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quarta-feira, 2 de outubro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Colóquio/Letras

Número 53 – Janeiro de 1980

Homenagem a José Gomes Ferreira

Artigos de:

Fernando J.B. Lepecki

Carlos Reis

Orlando Ribeiro

Maria da Glória Padrão

Depoimentos de:

Casimiro de Brito

Gastão Cruz

Jacinto do Prado Coelho

Joel Serrão

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Janeiro de 1980

«Não falei muito da poesia de José Gomes Ferreira. Tentei, porém, indicar como ela se inscreve no primeiro plano das mais renovadoras tendências da poesia portuguesa das últimas décadas, o que, dito acerca de um poeta que faz agora oitenta anos, não é pequeno elogio.»

domingo, 20 de março de 2022

GASTÃO CRUZ (1941-2022)


Morreu o poeta Gastão Cruz.

Continua o tempo da partida dos nossos melhores.

domingo, 14 de março de 2021

CONVERSANDO


Este não é um livro de José Gomes Ferreira, é um livro sobre José Gomes Ferreira.

Trata-se da reunião das teses, reflexões e mesa-redonda, efectuadas nos dias 19 e 20 de Fevereiro de 2001, na Faculdade de Letras do Porto, cidade que viu nascer o poeta.

«Falamos de um homem e um poeta que viveu em desassossego consigo mesmo, com a palavra e com o mundo. Desassossego também visível nos múltiplos caminhos que talhou, do cinema à música, do teatro à narrativa, sempre acompanhado pela voz da poesia.»

Há escritores que descobri sozinho, quando digo sozinho, são escritores que não faziam parte, não havia um único livro, da Biblioteca da Família, erigida pelo meu avô e pelo meu pai. Dois exemplos: José Gomes Ferreira e José Saramago. Há mais, mas estes são traves mestras do meu edifício livresco.

JOSÉ GOMES FERREIRA

«O José Gomes Ferreira sempre exigiu que «saudades, só do futuro», uma frase brilhante, motivadora para comprar A Memória das Palavras, onde a frase está pasmada a páginas 40.

A frase tinha-a lido numa crítica de televisão do Mário Castrim, e a frase soou-me tão bem. Lembro-me que era o tempo do findar da Feira do Livro, pedi uns escudos ao meu avô e saí a comprar o livro. Custava 45$00, com o desconto de feira ficou por 36$00, preço escrito a lápis, no topo lado direito da 1ª página do livro. Ainda lá está.»

JOSÉ SARAMAGO

Foi na Livraria Portugal que topei, pela primeira vez, com o nome de José Saramago.

Estávamos em 1966, tinha então 21 anos, e não fazia a mínima ideia quem era José Saramago, tão pouco dele ouvira falar. Mas o livro que olhei fazia parte de uma colecção de prestígio: Colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora.

Folheei o livro e do que fui vendo nascia um sentimento de gosto e prazer.

Houve tempo para passar os olhos pela Fala do Velho do Restelo ao Astronauta, mais dois, três poemas, mas a decisão foi apenas uma: estava com a minha gente. «Aqui direi que busco a só maneira, de todo me encontrar numa certeza, leve nisso ou não leve a vida inteira. Assim como quem rói as unhas rentes».

Uma parte interessantíssima deste livro, é o capítulo que reúne os testemunhos dos que participaram na mesa-redonda do Colóquio: Gastão Cruz, José Manuel Mendes, e  Alexandre vargas e Raul Hestnes Ferreira, filhos do Zé Gomes.

Gastão Cruz começou a sua intervenção lembrando que José Gomes Ferreira, seguindo o destino de tantos escritores depois de morrerem, caiu num certo apagamento «depois de um período em que chegou a ter uma certa popularidade e foi dos escritores mais falados, mais conhecidos, mais lidos.»

Sim, quem é que hoje lê José Gomes Ferreira?

Há também o depoimento de José Manuel Mendes em que se destaca o facto de se saber se José Gomes Ferreira era ou não neo-ralista. Um debate interminável. Óscar Lopes considerava-o um um escritor neo-realista, o melhor poeta do neo-realismo.

Copio o que disse José Manuel Mendes:

«O Mário Dionísio, que tinha sido e se manteve, até ao fim da vida, uma referência do movimento em apreço, um crítico finíssimo e escrupuloso, tinha as suas reservas, expressas em textos bastante conhecidos que não vale a pena aqui reproduzir. Mas aquela mágoa, uma mágoa muito mais encenada do que real, que o Zé Gomes alardeava, por não ter sido considerado neo-realista numa época de neo-realismo, mágoa do avesso, uma espécie de enunciação saboreada de singularidade, apenas sublinhava o quanto a sua obra era contaminada não só pelas referências finisseculares  a que aludi, também por uma tangência surrealizante, no Eléctrico notória, entre experimentações e ousadias de vária índole.»

sábado, 8 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Releio os meus poemas procurando entendê-los: mas o que é compreender a poesia?

