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domingo, 25 de janeiro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

As gentes «daquela coisa, perigosamente, entraram num caminho que pretende fazer o regresso do país aos terríveis e negros tempos que vivemos antes do 25 de Abril.

«Na Assembleia Municipal de Lisboa de 13 de Janeiro de 2026, a deputada municipal do Chega, Margarida Bentes Penedo, demonstrou ter muitas, mesmo muitas, dúvidas sobre a linha artística do Teatro do Bairro Alto (TBA). Demonstrou também simpatizar com apenas um artista em Portugal, (o fadista João Braga), que gostaria de ver integrado na agenda cultural da cidade.»

Pedro Adão e Silva, hoje no Público, escreve que estas gentes, para além de outros atropelos, pretendem «Para defender a cultura diabolicamente nova
A premissa de que há uma "cultura de esquerda" que deve ser substituída por uma "cultura de direita" é perigosa. As políticas culturais devem garantir a variedade da oferta, sem interferência política nos conteúdos da programação; assegurar que há espaço para tudo e criar oportunidades para os artistas e as propostas emergentes. A cultura é um espaço de representação, mas também o lugar onde devemos esperar inovação. Sem essa margem para transgredir, as nossas sociedades ficam condenadas ao imobilismo.»

Uma sondagem da Universidade Católica mostra que, no próximo dia 8 e Fevereiro, António José Seguro obtém 70% de votos contra 30% do presidente «daquela coisa».

O perigo destes números é a existência de eleitores que poderão pensar que o vencedor está encontrado e já não será necessário ir votar.

Lembrar que a abstenção é uma atitude que, poderá não lhe dar a vitória, mas favorece os desígnios do presidente «daquela coisa».

Por isso, a música da manhã de hoje, leva-nos para o poema de  António Gedeão que deu uma canção de Manuel Freire.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

JÁ CHEIRA A INVERNO


Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno, dizia a minha avó, diziam todos os velhos.

Num 1 de Agosto, anos 60, último barco de Belém para a Trafaria, o mestre da embarcação para seu tripulante:

«Já cheira a Inverno!»

Ninguém foge ao seu destino e recorda-se um poema de António Gedeão:

- Minha mãe, haverá mundo

para além da Trafaria?

 

- Não sei, meu filho. Não sei.

Tudo aquilo que sabia

já no meu sangue te dei.

 

- Que serras são estas, mãe,

que não nos deixam ver nada?

 

- São rugas que a Terra tem.

Não maces a tua mãe.

Deixa-me estar descansada.

 

- Ó mãe, que rio é aquele?

Onde nasce e onde morre?

 

- Ó filho, é Deus que o impele.

Entretém-te a olhar para ele.

É um rio. Tem água. Corre.

 

- Quando eu for crescido, mãe,

quero saber e entender.

 

- Ó filho, o supremo bem

é cada qual, com o que tem,

resignar-se e agradecer.

 

Deus faz tudo pelo melhor.

Não se engana nem se esquece.

De todo o mal, o maior,

seria sempre pior

se Deus assim o quisesse.

Ninguém foge ao seu destino.

Está tudo determinado.

Não penses com desatino.

Dorme, dorme, meu menino.

um soninho descansado.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

À LUPA


 O ministro fala aos directores de escolas do país.

A sala está cheia e faz muito calor.

Disse que nas próximas décadas vão aposentar-se cerca de 4.000 professores. Cerca de dois terços dos que hoje dão aulas têm 50 anos ou mais e até 2034 são precisos 39 mil professores.

Noutro local da cidade, uma professora universitária, num exame, apanhou um aluno a cabular.

O aluno indignou-se e, depois de puxar o cabelo à professora, empurrou-a ao ponto de a professora bater com a cabeça na secretária da sala de aula.

A professora acabou por ser levada para a urgência hospitalar.

Tempo para a Lupa deslizar, uma outra vez para as Memórias de Rómulo de Carvalho, um enorme professor, um grande poeta que conhecemos como António Gedeão:

1.

A partir do 25 de Abril senti-me completamente inútil na minha qualidade de professor. Pessoalmente ninguém me maltratou, e quando queria ir ao meu liceu, entrava nele sem dificuldade depois de o aluno que vigiava as entradas me bater com um pauzinho e dizer que podia seguir. Tive a consciência plena da minha inutilidade como professor e o meu desejo imediato foi ir-me embora, deixar o ensino. Pensei que já deveria estar então, oficialmente, em condições de requerer a minha aposentação, ou seja de me reformar em conformidade com a lei então vigente.

2.

As repercussões do 25 de Abril nas escolas e no ensino, em geral, de que já vos dei exemplos, são dignos de registo. Razão teve o senhor Guerra, contínuo do Liceu Pedro Nunes, quando se aproximou de mim para me dizer, com voz velada: “Quer ouvir esta, sr. Doutor? Então um aluno daquela turma, que estava à espera da professora de Matemática, não me vem perguntar: “então a gaja de Matemática não vem?” O senhor Guerra ficou varado. Nunca pensara que um aluno pudesse fazer-lhe uma pergunta naqueles termos. E então disse-lhe: Ó menino! Que maneiras são essas de falar? E sabe o que ele me respondeu, senhor doutor? Estamos em Democracia, senhor Guerra.

