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terça-feira, 19 de maio de 2026

SOLTAS


 «Um trabalhador portuário atraca o navio de carga asiático Katra após a sua chegada à baía de Havana, em Cuba. O navio mercante atracou transportando ajuda humanitária proveniente do México e do Uruguai destinada aos cubanos que enfrentam cortes de energia e uma grave crise económica imposta pelos EUA através do criminoso bloqueio. 18 de Maio de 2026».

Em Abril Abril

1.

«No Piolho, um guia «explica» a quatro turistas a origem do nome do café: «Durante a ditadura de Salazar, este local era frequentado por muitos estudantes oposicionistas. A polícia política sabia disso e aparecia de vez em quando. Para não serem apanhados desprevenidos, os estudantes criaram um sinal de alerta: quando um agente entrava no café, começavam a coçar a cabeça como se tivesse piolhos. Daí o nome.»

Rui Manuel Amaral em  Bicho Ruim

2.

O Presidente da República convidou esta terça-feira o Papa Leão XIV a visitar Portugal já no próximo ano para assinalar "os 500 anos da formalização da Nunciatura apostólica em Portugal" e os "110.º aniversário das aparições marianas em Fátima".

3.

A Corticeira Amorim cortou mais 212 postos de trabalho em 2025, ano em que arrecadou 55,6 milhões de euros de lucro.

4.

Já está no Parlamento a proposta do Governo com meia centena de alterações e alguns recuos, face à posição inicial. Ainda assim, o documento tem por base o anteprojeto aprovado há quase um ano.

5.

A presidente da Comissão Europeia considerou esta terça-feira que a União Europeia (UE) "continuará vulnerável" enquanto depender de petróleo e gás importados, dada a crise energética causada pela guerra no Médio Oriente, apelando à eletrificação do continente.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

SOLTAS


SOLTAS DESTA QUINTA-FEIRA


Hoje, foi Dia da Espiga.

Festa da tradição pagã, também festa religiosa, designada como Quinta-Feira da Ascensão, que é o 40º dia a partir da celebração da Páscoa.

Em alguns lugares do país, hoje é feriado local, tradição de outros tempos em que se ia para os campos, apanhar a espiga, bailaricos, merendar, aquele pic-nic de burguesas em que o encanto supremo da merenda foi um apanhar de papoilas num granzoal, seios como duas rolas saindo do ramalhete rubro das papoilas, tal como Cesário Verde deixou desenhado.

As mulheres que vendiam ramos de espiga pela cidade, já lhe colocam outros adornos, mas o verdadeiro ramo de espiga, aquele que a minha avó pendurava atrás da porta da cozinha, para dar sorte, tinha uma espiga de trigo (pão), malmequeres (ouro e prata), papoilas (amor e vida), um ramo de oliveira (azeite e paz), um esgalho de videira (vinho e alegria), alecrim (saúde e força).

Diz-se (ainda se diz?) que o ramo da espiga deve ser guardado em casa e “não deve ser perturbado na sua quietude, sendo substituído apenas no ano seguinte por outro igual mas mais viçoso”.

1.

O presidente daquela coisa está disponível para negociar a proposta laboral, Luís Montenegro, que no dia 13 foi a Fátima, também está disponível para tudo.

Quanto ao Partido Socialista quer conhecer a proposta mas não se mostra disponível para discussões.

2.

Comida ficou mais cara agora do que no início da guerra da Ucrânia.

Em Fevereiro de 2022, Rússia invadiu a Ucrânia. Em janeiro e Abril desse ano, o aumento dos preços de alimentos frescos e essenciais foi de 5,7%. Agora, já vai em 7%.

3.

Rui Manuel Amaral leu no jornal que os assessores mais próximos do presidente norte-americano evitam dar-lhe informações negativas sobre as campanhas militares porque «o Presidente detesta más notícias».

4.

Xi Jinping ,apesar dos muitos sorrisos, avisou Donald Trump de que Taiwan, que reivindica como parte do seu território, pode estragar as relações entre os dois países.

  5.

Cuba anuncia esgotamento das reservas de combustível e pede ajuda.

“Não temos absolutamente nenhuma gasolina nem de gasóleo. Já não temos reservas”, declarou o ministro da Energia e Minas, Vicente de la O Levy.


SOLTAS DE OUTROS DIAS


1.

O valor da água que é anualmente desperdiçada em Portugal devido a rupturas, fugas ou avarias é de cerca de 158 milhões de euros por ano.

2.

Segundo a Pordata quase 40% dos trabalhadores portugueses com menos de 30 anos têm contratos temporários, colocando o país como o quarto com maior precariedade jovem na União Europeia.

3.

Em 10 anos, a venda de antidepressivos e antipsicóticos cresceu respectivamente 82% e 72%. Em 2025 foram dispensadas por dia, em Portugal continental, cerca de 80 mil embalagens de psicofármacos, totalizando quase 29,4 milhões, o valor mais elevado da última década, com encargos do SNS a rondar os 152 milhões de euros.

4.

 “A Democracia deixa viver os amigos de Ventura e do Chega. Não é certo que os amigos de Ventura deixassem viver as esquerdas e os democratas”

António Barreto, no Público.

5.

«Quando Maria Antonieta se irritou com o povo faminto que pedia pão e o mandou comer brioche, inaugurava uma condição a que o futuro chamaria 'não saber ler a sala'. Não percebeu a brisa a tornar-se vento, nem que o aroma do ar dos tempos era já mais acre do que rosa. »

Rodrigo Guedes de Carvalho

6.

Indignados, católicos acusam bispos de “desastre” no tratamento das vítimas de abuso
Cerca de 70 católicos, das mais diferentes dioceses do país, assinaram uma carta aberta manifestando “perplexidade e indignação” pela forma como a Igreja Católica em Portugal, e em particular a Conferência Episcopal Portuguesa, tem lidado com toda a situação dos abusos sexuais. Contestam a linguagem utilizada, a forma como o processo de compensações foi dirigido e o modo como os bispos decidiram reduzir os valores a atribuir às vítimas. “Um desastre”, dizem, acusando os bispos de “falta de empatia”. Prometem que não se vão calar.

sábado, 28 de março de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

 


Cuba vive momentos muito difíceis.

Quando Fidel de Castro e seus companheiros meteram pés e mãos à empreitada, Cuba deixava de ser o quintal, o casino, a casa de putas dos Estados Unidos e um punhado de homens devolvia a dignidade a todo um povo.

