Ontem,
mudou a hora no relógio da cozinha, também no velho despertador, tão velho como
ele, que está na mesa de cabeceira ao lado de livros para ler.
Lembra-se
que ainda não contou a história de, há muitos longos anos, não usar relógio de pulso,
ou qualquer outro.
Há-de
contar.
Por um destes últimos dias escreveu por aqui que os livros são muitos e após a 1ª leitura, voltamos a pegar neles, alguns para releituras, outros por circunstâncias várias.
Agora pegou em Por Saramago, por todos os motivos, um livro muito, mas mesmo muito bonito com que Anabela Mota Ribeiro entendeu homenagear, em Novembro de 2018, o nosso único Nobel da Literatura e que começa assim:
«Como
uma pedra que faz círculos num rio de águas paradas. Uma reverberação lenta, um
murmúrio longínquo e ainda assim audível. Tenho esta estranha sensação (de
irrealidade) quando recupero a primeira entrevista que fiz a José Saramago. O
escritor tinha 84 anos, o ponto de partida e columa da entrevista era um livro
de memórias, a minha primeira pergunta apontava para uma despedida».
Lembra-se que esteve uma única vez com José Saramago, porque nunca o encontrou na rua, nunca
foi a uma apresentação dos seus livros, estar na fila para um autógrafo, o encontro
único aconteceu na Festa do Avante de 1977, aguardávamos vez para comer uma
sandes de presunto, beber um copo de vinho da região, no pavilhão de São Pedro
do Sul, terra do Carlos Carvalhas. Proveitosa conversa, apesar de curta, disse
que estaria na cidade do livro para autógrafos. Já tinha todos os livros de
Saramago, mas comprou O Ano de 1993,
para aproveitar o registo do encontro e da conversa.
Agora vai reproduzir os sublinhados que fez no livro da Anabela Mota Ribeiro:
A
pergunta apontava para o que, em circunstâncias normais, comovia Saramago:
«Se
for ali na rua com o seu marido, noivo, irmão, a sua mãe, e se você, ou um
deles, lhe puser a mão no ombro, esse gesto tão simples pode comover-me. Não
estou a afalar do abraço erótico.O abraço, os braços que rodeiam o corpo do
outro, essa proximidade entre dois seres, comove-me. Comovem-me as grandes
tragédias, silenciosas ou não. Sou realmente uma pessoa sensível. A gente com a
idade torna-se mais frágil, está tudo à flor da pele, ao contrário daquilo que
se crê, que com a idade se endurece. Pelo menos não é o meu caso.» (pág. 27).
«E
os meus amigos e todos os que me conhecem podem confirmá-lo. Não tenho pose.
Gosto muito quando vou na rua e as pessoas me param: “É só para o cumprimentar,
como vai?, gosto muito daquilo qu escreve.” São pequenas glórias praticamente
quotidianas.»
(pág. 30).
«Limito-me
a dizer aquilo que penso. Se tenho algum motivo de orgulho, e creio que tenho
direito a tê-lo, é poder dizer que a mim ninguém me cala.
(…)
No
outro dia estava na Itália e disse, com grande escândalo do Vaticano, que achou
que era uma provocação infame, mais uma da minha parte, que o mundo seria mais
pacífico se fôssemos todos ateus.»
(pág.
36).
«O
Eduardo Lourenço tem uma explicação mais simples para tudo isto: «A tua vida é
um milagre.» E ficámos por ali, não havia mais nada a dizer.» (pág.38).
CONTINUA
Legenda: Ilda Reis, então mulher de Saramago, a filha Violante.

Sem comentários:
Enviar um comentário