Legenda: Rómulo de Carvalho/António Gedeão

quarta-feira, 9 de julho de 2025

À LUPA

Sim, eu sei: estou a ficar velho.

Chega-se aos 80 anos e começamos a olhar para o lado.

Há algum tempo que ando em releituras.

Já o li, já o reli e volto a andar às voltas com um livro maravilhoso: As Memórias de Rómulo de Carvalho ou António Gedeão.

A Lupa tem andado por aquelas palavras:

«Na verdade, já que estou a falar-vos em fim da existência, dir-vos-ei a ideia de tal fim nunca me perturbou, nem em velho nem em novo. Nunca consegui adaptar-me à vida e sempre nela vagueei com desagrado, embora sorrindo e até gracejando. Sempre procurei dar aos outros aquilo que sempre deles desejei receber mas cada um é um baluarte inacessível. Bate-se à porta e ninguém responde. Trabalhei a vida inteira e procurei ser útil a quem de mim se aproximava, o que hoje me é afirmado quando isso vem a propósito. Agora cheguei ao termo final, mais de trinta e dois mil dias de vida e, presentemente, só estou a dar incómodos aos outros, sem utilidade de qualquer espécie. Ela que venha pois, a morte, que será bem recebida. Alguns olhos chorarão por mim, mas com o tempo tudo passa, e secarão.»

terça-feira, 22 de abril de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Deve-se a Manuel Freire, em tempos de ditadura, com um poema, uma canção, popularizar um grande poeta português: António Gedeão, o poema é a Pedra Filosofal.

O mesmo Manuel Freire, nos mesmos tempos de ditadura, transformou poemas de poetas portugueses, em gritos claros de luta e de esperança.

Num país cinzento, debaixo de uma ditadura que tudo fez para que a esperança do povo não pudesse soltar amarras, cerceando a vontade de quem se sentiu escravo e pela libertação fez luta diária, houve quem não respeitasse mistérios nem segredos.

Muitos, durante essa luta, acabaram por morrer, não souberam da cor da liberdade, mas uma outra canção lembra: até mortos vão a nosso lado.

Lidos em 1966, a esmagadora maioria dos Poemas Possíveis estão assinalados a lápis.

Naturalmente, um desses poemas é Ouvindo Beethoven.

Uma boa dezena de anos antes de Abril, Saramago, esperançadamente, sabe que, como disse Jorge de Sena, não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade.

Ouvindo Beethoven, José Saramago sabia que, num, num qualquer mês, de um qualquer ano, chegaria o Dia das Surpresas.

Deste poema, em 1973, Manuel Freire fez canção e assim alargou os horizontes da mensagem:

Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça o juiz em nós até ao fundo.
Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem noutra arte
Que a prosa de registo, o verso data.
Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

A 24 de Dezembro de 1973, António José Saraiva está em Paris a gozar 10 dias de férias da Universidade holandesa onde colabora. Escreve a Óscar Lopes. Quase em findar de carta, desabafa sobre o que vai acontecendo no mundo e conclui que «a chamada civilização ocidental chegou ao fim, e já perdeu a alma. Mas não apareceu outra que a substitua e por isso ela continua de pé e continuará, como um cadáver adiado.»

E expressa os seus desejos para esse ano:

«Que este 1974, em que ambos começamos a aproximar-nos dos 60, seja o menos mau possível.»

 De facto, os votos de Saraiva ultrapassaram as suas prováveis débeis expectativas.

Por Abril desse ano aconteceu o dia de todas as surpresas.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

O 25 DE NOVEMBRO EXISTIU?


Durante a ditadura salazarista, o poeta António Gedeão, num poema, a que Manuel Freira colocou música, disse-nos que eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.

Hoje, imensos jovens não sabem o que foi o 25 de Abril, muitos mais ainda, não sabem o que foi o 25 de Novembro.

A história do que foi o 25 de Novembro de 1975 ainda não está feita. Como se diz no Aqui de Setembro de 1976: «houve um golpe. É o mínimo em que há unanimidade de certezas.»

Diz a historiadora Raquel Varela,  Público 25 de Abril de 2011:

«Embora o encontro entre Álvaro Cunhal e Melo Antunes a 25 de Novembro esteja documentado, acredito que o acordo tenha decorrido alguns dias antes do golpe que pôs fim à crise político-militar e terminou com a duplicidade de poderes nas Forças Armadas. Até porque os Nove poderiam adivinhar que as unidades militares afectas ao PCP não deixariam de responder a uma insurreição militar, como acontecera a 28 de Setembro de 1974 e 11 de Março de 1975».

José Saramago que, muito bem sabia do que estava a falar, disse: «Perdeu-se em Portugal muita coisa desde o 25 de Novembro. Perdeu-se sobre tudo a vergonha».

Adelino Gomes no Público de 26 de Novembro de 2000:

«Quem desencadeou o 25 de Novembro? Quem deu ordem aos páras para ocuparem quatro bases aéreas? Otelo traiu os seus homens ou evitou a guerra civil? O PCP de que lado(s) esteve? Até onde chegavam as ligações ao MDLP? Quantos grupos funcionavam dento do Grupo dos Nove? Qual foi a mais decisiva: a Região Militar do Norte (RMN) ou a Região Militar sw Lisboa (RML)?; o posto Avançado da Amadora, comandado pelo então tenente-coronel Ramalho Eanes, ou o Posto de Comando Principal, montado em Belém, e onde ficaram o Presidente Costa Gomes e o comandante da RML, e Conselheiro da Revolução, Vasco Lourenço? Quantos 25 de Novembro houve naquele dia?