 

O jornalista António Rodrigues escreveu, no Público, sobre os tempos difíceis que o Trump-das-guerras irá impor a Cuba:

 

«Perante a possibilidade de os Estados Unidos invadirem Cuba para derrubar o Governo de Miguel Díaz-Canel, depois de terem estrangulado o acesso de petróleo à ilha, deixando o país parado e às escuras, o cantor e compositor Silvio Rodríguez, nome maior da trova cubana, pediu uma espingarda para, aos 79 anos, também ele defender o seu país do ogre do Norte.

Por agora, recebeu do executivo cubano uma arma simbólica, de imitação, acompanhada de um papel que, em caso de agressão armada dos EUA a Cuba, poderá trocar em qualquer unidade militar por uma de verdade. Uma invasão que ele “vê como possível”, em entrevista ao diário espanhol El País.

Com “a grandíssima história de intervenções dos EUA, sabotagens, invasões”, não seria de admirar que Donald Trump e Marco Rubio anseiem por derrubar uma revolução que tanta água lhes tem dado pela barba desde que fez cair o deboche cubano-mafioso-norte-americano da ditadura de Fulgencio Batista. Rubio nasceu em Cuba de uma família que fugiu para a Florida ainda no tempo de Batista, mas que finge ter saído só quando Fidel Castro chegou ao poder.

Na terça-feira, a congressista norte-americana Nydia Velázquez, de origem porto-riquenha, uma política veterana que há 33 anos representa Nova Iorque na Câmara dos Representantes, apresentou uma resolução para impedir que os EUA invadam Cuba. “Enquanto ameaça ‘tomar’ Cuba, o seu bloqueio petrolífero está a piorar uma crise humanitária e a castigar o povo cubano”, escreveu no X.

“Li que em Miami houve uma manifestação de cubanos pedindo para derrubarem o Governo pela força, ou seja, praticamente pedindo uma invasão. Nem vou dizer o que penso daqueles que bombardeiem o seu país e o invadam”, disse Silvio Rodriguez. Desiludido também com os líderes da América Latina que se juntam a Washington no esforço para fazer cair Cuba: “É amargo que se tenha lutado tanto por uma unidade latino-americana e que, de repente, haja países que se vendam.”»


sábado, 14 de março de 2026

OLHAR AS CAPAS


Che Guevara: A Aventura Boliviana

Che Guevara

Carta de Che a Fidel de Castro

Diário Boliviano

Discurso de Fidel para Guevara

Tradução: Egito Gonçalves

Capa: Armando Alves

Colecção Ofício de Viver nº 16

Editorial Inova, Porto s/d

6 de Outubro

A rádio chilena dá uma notícia censurada que indica hver 1.800 homens na zona, à nossa procura.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

Soube-se ontem que Donald Trump, sugeriu uma “tomada de controle amistosa” de Cuba.

“Eles não têm dinheiro, eles não têm nada neste momento. Mas estão conversando connosco e talvez tenhamos uma tomada de controle amistosa de Cuba”.

Ninguém sabe o que é um controlo amistoso de um país sobre outro. Mas vindo de quem vem, não se augura nada de bom.

Lembremos, entretanto a música cubana, fumemos um charuto e bebamos um trago de rum, ou dois...

Company Segundo que morreu de insuficiência renal com 95 anos dizia:

«Enquanto tiver sangue nas veias, vou gostar de mulheres. Um verdadeiro cubano bebe rum, fuma “habanos” e os olhos brilham-lhe quando passa uma mulher bonita na rua. Company Segundo nasceu junto ao mar, em Siboney e era filho de um maquinista que trabalhava nos comboios de minas de manganésio. Com 5 anos de idade começou a fumar charutos que acendia a pedido da avó que morreu com 115 anos.»




quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Neste livro, Règis Debray faz uma citação de Lénine:

«É menos perigoso sofreuma derrota do que ter medoi de a reconhecer, do que ter medo de tirar dela todas as consequências, do que ter medo de tirar dela todas as consequências… Não se deve ter medo de confessar os seus defeitos. É necessário tirar de cada um todos os ensinamentos que comporta. Se admitirmos que a confissão de uma derrota, tal como o abandono de uma posição, provoca nos revolucionários desmoralização e enfraquecimento da energia na luta, é necessário dizer que tais revolucionários não pretam para nada.»

Lembro-me do meu pai, um marxista-leninista profundo, me dizer que era importante  ler Marx e Lénine.

De Marx li algumas coisas, o mais importante?, João César Monteiro a dizer que «Está tudo no Marx!» de Lénine fugazes flashs.

Apanho uma outra citação do Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura :

« Há 20 anos éramos esquerdistas, maoístas, trotskistas, guevaristas, anarquistas; hoje somos todos neo-liberais e post-modernos (enfim, quase todos…)

(…)

Estes tempos são tempos de arrependidos de todos os géneros; Bob Dylan está cheio de dinheiro e usa lentes de contacto; Regis Debray estuda Milton Friedman às escondidas, Não transformámos o mundo nem mudámos a vida;  a vida é que nos mudou a todos (o «Che» morreu na Bolívia, baleado por um «ranger» anónimo; José Afonso morreu de doença; e o Artur Queirós ganhou o Prémio Ibéria de Jornalismo). Foi uma derrota sem glória pelo menos sem tanta glória como a derrota dos nossos pais nas trincheiras de Valência, nos campos de Almeria, ou passando o Ebro en un barquito de vela.

Os revolucionários, mesmo os de café, são os cornudos da História; nós nem por isso. Os cafés passaram a bancos e as namoradas com quem, de mãos dadas atravessámos os anos da brasa sobre as barricadas do Quartier Latin ou nos jardins da Cidade Universitária, são hoje professoras do liceu e assinantes do Círculo de Leitores.

Restam-nos alguns discos, alguns livros, algumas memórias. E nem temos uma história, uma grande história para contar aos filhos, porque os nossos filhos preferem as histórias dos campeões da Wall Street e emocionam-se mais com um «crash» da Bolsa do que com verduras românticas com «pavês», «slogans», ocupações selvagens. Elvis Presley, afinal, não era informador da CIA? João XXIII não tinha acções nas fábricas de material de guerra? Giap não tinha campos de concentração? Fidel não tinha Padilla a apodrecer numa cadeia?»

A Biblioteca da Casa tem uma razoável quantidade de livros sobre a América Latina, nem todos importantes, mas este livro do Debray é um excelente ponto de discussão.

Havia cafés, havia longas e quentes conversas sobre Fidel, o Che, havia o Carlos Alberto, ao tempo, um especialista sobre o que se passava em toda a América Latina, e começava, sempre, as conversas com um «o caso é o seguinte, ou seja…»

Hoje, já não há cafés, muitos dos que se juntavam naquelas mesas, viajaram para outras políticas, alguns já não estão entre nós.

