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terça-feira, 14 de julho de 2026

OLHAR AS CAPAS


Livro de Poemas

António Lobo Antunes

Prefácio: Vitorino Salomé

Capa: Rui Garrido

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 2026


Este Fio de Ouro

 

Este fio de oiro ao pescoço

É sinal de que me amas

Mesmo que queira não posso

Ir atirar-me a um poço

Só porque tu não me chamas.

Se chamares talvez eu venha

Ou talvez fique parada

Que o amor é um perde-ganha

E por mais sorte que eu tenha

Ainda não ganhei nada.

Perder sim sei o que é

E no entanto estou aqui.

Vou continuando de pé

Mesmo que a vida me dê

Razões para fugir de ti.

Este fio de oiro afinal

Não é um sinal nenhum

Por meu bem ou por meu mal

Não sou pitada de sal

Que tu tomes em jejum.

E portanto meu amigo

Decide a tua vidinha:

Se és homem fica comigo

E se não ficares te digo

Que me sinto bem sozinha. 

sexta-feira, 6 de março de 2026

OLHAR AS CAPAS

Ler

Nº 37 – Inverno de 1997

Entrevista de António Lobo Antunes

Capa: fotografia de João Francisco Vilhena

Direcção gráfica: Henrique Cayatte

Círculo de Leitores, Lisboa s/d

Nunca li um livro meu.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

OLHAR AS CAPAS


António Lobo Antunes

Fotobiografia

Tereza Coelho

Capa: José Maria Nolasco

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro, 2004

Memória de Elefante foi, em 1979, o primeiro livro publicado. Os Cus de Judas, o segundo, é ainda desse ano.

O título de Memória de Elefante começou por ser uma frase retirada de Ângelo de Lima: Deste Viver aqui Neste Papel Descripto. O psiquiatra Daniel Sampaio, uma das mais duradouras amizades de António Lobo Antunes, levou Deste Viver aqui Neste Papel Descripto, à editora Bertrand, onde foi recusado e depois à Editorial Vega, onde foi aceite, mas com um pedido de alteração do título.

Por isso, Os Cus de judas, que se chamava Memória de Elefante, perdeu o título inicial. O lançamento do ex-Deste Viver aqui Neste Papel Descripto, a partir de Memória de Elefante, fez-se em Julho, na Livraria Editorial Vega no bairro de São Miguel, em Lisboa. Estavam alguns amigos e a família. O episódio não é importante, a não ser porque serve, numa escolha relativamente arbitrária, para marcar uma espécie de “nascimento” de António Lobo Antunes como escritor que podemos conhecer.

Ou abreviando: marca o nascimento do escritor.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS


A Ordem Natural das Coisas

António Lobo Antunes
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1992

Do mesmo modo que hoje a tua doença, Iolanda, me surpreende, com  as suas tremuras, os seus desmaios, os seus suores, os seus cheiros de pétalas pisadas e a sua subterrânea e intensa comunicação com a morte, que te envelhece por dentro como se os órgãos, o coração, o estômago, o fígado, antiquíssimos e apodrecidos como os dos heróis das criptas se descompuseram sob a vitoriosa juventude da pele, também na época da minha infância, na Ericeira primeiro e na Calçada do Tojal depois, os meus pais constituíam um absoluto mistério para mim. Nunca me falavam deles, não existia uma fotografia sua entre as jarras de porcelana com folhas de plátano, as molduras de militares e os ovais de prata com meninos de triciclo sobre um fundo de giestas e bisavós reboludas, e eu imaginava-os a viver em África ou em Macau, cercados de chineses diante de barcos de velas em pergaminho encalhados na margem de um rio. Se depois do jantar, deitado na cama sem conseguir dormir, escutava os cães de rebanho do Espanhol, sentia no vento a baixa mar das suas vozes segredando-me conselhos que não podia entender. A Dona Maria Teresa revirava em silêncio os olhos de lagosta, a Dona Anita ralava-se com a minha magreza e oferecia-me bolachas que sabiam a cré, o meu tio, o Senhor Fernando, piscava o olho às damas e falava do irmão major, o Senhor Jorge, preso em Tavira por conspirar contra o Governo, num quartel junto da praia em que o som dos cometas se humedecia de espuma. Aflige-me que tu, nascida em Moçambique no ano da Revolução, não possas entender a época da minha juventude em que os homens vestiam, ao domingo de manhã, a farda da Legião Portuguesa e marchavam pelas ruas de Lisboa, preocupa-me, porque te afasta de mim, que não tenhas conhecido as procissões, os hinos, os discursos, os cafés a transbordarem de uniformes que gritavam canções guerreiras em torno de cálices de conhaque, com funcionários da Polícia Política anotando em caderninhos os suspeitos comunistas. Mesmo o Senhor Fernando, filho de um brigadeiro herói das sublevações monárquicas, descia o tom da voz e considerava os agentes numa espécie de respeito incomodado, esquecido das damas que se arregalavam, extasiadas, de torrada na mão, para as condecorações dos patriotas. É que muito antes de tu nasceres, Iolanda, numa cidade de gibóias, missionários e pretos, Lisboa era um carrossel de milicianos orgulhosos e inúteis, de multidões de cónegos, e de maçons a consumirem-se nos fortes do Estado, enquanto a mim, de bivaque e calções, me iniciavam em rudimentos marciais no recreio da escola.
Lisboa, meu amor, eram missas radiofónicas, altarzinhos de Santo António, mendigos e gaitas de beiços de cegos nas esquinas, porque nunca encontrei tantos cegos como nessa época penosa, cegos encostados aos prédios, cegos de concertina às costas tacteando passeios fora, cegos trágicos à saída dos lausperenes, cegos fadistas acompanhados por espertalhões de patilhas que recebiam as esmolas, cegos ameaçadores que vendiam bugigangas no adro, cegos orgulhosos, de queixo altivo, nos cruzamentos das ruas, mulheres cegas, com filhos cegos que não choravam nunca ao colo, cegos bêbados às curvetas entre os palmitos das tabernas, cegos que se suspendiam no ar, como anjos, dependurados dos guarda-chuvas abertos, cegos, pedintes e ciganos em carroças gastas pelos mil caminhos do mundo, em busca de um baldio para a tenda, mas principalmente cegos fitando o nada com a bruma das pupilas, milhares de cegos ocupando os becos, as travessas, os largos, os pátios de casinhas baixas com oficinas de sapateiros e ferradores, cegos a beberem água no chafariz das mulas, cegos conversando entre si do seu mundo de sombras, cegos, pedintes e ciganos nas quintas do Tojal, roubando o mel das abelhas, legionários e cegos e as damas das pastelarias e polícias secretos e os brados dos guerreiros de domingo, e eu a perguntar à minha tia O que é feito dos meus pais?, e ela, sem interromper o crochet, a revirar os olhos, cegos a tocarem-nos ao portão ou a vaguearem na relva, enganados na morada, e nesse momento, querida,
                                                                                     cegos
                                                                                     escutei pela primeira vez, fazendo vibrar os cálices, as folhas das plantas e o arbusto do meu sangue,
                                                                                     cegos
                                                                                     um ruído de passos no andar de cima.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