0 25 de Novembro existiu?

segunda-feira, 25 de março de 2024


 

Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Os militares do Movimento dos Capitães, agora que sabem que o golpe de estado ocorrerá entre 20 e 27 de Abril, continuam as suas contantes reuniões, Américo Tomás, continua a inaugurar chafarizes e afins, os ministros da ditadura fazem as suas visitas, recebem individualidades diversas, pouco há referir e entende-se que é oportuno voltar à música e a um disco em que Manuel Freire utiliza um poema de António Gedeão. O poeta escreverá nas suas Memórias:

«Eu tenho comigo trinta discos onde foram gravadas canções, feitas por diversos cantores de maior ou menor fama. Sobre poemas meus. Desses trinta discos dois deles foram-me oferecidos pelos seus criadores. Os restantes vinte e oito (e não estou em erro) foram comprados por mim quando, por acaso, os fui encontrando nas montras das casas de discos por onde passava.

O que mais se notabilizou nestas andanças foi o Manuel Freire, um rapaz com voz agradável e talento musical. Quando depois o conheci, e conversei com ele, disse-me que ficara muito impressionado quando leu os meus poemas publicados, pelo seu sentido musical. Particularmente leu a Pedra Filosofal e, espantosamente, impelido pelo ritmo do texto, começara a lê-la e a trauteá-la. Daí lhe nasceu, de imediato a música que tão popular se tornou. Houve quem dissesse no jornal que a Pedra Filosofal marcara toda uma geração.

Tenho comigo cinco discos do Manuel Freire onde ele canta, com música sua, não só a “Pedra Filosofal” como também o “Poema da malta das naus”. Devo-lhe muito. Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»

Quando, em 1969, Manuel Freire aparece no Zip-Zip, a cantar Pedra Filosofal de António Gedeão, não era totalmente um desconhecido. Era um companheiro de viagem, dos que, país fora, andavam por sociedades recreativas a dizer, a quem os quisesse ouvir, que haveria de chegar o dia das surpresas.

Claro que a passagem pelo Zip-Zip projecta Manuel Freire para um outro tipo de público, e muito mais gente ficará, então, a saber que o sonho comanda a vida, que o mundo pula e avança.

Manuel Freire sobre a poesia de António Gedeão: 

«A poesia dele tem um ritmo próprio. Para já, é extremamente clara. Não é daqueles poetas que a gente tem de ler o poema três vezes para perceber o que eles querem dizer. Isso não os torna nem piores nem melhores, torna-os diferentes. O Gedeão não: lê-se à primeira e percebe-se o que quer dizer. E como tem um ritmo, torna mais fácil musicar as coisas. De maneira que foi isso que eu descobri.»

No topo , está o velhinho single, da Biblioteca da Casa,  do Manuel Freire com a Pedra Filosofal, Edição «ZIP-ZIP», com arranjos e supervisão de Thilo Ktasmann , gravado na Nacional Flmes, em 1970, com som de Heliodoro Pires.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

POEMA DE DOMINGO

Aos domingos as ruas estão desertas

e parecem mais largas.

Ausentaram-se os homens à procura

de outros novos cansaços que os descansem.

Seu livre arbítrio alegremente os força

a fazerem o mesmo que fizeram

os outros que foram fazer o que eles fazem.

E assim as ruas ficaram mais largas,

o ar mais limpo, o sol mais descoberto.

Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas

e espetarem o ventre e alargarem os braços

no amplexo de amor que só eles conhecem.

 

O olhar aberto às largas perspetivas

difunde-se e trespassa

os sucessivos, transparentes planos.

Um cão vadio sem pressas e sem medos

fareja o contentor tombado no passeio.

 

É domingo.

E aos domingos as árvores crescem na cidade,

e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se

a cantar empoleirados neles.

Tudo volta ao princípio.

 

E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas

e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras

levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,

enquanto o transeunte,

no deslumbramento do encontro inesperado,

eleva a mão e acena

para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.

 

António Gedeão de Novos Poemas Póstumos em Obra Completa

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Continuamos a olhar alguns dos livros da Biblioteca da Casa que vieram da casa do meu pai.

Este é mais um volume da excelente Biblioteca Cosmos, dirigida pelo Professor Bento de Jesus Caraça.

Rómulo de Carvalho nas suas Memórias:

Escrevi dois volumes segundo este projecto, um intitulado “ A Ciência Hermética” e outro “O Embalsamento Egípcio”, e ambos foram publicados numa colecção famosa designada Biblioteca Cosmos, editada em Lisboa, e na qual saíram mais de 100 volumes, talvez 150.

O director da Biblioteca Cosmos era um professor da Universidade Técuica, ainda hoje muitas vezes recordado pela sua competência no ramo da Matemática. Chamava-se Bento de Jesus Caraça e conheci-o pessoalmente. A sua memória ao ser acordada no tempo presente, como às vezes sucede, não se prende ao seu saber, o que só por si o justificaria, mas à sua resistência à ditadura salazarista que nunca perdoou a ninguém que se lhe pusesse. Esteve preso, foi afastado da sua profissão, sofreu bastante e não resistiu aos sofrimentos. Tinha apenas mais quatro ou cinco anos do que eu e já morreu há mais de quarenta anos.