Cuba está prestes a ser tomada pelo amor ao dinheiro e poder de Trump, pela vingança de Marco Rúbio, nascido em Miami, mas cujos pais saíram de Cuba quando Fidel encerrou o quintal dos Estados Unidos e refugiaram-se na Flórida.

Agora vou pensando que Cristo morreu, Marx também e eu  próprio não me estou a sentir nada bem…

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

OLHAR AS CAPAS

No País da Alegria

Carlos Coutinho

Capa: Dorindo de Carvalho

Colecção O Homem no Mundo nº 20

Prelo Editora, Lisboa, Novembro de 1976

Os cubanos também possuem um 28 de Setembro e o caminho pela sua revolução não pode ser compreendido, se esta data não for devidamente considerada. A queda de Batista não significou, só por si, uma transformação completa do modo de viver e de pensar em Cuba, tal como a fuga do tirano não implicou o desaparecimento de uns bons milhares de reaccionários dispostos a tudo fazerem para recuperar o tempo perdido.

sexta-feira, 11 de março de 2022

OUTRAS GUERRAS


No dia 7 de Fevereiro de 1962, os Estados Unidos decretaram um embargo económico, comercial e financeiro a Cuba.

Horas antes de decretar o embargo, John Kennedy chamou o seu conselheiro, Pierre Salinger.

- Pierre, necessito de ajuda, disse Kennedy.

- Terei todo o prazer em ajudá-lo Presidente. Diga.

- Preciso de muitos puros.

- De quantos, Presidente?

- De uns mil Petit Upmann.

- E quando precisa deles, senhor Presidente.

- Amanhã de manhã.

Pierre Salinger, também ele um gostador de puros cubanos, saiu do gabinete a perguntar-se o que iria Kennedy fazer a tantos charutos.

Conhecedor de todas as lojas onde se vendiam puros cubanos, satisfez o pedido presidencial com relativa facilidade.

Na manhã seguinte, quando Pierre chegou ao gabinete, o telefone já estava a tocar.

- Que tal foi?, quis saber o Presidente norte-americano.

- Muito bem, consegui 1.200 charutos cubanos.

Conta a história que, depois da resposta, Kennedy abriu a gaveta da secretária, pegou num grande papel e assinou-o de imediato.

Era o decreto instaurando a proibição de todos os produtos cubanos nos Estados Unidos.

Calcula-se que os norte-americanos, anualmente, fumam sete milhões de charutos cubanos importados ilegalmente.

domingo, 18 de outubro de 2020

PALADAR "LA GUARIDA", HAVANA


 Em Cuba, chama-se “Paladar” às casas particulares que aceitam comensais fora do circulo familiar.

 A origem deste nome parece estar numa telenovela brasileira do início dos anos 90 que se chamava “Vale Tudo”, cuja personagem principal criara uma cadeia de restaurantes com essas características que se chamava, precisamente, Paladar.

 Atendendo ao sucesso dessa telenovela em Cuba, e porque no país as primeiras licenças para esse tipo de restauração por conta própria começaram a ser emitidas precisamente nessa altura, o nome Paladar acabou por ficar e cair no uso corrente.

 Com a progressiva e cautelosa abertura da economia cubana à iniciativa privada, os “paladares” generalizaram-se e foram perdendo essa característica inicial de refeição em ambiente familiar, acompanhadas pelos próprios membros da família, transformando-se, muitos deles, em restaurantes em tudo idênticos aos habituais, embora localizados em espaços de ambiência mais familiar.

 Em Cuba o “paladar” é uma verdadeira instituição nacional e, diz quem sabe, se o soubermos escolher bem, uma forma imperdível de conhecer a verdadeira cozinha popular cubana e a própria realidade social do país, porque sempre são umas boas duas horas de conversa informal com uma pequeníssima amostra da população local.

 E até, tristemente, para algo mais, porque tenho um amigo que fez essa experiência e a quem foi oferecida, a preço vantajoso, a própria filha do casal como sobremesa. Uma verdadeira desgraça, merecedora daquilo que ele fez… Recusar, gentilmente, e deixar uma boa gorjeta suplementar pelo bom tratamento prestado...


 Mas, como atrás vos referi, hoje há paladares e paladares...

 A Cristina sempre reagiu mal a qualquer uma das sugestões que lhe fiz acerca da ida a um “paladar” porque, dizia ela com uma certa razão, nunca sabemos o que nos espera… Se fosse um local em relação ao qual tivéssemos uma boa recomendação de alguém confiável, ainda vá, mas agora assim, às cegas, seria sempre um enorme risco…

 Mas como não queria sair de Cuba sem experimentar um “paladar”, resolvi jogar pelo seguro e reservar jantar no “La Guarida”, que é considerado um dos melhores de Havana.

 O “La Guarida” ficou célebre por, como ele próprio não se cansa de anunciar até no letreiro à entrada, ter sido o lugar onde decorre uma boa parte de “Morangos e Chocolate”, o filme de Tomás Gutiérrez Alea, de 1994, que é bem capaz de ter sido o último grande sucesso internacional do cinema cubano.

 Embora tenha gostado do local e apreciado o tempo que lá passei, o jantar acabou por ser, para mim, uma relativa desilusão.

 Não que a comida não tenha sido boa, que o foi, mas pelo simples facto de me ter parecido completamente descaracterizada em relação aquilo que eu imagino ser a gastronomia tradicional cubana.

 Imaginem um desses restaurantes de um “Chef” da moda, em Lisboa, e comparem essa gastronomia com a verdadeira cozinha tradicional portuguesa.

 Assim sucedeu no “La Guarida”, como poderão comprovar por este prato que vos mostro, que é um cozinhado sofisticado à base de leitão, e que se chama “cochinillo lechal, con reducción de naranja y miel”.


 E os preços não são os cubanos, mas mais próximos dos europeus, claro está...

 Este “paladar” fica num segundo andar de um prédio que julgaríamos em ruínas… Os acesos estão a cair de podres, mas isso parece fazer parte do encanto do local...


 No interior as instalações são excelentes e muito acolhedoras, ao nível dos melhores restaurantes de Lisboa, e o serviço é eficiente e simpático.

 Ao fundo do corredor existe um bar num terraço ao ar livre, com vista para o mar e para a cidade velha, que é uma ótima maneira de terminar a nossa experiência cultural e gastronómica.

 Em boa verdade, como é óbvio, eu continuo sem saber o que será um “verdadeiro Paladar”.