20 Anos na Dom Quixote

António Lobo Antunes
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999

Sempre que alguém afirma ter lido um livro meu fico decepcionado com o erro. É que os meus livros não são para serem lidos  no sentido em que usualmente se chama ler : a única forma
parece-me
de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença. Dizia-se de Bjorn Borg, comparando-o com outros tenistas, que estes jogavam ténis enquanto Borg jogava outra coisa. Aquilo a que por comodidade chamei romances, como poderia ter chamado poemas, visões, o que se quiser, apenas se entenderão se os tomarem por outra coisa. A pessoa  tem de renunciar à sua própria chave
aquela que todos temos para abrir a vida, a
nossa e a alheia
e utilizar a chave que o texto lhe oferece. De outra maneira torna-se incompreensível, dado que as palavras são apenas signos de sentimentos íntimos, e as personagens, situações e intriga os pretextos de superfície que utilizo para conduzir ao fundo avesso da alma. A verdadeira aventura que proponho é aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume  do inconsciente, à raiz da natureza humana. Quem não entender isto aperceber-se-à apenas dos aspectos mais parcelares e menos importantes dos livros: o país , a rela homem-mulher, o problema da identidade  e da procura dela, África e a brutalidade da exploração colonial, etc., temas se calhar muito importantes do ponto de vista político, ou social, ou antropológico, mas que nada têm a ver com o meu trabalho. O mais que, em geral, recebemos da vida, é um conhecimento dela que chega bem tarde. Por isso não existem nas minhas obras sentidos exclusivos nem conclusões definidas: são, somente , símbolos materiais de ilusões fantásticas, a racionalidade truncada que é nossa. É preciso que se abandonem ao seu aparente desleixo, às suspensões, às longas elipses, ao assombrado vaivém das ondas que, a pouco e pouco, os levarão ao encontro da treva fatal, indispensável ao renascimento e à renovação do espírito. É necessário que a confiança nos valores comuns se dissolva página a página, que a nossa enganosa coesão interior vá perdendo gradualmente o sentido que não possui e todavia  lhe dávamos, para que outra ordem nasça desse choque,  pode ser que amargo mas inevitável. Gostaria que os meus romances não estivessem nas livrarias ao lado dos outros , mas afastados e numa caixa hermética,  para não contagiarem as narrativas alheias  ou os leitores  desprevenidos: é que sai caro buscar uma mentira e encontrar uma verdade. Caminhem pelas minhas páginas como num sonho porque é nesse sonho, nas suas claridades e nas suas sombras , que se irão achando os significados do romance, numa intensidade que corresponderá aos vossos instintos de claridade e às sombras da vossa pré-história. E, uma vez acabada a viagem
e fechado o livro
convalesça. Exijo que o leitor tenha uma voz entre as vozes do romance
ou poema, ou visão, ou outro nome que lhes apeteça dar
a fim de poder ter assento no meio dos demónios e dos anjos da terra. Outra abordagem de que escrevo é
limita-se a ser
uma leitura, não uma iniciação ao ermo onde o visitante terá a sua carne consumida na solidão e na alegria . Isto não se torna complicado se tomarem a obra como a tal doença que acima referi: verão que regressam de vocês mesmos carregados de despojos. Alguns
quase todos
os mal entendidos em relação ao que faço, derivam do facto de abordarem o que escrevo como nos ensinaram a abordar qualquer narrativa. E a surpresa vem de não existir narrativa no sentido comum do termo, mas apenas largos círculos concêntricos que se estreitam e aparentemente nos sufocam. E sufocam-nos aparentemente para melhor  respirarmos. Abandonem as vossas roupas de criaturas civilizadas, cheias de restrições, e permitam-se escutar a voz do corpo.

sexta-feira, 29 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS



Letrinhas de Cantigas

António Lobo Antunes
Capa: Atelier Henrique Cayatte com Rita Múrias
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 2002

Todos os Homens São Maricas Quando Estão Com Gripe

Pachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher
ai Lurdes, Lurdes
que vou morrer
mede-me a febre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes, Lurdes
não vales nada
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
 nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
Vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de tranças
choros de coruja
 risos de grilo
ai Lurdes, Lurdes
que foi aquilo!
não é a chuva
no meu postigo
ai Lurdes, Lurdes
fica comigo
não é o vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus,
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes, Lurdes
nem dás por nada
faz-me tisanas
e pão-de-ló
não te levantes
que fico só
aqui sozinho
a apodrecer
ai Lurdes, Lurdes
que vou morrer.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Tratado das Paixões da Alma

António Lobo Antunes
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Lisboa Novembro de 1990

Lembrou-se de quando tinha doze ou treze anos, roubava cigarros ao avô, os dividia com o filho do caseiro e se estendiam ambos na relva, a fumar, vendo o céu de Setembro no intervalo das acácias. Sorriu ao repuxo do lago e aos bancos de azulejo que separavam o jardim do roseiral, e o Juiz de Instrução inclinou-se de imediato para a frente, de mãos espalmadas numa confusão de papéis: – O quê? – Não disse nada, são coisas antigas que me vêm à ideia, não ligue. O avô em baixo, de casaco de verão, na cadeira de lona sob o guarda-sol desbotado, assente nos ladrilhos onde aos domingos, a seguir ao almoço, a família montava as mesas da canasta, e eles aqui, rente aos gladíolos, chupando beatas clandestinas com a caixa de fósforos da cozinha no bolso, assistindo ao leme do moinho que bailava para a direita e para a esquerda à procura do vento.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS



A Morte de Carlos Gardel

António Lobo Antunes
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 1994

e por um segundo dei fé do branco dos seus olhos, dei fé dos seus dentes um disco do invólucro, colocou-o no parto, sentou-se no sofá e a voz de Carlos Gardel  principiou a cantar baixinho, não como quando a minha mãe e o meu pai viviam juntos e os violinos e o acordeão deviam alcançar a Venda Nove e a Paiã, e a minha mãe desligava a música a prevenir, transtornada
- Não aguento mais tangos, vou exigir o divórcio
e durante anos o meu pai, para mim não era o meu pai, era uma voz que saía dos altifalantes e anulava tudo, apagava tudo, destruía tudo, uma voz que se calava e recomeçava e se calava de novo, o meu pai não era um homem e um jornal era um piano a lamentar-se que regressava agora, num murmúrio, ao apartamento junto ao rio e às máscaras sem olhos nem boca que falavam como o médico, a enfermeira e a minha tia me falam, mesmo se não é comigo que falam, ao conversarem sobre a minha doença e a minha morte, porque não é acerca de mim que conversam é de uma pessoa que conhecem e não sei quem seja, eu sei quem sou mas ignoro quem morre e por ignorar quem vai morrer não morro

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Fado Alexandrino

António Lobo Antunes
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1983

… até chegar a Moçambique a única carta da minha irmã:
Abílio muito estimo que ao receberes desta te encontres de boa e feliz saúde que eu e o meu filho bem graças adeus apesar do Vítor não dar um tostão para a criança e me armar cada cena aqui à porta que só visto pancadaria ameaças palavreado Abílio trago uma notícia muito triste para ti e que é: o pai espichou estava a dar na televisão os ranchos folclóricos e eu só atentei nisso ao dizer-lhe para se ir deitar toquei o dedo no ombro e ele caiu de lado no sofá como um boneco por sinal que atirou ao chão com o cotovelo o candeeiro da nossa falecida mãe aquele transparente que se percebe o fio e lhe deu a senhora onde trabalhou a dias a Dona Márcia da capelista prometeu-me uma cola boa para o consertar demos anteontem o velório e apareceram os vizinhos quase todos o senhor Honório, o chefe Salgado a prima Esmeralda e as sobrinhas que trouxeram a entravada do catorze coitadita numa cadeira de rodas lembras-te que a gente atirava pedras aos caixilhos e ela nos gritava malandros malandros o tio Venâncio dos correios tratou dos documentos da certidão de óbito das facturas paga-se à agência funerária em prestações a propósito se tiveres de parte manda que também era teu pai e não é justo escorregar eu sozinha com o arame houve duas coroas de flores uma pequena fita roxa dos amigos do café e outra minha tão bonita que o Osório do campo de futebol me disse poça menina Otília que me dá ganas de esticar e eu atirei-lhe logo descanse que com a tosse com que você anda não espera muito tempo por isso o funeral meteu carreta padre seis táxis da praça e três automóveis uma colega da fábrica emprestou-me a saia e a mantilha tiveram todos pena que não assistisses e mandam-te sentidos pêsames e cumprimentos oxalá voltes depressa e escorreito que se nota por aí tanto aleijado na rua recebe um abraço da tua irmã Maria Otília Alves Nunes a Deus quinhentos escudos já me davam jeito.

sábado, 19 de novembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


As Naus

António Lobo Antunes
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Lisboa Abril de 1988

A mulher procurou-o na teimosia pétrea dos idosos, surda a argumentos e motivos, guiada pelo olfacto da paixão. Pagou anúncios de terço de página no jornal, remexeu as conservatórias do registo civil na esperança da inexistência de uma certidão de óbito que apodrecesse sem remédio a única razão de durar de quem respirara anos sem conta na miséria das pensões, dirigiu-se a uma agência de detectives onde um cavalheiro competente, de chapéu para a testa, envernizava as unhas numa poltrona basculante. O investigador exigiu um adiantamento para microfilmes e deslocações à província, anotou hieróglifos numa margem de revista, e resmungou ao telefone ordens ladradas sem sequer estremecer a cigarrilha dos dentes. Sentada a um canto do compartimento aveludado de pó, numa cadeira que gemia dores de parto sob as nádegas, a cliente afastava a piparote uma traça seduzida pelo decote do seu vestido branco, e espantava-se de como o cavalheiro competente podia habitar, sem asma, aquela indescritível desordem de edifício derruído. Ao tornar na semana seguinte, com um decote ainda maior e mais fogoso, na ideia de se informar do progresso das buscas, deu com uma loja de caixões no gabinete de estores quebrados do Sherlock e da traça, saturada pelos eflúvios fúnebres das coroas de gladíolos e o odor das mãozinhas de cera das promessas dos doentes. Uma rapariguita séria, de gola engomada no vestido de luto, guardava o estabelecimento perto de um altar de tochas eléctricas que velavam um defunto inexistente. Ninguém se lembrava do investigador ou do insecto, e um relojoeiro sete portas abaixo, de lente crava na testa como um unicórnio amável, garantiu-lhe, uivando sob os pios desencontrados dos cucos que assomavam a janelas trabalhadas, que o comércio mortuário prosperava ali desde a fundação do bairro, e que o negócio de uma agência de investigações não passava de uma calúnia fascista destinada a desacreditar o quarteirão. A mulher, perdida no meio de ponteiros que proclamavam o dia ou a noite conforme as originalidades aberrantes dos seus mecanismos enlouquecidos, cuidou-se por momentos desmunida da bússola do juízo, adornada na areia da demência. 

domingo, 29 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Memória de Elefante

António Lobo Antunes
Colecção O Chão da Palavra
Editorial Veja, Lisboa, s/d

    São cinco da manhã e juro que não sinto a tua falta. A Dóri está lá dentro a dormir de barriga para cima, de braços abertos crucificados no lençol, e a dentadura postiça, descolada do céu da boca, avança e recua ao ritmo da respiração num ruído húmido de ventosa. Bebemos ambos a aguardente da cozinha pelo púcaro de folha, sentados nus na cama que o gás de guerra tornou inabitável carbonizando até as folhas estampadas das fronhas, escutei-lhe as confidências prolixas, enxuguei-lhe o choro confuso que me tatuou o cotovelo de um arbusto de rímel, puxei-lhe o cobertor até ao pescoço à laia de um sudário piedoso sobre um corpo desfeito, e vim para a varanda arrancar os dejectos endurecidos dos pássaros. Está frio, as casas e as árvores nascem lentamente do escuro, o mar é uma toalha cada vez mais clara e perceptível, mas não penso em ti. Palavra de honra que não penso em ti. Sinto-me bem, alegre, livre, contente, oiço o último comboio lá em baixo, adivinho as gaivotas que acordam, respiro a paz da cidade ao longe, desdobro-me num sorriso feliz e apetece-me cantar. Se eu tivesse telefone e me telefonasses agora deverias encostar cuidadosamente o auscultador à orelha numa expectativa de búzio: através das espiras de baquelite, vindo de quilómetros de distância, desta varanda de betão suspensa sobre o fim da noite, terias, juntamente com o eco do meu silêncio, o vitorioso eco do meu silêncio, o piano amortecido das ondas. Amanhã recomeçarei a vida pelo princípio, serei o adulto sério e responsável que a minha mãe deseja e a minha família aguarda, chegarei a tempo à enfermaria, pontual e grave, pentearei o cabelo para tranquilizar os pacientes, mondarei o meu vocabulário de obscenidades pontiagudas. Talvez mesmo, meu amor, que compre uma tapeçaria de tigres como a do Senhor Ferreira: podes achar idiota mas preciso de qualquer coisa que me ajude a existir.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