Das vezes que falei com ele recebeu-me sempre de modo muito correcto, com certa distância natural. Recordo um pormenor curioso. Bento Caraça era director de uma Gazeta de Matemática, análoga aos objectivos à minha Gazeta da Física, e até na tipografia daquela que esta se compunha e imprimia. Eram irmãs gémeas. Certo dia fui procurar o professor Caraça para saber da aceitação que tivera um artigo meu que lhe enviara para publicação na dita Gazeta de matemática. Ele já o tinha lido, e gostara. Ia publicá-lo, mas… Ele estava sentado à secretária, sério, compenetrado da sua função de director, e eu sentado defronte como penitente. O meu artigo versava as íntimas relações entre a Matemática e a Física e punha em relevo a importância dessas relações ao nível do ensino liceal. Intitulei-o “A Física filha directa da Matemática”. Era esta a razão do mas… O título não lhe agradou. Bento Caraça procurou fazer-me compreender que a dignidade e a gravidade da Ciência não permitiam a leveza daquelas palavras, parece que pouco virtuosas. Ele era um homem progressista, aberto às transformações sociais, revolucionário, mas há coisas sagradas. Visto isso mudei o título para “Sobre a correlação entre a Matemática e a Física no ensino liceal.”. Veio no nº 31, de Fevereiro de 1947. Ele morreu no ano seguinte, e eu ainda cá estou a apreciá-lo nas suas forças e nas suas fraquezas.

 Rómulo de Carvalho em Memórias

quarta-feira, 27 de abril de 2022

O CANTIGUEIRO DE SONHOS


No dia 25 de Abril, Manuel Freire fez 80 anos.

Não é por ser um número redondo, que nos leva a trazer aqui este rapaz nascido em Vagos, é antes o registo de um tipo discreto, sereno, a viver longe dos holofotes, que merece o lugar de relevo que ocupa, não só na música popular portuguesa, mas no que ele , com a sua viola, «toco pessimamente», as suas canções contribuiu para zarpar os caminhos que levaram ao 25 de Abril.

Quando, em 1969, Manuel Freire aparece no Zip-Zip, a cantar Pedra Filosofal de António Gedeão, não era totalmente um desconhecido. Era um companheiro de viagem, dos que, país fora, andavam por sociedades recreativas a dizer, a quem os quisesse ouvir, que haveria de chegar o dia das surpresas.



Em 1969 publicara o EP Manuel Freire Canta Manuel Freire, que inclui Livre, poema de Carlos de Oliveira, que passámos a saber de cor e que, por aqueles dias, em qualquer circunstância, se cantava ou murmurava.


Depois um outro EP, Trovas,Trovas,Trovas, que inclui o belíssimo poema de Daniel Filipe, Lutaremos Meu Amor disco que, de imediato, foi apreendido pela PIDE.

Uma simples mensagem: “na aparência sozinhos multidão na verdade, lutaremos meu amor", punha o regime a tremer.

Claro que a passagem pelo Zip-Zip projecta Manuel Freire para um outro tipo de público, e muito mais gente ficará, então, a saber que o sonho comanda a vida, que o mundo pula e avança.

Manuel Freire sobre a poesia de António Gedeão:

«A poesia dele tem um ritmo próprio. Para já, é extremamente clara. Não é daqueles poetas que a gente tem de ler o poema três vezes para perceber o que eles querem dizer. Isso não os torna nem piores nem melhores, torna-os diferentes. O Gedeão não: lê-se à primeira e percebe-se o que quer dizer. E como tem um ritmo, torna mais fácil musicar as coisas. De maneira que foi isso que eu descobri.»

António Gedeão, ou Rómulo de Carvalho, nas suas  Memórias sobre Manuele Freire:

«Eu tenho comigo trinta discos onde foram gravadas canções, feitas por diversos cantores de maior ou menor fama. Sobre poemas meus. Desses trinta discos dois deles foram-me oferecidos pelos seus criadores. Os restantes vinte e oito (e não estou em erro) foram comprados por mim quando, por acaso, os fui encontrando nas montras das casas de discos por onde passava.

O que mais se notabilizou nestas andanças foi o Manuel Freire, um rapaz com voz agradável e talento musical. Quando depois o conheci, e conversei com ele, disse-me que ficara muito impressionado quando leu os meus poemas publicados, pelo seu sentido musical. Particularmente leu a Pedra Filosofal e, espantosamente, impelido pelo ritmo do texto, começara a lê-la e a trauteá-la. Daí lhe nasceu, de imediato a música que tão popular se tornou. Houve quem dissesse no jornal que a Pedra Filosofal marcara toda uma geração.