 Mas nada se perdeu.

 Chegámos cedo e ainda tivemos tempo de ir passear pelas imediações e ter um pouco a sensação do que é o problema do alojamento em Havana e o ambiente nos seus bairros populares: muitas Famílias em muito pouco espaço mas todos, aparentemente, bem dispostos e a confraternizar uns com os outros sentados no meio da rua.

 E ainda tivemos oportunidade de nos sentarmos um pouquinho no muro do Malecón, junto ao mar, que estava com uma luminosidade espantosa que, infelizmente, fui incapaz de captar em fotografia...

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

MORENAS DEL SON

Há uns bons anos atrás, na esplanada da tasca da Cilinha, em Setúbal, em torno de sucessivas travessas de esquilha (se não sabem o que é, vão ao dicionário…), abrilhantadas por muitos jarros de vinho tinto, falava-se de música e o meu amigo Carlos Guerreiro sentenciou, com a autoridade que só ele conseguia impor, que verdadeira música cubana, em Cuba, só na Casa de la Trova, em Santiago.

No que respeita à música cubana (e não só…), o que o Carlos Guerreiro diz não se discute e mentalmente tomei nota, convencido de que dificilmente algum dia iria ter possibilidade de lá ir…

 Alguns anos mais tarde essa oportunidade iria surgir, mas não sem que antes tivesse tido lugar uma épica batalha negocial, ao pé da qual o “Brexit” não passa de brincadeira de meninos…

 Discutia, com a minha Caríssima Esposa, quantos dias haveria para praia, e quantos dias seriam destinados a conhecer Havana e o resto do país.

 Regateava-se, com firmeza e determinação, um dia de praia e um dia de viagem, e cada um de nós esgrimia os seus argumentos, perfeitamente seguro da superioridade moral das suas convicções ideológicas.


O difícil consenso acabou por se conseguir obter quando eu, muito democraticamente e já depois de ter feito todas as concessões possíveis imaginárias , informei que ou era como eu dizia ou não poria os pés em Cuba...
 

E a coisa assim ficou: aproximadamente três semanas de viagem com uma semana de praia, tendo em relação a esta impondo como única condição que não fosse a confusão de Varadero, mas sim um Cayo mais discreto, que acabou por ser o Cayo Coco.

E assim ganhava luz a possibilidade de ir a Santiago confirmar o bom gosto do amigo Carlos Guerreiro.

É claro que quando penso na “verdadeira” música cubana me vêm logo à memória nomes como Campay Seguro, Rubén Gonzalez, Ibrahim Ferrer ou Omara Portuondo, que conheço por gentileza de Wim Wenders e Ry Cooder.

Quanto mais velho e em mais bengalas se apoiar o cantor, melhor o seu canto. E se aparecer de cadeira de rodas, é bom sinal…!

 Chegados a Santiago de Cuba, não descansei enquanto não descobri onde ficava a “Casa de la Trova”, que por sinal era no centro, bem perto da Praça da Catedral, a qual estava em obras de restauração porque Sua Santidade não tardaria nada iria por lá passar.

 Informei-me que nessa noite iriam lá cantar as “Morenas del Son”, que não fazia ideia nenhuma quem eram mas cujo nome não me augurou nada de bom… Apesar de tudo, não deixei de reservar o lugarzinho...

 O dia passara-se bem, com uma excursão de manhã, incluindo uma visita ao lendário Quartel Moncada (hoje Ciudad Escolar 26 Julio) e a tarde livre para se passear, tendo eu aproveitado para meter o bedelho numa série de bares e lojas populares que tiveram o condão de não agradar nada à minha Caríssima Esposa, certamente imaginando o bom que seria poder estar, naquele momento, a apanhar sol de papo para o ar, em vez de se ver arrastada para lugares daqueles...

 Regresso ao hotel, banho, curto repouso e a já tão aguardada decisão ser-me-ia confirmada.

 Estava com dores de cabeça – garantiu-me – e não se sentia em condições de voltar a sair à rua e, muito menos, para ir ouvir música…

 Era a falsa e gasta justificação, à qual já estou muitíssimo habituado…

Nova Iorque, Paris, Londres, Roma, Viena de Áustria e até Moscovo, com as suas largas avenidas apinhadas de enormes montras das mais conhecidas marcas de roupa e de acessórios, não constituiriam qualquer inconveniente…

 Mas Santiago de Cuba, à noite, “tá quieto ó preto”…! “Estou com dores de cabeça”...

 Assustada pelo aspeto da boa e simples gente que encontrara na rua e nas lojas, que receio teria ela…?

 De ser violada num beco esconso por um, dois, três, quatro, cinco cubanos imundos, enquanto me mantinham aprisionado…?

 Muito pior ainda, que, num ápice, se visse despojada da T-Shirt, da mala, dos óculos ray ban ou das queridas sapatilhas de marca…?

 Vá lá saber-se…

 Acabei por ter de ir sozinho com a minha filha Matilde, que nos acompanhava na viagem.

 Apanhámos um transporte para o Centro e começámos por ir jantar a uma esplanada que nos parecia animada. Já não me lembro bem o que comi mas, porventura imaginando que éramos um casal de pombinhos apanhado numa aventura exótica e pouco legal em terras de Cuba, os músicos em redor bombardeavam-nos com canções românticas… Acabavam uns e começavam outros, pesos no chapéu para a direita e pesos na caixinha de madeira para a esquerda, para que ninguém ficasse desconsolado...

 A hora do espetáculo aproximava-se e até à Casa de la Trova não foram mais que algumas centenas de metros.


Logo à entrada, um rapazito perguntou-me se queria comprar “puros”. Disse-lhe que sim e pedi-lhe o maior Cohiba que me conseguisse arranjar.

 Sentámo-nos, pedimos as bebidas e vimos a casa começar a encher-se.

 Quando já o amaldiçoava, o meu emissário dos charutos chegou em alvoroço, dizendo-me que, naquele momento, Cohibas só em caixa e propondo-me, em alternativa, três outros charutos pelo preço de um Cohiba. Passei-os entre os dedos, levei-os ao nariz (na altura ainda não havia Covid…) e dei o meu acordo, porque já tinha despachado a primeira bebida e não me apetecia nada continuar a beber sem fumar.

 Entretanto, algum alvoroço no palco e os artistas preparam os instrumentos e faziam os primeiros ensaios de som.

