Jorge Palma, Viale Moutinho e vozes que não se rendem
«Foi uma triste despedida do Verão, a dois dias de começar o
Outono. Verão que levou com ele Jorge Palma, que parecia antecipar tal
desfecho quando escreveu estas palavras, precisamente em Outono
(estratégia da cigarra), a que ele chamou “a minha balada de
estimação”: “Saboreei o que a vida me ofereceu/ tudo o que sinto é só meu/ eu
nunca renunciei!/ e vou continuar a estratégia da cigarra/ cantando o Inverno a
chegar.” Certa se mostrou a família, quando, ainda mal refeita da perda e a
começar o luto, sugeriu: preservem-lhe a memória ouvindo as suas criações
musicais.
Aquele Outono, ouvimo-lo em Norte (2004), o primeiro álbum
que fez sem a pressão do álcool, que andava a atormentar-lhe a vida e a
carreira. Reencontrara um Norte, sim, e num período (pós-11 de Setembro) de
grandes angústias. Nesse Norte, escreveu em Optimista céptico (título que apanhou de
uma frase de Saramago): “A hipocrisia deste novo império/ faz-me vomitar (…) só
quero encontrar paz/ sem arrastar atrás nem mestre nem Deus” — e aqui
saltava-nos à memória Ni Dieu Ni Maître, jornal anarquista francês
fundado em 1880. Extraordinária, a capacidade de Jorge Palma ter um estilo tão
próprio e soar como nenhum outro (é fácil perceber quando ouvimos alguém cantar
“à Jorge Palma”) e, ao mesmo tempo, misturar na sua produção tantas inspirações
e referências, de T. S. Elliot a Saint-Exupéry, de Lévi-Strauss a Tagore, de
Prevért a Baudelaire, de Dylan e Cohen a Nino Rotta, de Paul Simon a Jacques
Brel, de Van Morrison a Les Chats Sauvages, de Neil Young ou Tom Waits a Sérgio
Godinho e José Mário Branco. E, no entanto, sempre Jorge Palma.
No álbum Com Todo o Respeito (2011), Palma enfrentou a morte
numa canção, Agora não, ainda não — tal como Kurosawa no seu
último filme, Madadayo (1993), filme que Palma desconhecia. Mas
foi no seu derradeiro disco, Vida (2023), já depois de celebrar em palco 70 anos
de existência (em 2021) e de revisitar os seus 14 álbuns numa maratona de seis concertos em Lisboa (2022), que
voltou ao tema com vários cambiantes. Assim: “Vida/ causa de todas as coisas/ princípio de todo o
princípio/ final de todos os finais/ nasce em mim.” Afastando, mas não
iludindo, a existência da morte: “O futuro vem lá, sinuoso e matreiro/ e o que
deixa antever não é convidativo”; ou “Vejo o princípio e o fim abraçados/ numa
espécie de altar” (Espécie de altar); “Passos de anjo rumo ao destino
final” (Uma estação no inferno); “Mais tarde temos plena
consciência/ de que o final é sempre a sós” (Canção de vida); ou, irónico: “Seja lá quem for o
meu cangalheiro/ tenha a atenção de me vestir a rigor” (Estróina); e “O fim está próximo, não há nada a
fazer” (Plantas na Lua)..
Um dia depois de Jorge Palma, deu-se outra perda assinalável: a do escritor e
jornalista José Viale Moutinho (1945-2026). Além das obras literárias
e dos prémios que justamente o distinguiram, Viale Moutinho também escreveu
sobre o mundo da música, assinando duas obras de referência: a antologia de
canções de resistência à ditadura O Nosso Amargo Cancioneiro (Ed.
Latitude, 1972, com reedição em 1973 pela Livraria Paisagem), que, muitos anos
depois, já em plena democracia, deu origem ao livro Cancioneiro de Abril,
editado pela Ulmeiro em 1999; e Memórias do Canto Livre em Portugal
(Editorial Futura, 1975), “somatório de notas e cantigas” editado em plena
euforia abrilista, com ecos de vozes que não se renderam às perseguições dos
censores.
Por falar em euforia e em canções: não em Portugal, mas nuns Estados Unidos em
efervescência pré-eleitoral, está anunciado para 3 de Outubro, num pavilhão de
Columbia, Maryland, o Festival Power To The People, com nomes como Tom Morello, dos Rage Against The Machine (que o
organizou), Foo Fighters, Dave Matthews, Joan Baez, Public Enemy, Cypress Hill,
Stephen Stills ou Bruce Springsteen, como convidado especial.
Entrevistado por Desi Lydic no The Daily
Show de Jon Stewart (o programa faz agora 30 anos), Morello definiu-o
assim, como se anunciasse um manifesto político: “É um festival de paz, amor,
justiça e música. Em tempos em que a guerra é celebrada, este é um festival de
paz; em tempos em que a divisão e o ódio são a norma, este é um festival de
amor; em tempos em que a injustiça é infligida todos os dias, aqui e no
estrangeiro, este é um festival que celebra a justiça. E num mundo com imensa
música má, só teremos bandas espectaculares.”
Jorge Palma concordaria: “Os músicos, tal como os pintores, poetas, artistas de
teatro e cinema, já que têm tempo de antena, têm a obrigação de falar dessas
coisas, de chamar a atenção para as desigualdades, para as injustiças, tudo”,
disse ele ao PÚBLICO em 2007, quando publicou Voo
Nocturno».
Nuno Pacheco no Público de 1 de Outubro
Legenda: Imagem do Público