Tenho comigo cinco discos do Manuel Freire onde ele canta, com música sua, não só a “Pedra Filosofal” como também o “Poema da malta das naus”. Devo-lhe muito. Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»

  O CANTIGUEIRO

domingo, 17 de abril de 2022

CANTAREMOS


 

«Cantaremos» é editado em 1970

Capa de J.F. Bogalho

FACE A

Cantar de Emigração

José Niza música, poema de Rosalia de Castro

Saudade Pedra e Espada

Música Roberto Machado, poema Manuel Alegra

Fala do Homem Nascido

Música de José Niza, poema de António Gedeão

O Sol Préguntou à Lua

Canção popular açoriana

Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da Concorrência

Música Adriano Correia de Oliveira, poema Manuel Alegre


                                                          Ilustração do interior do LP da autoria de J. F. Bogalho

FACE 2

 Lágrima de Preta

Música de José Niza, poema de António Gedeão

Canção Com Lágrimas

Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Manuel Alegre

Cantar Para Um Pastor

Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Matilde Rosa Araújo

Como Hei-de Amar Serenamente

Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Fernando Assis Pacheco

Sapateia

Canção popular açoriana

A Noite dos Poetas

Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de A. Barahona da Fonseca


Arranjos de Rui Pato e Carlos Alberto Moniz
Acompanhamentos de Rui Pato, Tiago Velez, Raul Mendes e Adriano Correia de Oliveira.


                                                Ilustração do interior do LP da autoria de J. F. Bogalho

Como hei-de amar serenamente
Com tanto amigo na prisão
Deixar intacta a minha voz
Nos acidentes da ternura
Como hei-de estar sentado e calmo
Sentado e calmo com a minha amada

Não posso estar serenamente
Não posso amar serenamente
Os versos esmagam-se na boca


E fica mais amarga a minha boca
Não posso estar serenamente
Não posso amar serenamente


terça-feira, 22 de março de 2022

ESTENDI NA AREIA MULHERES DE TODAS AS CORES

Este livro tem o subtítulo: «Os Filhos Que Os Militares Portugueses Deixaram Na Guerra Colonial». 

A imagem é a reprodução da contra capa do livro.

O livro é da autoria de Catarina Gomes, ex-jornalista do Público.

«Tudo começou com uma viagem à Guiné, em 2013, com o objetivo de revelar, no Público, estas histórias da História que ficam por contar. Seguiram-se quatro anos em que os contactos com estes filhos e filhas, de identidade truncada, se foram multiplicando. A maioria tem como única herança dos pais uma vida inteira de discriminação: eram “filhos de tuga”; eram filhos do “inimigo”. Pelo meio, também há (re)encontros felizes. Catarina Gomes escreve que “todos os dias morrem metades desta história” – os pais portugueses estão na fase final das suas vidas (os filhos têm entre 40 e 50 anos). As relações entre militares portugueses e mulheres africanas são, muitas vezes, romantizadas – todos os filhos gostam de se imaginar fruto de um grande amor. Contudo, estas crianças também foram fruto de casos de prostituição, de agressões sexuais ou de violações. Catarina Gomes chama-lhe um livro de pós-reportagem, no qual conta o que aconteceu, depois da publicação das histórias no jornal, e se assume como participante no enredo, em busca destes pais desaparecidos. Sem alarido, numa comoção sublime.»

Fernando Hedgar da Silva depositava grandes esperanças no encontro com um ex-militar português, que tinha optado por permanecer na Guiné após o fim da Guerra Colonial (1961-1975). Quando o homem lhe perguntou como se chamava o pai, Fernando respondeu o único nome que a mãe, timidamente, lhe havia dito: “Furriel. O meu pai chama-se Furriel.” O ex-militar ficou incrédulo e explicou-lhe que Furriel não era um nome; antes uma patente. Afinal, Fernando sabia menos de nada sobre o seu pai. E era esse vazio que o preenchia quase por inteiro.

António Gedeão é autor de Poema da Malta das Naus, um lindíssimo poema que deu uma muito bonita canção de Manuel Freire:

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi pelouros e zagaias.

Chamusquei o pelo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

RELACIONADOS

 Na Biblioteca do meu Pai não existia nenhuma Enciclopédia.

Também nunca adquiri nenhuma.

Mas existia uma série de volumes de Cadernos e Colecções que abrangiam uma série de gente qualificada a escrever sobre  autores e assuntos diversos.

Muitos desses volumes pertenciam à Biblioteca Cosmos que foi um projecto excepcional criado e orientado por Bento de Jesus Caraça.

Rómulode Carvalho, mais conhecido como o poeta António Gedeão, conta nas suas Memórias que colaborou com obras suas nesta excelente Biblioteca Cosmos.

Publicarei nos próximos dias outros volumes (Cadernos da Seara Nova, Cadernos da Editorial Inquérito) que me ajudaram na formação de um certo sentido de Cultura Geral que, possivelmente, qualquer enciclopédia não daria.

Ramiro da Fonseca, médico e escritor, manteve, nos anos 70, na RTP o programa «Vida Sã em Corpo São».  

segunda-feira, 17 de maio de 2021

ALGUÉM PRONUNCIARA A PALAVRA NECESSÁRIA


Rómulo de Carvalho continua a explicar aos seus tetranetos os passos que conduziram ao 25 de Abril de 1974. O tempo de lhes dizer que talvez eles estejam surpreendidos por o tetravô tanto saber de acontecimentos com tanto pormenor sem ter participado neles. E explica:

Tudo decorria em segredo «mas houve um militar de carreira, que foi um dos cabecilhas de toda a movimentação que se seguiu, que, depois da questão resolvida, escreveu um livro em que relata todos os pormenores do que aconteceu, quase dia-a-dia. O homem era capitão e chamava-se Diniz de Almeida (não sei se ainda é vivo), e o livro que escreveu e publicou intitulava-se “Origem e Evolução do Movimento dos Capitães”. O livro caiu no esquecimento, conforme conveio àqueles que, posteriormente, se interessaram em dar aos acontecimentos então decorridos, o ar mítico e heróico dos gestos portugueses. Tenho aqui o livro ao meu lado e nele uns sinaizinhos que me revelam as particularidades do que então se passou.

O abaixo-assinado dirigido ao Presidente do Conselho não o comoveu. Felizmente para a nossa História. “Creio que teria sido catastrófico para a sobrevivência do Movimento a revogação imediata do decreto”, lê-se na página 66 do citado livro. De facto, se o Governo revogasse o decreto, os oficiais acomodavam-se e ainda talvez a esta hora estivéssemos em guerra no Ultramar.»

Pela leitura do livro de Diniz de Almeida, Rómulo conclui que grande parte dos militares envolvidos nas reuniões estavam mais preocupados com o seu prestígio, «o qual prestígio dependeria da satisfação dos seus interesses económicos.»

Mais ainda:

«A ditadura que nos oprimia há quarenta e tantos anos, em nada os preocupava. Dessem-lhes o que pretendiam e tudo prosseguiria na mesma, a ditadura e a guerra. Numa das circulares assinadas por dois heróis do próximo futuro, Vasco Lourenço e Otelo Saraiva de carvalho, lê-se: “como o nosso movimento está isento de qualquer cunho político” (p. 175). Venham as regalias, renove-se o nosso prestígio, e a ditadura pode contar connosco.»

Assim prosseguia o «sereno desassossego», como lhe chama Rómulo e, seguindo o livro de Diniz de Almeida, lembra que em finais de Novembro 73 aparece um tenente-coronel de apelido Bazanol a dizer aos seus camaradas:

«Estão a esgotar-se com um assunto que não vale a pena. Isto não é uma questão de galões. O que vocês estão, e todos nós, é agonizantes. Estrangulados por um regime que nos conduz directamente para o abismo. É preciso que acordemos do pesadelo, é preciso acabarmos de vez com a maldita guerra colonial. Impõe-se a revolução armada desde já, seja qual for o seu preço e as suas consequências.»

Ainda Rómulo de Carvalho:

«Em outra reunião, dias depois, noutro local, novamente o tenente-coronel atroa os ares com a sua proposta revolucionária. O acolhimento foi pior do que no encontro anterior. Recebeu o apoio de alguns mais entusiasmados e generosos e a censura da maioria. Ficou desde aí injustamente marginalizado por louco ou incapaz. (p. 217-218).

De qualquer modo já alguém pronunciara a palavra necessária: Revolução.»

Rómulo de Carvalho em Memórias

domingo, 9 de maio de 2021

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 Gosto de livros.

Mas tenho por alguns livros – não são assim tão poucos – uma ternura especial. Um desses livros: Memórias de António Gedeão/Rómulo de Carvalho.

Comprei-o na Feira do Livro de 2011, mas já há muito o namorava nos escaparates das livrarias.

Recordo a história:

«A 81ª Feira do Livro de Lisboa fechou portas no domingo.

A primeira e única visita deu para estoirar, rapidamente, os parcos euros que o orçamento familiar tinha determinado.

Mas tive que voltar. Um livro, que não comprara nessa visita, andou a fazer-me comichão ao ponto de me ter decidido que tinha que acabar com isso e isso só poderia acontecer, indo comprá-lo

Nas livrarias custa 45,00 euros, o preço de feira situava-o nos 36,00 euros. Foi editado pela Fundação Calouste Gulbenkian e são as “Memórias” de Rómulo de Carvalho, mais conhecido por António Gedeão, aquele que disso que havia, há ainda, gente que não sabia que o sonho é uma constante da vida, que o mundo pula e avança.

Um livro lindíssimo, mais de 500 páginas, de alguém, que a escassos 14 dias de morrer, deixou escrito: «A vida nunca me seduziu. Entre o viver e o morrer sempre preferi o morrer. Se não tivesse nascido, ninguém daria pela minha falta. Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem.»

 Soube sempre, desde o dia primeiro que o vi nas livrarias, de que não mereceria o ar que respiro, se não o comprasse.»

 Há livros que desejava nunca acabar. Este é um deles. Claro que está sempre à mão de semear. Mas o deslumbramento existe enquanto percorro a primeira leitura, uma leitura lenta como se saboreasse uma aguardente muito velha…

O poema de Gedeão sobre sua mãe, que hoje se publicou, merece uma revisita às suas Memórias:

«Era eu já mais crescido e recordo-me que a Livraria Portugália, no Chiado, defronte do elevador de Santa justa, tinha um serviço de empréstimo de livros ao domicílio, para leitura, a troco de uma pequena mensalidade. A minha mãe fez-se inscrever e deve ter lido tudo quanto figurava no catálogo da livraria, onde se incluíam muitas centenas de obras.

Acredito que minha mãe fosse capaz de construir todas aquelas poesias que atribuiu a comunicações de espíritos e que tivesse capacidade bastante para passar ao papel, de um só jacto.

Bem dizia o João de Deus, numa das suas comunicações mediúnicas, à Rosinha, considerando que os assistentes às sessões espíritas poriam em dúvida a autenticidade dos seus versos:

                                           Se alguém disser, minha amiga,

                                           que  esses versos não são meus,

                                           deixe lá falar quem fala,

                                           Se não forem meus, são seus.»