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Explicação dos Pássaros

António Lobo Antunes
Capa: Vítor Paiva
Editorial Veja, Lisboa s/d

- Porque não estudar a revolução comunista de Abril de 74? – prosseguia obstinadamente o pai, colando o cabelo às têmporas numa raiva crescente. – Porque não ensinar aos seus alunos como se destrói um país à custa de infantilidades e desmandos, como se dá um pontapé no ultramar, como se permite aos lacaios da Rússia ladrarem em São bento?
Pensa Verde de zanga, verde de indignação sincera. Pensa Furioso por existirem sindicatos, por existirem greves, por durante algum tempo lhe terem dificultado os negócios. E a mãe que se queixava tanto da dificuldade em arranjar criadas? E não aparecer um jardineiro que tratasse da relva em condições?
- Dona Almerinda – pediu o cego de queixo no ar, dirigindo-se a ninguém. – Chegue-me um ovo cosido e dois de branco.

domingo, 11 de outubro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Conhecimento do Inferno

António Lobo Antunes
Colecção O Chão da Palavra
Editorial Vega, Lisboa, 1980

O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem: estendem conscienciosamente as toalhas na serradura da areia, protegem-se com óculos do sol de papel. passeiam encantados no palco de Albufeira em que funcionários públicos, disfarçados de hippies de carnaval,  lhes impingem acocorados no chão, colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo, e acabam por ancorar ao fim da tarde em esplanadas postiças, onde servem bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas da televisão.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

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Terceiro Livro de Crónicas

António Lobo Antunes
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Janeiro de 2006

E eu deixarei apenas, além de tudo, uns livros, e, espero, alguma saudade nas poucas que me conhecerem e fizeram o favor de gostar de mim. Nada mais. Em regra chegamos demasiado tarde a algum conhecimento da vida que de pouco nos serve.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

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Quarto Livro de Crónicas

António Lobo Antunes
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2011

Um velhote a subir a rua com um saco de plástico, a horrível solidão dos seus olhos, o abandono da roupa. A solidão tem um cheiro próprio que se sente à distância. Vivem em bicos de pés, como que a pedir desculpa. Este passa o tempo a beber cerveja no cafezito e percebe-se o nível da espuma pela cor das pálpebras. Senhor João. Mora como um bicho qualquer num buraco qualquer, não se lamenta, não se queixa: dura. Uma destas semanas vem a morte.

sábado, 30 de novembro de 2013

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Segundo Livro de Crónicas

António Lobo Antunes
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa Outubro de 2002

Acho que a coisa mais importante que me aconteceu na vida foi uma viagem de cerca de um mês, a Itália, com o meu avô. O meu avô guiava e eu sentado ao lado dele, com um volante de plástico, fingia que guiava também. O carro era um Nash encarnado. O meu volante de plástico, tinha, ao centro, uma bola de borracha. Apertando a bola emitia um som que na minha fantasia era uma buzina. O barulho do motor arranjava-o com a boca, de forma que não havia dúvidas de ser eu quem conduzia o automóvel. De vez em quando o meu avo fazia-me uma festa na cabeça. É engraçado mas ainda sinto os dedos dele.
Durante os dois primeiros dias o cheiro a gasolina enjoou-me e vomitava para cartuchos de papel. Íamos ficando em hotéis pelo caminho. Lembro-me dos gelados que comi em saragoça, lembro-me de assistir a uma tourada em Barcelona com Luis Miguel Dominguin e de ter ido ao teatro ver Carmen Sevilha. Estive apaixonado por ela até aos doze anos, altura em que assisti aos Dez Mandamentos e a troquei por Anne Baxter, a mulher do faraó. Nem Carmen Sevilha nem Anne Baxter me deram troco por aí além. As paixões demoravam a passar nessa época, em que tudo era lento. Dias compridíssimos, destes que demoravam séculos a nascer. O meu padrinho dava-me dinheiro pelos dentes de leite. Se eu fosse jacaré estava rico.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

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Quinto Livro de Crónicas

António Lobo Antunes
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 2013.

Passeávamos de braço dado na rua. Com o meu irmão Pedro, por exemplo, darmos o é fazermos chichi juntos, no escuro, junto à  do jardim dos meus pais, com um comentário sobre o jacto respectivo. Depois sacudimos os pingos ao mesmo tempo porque a pila não sabe fungar. Então abotoamo-nos a cada um vai para o seu lado em silêncio. Deve ser difícil as mulheres entenderem isto, mas para os homens, fazer chichi lado a lado, ao ar livre, é sinal de amizade, a olharmos para baixo, cheios de duplos queixos. Tanto che che che nesta frase. Fazer chichi na rua é um dos meus prazeres, devo ter sido cachorro noutra encarnação. Detesto urinóis, retretes, haverá alguma coisa que se compare à exaltação de mijar contra uma parede?  Às vezes a seguir ao jantar, digo ao Pedro
- Já mijaste!
sabendo que ele estava à minha espera para essa celebração da cumplicidade. Nem que sejam três gotas faz-se um esforço. Vemos as árvores, vemos o muro, não nos vemos um ao outro mas estamos ali.
Nem quero pensar na ideia de fazer chichi sozinho. No fim pergunta-se
- Como é que estás?
sabendo que o parceiro se cala. Depois cada um no seu carro, sem mais palavras. 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

OLHAR AS CAPAS


Livro de Crónicas

1º volume
António Lobo Antunes
Publicações Dom Quixote, Lisboa Novembro de 1998

Serei como aquela prima idosa surdíssima, outrora bonita, com uma enorme telefonia à cabeceira, a quem o enfermeiro que lhe dava as injecções para o reumático comentou
- Que lindo rádio que a senhora tem
e ela num suspiro, de nádegas ao léu à espera da seringa, orgulhosa e coquete
- Havia de o ter visto aqui há quarenta anos.
Devo estar a ficar velho. E no entanto, sem que me dê conta, ainda me acontece apalpar a algibeira à procura da fisga. Ainda gostava de ter um canivete de madrepérola com sete lâminas, saca-rolhas, tesoura, abre-latas e chave de parafusos. Ainda queria que o meu comprasse na feira de Nelas um espelhinho redondo com a fotografia de Yvonne de Carlo em fato de banho do outro lado. Ainda tenho vontade de escrever o meu nome depois de embaciar o vidro com o hálito. Ainda caminho pela borda do passeio sem pisar o intervalo das pedras. Ainda me apetecia que o meu avô me viesse fazer uma festa à cama. Ainda gosto de resolver os hieróglifos comprimidos dos Almanaques Bertrand do sótão organizados pela Sra. D. Maria Fernandes Costa e escrver nas soluções quando a pergunta é Grande Escritor Português Infelizmente Já Falecido, o nome do emérito poeta General Fernandes Costa. Pensando bem
(e digo isto ao espelho)
Não sou um senhor de idade que conserva o coração menino. Sou um menino cujo envelope se gastou.

sábado, 11 de junho de 2011

OLHAR AS CAPAS


Os Cus de Judas

António Lobo Antunes
Editorial Veja, Lisboa 1979

Eu odiava o rio Cambo e os arbustos decompostos que lhe limitavam o curso, os edifícios abandonados, de varanda de colunas, perdidos no capim, e de cujos sobrados em ruína os lagartos e os ratos nos espiavam com rancor. Odiávamos o rio em que tristes deuses de pau se chamavam com vozes guturais repletas de apelos e ameaças, o rio em que as lavadeiras esfregavam na pedra limosa a nossa roupa militar, seguidas pela fome suspensa dos soldados, masturbando-se, de joelhos na terra, junto da arma que esqueciam. Trazíamos vinte e cinco meses de guerra nas tripas, vinte e cinco meses de comer merda, e beber merda, e lutar por merda, e adoecer por merda, e cair por merda, nas tripas, de tal jeito ridículos que, por vezes, à noite, no jango de Marimba, desatávamos de súbito a rir, na cara uns dos outros, gargalhadas impossíveis de estancar,  observávamos as feições uns dos outros e a troça escorria-nos em lágrimas de piedade, e de escárnio, e de raiva, pelas bochechas magras, até que o capitão, com a boquilha sem cigarro entalada nos dentes, se sentava no jeep e principiava a buzinar, espantando os morcegos das mangueiras e os insectos fantásticos de Angola, e nos calávamos como as crianças se calam a meio do seu choro, olhando as trevas em torno numa surpresa imensa.