Mostrar mensagens com a etiqueta Rafael Alberti. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rafael Alberti. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 11 de setembro de 2018

A HISTÓRIA OS JULGARÁ!


Como escreveu Rafael Alberti:

Ontem, no Chile, morreu um homem. Hoje mesmo, milhares de outros já se levantam. A morte não acaba nada!

Pablo Neruda no seu livro Confesso Que Vivi:

O meu povo foi o mais atraiçoado deste tempo. Dos desertos do nitrato, das minas submarinas do carvão, das altitudes terríveis onde jaz o cobre e o extraem com esforços sobre-humanos as mãos do meu povo, surgiu um movimento libertador de dimensão grandiosa. Esse movimento levou à presidência do Chile um homem chamado Salvador Allende, para introduzir reformas e medidas de justiça inadiáveis, a fim de resgatar as nossas riquezas nacionais das garras estrangeiras. (…).
Aqui, no Chile, estava a construir-se, entre enormes dificuldades, uma sociedade verdadeiramente justa, bem assente na base da nossa soberania, do nosso orgulho nacional, do heroísmo dos melhores habitantes do Chile. Do nosso lado, do lado da
revolução chilena, estavam a Constituição e a lei, a democracia e a esperança.

Discurso do Presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, dia do golpe de Estado que derrubou o governo da Unidade Popular e implantou a sanguinária ditadura militar comandada pelo general Pinochet.

«Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se auto designou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.
Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.
Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.
Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.
Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A história os julgará.
Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranquilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranquilizar, mas tampouco pode humilhar-se.
Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.
Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.»

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

BALADA DEL QUE NUNCA FUE A GRANADA



Qué lejos por mares, campos y montañas!
Ya otros soles miran mi cabeza cana.
Nunca fui a Granada.

Mi cabeza cana, los años perdidos.
Quiero hallar los viejos, borrados caminos.
Nunca vi Granada.

Dadle un ramo verde de luz a mi mano.
Una rienda corta y un galope largo.
Nunca entré en Granada.

¿Qué gente enemiga puebla sus adarves?
¿Quién los claros ecos libres de sus aires?
Nunca fui a Granada.

¿Quién hoy sus jardines aprisiona y pone
cadenas al habla de sus surtidores?
Nunca vi Granada.

Venid los que nunca fuisteis a Granada.
Hay sangre caída, sangre que me llama.
Nunca entré en Granada.

Hay sangre caída del mejor hermano.
Sangre por los mirtos y aguas de los patios.
Nunca fui a Granada.

Del mejor amigo, por los arrayanes.
Sangre por el Darro, por el Genil sangre.
Nunca vi Granada.

Si altas son las torres, el valor es alto.
Venid por montañas, por mares y campos.
Entraré en Granada.

Rafael Alberti

Música: Paco Ibañez

PAPÉIS DATADOS


Aos 96 anos de idade, durante o sono, com toda a serenidade dos poetas, morreu Rafael Alberti.

Vai ser devolvido ao mar, como insistentemente pediu.

Ao azul, como o culminar de todos os azuis.

Chegou a ser deputado pelo Partido Comunista mas aborreceu-se depressa.

Aquela vida, aquelas reuniões nada tinham a ver com as camisas floridas e o seu boné de marinheiro.

Morreu em Puerto de Santa Maria, Cadiz.

Com o mar a bater ao fundo e o perfume dos jacarandás e das buganvílias.

Um silêncio azul.

(28.10.1999)


segunda-feira, 18 de julho de 2016

POSTAIS SEM SELO


Vindes de muito longe…
Mas a distância
o que é para o vosso sangue, que canta sem fronteiras?
A morte necessária chama por vós todos os dias,
não  importa em que cidades, campos ou caminhos.
Deste país, do outro, do grande, do pequeno,
do que no mapa ocupa um lugar quase ignorado,
com as mesmas raízes que tem o mesmo sonho,
anónimos, simplesmente viestes até nós.

Rafael Alberti, extracto do poema A Las BrigadasInternacionales.
Tradução em Liberdade, Liberdade de Luiz Francisco Rebelo, Luís de Lima e Helder Costa

Legenda: Ernest Hemingway junto das forças republicanas durante a Guerra Civil  de Espanha.