Entre 20 de Abril de 2017 e 8 de Agosto de 2018 fiz publicar, no Cais, excertos deste extraordinário livro. Por vezes perguntam-me como perco tanto tempo a copiar excertos de livros. Não perco tempo nenhum, estou sempre a ganhar tempo. Acumulo prazeres, utilidades, o que lhe quiserem chamar. Sempre gostei que me falassem de livros, me copiassem algumas páginas, livros que não tenho, gostaria de ter, por vezes encontro-os, outros não.

Gosto de livros.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE 25


22 de Abril de 1974

Neste dia ainda falamos do almoço íntimo que o chefe de estado ofereceu em Belém a Marcelo Caetano, a alguns ministros, a algumas altas figuras do regime e pelo grande destaque, na sua 1ª página que o jornal Época dá ao repasto.

Para quem não se lembre, ou não saiba, a Época é o resultado de uma fusão entre os jornais A Voz e Diário da Manhã, ambos apregoadores-mor das virtudes da ditadura, ocorrida a 1 de Fevereiro de 1971, tendo como director Barradas de Oliveira e custava 2$50.

 A exemplo de O Século e Diário de Notícias, a Época também não informa o que as excelências comeram e beberam, mas adianta que tudo se passou num ambiente de grande cordialidade…alguns odiavam-se mesmo! A notícia não termina sem que o repórter diga que o Presidente da República e o professor Marcelo Caetano mantiveram troca de impressões.

Que impressões?

1.

O chefe de estado aceita o convite para inaugurara a Feira Nacional de Agricultura e recebeu o arquiduque Otão de Hasburgo que, na véspera, no Grémio Literário proferira uma conferência sobre Política Internacional, presentes, entre outras individualidades, Adriano Moreira, prof. Soares Martinez, Ramiro Valadão, presidente da RTP.

2.

No jornal República, o jornalista e escritor Álvaro Guerra, que era um elo de ligação entre os militares e a imprensa, sabendo do que daí a dias iria acontecer, escreve no seu habitual Ponto Crítico:

A Primavera continua chuvosa, um resto de invernia que se arrasta, retardando o sol aquém, de tantos sóis adiados, se vai fartando e chegando ao Inverno da vida com um levíssimo e já frio raio de luz teimando penetrar na floresta desencantada da memória.
Naturalistas, alegóricos, nostálgicos, vamos seguindo os caprichos do clima, mitigando a ausência das palavras primaveris com a decifração de eternos boletins meteorológicos.

3.


Neste pequeno apanhado de algumas das canções de antes de 25 de Abril, não poderia deixar de aparecer Pedra Filosofal, poema de António Gedeão, musicado e cantado por Manuel Freire.

Nas suas Memórias, António Gedeão/Rómulo de Carvalho, reconhece: Devo-lhe muito. Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.

O que mais se notabilizou nestas andanças foi o Manuel Freire, um rapaz com voz agradável e talento musical. Quando depois o conheci, e conversei com ele, disse-me que ficara muito impressionado quando leu os meus poemas publicados, pelo seu sentido musical. Particularmente leu a “Pedra Filosofal” e, espantosamente, impelido pelo ritmo do texto, começara a lê-la e a trauteá-la. Daí lhe nasceu, de imediato a música que tão popular se tornou. Houve quem dissesse no jornal que a Pedra Filosofal marcara toda uma geração.

Em Setembro de 1969 Manuel Freire cantou, pela primeira vez, na televisão, aquele meu poema num programa intitulado Zip-Zip.

 

sábado, 25 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

AMÁLIA CANTA LUÍS DE CAMÕES

Há uma Amália antes e depois de Alain Oulman.

Não sou dado a grandes conhecimentos da matéria, mas se assim penso assim, escrevo.

Quando, em Outubro de 1965, Alain Oulman musicou poemas de Camões para a voz de Amália, Amália Canta Camões, os intelectuais tiveram reacções diversas.

José Gomes Ferreira não concordou e respondeu assim ao Diário Popular:

«Não estou disposto a ouvir. Não quero ouvir. Mas acho mal. Existem obras-primas da música portuguesa, como por exemplo, “Os Madrigais”, de Luís de Freitas Branco, inspiradas em poesias de Camões. Claro que também existiu a Engraxadoria Camões. Para cada um - seu paladar».

Se bem que tenha um número bem razoável de poemas seus musicados, José Gomes Ferreira nunca simpatizou com a ideia.

A excepção é o trabalho com Fernando Lopes Graça.

A tal ponto que, em 28 de Setembro de 1970, enviou à Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais a seguinte carta:

«De regresso de férias, encontrei a vossa carta de 21 de Setembro de 1970 a que me apresso a responder, com os meus melhores cumprimentos.
O pedido de autorização ao sr. José António Matildes para musicar o meu poema de Poesia III, “Ó pinheiro verdadeiro” honra-me muito, mas infelizmente não posso conceder-lha por motivo de “princípios estéticos” pois discordo inteiramente da chamada música ligeira quando adaptada aos meus versos, escritos sem essa intenção.
Claro que esta recusa nada tem de pessoal. Peço-lhe até que explique ao Sr. José António Matildes que as canções e as baladas aparecidas recentemente na rádio e em discos com versos meus são todas clandestinas, feitas sem a minha autorização. Ao Sr. José António Matildes devo, pelo menos, essa delicadeza que muito me sensibilizou.
Em resumo: incito-o a fazer a música que lhe apetecer sem me pedir licença!»

Em contraste, é interessante ir buscar o exemplo de António Gedeão que, nas suas Memórias, escreve que muito deve a Manuel Freire e às músicas que fez para poemas seus:
 «Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»

Texto publicado em 30 de Março de 2019


sábado, 6 de junho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

PAPÉIS DATADOS

Eu, que me comovo por tudo e por nada, assim fiquei ao sair da Exposição que assinala o centenário do nascimento do professor, pedagogo, cientista, Rómulo de Carvalho, do poeta António Gedeão, que está patente na Biblioteca Nacional, de 12 de Outubro de 2006 até 6 de Janeiro de 2007.

Chama-se a exposição António é o meu nome,  e mostra parte do espólio do autor, doado pela família.

Do que se vê, ressalta a ideia de um homem extremamente organizado e rigoroso, gostando das mais ínfimas coisas, coleccionando tudo o que lhe chamava a atenção e que, por isto ou aquilo, entendia guardar.

Fazia álbuns de fotografias das viagens e levava para casa as mais improváveis coisas, como a pena de um pombo encontrada em Trafalgar Square.

Coleccionava bilhetes de transporte, de museus, de espectáculos, postais e outras coisas que os humanos consideram inúteis ou absurdas.

No espólio encontra-se uma carta do compositor Alain Oulman a solicitar-lhe autorização para musicar o poema Calçada de Carriche e, ao mesmo tempo, dando a conhecer que fizera alguns cortes, mas que não adulteravam o sentido do poema.

Outra das suas predilecções era álbuns com fotos da família que ele próprio organizava e encadernava com tecidos floridos.

Tecidos semelhantes àquele que o meu avô utilizou para encadernar a Fanga do Alves Redol.

Adorava dar aulas e, se não tivesse sido professor, gostava de ter sido marceneiro. 

Foi ele que construiu toda a mobília que se encontrava no seu escritório, desde a secretária às estantes.

Um pouco como o meu pai. Todo o mobiliário do escritório/biblioteca da casa onde nasci, foi ele que concebeu. Desde uma escrivaninha às estantes e uma mesa para o meio da sala onde se bebia café e demais bebidas.

Parte dessas estantes vieram aqui para casa. Por impossibilidade de espaço não pude trazer todas e isso deixou-me algum desgosto porque, nos tempos livres do meu pai, as vi nascer. Eram parte da minha vida.

Os cadernos em que Gedeão escreveu a sua variada obra, numa letra desenhada e miudinha, lembram os cadernos onde o meu avô escreveu as traduções que fez dos livros de Anatole France.

Olha-se toda a exposição, e ressalta a figura que Rómulo de Carvalho/António Gedeão foi: um estupendíssimo professor, um belíssimo poeta, um príncipe do Humanismo.

É muito importante que, para além da obra, se olhem exposições como esta.

Ficamos com uma ideia mais abrangente dos autores que amamos.

Devia ser tarefa obrigatória dos governos.

(17 de Novembro de 2006)

Texto publicado em 24 de Novembro de 2016

sábado, 30 de março de 2019

AMÁLIA CANTA LUÍS DE CAMÕES


Há uma Amália antes e depois de Alain Oulman.

Não sou dado a grandes conhecimentos da matéria, mas se assim penso assim escrevo.

Quando, em Outubro de 1965, Alain Oulman musicou poemas de Camões para a voz de Amália, “Amália Canta Camões”, os intelectuais tiveram reacções diversas.

José Gomes Ferreira não concordou e respondeu assim ao Diário Popular:

Não estou disposto a ouvir. Não quero ouvir. Mas acho mal. Existem obras-primas da música portuguesa, como por exemplo, “Os Madrigais”, de Luís de Freitas Branco, inspiradas em poesias de Camões. Claro que também existiu a Engraxadoria Camões. Para cada um - seu paladar».

Se bem que tenha um número bem razoável de poemas seus musicados, José Gomes Ferreira nunca simpatizou com a ideia.

A excepção é o trabalho com Fernando Lopes Graça.

A tal ponto que, em 28 de Setembro de 1970, enviou à Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais a seguinte carta:

De regresso de férias, encontrei a vossa carta de 21 de Setembro de 1970 a que me apresso a responder, com os meus melhores cumprimentos.
O pedido de autorização ao sr. José António Matildes para musicar o meu poema de Poesia III, “Ó pinheiro verdadeiro” honra-me muito, mas infelizmente não posso conceder-lha por motivo de “princípios estéticos” pois discordo inteiramente da chamada música ligeira quando adaptada aos meus versos, escritos sem essa intenção.
Claro que esta recusa nada tem de pessoal. Peço-lhe até que explique ao Sr. José António Matildes que as canções e as baladas aparecidas recentemente na rádio e em discos com versos meus são todas clandestinas, feitas sem a minha autorização. Ao Sr. José António Matildes devo, pelo menos, essa delicadeza que muito me sensibilizou.
Em resumo: incito-o a fazer a música que lhe apetecer sem me pedir licença!»

Em contraste, é interessante ir buscar o exemplo de António Gedeão que, nas suas memórias, escreve que muito deve a Manuel Freire e às músicas que fez para poemas seus: «Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»