E depois os meus piores receios confirmaram-se inteiramente…

 À espera de velhotes apoiados em bengalas, apanho com sete esculturais e agitadíssimas cubanas, cujas idades deveriam variar entre os vinte e picos e os trinta e muitos, que não pararam de se bambolear a noite toda. E também tivemos direito a dançarinos…

 Música desta esperava eu encontrar no “Resort” de Cayo Coco, à beira da piscina e enquanto bebia uma enésima “piña colada”, mas nunca na “Casa de la Trova”...

Não é que cantassem e tocassem mal de todo, mas não eram aquelas as minhas expetativas.

 Zangado com o meu amigo…?

 Nem pensar… Pobre dele, que não pode adivinhar os constrangimentos que o turismo de massas vai impondo nos hábitos mais tradicionais daquela terras e daquelas gentes…

 Arrependido de lá ter ido…?

Longe disso… Como me poderia eu alguma vez arrepender de uma noite tão bem passada em Santiago de Cuba, na companhia da minha Querida Filhota…?

 Comi comida tradicional cubana, tive direito a música em privado, fumei um excelente “puro” acabadinho de enrolar… Que mais poderia eu desejar…? Só outras músicas, é claro...

 Mas que se lixasse a música! Quando chegasse a Lisboa poria a rodar o “Buena Vista Social Club” para recordar o que é a boa música cubana...

 E como prova de que não desejaria esquecer aquela noite, no final do espetáculo comprei às pequenas um CD e obriguei cada uma das morenaças a assiná-lo para mim.


À saída pedi um carro para nos levar ao hotel e o que se passou, depois, não consigo contar por palavras…

 Era uma daquelas velhas carcaças dos anos 50, que em Cuba se veem às centenas.

Do banco de trás exalava um cheiro tal a gasolina que tive de conter o bafo, não fosse fazer ir tudo pelos ares.

 E, depois, o motorista arrancou de prego a fundo, feito doido, a uma velocidade estonteante. Eu só via peões e ciclistas a afastarem-se e os cruzamentos a passarem uns atrás dos outros sem que sentisse no carro um cheirinho, por pequeno que fosse, a travão.

 Chegámos inteiros e sem ferir ninguém, mas confesso que não ganhei para o susto.

 Esqueci-me de vos dizer que, à saída do hotel, a minha Caríssima Esposa me pediu, encarecidamente, que não levasse a máquina fotográfica Nikon a tiracolo.

 Estupidamente, acedi, pelo que as únicas fotos que tenho dessa bela noite cubana são de muito má qualidade e foram feitas com o telemóvel da minha filha. Mas ela fez, igualmente, dois pequenos filmes que saíram bem e que vos darão uma ideia do que foram aquelas sensuais “Morenas del Son”.

 PS:

 Muito embora eu lhes tenha, desde o primeiro momento, dado o nome de “Morenas del Son”, o o plural e o “del” foram acrescento meu, porque o grupo se chama, simplesmente, “Septeto Morena Son”.

 Reposta a verdade, tenho a confessar-vos que o nome que lhes dei me soa incomparavelmente melhor e que, para mim, elas ficaram a ser, eternamente, as “Morenas del Son”…!

Nota do editor: as enormes incompetências que me assistem em matérias de compudadores e por aí fora,  não permitiram apresentar-vos os dois videos que a filha do Luís Miguel Mira registou na Casa de la Trova. Quando os transferi apareceu o recado: «O tamanho do ficheiro foi excedido. Desmarque um ou mais itens.» 

Puro chinês e ainda por cima tinha um javali ao lume, não me poderia distrair.

As minhas desculpas à Matilde e aos viajantes deste Cais. 

Para compensar (?), copiei do You Tube três momentos com As Morenas del Son.



terça-feira, 13 de outubro de 2020

PARLE FRANÇAIS...! PARLE FRANÇAIS…!!!


Aí por volta dos meus 18 anos, não só por motivos académicos mas também por gosto pessoal, interessei-me bastante pela América Latina e procurei ler o que tinha ao alcance da mão acerca de toda essa apaixonante região.

 Para um jovem dessa idade que se dizia “de esquerda”, Cuba não poderia deixar de ter uma mística e um encanto muito especiais.

Li bastante sobre Cuba, nesses tempos, e ainda me lembro que o primeiro livro que li foi um relato de viagem escrito pelo ator Rogério Paulo e publicado, se não me engano, pela Seara Nova, que se chamava, precisamente, “Um Actor em Viagem”.

 Depois disso, acabei por ter de estudar um pouco mais em profundidade a História de Cuba e da sua Revolução, já que, enquanto estudante universitário de Sociologia, também me propus elaborar alguns pequenos trabalhos académicos sobre esse tema, nomeadamente para essa extraordinária cadeira que se chamava “Movimentos Revolucionários do Séc. XX”…!

 Sabia muito bem, por isso, quem era Nicolás Guillén, quando ele passou por Lisboa em Junho de 1975, andava eu, então, pelos meus 21 anos.

 Como ele iria estar presente na Feira do Livro para assinar autógrafos, apressei-me a ir buscar uma velha antologia brasileira que tinha comprado na livraria “Boa Leitura”, ali para as bandas do Areeiro, e na hora exata aí estava eu na pequena bicha que aguardava o tão desejado contacto com o Poeta.

 Enquanto esperava, deu para perceber que de simpático Nicolás Guillén não me parecia ter nada e levava a cabo a sua missão de rabiscar páginas com um ar que na altura me pareceu ser de indisfarçável frete. Nunca o vi sorrir nem trocar qualquer palavra mais amistosa com quem lhe solicitava o autógrafo, a não ser para lhe perguntar qual o nome a registar…

 Eu tive um pouco mais de sorte, como perceberão…

Chegada a minha vez, entreguei-lhe o livro e disse-lhe que me chamava Luís Miguel.

 O Poeta mirou e remirou o livro, folheou-o com atenção e, no final, perguntou-me onde o tinha comprado.

 Manifestamente, Nicolás Guillén não sabia da existência dessa edição e teria, certamente, gostado de ficar com o meu exemplar se eu, naquele momento, tivesse tido a gentileza de o oferecer, coisa que, lamentavelmente, não fiz… Desculpei-me, depois, para mim próprio, dizendo que, mais tarde ou mais cedo, o livro iria acabar perdido nas enormes estantes da Casa de las Américas, instituição cultural cubana da qual Guillén era o Diretor, mas a verdade é que tão contente fiquei com o meu autografo nesse livro “raro” que quando cai em mim já ia longe e era tarde demais para voltar atrás...

 O pobre do livro já está a cair de velho, mas aqui vos deixo a sua capa e a página com o autógrafo, datado de 28 de Junho de 1975.

