugal!
Na Alameda ecoou o grito:
Fora o Vasco!
Ainda houve tempo para Mário Soares, «já com a a voz bastante rouca» informar os manifestantes de que a Direcção doo P.C.P. é uma cúpula de paranóicos e que a Intersindical é uma cúpula de irresponsáveis.
Alguns anos mais tarde, Mário Soares declarou que, se não tivesse pedido a ajuda a D. António Ribeiro, Cardeal Patriarca de Lisboa, não teria conseguido aquela multidão no comício da Alameda.
Na madrugada deste dia, o  MFA divulgou um comunicado onde poderia ler-se:
Portugal viveu, uma vez mais, dias decisivos para o seu processo revolucionário, caracterizados desta vez por um clima de instabilidade política, habilmente arquitectado por homens que parecem colocar, acima dos superiores interesses e anseios do povo português, a sua vaidade e a sua ambição.
Assistiu-se neste período por parte dos dirigentes de um partido que, pelo seu programa, deveria ser um dos mais importantes partidos políticos portugueses, a uma escalada de violência verbal, que, hábil mas traiçoeiramente, explorou as carências e insuficiências do nosso processo revolucionário e provocou, através da demagogia, da mentira e da calúnia, uma escalada de violência física que já causou vítimas inocentes no seio do Povo português.
O M.F.A está e estará sempre com todos os que honesta e conscientemente pretendem construir o Portugal de felicidade que os vossos filhos mereçam.
José Saramago, no Apontamento que na véspera publicara no Diário de Notícias, escreveu:
Nenhuma dúvida é já possível: ou Portugal cai sob a repressão de um regime neofascista capaz de rivalizar com o Chile de Pinochet e seus mandantes, ou cede às pressões nacionais e internacionais interessadas em fazê-lo ingressar na jangada capitalista e hábil da social-democracia, ou avança decididamente, lutando, para o socialismo. É isto o essencial, se não nos enganamos – e não vemos que alguém aí possa provar o contrário.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

OS IDOS DE JULHO DE 1975


6 de Julho de 1975.

NO ESTÁDIO da Várzea, na Cidade da Praia, foi ontem proclamada a independência de Cabo Verde.
Aristides Pereira foi eleito Presidente da República.
Na cerimónia, um emocionado Vasco Gonçalves representou Portugal:
Em nome do Presidente da República Portuguesa, em meu nome, em nome do Conselho de Revolução, em nome do Governo Provisório e sobretudo em nome do povo português, eu grito, do fundo da nossa alma de portugueses: Viva a independência de Cabo Verde.
O final do discurso foi guardado para a evocação de Amílcar Cabral:
Julgamos ter também o0 direito de considerarmos Amílcar Cabral como português. Amílcar Cabral era também um português. Teve formação em Portugal. Em Portugal ajudou os portugueses a aprenderem a ler nos centros republicanos. Combateu pela liberdade em Portugal e numa determinada altura veio continuar esse combate para a sua terra. Amílcar Cabral enriqueceu a vossa cultura, mas enriqueceu também a nossa, enriqueceu também a acultura dos portugueses. Devemos muito a Amílcar Cabral. Os nossos teóricos, os nossos rapazes, leram e leem as obras de Amílcar Cabral. Meditam, e meditam sobretudo no seu corajoso exemplo. Isto não é uma figura de retórica. Peço pois que me permitam que considere Amílcar Cabral um figura da nossa cultura. É da cultura portuguesa, ´+e da cultura cabo-verdiana, é da cultura luso-africana.


Fontes:
- Acervo pessoal;

Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

terça-feira, 30 de junho de 2015

OS IDOS DE JUNHO DE 1975



 30 de Junho de 1975

FUGIRAM de Alcoentre 88 pides.
O recorte pertence à primeira página do Diário de Lisboa.
Pela sua leitura fica a saber-se que na Penitenciária de Alcoentre estavam detidos 843 agentes da PIDE/DGS.
De uma prisão, considerada pelos técnicos como uma das mais seguras da Europa, os ex-agentes conseguiram descer os altos muros servindo-se de escadas improvisadas com ferros das camas, presos por cordas de plástico.
Do estranho e insólito acontecimento, José Carlos Ary dos Santos e Fernando Tordo escreveram o Fado de Alcoentre.

A introdução recitada por Ary dos Santos:

Mas enquanto homens lutavam com uma entrega total
Outros homens conspiravam contra o novo Portugal
Essas hienas que apertavam o garrote da tortura
Enquanto a Democracia se distraía em ternura
Esses homens que hoje saem da prisão em liberdade
Cães que rosnam, cães que traem, e passeiam na cidade

A letra do fado:

Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça.
Deixaram fugir mais oitenta e nove…
Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça.
Deixaram fugir mais oitenta e nove…

Os pides desceram pela corda alegremente.
Os guardas andavam passeando em Alcoentre.
E a esquerda levou com mais um corno pela frente.
Esta maldade não se faz à gente.
Que merda!

As grades foram todas serradas a preceito.
A fuga aproveitou-se do que era imperfeito.
E a esquerda, por causa da vergonha deste feito,
pode apanhar uma bala no peito…
Que merda!

Quem foram os que de fora das grades ajudaram?
Quem foram os que dentro das grades os armaram?
A esquerda não esquece tubarões que a torturaram.
Não pode perdoar se a enganaram.
Que merda!

Agora, a vigilância é tudo o que nos resta.
Pr’ós pides, a vida na prisão… era uma festa.
E a esquerda tem mais do que razão quando protesta,
pois pode apanhar um tiro na testa…

Que merda!


ENTRETANTO o Decreto-lei nº 329-C/75 demite da Armada, com efeitos retroactivos a 25 de Abril de 1974, o ex-Presidente da república, almirante Américo Tomás.

NO DIA 26 MOÇAMBIQUE tornou-se independente.
Do Rovuma ao Maputo.
Samora Machel é o presidente da República Popular de Moçambique, o 34º maior país do mundo
Em nome do governo português esteve presente Vasco Gonçalves.
À partida para Maputo, Vasco Gonçalves dissera: não recebemos lições de ninguém em matéria de descolonização.
Na conferência de imprensa, após a cerimónia da investidura de Samora Machel, disse:
Nós pensamos que as relações de novo tipo que Portugal está estabelecendo com as nações que hoje estão ascendendo à independência, foi a Guiné, hoje Moçambique, dentro de poucos dias cabo Verde, mais tarde Angola e os outros territórios, nós pensamos que estamos dando ao Mundo um exemplo de fraternidade, um exemplo de amistosidade, um exemplo de encarar com a maior nobreza e com a maior esperança as novas relações que se estão estabelecendo. Pensamos que estas relações podem ser seguidas por todos os povos do Mundo no caminhada independência de todos esses povos no caminho da paz, do progresso e do bem-estar da Humanidade


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

POSTAIS SEM SELO

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
de cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem,
vento areias mastros lábios, tudo ardia. 

Eugénio de Andrade em 12 Poemas a Vasco Gonçalves

Legenda: cartaz de Armando Alves em 12 Poemas a Vasco Gonçalves.

OLHAR AS CAPAS


12 Poemas Para Vasco Gonçalves

António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Casimiro de Brito, Eduardo Olímpio, Egito Gonçalves, Eugénio de Andrade, Gastão Cruz, J.J. Letria, José Barreiros, José Ferreira Monte, Maria da Graça Varela Cid, Maria Teresa Horta
Com um cartaz de Armando Alves e um desenho de José Rofrigues
Colecção O Oiro do Dia nº 9
Editorial Inova, Abril de 1976

A tua voz excessiva tornava-os mais pequenos.
Eles exigiam-te palavras untuosas,
as secas flores da jactância,
seu sono e alimento.
A verdade saía da tua boca iluminada
e eles tinham os ouvidos postos na mentira
no bocejo intrigante, na fala camuflada.
A tua voz recuada na origem não se perdia
nos afazeres verbais da litigância
não sabia a ganância.
Era o vento dos pobres sobre os metais do luxo.
Não te punhas a embalar o povo
como à criança que tarda a adormecer.
Atiravas-lhe à cara as palavras abruptas
um rosto incorruptível por marés de ferrugem
e gestos de morrer.

A tua fronte vasta tornava-os mais pequenos.
Nela despertava o susto das mães familiares,
o trigo parco dos homens nas tabernas
que te olhavam ingénuos vendo a seara crescer.
Ao colo dos pais os meninos sorriam
e os velhos viam coisas saltar dos teus cabelos.
Mas eras tu que soltavas a vida
amarrada a um poste como um burro de carga
a vida desavinda que os enraivecia
e que lhes dava um coice na pança saciada.

Aqui perde-se o tempo a trabalhar as lendas.
Mas o teu rosto não pode adormecer
sobre a toalha tépida que tece a tua ausência
onde derramo o choro e os outros vão beber.
Porque o teu pulso não suportava a febre
e erguia-se no ar como um pássaro agudo
que respirasse os ventos antes de partir.

Sobre o ladrar dos cães a tua voz alteia
como a papoula que o tempo não desfolha
a coluna de fogo que cai sobre a alcateia.
És o lagar imenso onde as uvas fermentam
sob os pés descalços e vivos da memória.
És a boca que a História utilizou por boca
o corredor onde o orvalho cresce entre a juventude
e os homens se passeiam com trigo na cintura.
Neste lugar de Inverno lembramo-nos de ti
como quem desperta.
Ninguém aqui precisa de recuar no tempo
nem das sereias que engolem o nevoeiro.
Ninguém aqui suporta que tu voltes
como um Desejado
com o seu cortejo de rotas feiticeiras
que gritem pelo teu nome junto aos becos do mar
com as suas luas gordas de saudade e preguiça.
Teu nome está de pé como um mastro
de cal rubra.
Estás aqui, entre nós, no meio do teu País.
Connosco vais contigo porque o povo assim o quis.


Armando da Silva Carvalho

COMPANHEIRO VASCO


Vasco Gonçalves morreu há 10 anos.

Em toda a parte do mundo se tem chamado loucos a homens que não têm nada de loucura. Os grupos prejudicados claro que me chamavam louco. Era louco por causa das medidas que estavam a ser tomadas? Foram medidas que salvaram a economia portuguesa,

Vasco Gonçalves, entrevista à Visão 24 de Março de 1994

O Vasco Gonçalves parecia-me um daqueles revolucionários dos tempos antigos, já não havia homens daqueles. Irritava-se, exaltava-se. Havia uma honestidade, digamos, estomacal, naquele homem, que não sentia nos outros. Depois tinha aquele ar. Os outros tinham um ar dúbio. Tinha-lhe uma grande admiração, e ele aparecia nas exposições, pude falar com ele. Fiz um cartaz, em que fui odiado em Portugal por isso: coloquei-o entre o soldado e o camponês. O cartaz foi arrancado por tudo o que era sítio, O Mário Soares ficava histérico quando via esse cartaz.

João Abel Manta, entrevista ao Público, s/d