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sábado, 27 de setembro de 2025

REOLHARES


 Só agora, fortuitamente, uma chatice, ultimamente tudo me acontece fortuitamente, dei conta que o Presidente da República atribuiu a Grã-Cruz da Ordem de Camões a António Lobo Antunes no 10 de Junho e entregue a Lobo Antunes a 1 de Setembro, dia do seu aniversário.
Segundo o jornalista João Céu e Silva, António Lobo Antunes deixou de escrever, de fumar (algo que para Lobo Antunes era como respirar), já não reconhece os seus próximos e perdeu a noção do mundo que o rodeia.
Voltar atrás, e reolhar este texto por aqui publicado no dia 5 de Maio de 2018:

«Em 2018, passam 20 anos sobre a atribuição a José Saramago do Prémio Nobel da Literatura.

Maria do Rosário Pedreira lembra no seu blogue Horas Extraordinárias:

«Há uns anos, pediam aos membros do P.E.N. uma sugestão de um autor português que devesse ser candidato ao Prémio Nobel, e o nome do escritor que colhesse mais «votos» era depois encaminhado para o P.E.N. Internacional que, suponho, teria voto na matéria e poderia propor nomeações. Eu puxei sempre a brasa à minha sardinha (de poeta) e indiquei, enquanto foi viva, Sophia de Mello Breyner e, depois, embora soubesse que provavelmente o recusaria, Herberto.»

Miguel Torga será o escritor português que mais vezes foi, pelos seus pares, indicado para o Prémio Nobel da Literatura.

Passou despercebida a notícia de que a Academia Sueca pediu formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura:

«Em nome da Academia Sueca temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018.

Os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram os nomes de Manuel Alegre, o mais votado, e Agustina Bessa-Luís.

Provavelmente, António Lobo Antunes, o eterno candidato português, não terá apreciado o gesto dos membros da Academia.

Mas tudo foi em vão.

Soube-se, hoje, que este ano não haverá Nobel da Literatura.

A Academia Sueca ficou sem quórum depois da última demissão e, por esse motivo, o prémio não pode ser atribuído. O impasse resulta do facto de, embora demissionários, os membros da Academia não poderem ser substituídos enquanto forem vivos.

Tudo começou em Novembro do ano passado, com o escândalo que envolve o fotógrafo Jean-Claude Arnault, marido da poeta Katarina Frostenson, um dos membros mais proeminentes da Academia: Arnault é acusado de assédio sexual por dezoito mulheres, mas, indiferente à controvérsia, Katarina Frostenson só se demitiu há poucas semanas.

Trata-se da primeira vez que, em tempo de paz, o prémio não é atribuído.

O Nobel da Literatura foi, tal como os das restantes categorias, sete vezes não atribuído durante as guerras mundiais do século passado mas nunca por outros motivos.

Questionado pelo Diário de Notícias pela não atribuição do Nobel da Literatura, António Lobo Antunes reagiu assim:

 «O assunto Nobel não me interessa.»

terça-feira, 25 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


 

Aqui Emissora da Liberdade

Matos Maia

Capa: João Viegas

Colecção 25 de Abril Os Dias da Revolução nº 5

Edição fac-simile A Bela e o Monstro/Rapsódia Final/Jornal Público, Lisboa Março de 2025

                                          «Que o poema seja microfone e fale

                                          uma noite destas de repente às três e tal

                                          para que lua estoire e o sono estale

                                          e a gente acorde finalmente em Portugal»

                                                                                      Manuel Alegre

 

E foi assim

O poema fez-se microfone.

E o microfone falou, de repente

Não às três e tal, como previa o poema.

Mas às quatro e vinte e seis.

Dum dia que já é célebre.

E é festa.

25 de Abril de 1974.

A lua estoirou.

O sono estalou.

E a gente, finalmente, acordou em Portugal.

O microfone foi o nosso,

O microfone foi o do Rádio Clube Português – a emissora da liberdade.

Palavra e acção proibidas e reprimidas durante dezenas e dezenas de anos.

Nem Manuel Alegre, nem Rádio Clube Português, nem nós , pensámos vez alguma que tal acontecesse.

Que o microfone fosse poema.

Que o microfone falasse.

E acordasse a gente em Portugal.

Mas aconteceu!

A lua estoirou e o sono estalou.

Lua que nunca mais estará encoberta.

Sono a que um povo nunca mais será obrigado.

Porque foi.

O que foi.

Como foi.

Palavras.

Depoimentos.

Verdades.

Fotos.

Tudo do posto de comando do Movimento das Forças Armadas.

Do Rádio Clube Português.

Da emissora da liberdade.

Foi daqui que o país soube.

Foi daqui que a alegrai, a angústia, o desespero, a verdade, as lágrimas saíram para as ruas.

E tomaram de assalto cidades e vilas.

Invadindo casas, penetraram no sono e na dúvida de milhares de portugueses.

Como?