 Mas se vos conto tudo isto é apenas para que possam perceber melhor a história que agora vos irei contar.

 Quanto visitei Cuba pela primeira e única vez, em 2015, percebi que a viagem que me tinha sido programada incluiria uma noite em Camaguey, terra natal de Nicolás Guillén, o que me permitiria dar um salto à casa onde o Poeta nasceu, a qual - pensei eu - não poderia deixar de estar transformada num museu em sua honra.

 Uma vez no centro da cidade, não me foi difícil encontrar a casa, mas o maior espanto foi vê-la encerrada e meio abandonada, sem qualquer outra indicação a não ser um pequeno busto que confirmava ser mesmo esse o local do nascimento do Poeta.

 Fiquei absolutamente incrédulo e escandalizado.

 Então era assim que a Revolução Cubana homenageava a memória do seu grande Poeta Nacional, que só ombreava, em prestígio, com José Marti…?

 O Poeta que a apoiou desde o primeiro dia e a cantou, a Cuba e ao Mundo, através de vários poemas memoráveis, como é o caso deste celebérrimo “Tengo”, de 1964, que não resisto a reproduzir aqui, embora ele nos seja, nos dias de hoje, tão doloroso de se ler por sabermos que, afinal, nem tudo foram só rosas no percurso de Cuba, como nele se deixa entender…

 “Quando me vejo e toco,

eu nunca mais João sem Nada

e hoje João com Tudo,

deito os olhos, vejo.

Vejo-me e toco-me

e pergunto como pôde ser.

 

Tenho: - vamos a ver,

tenho o gosto de ir pelo meu país,

dono de quanto nele existe,

vendo bem de perto o que antes

não tive nem podia ter.

Posso dizer: colheita,

Posso dizer: monte,

Posso dizer: cidade,

Posso dizer: exército,

exército, posso dizer,

agora meus para sempre, e teus, nossos,

amplo esplendor

de raio, estrela, flor.

 

Tenho: - vamos a ver,

tenho o gosto de ir

eu, camponês, operário, gente simples.

Tenho o gosto de ir (é um exemplo)

a um banco e falar com o administrador,

não em inglês,

não em senhor,

mas dizer-lhe compañero, como se diz em espanhol.

 

Tenho: - vamos a ver,

que sendo um negro

ninguém me pode proibir

à porta de um dancing ou de um bar.

Ou na receção de um hotel,

gritar-me que não há quarto,

um pequeno quarto e não um quarto colossal,

um pequeno quarto onde possa descansar.

Tenho: - vamos a ver,

que um guarda rural

não m’agarra e fecha na prisão,

nem m’arranca e me expulsa da minha terra

no meio do caminho real.

 

Tenho que, como tenho a terra, tenho o mar,

no country

no high-life,

no tennis, e no yatch,

de praia em praia e costa a costa

gigante azul aberto democrático:

enfim, o mar.

 

Tenho: - vamos a ver,

que já aprendi a ler,

a contar,

tenho que já aprendi a escrever

e a pensar

e a rir.

 

Tenho que já tenho

onde trabalhar

e ganhar

o que preciso para comer.

 

Tenho: - vamos a ver

Tenho o que tinha de ter.”

 Noutros tempos a linguagem poética de Guillén fora mais elaborada e floreada, mas estes eram novos tempos de combate e esta poética mais crua e mais direta era, na altura, a Poesia necessária…

 E ao Poeta que lhe dera, devotadamente, todo este apoio, agradecia o Governo de Cuba mantendo quase ao abandono casa onde nascera…

 Eu nem queria acreditar...

 Desolado, retomei o caminho de regresso ao hotel, na companhia da minha filha Matilde que me acompanhara nesse passeio, imaginando, para mim próprio, teorias da conspiração… Será que, sem que eu o soubesse, Guillen teria caído em desgraça e agora a sua memória pagaria as consequências…? Custava-me muito a acreditar, mas a verdade é que em Cuba escritores caídos em desgraça pareciam ser o pão nosso de cada dia...

 E vinha eu a pensar nisto quando, num pequeno largo, deparo com um casa apalaçada que, como quase tudo em Cuba, aparentava já ter tido melhores dias e reparei que, agora, era uma espécie de Centro Cultural que, à sua porta, anunciava um ciclo de cinema. Li melhor e percebi que estava na delegação local da UNEAC, a União de Escritores e Artistas de Cuba que, por ironia do destino, havia sido criada em 1961 por Nicolás Guillén com o objetivo de unir os intelectuais cubanos em torno dos ideais da Revolução Cubana.

Que aquela nobre instituição se preparasse para organizar um ciclo sobre “O Erostismo no Cinema”, com “O Último Tango em Paris”, “O Império dos Sentidos” e muitos outros não me pareceu nada estranho porque é sabido que para muitos, desde o divino Marquês até George Bataille, o sexo é libertário, e o erotismo “a aprovação da vida até na morte”, na célebre expressão deste último.

 Entrei para bisbilhotar, é claro, tanto mais que me apercebi que algures no interior havia um pequeno bar e já estava na hora da minha cerveja de fim de tarde.

 Não tive sorte nenhuma porque não havia cerveja disponível e só me poderiam oferecer rum, se assim o desejasse. Agradeci, disse-lhes que estava com muita sede e substitui tudo por uma garrafa de água fresca.

 Entretanto, uma das muitas pessoas que se encontravam à conversa numa mesa grande ao fundo da sala levantou-se e aproximou-se de mim, perguntando-me, com um ar simpático e acolhedor, quem eu era e ao que vinha.

 Ele apresentou-se, por seu lado, dizendo-me que se chamava José (esqueci-me do apelido…), era artista tocador de guitarra clássica, e que todos os companheiros que estavam com ele à volta da mesa eram também artistas locais, porque, como eu já tinha percebido, aquela era a delegação local da UNEAC. “Aquele ali mais alto” – apontava ele para o homem que estava à cabeceira da mesa – “é o nosso Presidente”.

 No grupo, segundo me informava José, havia outros músicos, como ele, pintores, escultores, críticos de cinema e escritores, como era o caso do Presidente.3

José disse-me que tinha vivido e trabalhado durante alguns anos em Paris, tendo optado por regressar, há relativamente pouco tempo, ao seu país natal. E brincou comigo com algumas frases em francês, quando eu lhe respondi que trabalhara durante muitos anos numa empresa francesa e que falava quase tão bem francês como português (o que é um manifesto exagero, diga-se em abono da verdade…!)

 Aproveitando o rumo cultural que a conversa tomara, contei-lhe a minha aventura da busca da casa de Nicolas Guillen, manifestando-lhe a minha estupefação por ver assim quase devotada ao abandono e ao esquecimento a casa natal do Poeta de “Buenos dias Fidel!”...