Gastão Cruz

domingo, 22 de abril de 2018

OLHAR AS CAPAS



Teoria da Fala

Gastão Cruz
Capa: Fernando Felgueiras
Cadernos de Poesia nº 24
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1972

Canção da Ama

Quando as crianças cantam sobre a relva
e nos vales as vozes se confundem
as memórias da minha juventude
crescem e o meu rosto empalidece.

Vinde, já não há sol
e o vapor da noite alastra.
A vossa primavera e o vosso dia – em jogo foram gastos;
o inverno e a noite sê-lo-ão em disfarce.

sábado, 31 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS




Novembro
Cadernos de Poesia

Poesias de António-Franco Alexandre, Fernando Assis Pacheco, Herberto Helder,
                   José Gomes Ferreira e Nuno Júdice

Coordenação de Casimiro de Brito e Gastão Cruz
Capa: Manuel Baptista
Edição dos Coordenadores, Lisboa, Novembro de 1972

Minha Pequenas Dúvidas e a Guerra


                               1

minhas pequenas dúvidas estabelecem
habitação violenta. furam pelos ossos,
espalham os dedos em volta, os caules
aquecidos do vento, roem
lentamente os pátios inertes,
instalam a dobra azul dos cotovelos,
resistem. Têm, ambígua, a elegância
elementar da água. Dobram
as espigas nos dentes,
conhecem o nervo
estendido no céu.
                            mexem
os dedos na gaveta, o calcário
das costas, vigiam com cuidado
as vísceras dos galos, a variável
rotação dos planetas; enquanto a galáxia
gira em si mesma intensamente inútil.
minhas pequenas dúvidas multiplicam os dentes,
decoram marx, passeiam o silêncio
pela trela. resistem,
furam pelos dedos, as vísceras
intensas do vento, estabelecem
cotovelos completos.
                                   têm
a violência constante dos ossos,
resistem, dobram lentamente
a trela das estrelas,
ferem as vísceras
inertes do silêncio, espalham
em volta a demasia oblíqua
das espigas nos pulsos. lêem
o jornal misturado à saliva, aprendem
sem ruído as máquinas da pele:
minhas pequenas dúvidas resistem
o calcário dos nervos,
                             estabelecem
habitação inútil,
dobram os ossos ao calor dos pátios.


                          2

 enquanto o coração se prende às cordas
cruzadas do silêncio, esmago
entre os dedos uma gota estreita de noite,
fecho os olhos ao gás das granadas em voo,
escrevo, rumino, peso as estrelas
ao fundo da garganta moída,
buscando entre polícias de dentes aos ombros
uma mancha de vento que nos sirva de céu
e um corpo que permita
o repouso velocíssimo do esperma.
                                          porque, entendes,
minhas pequenas dúvidas explodem
no ar balões de espiga, cotovelos
oblíquos, quando voam no pátio
as curvas variáveis da matraca.
uma ternura, entendes, uma ternura de ombros,
de cabelos completos, de nervos na água,
de dedos constantes ao calor dos ossos,
enquanto o coração se agarra à noite espessa
ou me conhece um caule de elegância nos pulsos.
                                    ternura, entendes,
é ter perdido voz
a granada que voa, pesada como
esta palavra: ternura, ao cair sobre a trela
elementar dos dias.
são ombros, entendes, um nervo cruzado,
a doce rotação
do sangue nos ossos,
o cansaço dos galos quando limpo
o suor anguloso das axilas,
um corpo respirado por dentro, junto à boca.


                                   3

minhas pequenas dúvidas embatem contra o chão
da gasolina ardida, moram
dentro da trela,
leram platão, arrastaram carroças,
cortaram de manhã as vísceras da água,
hesitam na carícia do corpo que se estende
e dobra sobre os ossos, como
uma fonte.
minhas pequenas dúvidas enumeram os dentes,
conhecem hegel, ultrapassam
oblíquamente os pulsos, procuram
habitação inerte.
minhas pequenas dúvidas pequenas
aconchegam no bolso um rato amargo,
vestem à pressa os ossos, aguardam
a rotação inútil dos planetas,
vigiam as estrelas moídas na garganta

                                     4

pornogràficamente acordo
com o sexo dentro da boca.
minhas pequenas dúvidas acendem luzes,
arames, fazem vibrar alarmes,
estabelecem gritos cruzados nos ossos,
abençoam granadas de dentro da janela,
acordam a polícia do seu sono oblíquo.
                              estabelecem
habitação de galos no silêncio.
minhas pequenas dúvidas arrancam os dedos
do chão, cortam as árvores,
alcatroam a alma,
                               proíbem
movimentos de mais de duas mãos.
avisaram de noite a presidência.
ferem a água, estabelecem
vísceras variáveis,
aconchegam um rato no calcário.
                                   pornograficamente
adormeço com o sexo dentro do bolso.
minhas pequenas dúvidas pequenas
abrigam-se do voo nas axilas do vento.

                                      5

minhas pequenas dúvidas não morrem. sei-as
dentro dos galos, vigiando a carroça
elementar  dos ossos,
agarradas ao nervo do silêncio.
resistem. furam pelos dentes,
espalham em torno o vento seco,
os caules, estabelecem
cotovelos inertes.

                     enquanto uma guerra
se prende às cordas
constantes da ternura,
minhas pequenas dúvidas desatam
os nós dentro da boca

                            6

madrugada, as lanternas apitam
a corrida dos dentes pela rua,
estamos contando os dedos que nos restam.
                                   não sei
se são de gás ou raiva
as lágrimas nos pulsos.
                                   ajudo-te
a despir, notando as cicatrizes
e algum piolho oculto.
minhas pequenas dúvidas cansadas
adormecem num bolso, e estamos nus.
                                       abraço-te
devagarinho, com as costas dos ossos,
dobrando os cotovelos na gaveta.

minhas pequenas dúvidas pequenas
sussurram junto ao chão,
movimentam espigas
sobre os nervos,
desejam vigilância.
                              minhas pequenas
dúvidas, minhas trelas miúdas,
sufocam numa névoa de granadas.
                   pouso
as asas angulosas no cimento.
dói-me na mão direita
uma falta de dedos, uma falta
de rios.
            pornogràficamente
adormecemos.

(Poema de António-Franco Alexandre)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Antologia de Poesia Universitária

Organizada por Alfredo Barroso, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz,
 J. M. Vieira da Luz, Rui Namorado
Colaboração de Alfredo Vieira da Luz, Almeida Faria, António Augusto Menano,
António Manuel Lopes Dias, António Freire Torrado, Armando, Armando de Carvalho, Boaventura de Sousa, Eduardo Prado Coelho, Fernando Vaz Garcia, Ferreira Guedes, Fiama Hasse Pais Brandão, Francisco Delgado, Gastão Cruz, João Columba, João Medina, João Rui de Sousa, J.M. Vieira da Luz, José Carlos de Vasconcelos, Luís Serrano, Luísa Ducla Soares, Luíza Neto Jorge, Manuel Alegre, Manuela Imar, Margarida Losa, Rui Namorado, Ruy Belo, Sérgio Cardoso
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Novos Poetas
Portugália Editora, Lisboa, Fevereiro de 1964

Janeiro de Sessenta e Dois

este janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés.

mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés.

sacodem-no apressadas as varinas
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas.

seus dias vão depressa para os ardinas:
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos
metido com vamps americanas.

janeiro português por onde poisas
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto às coisas
e a tia chega ao fim da camisola...


(Poema de Armando Silva Carvalho)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


12 Poemas Para Vasco Gonçalves

António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Casimiro de Brito, Eduardo Olímpio, Egito Gonçalves, Eugénio de Andrade, Gastão Cruz, J.J. Letria, José Barreiros, José Ferreira Monte, Maria da Graça Varela Cid, Maria Teresa Horta
Com um cartaz de Armando Alves e um desenho de José Rofrigues
Colecção O Oiro do Dia nº 9
Editorial Inova, Abril de 1976

A tua voz excessiva tornava-os mais pequenos.
Eles exigiam-te palavras untuosas,
as secas flores da jactância,
seu sono e alimento.
A verdade saía da tua boca iluminada
e eles tinham os ouvidos postos na mentira
no bocejo intrigante, na fala camuflada.
A tua voz recuada na origem não se perdia
nos afazeres verbais da litigância
não sabia a ganância.
Era o vento dos pobres sobre os metais do luxo.
Não te punhas a embalar o povo
como à criança que tarda a adormecer.
Atiravas-lhe à cara as palavras abruptas
um rosto incorruptível por marés de ferrugem
e gestos de morrer.

A tua fronte vasta tornava-os mais pequenos.
Nela despertava o susto das mães familiares,
o trigo parco dos homens nas tabernas
que te olhavam ingénuos vendo a seara crescer.
Ao colo dos pais os meninos sorriam
e os velhos viam coisas saltar dos teus cabelos.
Mas eras tu que soltavas a vida
amarrada a um poste como um burro de carga
a vida desavinda que os enraivecia
e que lhes dava um coice na pança saciada.

Aqui perde-se o tempo a trabalhar as lendas.
Mas o teu rosto não pode adormecer
sobre a toalha tépida que tece a tua ausência
onde derramo o choro e os outros vão beber.
Porque o teu pulso não suportava a febre
e erguia-se no ar como um pássaro agudo
que respirasse os ventos antes de partir.

Sobre o ladrar dos cães a tua voz alteia
como a papoula que o tempo não desfolha
a coluna de fogo que cai sobre a alcateia.
És o lagar imenso onde as uvas fermentam
sob os pés descalços e vivos da memória.
És a boca que a História utilizou por boca
o corredor onde o orvalho cresce entre a juventude
e os homens se passeiam com trigo na cintura.
Neste lugar de Inverno lembramo-nos de ti
como quem desperta.
Ninguém aqui precisa de recuar no tempo
nem das sereias que engolem o nevoeiro.
Ninguém aqui suporta que tu voltes
como um Desejado
com o seu cortejo de rotas feiticeiras
que gritem pelo teu nome junto aos becos do mar
com as suas luas gordas de saudade e preguiça.
Teu nome está de pé como um mastro
de cal rubra.
Estás aqui, entre nós, no meio do teu País.
Connosco vais contigo porque o povo assim o quis.


Armando da Silva Carvalho