Tudo está nas páginas que se seguem.

 

Matos Maia

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

CANTARES DO ANDARILHO


ORFEU STAT 002

Editado em 1968

Capa de Fernando Aroso

Acompanhamento à viola: Rui Pato

Som e mistura: Moreno Pinto


Face 1


Natal dos Simples – Letra e Música José Afonso

Balada do Sino – Letra e Música José Afonso

Resineiro Engraçado – Letra e Música de uma canção popular da Beira Alta

Canção de Embalar – Letra e Música José Afonso

O Cavaleiro e o Anjo – Letra e Música José Afonso

Saudadinha – Letra e Música canção tradicional dos Açores


Face 2

O Tecto na Montanha – Letra e Música José Afonso

Endechas a Bárbara Escrava – Letra Luis de Camões Música José Afonso

Chamaram-me Cigano –Letra e Música José Afonso

Senhora do Almortão – Letra e Música do folclore da Beira Baixa

Vejam Bem – Música e Letra José Afonso

Cantares de Andarilho – Letra de António Quadros (pintor) Música José Afonso

O poeta António Cabral, numa introdução às Canções de José Afonso a determinado passo cita Luis Góis: «fado de Coimbra nunca existiu. Existiu, sempre, isso sim, um estilo de interpretar próprio de Coimbra.» e quase de imediato cita o próprio José Afonso: «designei as minhas primeiras canções por baladas não porque soubesse exactamente o significado desse termo, mas para as distinguir do fado de Coimbra que comecei por cantar e que, quanto a mim, atingira uma fase de saturação.»

É dentro deste espírito que surge Cantares do Andarilho e pode dizer-se que este disco é um vendaval que desaba sobre a música portuguesa, que transforma a balada numa arma interveniente contra a ditadura. Tal como escrevera Manuel Alegre:

«só cantando se pode incomodar
quem à vileza do silêncio nos obriga.
eu venho incomodar.
trago palavras como bofetadas
e é inútil mandarem-me calar.


Mas foram eles, aqueles a quem, depreciativamente, chamaram baladeiros que abriram janelas onde nem paredes havia.


Palavras de Urbano Tavares Rodrigues na contra capa:

« A noite das lágrimas e da raiva. A madrugada das carícias e do sorriso. O dia claro da festa colectiva. Tudo isso se encontra na poesia cantada de José Afonso, cantada por José Afonso. A luminosa gargalhada do povo, o seu suor de sangue, nas horas de esforço ingrato e de absurda expiação. O lirismo primaveril e feminino das bailias que não morreram. E o orvalho da esperança. E os ecos de um grande coro de fraternidade sonhada e assumida. José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que toma o presente em futuro, que à tradição arranca a chama do amanhã. No tumulto da contestação, na marcha de mãos dadas, com flores entre os lábios, é ele a figura de proa, o arauto, o aedo, o humilde, o múltiplo, o doce, o soberbo cantador da revolta e da bonança. Singelo José Afonso do Algarve doirado, dos barcos de vela panda, do Alentejo infinito sem redenção, dos pinhais da melancolia, dos amores sem medida, do sabor de ser irmão... José Afonso é a primeira voz da massa que avança em lume de vaga, é a mais alta crista e a mais terna faúlha de luar na praia cólera da poesia, da balada nova.»

Uma prosa de Gonçalo Frota, citada no site da Associação José Afonso, conta que José Afonso concorreu ao Festival da Canção da Televisão:

«Um dos temas incluídos em Cantares do Andarilho, "Vejam Bem", havia sido pensado originalmente para participar no Festival RTP da Canção. Os mesmos amigos de A Brasileira que assistiram ao nascimento de um novo Zeca Afonso, haviam de incentiválo a concorrer e como a resposta do músico aconteceu sob a forma de pergunta "o que é preciso fazer?", a resposta seguinte foi colocada nas mãos de Rocha Pato. O jornalista telefonou aos colegas do Primeiro de Janeiro em Lisboa e estes informaramn o que era necessário enviar uma cassete e uma partitura dentro de um envelope sem nome. "Partitura?!" – olharam uns para os outros. "Mas quem é que pode saber fazer uma partitura?". Talvez o senhor Pires, vendedor numa loja de electrodomésticos da cidade, a quem frequentemente Zeca e Rui Pato compravam uns discos. Acontece que o homem tocava saxofone na banda da Pampilhosa – o que, desde logo, indiciava alguns conhecimentos mínimos de teoria musical. Chegados à loja, cumprimentaram o vendedor e logo fizeram soar um "Oh senhor Pires, se a gente lhe cantarolasse uma cantiga você passava isso a partitura?". "Então não passava!". O resto vem pela voz da memória de Rui Pato: "O Zeca sentou-se lá na loja dos frigoríficos, comigo e com o senhor Pires a ouvir, ele ia cantando e eu com a viola ia ajudando, e o tipo escreveu aquilo tudo". A música acabou por não ser seleccionada, num ano (1967) em que o vencedor foi Eduardo Nascimento com "O Vento Mudou". E o vento, de facto, começava a mudar. Na vida de Zeca Afonso, na sua música, em toda a que se fazia à sua volta e, em breve, no seu país.»

domingo, 7 de janeiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL

                       Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                                         João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

Para início de conversa, fui buscar um poema do Manuel Alegre, retirado de A Praça da Canção. A ilustração é uma pintura de Cipriano Dourado.



A RAPARIGA DO MÊS DE ABRIL

 

Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

 

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

 

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

 

Começa a pátria onde começas. Verde campo

verde mar. Capital da ternura.

Tu és a lâmpada no meio desta festa

com fogueiras e povo dentro dos poemas.

 

Era a estranha paisagem da pobreza

o cheiro secular das coisas que apodrecem

era a canção cantada pelos bêbados

que vomitam seu fardo de viver.

 

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

 

Quando vieste tudo ficou certo.

Encheram-se de trevo os campos das palavras

encheram-se de gente as mãos de cada verso

com sete estrelas sete luas nós cantámos.

 

E tu disseste: ergue-te e vai.

Não ouves este vento este soluço?

Ergue-te e canta uma canção para o teu povo.

Com sete barcos sete espadas nós partimos.

 

Raparigas sentaram-se ao redor do poema.

E então cantei de amor por ti cantei

na língua que por vezes é tão triste

a nossa língua que por vezes é assim: tão pura.

 

Mulher   por ti cantei. E tu me deste

um puro continente algarves de ternura.

Por ti cantei entre meu povo e meu poema

e achei   achando-te   o País de Abril.

 

Manuel Alegre em Praça da Canção


A 1ª edição de Praça da Canção é editada, em 1965, pela revista Vértice de Coimbra, constituindo o 3º volume da colecção Cancioneiro Vértice, cujos primeiros volumes são Cuidar dos Vivos (1963) de Fernando Assis Pacheco, e Corpo de Esperança (1964) de José Carlos de Vasconcelos.

Os poucos livros postos à venda foram imediatamente apreendidos pela PIDE, mas o livro beneficiou da distribuição pelos assinantes da revista.

A 2ª edição de Praça da Canção, editada em 1967, na excelente Colecção Poesia e Ensaio, de que é o nº 18, coordenada por Vitor Silva Tavares e orientação gráfica de Espiga Pinto, também foi de imediato aprendida pela polícia da ditadura.

O exemplar que existe na Biblioteca da Casa foi uma cortesia do livreiro Carvalho, trabalhador da então Livraria Clássica Editora, sediada ao lado do antigo Cinema Eden, que antevia os livros que seriam apreendidos e guardava-os para os clientes de confiança em que o meu pai estava incluído.

Esta nova edição tem prefácio de Mário Sacramento que começa assim:

«Não me levem a mal se, apoiado num livro que pode considerar-se de estreia, me afortunar a dizer que com Manuel Alegre nasceu o maior poeta do neo-realismo português. Assim o sinto, assim o devo escrever, muito embora não esqueça todos os que foram ou são maiores poetas do que ele em definidos (ou restritos) rumos ou tonas e modos do que em poesia podemos abarcar pela designação de neo-realismo. É que em Manuel Alegre não há singularidade, mas sim a espontaneidade dum lirismo vigilante que tem um só tema, um só modo e um só nome: poesia, e pelo qual desabrocha em plenitude e maturidade uma vocação que integra o que antes dele for sobretudo ensaio, esboço ou realização parcelar e mitigada.»

 

Ainda por Abril pela Praça da Canção, recorde-se, ver aqui, a história de a Aida ter copiado para um caderdinho de linhas todos os poemas para distribuição pelos amigos.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA CANTA JOSÉ NIZA

ORFEU STAT 010

FACE A
Emigração - Curros Henriquez
E Alegre se Fez Triste - Manuel Alegre
O Senhor Morgado - Conde de Monsaraz
Cana Verde - Fernando Miguel Bernardes
A Vila de Alvito - Raul de Carvalho

FACE B
Canção Tão Simples - Manuel Alegre
Cantiga de Amigo - Luís de Andrade
Para Rosalia - Curros Henriquez
Roseira Brava - António Ferreira Guedes
História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro - António Aleixo

Todas as músicas são de José Niza.

Arranjos: José Calvário, José Niza, Rui Ressurreição, Thilo Krasmann
Orquestra sob direcção de José Calvário e Thilo Ktrasmann
Capa e orientação gráfica: Silva e Castro
Produção e supervisão musical: José Niza
Editado em Novembro de 1971

Disco comprado na Discoteca Roma e custou 188$50, ao câmbio actual menos de 1 euro.

«Quase toda a música deste disco aconteceu no norte de Angola, em 1970, durante as incomensuráveis noites em que, médico na guerra, buscava a evasão de não estar ali. Apenas duas canções («Emigração» e «Para Rosalia» existiam já desde 1969, histórico ano em que Ricard Salvat à frente do CITAC, compus a música para a peça «Castelao e a sua época». É, de certo , modo, uma homenagem póstuma a coisas (ainda) vivas.

Um disco não se explica. Ouve-se!

Mas pode, também, contar-se…

José Niza

Novembro 1971

domingo, 17 de abril de 2022

CANTAREMOS


 

«Cantaremos» é editado em 1970

Capa de J.F. Bogalho

FACE A

Cantar de Emigração

José Niza música, poema de Rosalia de Castro

Saudade Pedra e Espada

Música Roberto Machado, poema Manuel Alegra

Fala do Homem Nascido

Música de José Niza, poema de António Gedeão

O Sol Préguntou à Lua

Canção popular açoriana

Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da Concorrência

Música Adriano Correia de Oliveira, poema Manuel Alegre


                                                          Ilustração do interior do LP da autoria de J. F. Bogalho

FACE 2

 Lágrima de Preta

Música de José Niza, poema de António Gedeão

Canção Com Lágrimas

Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Manuel Alegre

Cantar Para Um Pastor

Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Matilde Rosa Araújo

Como Hei-de Amar Serenamente

Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Fernando Assis Pacheco

Sapateia

Canção popular açoriana

A Noite dos Poetas

Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de A. Barahona da Fonseca


Arranjos de Rui Pato e Carlos Alberto Moniz
Acompanhamentos de Rui Pato, Tiago Velez, Raul Mendes e Adriano Correia de Oliveira.


                                                Ilustração do interior do LP da autoria de J. F. Bogalho

Como hei-de amar serenamente
Com tanto amigo na prisão
Deixar intacta a minha voz
Nos acidentes da ternura
Como hei-de estar sentado e calmo
Sentado e calmo com a minha amada

Não posso estar serenamente
Não posso amar serenamente
Os versos esmagam-se na boca


E fica mais amarga a minha boca
Não posso estar serenamente
Não posso amar serenamente


sábado, 16 de abril de 2022

O CANTO E AS ARMAS


ORFEU - STAT 003 - 1969

FACE 1

E De Súbito Um Sino (poema dito por Ruy Mendes) - Raiz (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - E A Carne Se Fez Verbo (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - E O Bosque Se Fez Barco (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - Peregrinação (Adriano Correia de Oliveira) - A Batalha de Alcácer-Quibir (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - Regresso (Manuel Oliveira/Adriano Correia de Oliveira)

FACE 2

Canção da Fronteira (António Cabral/Adriano Correia de Oliveira) - Por Aquele Caminho (José Afonso/Adriano Correia de Oliveira) - Canto Da Nossa Tristeza (Manuel Alegre/Luís Colaço) - Trova Do Vento Que Passa Nº 2 (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - As Mãos (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - Post-Scriptum (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira)

Eis como tudo
entra de súbito
pelas palavras
a terra e o mar
as mãos e as vozes.
Tua guitarra
povo. Teu génio.
E o teu silêncio
é de súbito um sino
tocado pelo vento
em todas as aldeias do meu sangue.

 A capa e contracapa do disco, da autoria de J. Bugalho, é uma fotografia que regista a assembleia magna em Coimbra que decidiu a greve aos exames.

 O disco é composto por poemas que constam de O Canto e as Armas e Praça da Canção e abre com E de Súbito um Sino, poema dito pelo actor Rui Mendes.

A gravação teve o precioso cuidado técnico de Moreno Pinto.

Em Outubro de 1969, para acabar com a contestação que marcava os dias na Universidade de Coimbra, a ditadura pegou em 49 estudantes contestatários e espetou com eles na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, para cumprimento de serviço militar e enviá-los para a guerra,

Coimbra, 17 de Abril de 1969, inauguração do edifício de Matemáticas, o estudante Alberto Martins, no meio da bancada do auditório, onde decorria a cerimónia, levanta-se e interpela a mesa.

 - Em representação dos estudantes da Universidade, peço licença a sua excelência para falar nesta sessão.

 O então presidente Américo Tomás, apanhado de surpresa, diz:

 - Bem, mas agora fala o senhor ministro das Obras Públicas.

 Nos estudantes recrutas enviados para Mafra, encontrava-se Rui Pato, estudante de medicina, que numa manhã apareceu em Lisboa, nos estúdios da Polysom, em Campolide, para a gravação do álbum O Canto e as Armas de Adriano Correia de Oliveira.

 Tal como conta Rui Pato:

Um LP que foi combinado pelo telefone em Março de 1970, entre o Adriano e eu. Ele, oficial da Polícia Militar no Regimento de Lanceiros 2 em Lisboa; eu ,castigado devido à crise académica de 1969, oficial de Cavalaria na Escola Prática de Cavalaria em Santarém. Eu não fazia ideia do que é que o Adriano queria gravar…só sabia que eram poemas do Manuel Alegre. E as melodias? “Isso vê-se lá”, respondeu o Adriano. Combinámos uma data, tinha que ser num dia em que ele estivesse a fazer a ronda no jeep da PM. Eu pedi ao Salgueiro Maia que me autorizasse o “desenfianço” para aquele dia e…no dia aprazado lá fui até Lisboa aos estúdios onde o técnico Moreno Pinto nos esperava. Cheguei primeiro. Depois chegou um jeep da PM e sai de lá o Adriano, fardado, cheio de correias, de capacete e pistola!
Pousou toda aquela tralha por cima do piano…e a pistola lá estava…num coldre branco! Eram AS ARMAS. O CANTO… veio depois. Fomos desfolhando poemas do livro do Alegre, ele improvisava uma melodia, eu um arranjo e acompanhamento e…como nas contas de um rosário assim se gravou uma a uma as cantigas deste disco…até às oito da manhã que foi quando a “ronda” do Adriano terminou e o jeep o veio buscar.
Assim, em cerca de 15 horas, foi feito, de improviso, o LP O CANTO E AS ARMAS.

O disco contém poemas dos livros O Canto e as Armas e Praça da Canção

Acompanhamento à viola de Rui Pato.



sexta-feira, 15 de abril de 2022

SOU BARCO

E este é o 2º LP que a ORFEU colocou na sua colecção «Super Budget».

ORFEU SUPER BUDGET 1018

Capa de Fernando Aroso

Este, e o anterior LPde Adriano que aqui apresentámos, mereceu que a Orfeu os intitulasse ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA.

Por querer dar nomes diferentes, para além da generalização do nome do cantor, para este texto escolhi a canção Sou Barco, poema de António Borges Coelho, escrito nas masmorras do Forte de Peniche. «tempo onde o tempo morre».

O poema, que tem música de Luís Cília, faz parte do livro Fortaleza.

Alinhamento do disco tirado da contra capa:



Acompanhamentos de Rui Pato.

sábado, 9 de abril de 2022

TROVA DO VENTO QUE PASSA


Por estes dias iremos lembrar os «EPs» e os «LPs» do Adriano Correiade Oliveira que existem aqui pela Biblioteca da Casa.

Comecemos pelos EPs e, inevitavelmente, com aquele que contém a Trova do Vento Que Passa.

Disco publicado em 1963e  que contém:

Trova do Vento Que Passa

Poema de Manuel Alegre, Música de Adriano Correia de Oliveira

Pensamento

Poema de Manuel Alegre, Música de Adriano Correia de Oliveira

Capa Negra, Rosa Negra

Poema de Manuel Alegre, Música de Adriano Correia de Oliveira

Trova do Amor Lusíada

Poema de Manuel Alegre, Música de Adriano Correia de Oliveira

Nas músicas, Adriano Correai de Oliveira contou com a ajuda de António Portugal, cunhado de Manuel Alegre.

Os acompanhamentos são de António Portugal (guitarra) e Rui Pato (viola).

Diga-se desde já, que as capas dos discos do Adriano são muito felizes.

Por desleixo, ou outro motivo qualquer, as editoras raramente colocavam os autores dessas capas, bem como os autores das fotografias, bem como as datas em que os discos foram gravados.

Este EP contém a Trova do Vento que Passa, a mais conhecida canção de Adriano, cantada em coro nas quase clandestinas sessões de canto livre, principalmente, na Margem Sul, antes de serem interrompidas pela PIDE e pela GNR.

Fui a muitas dessas sessões, os que queríamos que o vento que passava, nos desse notícias dum país amordaçado, mas o vento calava a desgraça, o vento nada dizia, mas a voz única de Adriano, levantava-se e gritava que há sempre alguém que resiste, alguém que diz não.

Recordamos hoje uma outra lindíssima canção de Adriano. Pensamento. pensamento que partiu no vento, podem prendê-lo matá-lo não, o pensamento dos homens que foram vagabundos, contrabandistas, marinheiros, prisioneiros, mas servos não.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


Não há estante que aguente.

O maior livro da biblioteca da casa, tem a altura de 42 cm e a largura de 29,5 cm.

O livro é da autoria de Mário Viegas que, para além da sua discografia, deixou escrita, e largamente ilustrada, a sua Auto-Photo Biografia (não autorizada).

Logo na capa Mário Viegas diz ao que vem:

«Rir, Chorar, Denúncias, Teatradas, Poesia, Amor, Ódio, Acção, Mistério, Escândalos, Surpresas!!!

Revelações sensacionais!! Segredos político-teatrais nunca divulgados!!!

Mais de 200 páginas com textos e fotografias inéditas».

A páginas 132 Mário Viegas fala de Eugénio de Andrade e cita: 


«Um Poeta, que sempre me respeitou! Não é como o merdas do Alegre,,,»

Lembrar que a pedido do médico Jorge Ginja, mobilizado para a Guerra Colonial, em 1969 Mário Viegas gravou 40 poemas.

A gravação foi encontrada, no meio de diversa papelada e cassettes, pela filha de Jorge Ginja, falecido em Maio de 2020 e está editada num áudio livro onde cabem poetas como José Carlos Ary dos Santos, José Gomes Ferreira, António Gedeão, Manuel Alegre, Alexandre O’ Neill, Joaquim Namorado, Pablo Neruda, Sebastião da Gama, entre outros.

Curiosamente este audio livro tem prefácio de Manuel Alegre por quem Mário Viegas não nutria a melhor das ideias...

Diga-se, por fim, que dado o tamanho do livro do Mário Viegas, ele encontra-se deitado numa parte da estante, juntamente com outros livros que, por motivos vários, não respeitam os tamanhos normais.

domingo, 26 de julho de 2020

ETECETERA


Há muito que a justiça portuguesa se passeia pelas ruas da amargura.

Maria João Marques deixou escrito no Público:

«Sabem o que me lembram os vários juízes arguidos na Operação Lex e a expulsão da magistratura de Rui Rangel? A Igreja Católica com os escândalos de pedofilia.
Os padres católicos entretiveram-se durante décadas especializando-se em recomendar uma moral sexual draconiana – e abusiva – aos crentes do mundo todo, em vez de se dedicarem, como deviam, a trabalhar em prol dos mais pobres e fracos.»

O Ministério Público vai acusar Ricardo Salgado de liderar organização criminosa.

José Maria Ricciardi, outro membro do gang BES, que tem passado pelo intervalo dos pingos da chuva, com um descaramento infinito, manifestou-se perplexo, e disse aos jornalistas «Não imaginei que a situação fosse tão má!»

Mas este tipo quer enganar quem?

Já o banco estava nas lonas, corria o ano de 2008, membros do conselho superior do banco, atribuíram a si próprios, e cada um, 29 milhões de euros para que a família pudesse continuar a brincar aos pobrezinhos na quintarola da Comporta.

A acusação levou seis anos a ser montada e está lavrada em 4.117 páginas. Já não sei quantos milhões e milhões de euros estão em jogo.

As televisões aproveitaram para recordar as palavras do presidente Cavaco Silva e do presidente do Banco de Portugal Carlos Costa, garantindo que o BES era completamente credível e os portuguese podiam apostar nele.

Também Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque a garantirem que os portugueses não pagariam um cêntimo que fosse pelo Novo Banco.

1.
Centenário do nascimento de Amália Rodrigues.
Manuel Alegre a dizer no Diário de Notícias que Amália e Camões foram feitos um para o outro.
Porque não te calas, como dizia o outro.

2.

Éramos os melhores a enfrentar a pandemia, os jornais lá fora não falavam de outra coisa. 

Agora uma série de países dizem que não somos um destino recomendável.

O presidente Marcelo não entende como isto nos está a acontecer.

3.

O Governo desaconselha os portugueses de fazerem férias em destinos longínquos e avisa mesmo que não haverá operações de repatriamento, ao contrário do que aconteceu no início da pandemia.
4.

Li há dias que os gastos com graffittis, que a CP já despendeu em 10 anos, dava para comprar um comboio.

5.

Os clubes das primeiras divisões europeias vão ter quebras de 4 mil milhões de euros em receitas (excluindo transferências) nas épocas 2019/2020 e 2020/2021, conclui um estudo da Associação Europeia de Clubes sobre o impacto da pandemia do novo coronavírus.

6.

O José Gomes Ferreira disse um dia que a Poesia não se premeia persegue-se.

Alguém, que não lembro o nome, disse que os prémios literários são um reconhecimento, agradecem-se e no dia seguinte o trabalho continua.

Pois os prémios valem o que valem e nunca lhes dei qualquer importância.

Tudo isto para vos dizer que o escritor Mário Cláudio, com Tríptico de Salvação, ganhou, pela terceira vez, o Grande Prémio de Romance e Novela de 2019.

Foram admitidas 60 obras a concurso e nos finalistas estavam, para além de Mário Cláudio, A visão das plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida, O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça, de Ana Margarida de Carvalho, Homens de Pó, de António Tavares, e A Luz de Pequim, de Francisco José Viegas.

Por três vezes, José Saramago, viu negada a atribuição deste prémio.

Quando, por fim, o recebeu, com o dinheiro do prémio mandou comprar livros para serem enviados para os Palop.

Mário Claudio é um homem amável, um bom escritor, mas algo distante de, por três vezes, ser vencedor do prémio.

Coisas!... ou para acabar de vez com a cultura, como diria um tal de Woody Allen.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

ETECETERA


Marcelo Rebelo de Sousa foi às compras de calções e máscara.

A imprensa espanhola achou piada e o episódio tornou-se naquela detestável frase: «viral nas redes sociais.»

Não havia necessidade e ainda está tão longe a campanha presidencial.

1.

Ana Gomes não gostou que António Costa declarasse o apoio do Partido Socialista a Marcelo Rebelo de Sousa, e num tom apeixeirado afirmou: «O PS não é o partido do Costa!»

Manuel Alegre juntou-se ao coro dos que também não gostaram da cena.

O PS, excepção feita a Mário Soares – e mesmo assim!... – nunca se entendeu com as eleições presidenciais.

Nas últimas, apareceu Maria Belém apenas para chatear António Costa e tirar votos à candidatura de Sampaio da Nóvoa em benefício de Marcelo.

2.

Prescreveram dois casos de alegados abusos denunciados na arquidiocese de Braga.

3.

A Barata, livraria histórica da cidade de Lisboa desde 1957, está em risco de fechar portas.
Os tempos já não corriam de feição, a pandemia do Covid-19 complicou ainda mais a sua situação financeira.

4.

Os salários pagos aos gestores do Novo Banco, cresceram 75%.

A subida verificou-se nos dois últimos exercícios, apesar de nesse período o banco ter tido prejuízos milionários e sucessivas injecções do Estado.

5.

Crise tira 220 milhões de euros aos lucros dos bancos.

6.

O desemprego sofreu em Abril um aumento de 22,1 por cento, por comparação com o mesmo mês de 2019.

sábado, 21 de março de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

A MINHA AMIGA RÁDIO

Agora que a bola voltou a rolar, a sério, nos relvados do Reino, lembro os meus tempos dos relatos de futebol na rádio. Escrevi rádio mas gosto mais de dizer telefonia.

Quando o futebol era jogado apenas nas tardes de domingo, Inverno às três da tarde, Verão às quatro da tarde.

No restaurante que a Aida teve em Almoçageme, não descansámos enquanto não pusemos, na parte da tasca, um velho rádio, que só dava onda média e ondas curtas. E nem sempre!

Assim como uma velha crónica do brasileiro Maurício Neves:

«No princípio era o verbo. O Flamengo era pouco mais do que o burburinho do rádio, composto pelo alvoroço dos locutores e pelo chiado das ondas médias, que meu pai tentava reduzir girando o botão maior, o da sintonia. Pacientemente. Às vezes mexia na antena, mudava o aparelho de lugar alguns milímetros, com o cuidado tenso de quem desarma uma bomba. De repente a voz de bluesman de Jorge Curi enchia a sala: “Anooooteeem... Teeeeempo e placaaaarr no maaiooorrrr do muuuundoooo...” Eu sabia poucas coisas. Mas sabia que maior do mundo era como Jorge Curi chamava o Maracanã, e sabia que logo ele estaria gritando um gol de Zico. Aliás, Zico não. Um gol de Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai seguia olhando o rádio, onde estava escrito Philco acima da tela metálica e furadinha. O som enchia a sala de heróis que circulavam ao redor de nós. Uma sucessão de espectros rubro-negros: Zico tocava a Adílio, que driblava um e abria para Júlio César, o entortador, que entortava um, dois, três, e a bola voltava para Zico que então virava Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai sorria olhando para o rádio: o Flamengo saía dali.»

Os relatos do futebol pela rádio.

As perfeitas tardes de domingo de um tempo perdido para sempre, vozes que ainda ouço apesar de já não andarem por aqui.

As tardes de domingo, os jogos a começarem todos à mesma hora, os relatos na Emissora Nacional, as marchas do John Philip de Sousa, enquanto se aguardava a ligação ao estádio, o Artur Agostinho, o Amadeu José de Freitas, o Nuno Brás e era apenas o relato de um jogo, mais tarde passaram a dois: «atenção Nuno, jogada perigosa».

João César Monteiro, em As Recordações da Casa Amarela, deitado na cama do quarto alugado, ouvindo, num rádio de pilhas, o relato da Emissora Nacional. A voz do locutor, de repente, grita: «golo do Benfica», o João César ergue-se, de braços no ar a vitoriar o golo.

Manuel Alegre, no seu livro Alma, recorda essas tardes de relatos de futebol nas tardes de domingo, a voz de Alfredo Quádrios Raposo que eu já não apanhei:

…os jogos de domingo e os relatos de Alfredo Quádrios Raposo, o melhor locutor desportivo de todos os tempos. Nesse tempo não havia transmissões directas e ao fim das tardes de domingo ainda não se sabiam os resultados. Era preciso esperar pelo resumo da primeira parte e o relato da segunda, que eu ouvia no RCA, em companhia dos meus amigos que não tinham rádio. Ouvíamos então a voz inconfundível de Alfredo Quádrios Raposo anunciar os golos do Peyroteu, os tentos do Julinho, as grandes jogadas do Vasques e do Travassos, os cortes de cabeça de Feliciano, os dribles de Mariano Amaro, a recepção de bola com o peito de Francisco Ferreira, capitão do Benfica. E as defesa do Azevedo, do Capela, do Martins, do Barrigana, as intercepções do Guilhar, os remates fulminantes de Araújo. Ou os nomes raros dos jogadores do Sul, como o Abraão e o Grazina, do Olhanense, o Patalino e o Massano, do Elvas. Eram momentos inesquecíveis, sobretudo quando havia jogos entre os grandes. A minha irmã por vezes ia espreitar por detrás do aparelho e nenhum de nós compreendia muito bem como era possível o jogo estar a decorrer nas Salésias, em Alvalade, no Campo Grande ou na Constituição e nós em Alma a ouvir o relato como se estivéssemos a ver. Seguíamos as palavras, as entoações de voz, as mudanças de ritmo, as pausas. E víamos. Era uma forma de ficção, quase sempre mais verdadeira do que a realidade. Nunca ninguém relatou como Alfredo Quádrios Raposo. Ele era a nossa ligação à capital, ao Estádio, ao jogo. Durante muito tempo ele foi a nossa festa, todos os domingos, ao fim da tarde.
Os jogadores viviam na nossa imaginação como figuras de lenda. Conhecíamo-los apenas das fotografias dos jornais, da revista Stadium e dos cromos que comprávamos embrulhados em rebuçados para depois colarmos numa caderneta. Mas era na voz de Alfredo Quádrios Raposo que verdadeiramente víamos os jogadores. Entravam em nossa casa, todos os domingos, ao fim da tarde. Vinham na voz daquele locutor de quem nunca vi o rosto nem faço a mínima ideia de como era, se alto ou baixo, se magro, se gordo, se velho, se novo. Era uma voz, um brado na tarde triste, um drible, um centro cruzado, um remate de cabeça, uma defesa para canto, uma recarga, um golo. Primeiro no RCA, depois no Telefunken trazido da Alemanha por Tiago de Faria, meu tio, que o deu a meu pai, juntamente com uma espingarda, a troco de uma edição rara, senão mesmo a primeira, da Arte de Bem Cavalgar a toda a Sela, de D. Duarte.
Também esses velhos aparelhos, quando aqueciam, tinham um cheiro. Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar, com Feliciano à ilharga, mais um golo do Sporting contra o Belenenses, no Estádio das Salésias.

Texto publicado em 13 de Agosto de 2017

quinta-feira, 11 de julho de 2019

PRAÇA DA CANÇÃO


No dia 2 de Maio de 1974 chegou do exílio, em Argel, bateu à porta do PS que lhas escancarou.
Com ele vinha outro exilado, Fernando Piteira Santos, a quem um dia perguntaram porque se não tinha filiado no Partido Socialista e aquele que perguntou, ouviu a resposta: “Porque sou socialista”. 

No prefácio à 2ª edição de Praça da Canção, Mário Sacramento lembrava  a  notícia-crítica que escrevera, em 1965:

«Não me levem a mal se, apoiado num livro que pode considerar-se de estreiam, me afortunar a dizer que com Manuel Alegre nasceu o maior poeta do neo-realismo português.»

Numa carta datada de 12 de Fevereiro de 1973, Carlo Vittorio Cattaneo  contava a Jorge de Sena:

«No encontro romano, Alexandre O’ Neill, aos que lhe pediam uma opinião sobre Manuel Alegre (que conta muitos admiradores em Itália) respondeu muito duramente que Alegre não é um poeta ou, no máximo, pode-se-lhe chamar poeta somente porque escreve versos. Você também é desta opinião? A resposta interessa-me precisamente por causa do sucesso que Alegre tem com os leitores italianos.»

Em carta, datada de 7 de Março de 1973, Jorge de Sena responde:

«O que o O’Neill disse do M. Alegre é a opinião que eu também tenho. Não direi que o homem não é poeta, mas é sem dúvida um poeta muito menor. Não entendo o sucesso italiano dele, a menos que seja pelo tom «popular» e «engagé» que ele mistura muito bem para cantigas à guitarra.»

Carlo Vittorio Cattaneo publicará em 1975 «La Nuova Poesia Portoghese» e em Janeiro de 75 lembra a Jorge de Sena: «Manuel Alegre, se bem que poeta medíocre, me serve como exemplo de poesia política.»

A antologia dos poetas traduzidos por Vittorio Catttaneo inclui Herberto Helder, Ruy Belo, Pedro Tamen, Manuel Alegre, Armando Silva Carvalho, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, Nuno Guimarães, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalhães, Nuno Júdice.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

QUE ME DEIXOU UM POUCO PERPLEXO


Em Amsterdão, Outubro de 1970, António José Saraiva escreve a Óscar Lopes e a dado ponto anda às bicadas ao neo-realismo português:

Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que me parece impróprio) não há um ínico grande escritor neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.
E não há só uma invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do redol e outros.
(…)
Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço d’Arcos.
Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte.


Legenda: Ferreira de Castro