 Falei alto para que ele percebesse bem a minha indignação e para que os outros lá no canto também me ouvissem…

 Enquanto eu falava, José pegava-me no braço e pedia-me para falar francês, dando-me a entender que lhe daria muito prazer recordar essa língua.

 E eu dizia-lhe uma ou duas frases em francês, e depois retomava o espanhol, falando-lhe da quantidade de casas de escritores e outros artistas que já havia visitado por esse Mundo fora, cujo excelente estado de conservação contrastava com o abandono a que havia sido deixada a casa do grande Poeta cubano.

A força com que o José me apertava o braço e me pedia para falar em francês aumentava de intensidade e apercebi-me que a sua expressão facial começava a denotar ares de algum transtorno e de alguma inquietação, que aumentava à medida que outros companheiros se levantavam da mesa e se aproximavam de nós, provavelmente alertados por tantas vezes eu estar a evocar o nome de Nicolás Guillén.

 “Parle français!”, “parle français!!!”, quase que me gritava ele...

 E só então caí em mim e pensei que esta insistência do José poderia não ter a ver apenas com o seu simples desejo de voltar a ouvir a língua de Victor Hugo …

 A verdade é que ali estava eu armado em parvo, no meio de um grupo de apparatchiks cubanos, a denegrir não só a política cultural do seu Governo, mas também a das próprias autoridades locais…!

 Sem procurar renegar tudo o que tinha dito até então, fiz um autêntico flique-flaque e menti com quantos dentes tinha…

 Disse-lhes que em Junho de 1975, enquanto membro da juventude do Partido Comunista Português, tinha sido uma das pessoas que tinha tido a honra de acompanhar o Poeta durante a sua visita a Portugal.

Vejam bem…! Militante comunista eu, que nem sequer “compagnon de route” sou, embora tenha tido o prazer de ter ido inúmeras vezes à Festa do “Avante!”…!!!???

 Mas continuei, imparável…

Contei-lhes a história do autógrafo do livro, embora lhe tivesse dado o fim feliz que, na devida altura, não tinha tido classe para o fazer. E acrescentei dizendo-lhes que, com grande orgulho meu, meu o livro faria, hoje, certamente parte do espólio do Poeta ou da biblioteca da Casa de Las Américas…!

E, para verem que não mentia, até me referi à personalidade algo carrancuda do Poeta, coisa que pareceu não ter espantado ninguém...

 Para os impressionar ainda mais e para os levar a compreender que eu estava do lado dos “bons”, arranjei pretexto para debitar, algo forçadamente, alguns conhecimentos que tinha acerca da História de Cuba, da sua Revolução e das suas Artes…!

 De Artes Plásticas cubana nada sei e quanto a escritores calei-me, não me fosse sair boca fora o nome de algum dissidente e lá se borraria a pintura toda…!

Por isso, e para grande espanto do crítico de cinema, vinguei-me naquilo que melhor conhecia: o Cinema, claro está…

 Falei-lhe de Tomás Gutierrez Alea, Humberto Solás, Julio Garcia Espinosa, e de filmes cubanos “clássicos” como “Memórias do Subdesenvolvimento”, “Lúcia” ou “Aventuras de Juan Quinquin”. Dos documentários de Santiago Alvarez, Manuel Octavio Gomez, José Massip ou Sara Gómez, tudo coisas que tinha na minha coleção privada e das quais poderia falar com algum conforto.

 O golpe de misericórdia para o critico foi quando chamei Guttierrez Alea pela sua própria alcunha cubana, que, por sorte, conhecia: Titón…

 A reação que ele teve foi idêntica à que eu teria se um dia um chinês chegasse ao pé de mim e chamasse o Vasco Santana de “Zéquinha”…

 O pobre abriu a boca de espanto e terá pensado para consigo: “Ora aparece-me agora aqui, vindo do outro lado do Mundo capitalista, um tipo de calçõezinhos, sandálias de pele, chapéuzinho de palha e óculos escuros a chamar Titón por Titón….!!! Está tudo doido…!

Notem bem que, embora me tenha esforçado bastante por isso, o meu objetivo último não era o de botar boa figura a debitar conhecimentos… Eu queria é que eles percebessem que eu era amigo de Cuba, que não tinha nada contra a política cultural do seu Governo e que os meus comentários acerca da casa de Guillén eram autênticos e não tinham segundas intenções...

 Por sorte, a minha estratégia resultou em pleno.

 O ambiente desanuviou-se e tornou-se, claramente, mais amistoso.

 Por essa altura já eu tinha sido pessoalmente apresentado a todos, incluindo ao Presidente, cujo nome, Sergio Morales Vera, é o único que sei, por motivos que mais à frente perceberão.

Puxaram-se as cadeiras, formou-se um pequeno circulo e falámos.

 José pegou na sua guitarra e tocou-nos uma peça clássica cubana, cujo nome me disse mas esqueci.

 O crítico de cinema aconselhou-me dois livros acerca da História do Cinema Cubano que estava à venda na Delegação e pelos quais paguei um preço simbólico.

 Um dos escultores guiou-me numa exposição de obras suas que estavam abertas ao público, naquele mesmo local.

 Para além de José e do crítico, o Presidente foi aquele que mais falou comigo.

 Disse-me que conhecera Nicolas Guillén há muito tempo e que, de facto, a impressão que me deixara não lhe era estranha, embora me confessasse que, na intimidade, o Poeta era uma pessoa muito mais aberta e divertida do que aparentava à primeira vista.

E explicou-me, igualmente, que havia, desde há muito, um projeto para reabilitação da sua casa, que seria retomado logo que possível, dando-me a entender que naqueles últimos anos as prioridades em Cuba tinham sido outras.

Para conclusão da minha visita ofereceu-me este pequeno livrinho fotocopiado que aqui vos mostro, um livro de contos fantásticos chamado “El Descifrador y Otros Relatos”, muito na linha de Juan Rulfo.

 E, para culminar, fizemos um brinde com rum, tendo eu percebido, pelo sinal que fez em direção ao bar, que não era o da garrafa que estava exposta, mas o da “garrafa especial”…

 Um memorável fim de tarde de convívio que, por estupidez minha, poderia ter corrido mal.

 Despedi-me do José dizendo-lhe que naquela noite iríamos jantar mesmo ali ao lado, na “Casa de la Trova” e perguntando-lhe se aceitaria ser nosso convidado.

Agradeceu muito, mas não apareceu…

 E deixou-me a pensar no seu insistente “parle français!”...

 Quisesse eu dizer mal do Governo cubano, diria que naquele desesperado pedido estava o grito de todo um povo amordaçado…

 Mas nada disso me passava pela cabeça…

 Aconteceu-me estar em Palma Soriano, uma pequena cidade no interior de Cuba, no dia 13 de Agosto, dia em que Fidel Castro fez 89 anos, e houve festa rija no largo. Não me apercebi que alguém lá estivesse a festejar forçado.

 Vi em Cuba gente muito humilde com a felicidade estampada no rosto.

 Mas é claro que também vi gente feliz, com lágrimas…

 Interpreto o alerta do bom do José como o de um intelectual que sabe muito bem que em Cuba há coisas que se podem dizer à vontade, e outras que o bom senso aconselha a que sejam ditas com maior cautela...

 E aprendi a lição.

 A partir daí, bico calado e não mais ninguém ouviu de minha boca qualquer pergunta ou comentário mais inconveniente…!

 PS:

A tradução portuguesa de “Tengo” é de Carlos Pereira e faz parte da Introdução ao livro “O Grande Zoo”, editado em 1973 pela editora Centelha.

 

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

domingo, 11 de outubro de 2020

DUAS SIMPLES PORTAS

A certeza de que, mais tarde ou mais cedo, o exército de Fulgêncio Batista iria conseguir dar conta dos revoltosos que se escondiam na Serra Maestra e daí promoviam umas escaramuças levou a grande cadeia de hotéis americana Hilton a não hesitar em projetar a construção de um novo e grande hotel em Havana.

O “Habana Hilton”, com os seus 30 pisos, 630 quartos e 42 suites com uma vista magnífica sobre toda a cidade, casino, seis restaurantes e bar panorâmico, seria não só o mais alto e mais luxuoso hotel de Havana, como também de toda a América Latina. “Colocaria a Cuba en la primera posicion hotelera y turistica del Mundo”, como reza este anúncio da época que faz parte do delicioso livro “La Habana Esplendorosa”, o qual nos conta o que era a vida em Cuba e, sobretudo, em Havana, nesses tempos pré-revolucionários.

De facto, a construção deste grande e luxuoso hotel tinha sido uma grande ambição pessoal do próprio Fulgêncio Batista, desejoso de impor Cuba como o primeiro destino turístico de toda a América Latina e mostrar à América e ao Mundo que, quanto a revoltosos, “no pasa nada” e que, em sentido figurado e não só, Cuba continuaria a dar cartas e a navegar de vento em popa.

Para levar avante a sua vontade, Batista não hesitou em deitar mão de dinheiro pertencente ao Fundo de Pensões do Sindicato dos Trabalhadores da Restauração para financiar parte de um investimento global de 24 milhões de dólares.

A inauguração teve lugar, com pompa e circunstância, em Março de 1958, com 300 convidados a terem direito a cinco dias consecutivos de festa, entre 19 e 23 desse mês.

Veio o próprio Conrad Hilton, vieram atores e atrizes de segunda categoria, que os principais, provavelmente, tiveram receio que lhes acontecesse o mesmo que aconteceu a Fângio e a Errol Flyinn, e veio, também, essa horrenda criatura cronista de mexericos chamada Hedda Hopper, sempre pronta a trincar um croquete onde se proporcionasse.

Um tremendo sucesso!

“Habana Hilton” era, de facto, o símbolo da pujança do capitalismo em Cuba e, nos primeiros meses que se seguiram, inúmeros foram os visitantes que fizeram questão em lá ficar.

Só que, menos de 10 meses após a inauguração, viram bater-lhes à porta uns visitantes inesperados e, certamente, indesejados: Fidel Castro “y sus muchachos”…

Se o Hilton é o verdadeiro símbolo do capitalismo e da influência americana em Cuba, nada melhor - terá pensado Fidel - do que ocupá-lo e aí instalar o seu quartel-general.

E se bem o pensou, melhor o fez.

Em 8 de Janeiro de 1959 o hotel foi tomado e duas “suites” foram ocupadas.

A 2324, chamada “Suite Continental”, para instalação do comando das operações, realização de conferências de imprensa, receção de visitantes estrangeiros e outras iniciativas do género.

A 2224, chamada “Suite Castellana”, para o alojamento do próprio Fidel.

Outros quartos terão sido ocupados para instalação de outros dirigentes.

 

Pode ver-se, na fotografia que vos mostro, um grupo de revoltosos a tomar posse do “foyer” do hotel. Na “net” há muitas mais, para quem se interessar...

Esta ocupação iria durar apenas três meses, porque Fidel não pretendia abrir mão do dinheiro da Indústria do Turismo e até chegou, mais tarde, a participar em ações de promoção do hotel junto do público americano.

O próprio casino foi fechado e, depois, reaberto.

Mas o mal estava feito. A frequência baixou para menos de um sexto e estava no ar um pedido de indemnização por parte da Hilton quando Cuba optou por nacionalizar o hotel, o qual, a partir de Junho de 1960, se passou a chamar “Hotel Habana Libre”.

Aproveitando a excelente oportunidade, a primeira embaixada soviética em Cuba instalou-se em dois dos andares do hotel. Não sei se alguma vez terão chegado a pagar renda...

Mas os anos passaram e nem tudo foram rosas para a Revolução Cubana.

Erros seus, má fortuna, amor revolucionário ardente…

Mas também muito embargo mesquinho à mistura, como Cuba não se cansa de fazer lembrar ao seu povo e quem a visita.

Com o colapso da antiga União Soviética, Cuba compreendeu que teria de voltar a apostar, em força, no turismo estrangeiro.

Depois de fracassada uma primeira tentativa de colocar o hotel sob a gestão de um operador privado, foi o Grupo espanhol Sol Meliá quem tomou conta das operações e o hotel passou a chamar-se, a partir de 1996, “Hotel Tryp Habana Libre”.

Foi assim que o encontrei quando, em 2015 , tive a oportunidade de lá passar algumas noites e, tendo tido a sorte de ficar num dos andares mais altos, pude confirmar que, não obstante tanta água ter passado por debaixo das pontes, a vista continua magnífica.

E, como não poderia deixar de ser, fui espreitar as célebres “suites”.

Elas eram visitáveis no seu interior, mas só mediante marcação e a meio da manhã.

Como não me podia dar ao luxo de perder muito tempo em Havana só para isso, fiquei-me pela visão das portas de entrada, que aqui vos mostro.

Nada de muito especial...

São apenas duas simples portas, mas carregadas de História.

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira