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sexta-feira, 22 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


  

          Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                   João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


Permitam que a música e as canções continuem a ocupar estas Viagens por Abril.

Hoje, aqui se traz Fernando Lopes Graça e Fiama Hasse Pais Brandão. Tal como o José Gomes Ferreira dizia, nos seus poemas para as Heróicas do Graça, «até mortos vão ao nosso lado.»

Naqueles tempos em que se abriam janelas para que as correntes de ar pudessem entrar, batessem na cara, juntávamo-nos ao redor de discos e livros, trocávamos impressões, experiências e admitíamos aquele saber que guardamos nas dobras improváveis do tempo, que era possível a chegada de um dia claro. A isto se poderia chamar a memória da esperança. Era disto que se faziam os dias daqueles tempos.

"Lisboa tem suas barcas agora lavradas de armas".

-

Quando já depois de, ouvidos os discos, muito conversados, razoavelmente bebidos, o Zé Leal lembrava sempre que ficava na memória um som. Um som simples das ausências, das mãos que se fizeram abertas. Ficava também o silêncio. Depois era a debandada. A manhã a anunciar-se, era o começo de mais um dia de trabalho.

"Para a próxima quem é que trás os discos?”

Hoje já não servem as palavras com que dantes se faziam as conversas entre nós. Gastas as palavras, outros os olhares, diferentes os interesses.

Este EP de 33 rpm é o 4º Caderno de composições de Fernando Lopes Graça “compostas em estilo singelo para recreação da gente nova portuguesa – Oito Canções das Barcas Novas”.

Os poemas são de Fiama Hasse Pais Brandão, cantados por Celeste Lino, Manuel Pico, acompanhados, ao piano, por Olga Prats.

O disco, como habitualmente, não indica a data de gravação. Talvez 1972. O preço, esse, pode ver-se no canto superior esquerdo: 73 escudos e 50 centavos qualquer coisa, ao cambio de hoje, como 0,3675 euros. Mas façam contas e acreditem que aqueles 73,50 escudos obrigavam a sacrifícios.

O texto de apresentação, incluído no disco, é de Mário Vieira de Carvalho, escrito num tempo em que era crítico musical e acreditava que existiam amanhãs para serem cantado

Os comandos militares informam que um capitão morreu na Guiné e um alferes em Moçambique, ambos “por acidente de viação”, e que cinco outros militares morrerem em combate, também nestas duas províncias.

Num serviço da ANI para os jornais lia-se que “ao contrário do que tem sido noticiado no estrangeiro, não foi expulsa de Moçambique a Irmã Maria del Cali, apenas se verificou o facto de não haver sido renovado o visto de residência. Um informador oficial esclarece que a freira italiana subscrevera uma carta que criticava a acção do Bispo de Tete e certo documento capturado pelas forças portuguesas a um terrorista, indicava-a como uma pessoa ideal para ser contactada pela FRELIMO.”

Em informação, assinada pelo Capitão Correia de Barros, para os jornais, os serviços de censura determinavam: “Em títulos ou subtítulos dos casos passados em Moçambique não pôr: “padres acusados de traição” – como fez “A Capital”.

Um comunicado do Comando-Chefe das Forças Armadas informava que a Srª D. Cecília Supico Pinto, presidente do Movimento Nacional Feminino, continuava a sua visita a zonas no interior da Guiné.

sábado, 31 de julho de 2021

OLGA PRATS (1938-2021)


Morreu OlgaPrats.

Os nossos melhores vão partindo.

Fernando Lopes Graça morava na Parede. Olga Prats também. Numa noite de Verão, em que o acompanhava a casa, Olga Prats ouviu o Graça dizer:

«Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse, homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.»

 Andei à procura de uma fotografia de um Concerto na Academia dos Amadores de Música em que o coro é acompanhado pela pianista Olga Prats e em que na pimeira fila da plateia se vê a cabeleira branca do poeta José Gomes Ferreira. Uma fotografia lindíssima mas estará por aí. Um dia destes caba por aparecer.

 Recordo um velho texto, datado de  23 de Junho de 2009:


GUILDA DA MÚSICA/SASSETTI - SST 3001 - s/data

Naqueles tempos em que se abriam janelas para que as correntes de ar pudessem entrar, batessem na cara, juntávamo-nos ao redor de discos e livros, trocávamos impressões, experiências e admitíamos aquele saber que guardamos nas dobras improváveis do tempo, que era possível a chegada de um dia claro. A isto se poderia chamar a memória da esperança. Era disto que se faziam os dias daqueles tempos.

"Lisboa tem suas barcas agora lavradas de armas".

Quando já depois de, ouvidos os discos, muito conversados, razoavelmente bebidos, o Zé Leal lembrava sempre que ficava na memória um som. Um som simples das ausências, das mãos que se fizeram abertas. Ficava também o silêncio. Depois era a debandada. A manhã a anunciar-se, era o começo de mais um dia de trabalho.

"Para a próxima quem é que trás os discos?”

Hoje já não servem as palavras com que dantes se faziam as conversas entre nós. Gastas as palavras, outros os olhares, diferentes os interesses.

Este EP de 33 rpm é o 4º Caderno de composições de Fernando Lopes Graça “compostas em estilo singelo para recreação da gente nova portuguesa – Oito Canções das Barcas Novas”.

Os poemas são de Fiama Hasse Pais Brandão, cantados por Celeste Lino, Manuel Pico, acompanhados, ao piano, por Olga Prats.

O disco, como habitualmente, não indica a data de gravação. Talvez 1972. O preço, esse, pode ver-se no canto superior esquerdo: 73 escudos e 50 centavos.

O texto de apresentação, incluído no disco, é de Mário Vieira de Carvalho, escrito num tempo em que era crítico musical e acreditava que existiam amanhãs para serem cantados.

Mais tarde, muito depois de escritas estas palavras, seria secretário de Estado da Cultura de um governo de José Sócrates. Dizem as más-linguas que ele e a ministra, para além de umas guerras intestinas e perfeitamente inúteis (Cinemateca, São Carlos etc.) não deixaram nada de registo. Também só agora é que o Primeiro-Ministro reconhece que errou ao não apostar mais na Cultura e que tenha sido tratada “como um parente pobre”.

Pois!...

 


domingo, 5 de julho de 2020

VELHOS DISCOS


Ana Bacalhau, à conversa no Expresso, lembrou uma frase lapidar de Janis Joplin:

«Em palco faço amor com 25 mil pessoas e depois vou para casa sozinha»

Lembrou-se de Fernando Lopes Graça, numa noite de Verão, em que Olga Prats o acompanhou até  à sua casa na Parede e ouviu-o dizer:

Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse, homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.

Num velho documentário da BBC, sobre Janis Joplin, uma voz-off diz:

 «Antes de Janis Joplin, nenhuma mulher branca cantava assim».

Para Janis Joplin sabe, tal como ouviu a Gin-tonic, que  faltam adjectivos à altura.

Há centenas de versões de “Summertime”, mas a de Janis é diferente, como também ninguém canta “Me And Bobby McGee" como ela, para não falar naquela gargalhada final em Mercedes Benz: «oh! Lord por que não me compras um Mercedes Benz?»

Janis Joplin nasceu em 1943 em Port Arthur, uma pasmaceira perdida no meio do Texas.

A mãe, como boa conservadora americana que era, queria que Janis fosse professora, casasse com um rapaz simples, tivesse filhos, que aos domingos ficasse em casa a fazer tartes de maçã.

Mas Janis descobriu que sabia cantar e passou a querer ir longe, o mais longe possível e que ninguém sabe onde fica.

Gostava de blues e cantava-os com energia, sensualidade, atrevimento, uma loucura extravagante, uma rebeldia cheia de inteligência, um verdadeiro acto de paixão.

Os colegas de universidade chamavam-lhe amante de pretos, ela esticou o dedinho e deixou-lhes um vão-se lixar! e voou para outras paragens.

Sofreu com os homens que lhe apareceram na vida, Country Joe MacDonald portou-se particularmente mal – nobody  is perfec! - mas Joplin só queria cantar e ter um pouco de paz, mas o álcool e as drogas apanharam-na na esquina mais próxima.

A mãe chegou a dizer-lhe que mais valia não ter nascido, mas estava escrito que ninguém a veria sentada no alpendre, ao cair da tarde, numa cadeira de baloiço a beber whisky e a contar histórias.

Nunca controlou os sentimentos, considerava-se o máximo – e era! – só que o fardo apresentou-se demasiado pesado.

Terá dito aos amigos: 

Nunca chegarei aos trinta anos!

A 4 de Outubro de 1970, devido a uma overdose de heroína, foi encontrada morta num quarto de hotel. Tinha 27 anos.

Era cega mas agora vejo.

A frase batida de que morre jovem quem os deuses amam.

«De que serve beber? Posso beber toda a noite e continuar triste na manhã seguinte. Dêem-me gin, bourbon, não interessa o que eu beba desde que me apague as mágoas.»

Saberia ela que as mágoas nunca se apagam?






sábado, 18 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

O LUGAR DA SOLIDÃO

Era assim que Fernando Lopes Graça se passeava nas ruas da Parede quando saía para fazer compras.

A fotografia é de Rui Ochoa e faz parte de um trabalho de Joaquim Vieira, publicado no Expresso de 31 de Dezembro de 1981.

Não é uma reprodução de qualidade mas não quis deixar de a publicar.

A vida é isto, os homens são assim.

Álvaro Guerra escreveu que nascer é inaugurar a solidão.

Nem todos os bi menois que Fernando Lopes Graça escreveu, por vezes, lhe permitiram ultrapassar a esquina terrível da solidão.

Escolheu-a porque, para fazer o seu trabalho, não queria intromissões.

O preço que pagou para deixar uma obra grandiosa.

José Gomes Ferreira tinha razão:

Olhem-no bem, porque nunca mais veremos um homem assim.

Numa noite Olga Prats acompanhava-o  a casa, e o Graça disse-lhe:

Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse, homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.

José Saramago:

Morreu o Fernando Lopes-Graça. Telefonaram hoje da TSF, muito cedo, para pedir-me, como depois verifiquei no gravador, o cumprimento desse dever mediático a que se dá o nome de depoimento. Deixaram números de telefone, mas não liguei. Por pudor acho eu. E agora acabo de saber, por Carmélia, que o Graça morreu sozinho. Creio que esta última solidão me doeu mais ainda que a própria morte. Não vai faltar quem diga que o Lopes Graça morrendo aos 88 anos, tinha vivido já a sua vida. Como frase de consolação, talvez sirva para quem se satisfaça com o que lhe foi dado. Por mim, penso que nunca acabamos de viver a nossa vida.

Texto Publicado em 17 de Outubro de 2015.

sábado, 17 de outubro de 2015

O LUGAR DA SOLIDÃO



Era assim que Fernando Lopes Graça se passeava nas ruas da Parede quando saía para fazer compras.

A fotografia é de Rui Ochoa e faz parte de um trabalho de Joaquim Vieira, publicado no Expresso de 31 de Dezembro de 1981.

Não é uma reprodução de qualidade mas não quis deixar de a publicar.

A vida é isto, os homens são assim.

Álvaro Guerra escreveu que nascer é inaugurar a solidão.

Nem todos os bi menois que Fernando Lopes Graça escreveu, por vezes, lhe permitiram ultrapassar a esquina terrível da solidão.

Escolheu-a porque, para fazer o seu trabalho, não queria intromissões.

O preço que pagou para deixar uma obra grandiosa.

José Gomes Ferreira tinha razão:

Olhem-no bem, porque nunca mais veremos um homem assim.

Numa noite olga prats acompanhava-o  a casa, e o Graça disse-lhe:

Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse, homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.

José Saramago:

Morreu o Fernando Lopes-Graça. Telefonaram hoje da TSF, muito cedo, para pedir-me, como depois verifiquei no gravador, o cumprimento desse dever mediático a que se dá o nome de depoimento. Deixaram números de telefone, mas não liguei. Por pudor acho eu. E agora acabo de saber, por Carmélia, que o Graça morreu sozinho. Creio que esta última solidão me doeu mais ainda que a própria morte. Não vai faltar quem diga que o Lopes Graça morrendo aos 88 anos, tinha vivido já a sua vida. Como frase de consolação, talvez sirva para quem se satisfaça com o que lhe foi dado. Por mim, penso que nunca acabamos de viver a nossa vida.

sábado, 8 de março de 2014

BARCAS NOVAS


José Gomes Ferreira no 2º volume dos Dias Comuns:

Um novo livro de versos da Fiama – alta, misteriosa, hierática, olhos de Minerva. Olhos sábios.
O livro – Barcas Novas – mental, cerebral, bem feito mas fortemente influenciado pelo Cabral de melo neto, o mais recente estragador involuntário dos poetas jovens portugueses.
Ainda não são os versos que a Fiama traz nos olhos.
Naqueles tempos em que se abriam janelas para que as correntes de ar pudessem entrar, batessem na cara, juntávamo-nos ao redor de discos e livros, trocávamos impressões, experiências e admitíamos aquele saber que guardamos nas dobras improváveis do tempo, que era possível a chegada de um dia claro. A isto se poderia chamar a memória da esperança. Era disto que se faziam os dias daqueles tempos.



Copiado daqui:

"Lisboa tem suas barcas agora lavradas de armas".

Quando já depois de, ouvidos os discos, muito conversados, razoavelmente bebidos, o Zé Leal lembrava sempre que ficava na memória um som. Um som simples das ausências, das mãos que se fizeram abertas. Ficava também o silêncio. Depois era a debandada. A manhã a anunciar-se, era o começo de mais um dia trabalho.

"Para a próxima quem é que trás os discos?”

Hoje já não servem as palavras com que dantes se faziam as conversas entre nós. Gastas as palavras, outros os olhares, diferentes os interesses.

Este EP de 33 rpm é o 4º Caderno de composições de Fernando Lopes Graça “compostas em estilo singelo para recreação da gente nova portuguesa – Oito Canções das Barcas Novas”.

Os poemas são de Fiama Hasse Pais Brandão, cantados por Celeste Lino, Manuel Pico, acompanhados, ao piano, por Olga Prats.

O disco, como habitualmente, não indica a data de gravação. Talvez 1972. O preço, esse, pode ver-se no canto superior esquerdo: 73 escudos e 50 centavos.

O texto de apresentação, incluído no disco, é de Mário Vieira de Carvalho, escrito num tempo em que era crítico musical e acreditava que existiam amanhãs para serem cantados.

Mais tarde, muito depois de escritas estas palavras, seria secretário de Estado da Cultura de um governo de José Sócrates. Dizem as más-linguas que ele e a ministra, para além de umas guerras intestinas e perfeitamente inúteis (Cinemateca, São Carlos etc.) não deixaram nada de registo. Também só agora é que o Primeiro-Ministro reconhece que errou ao não apostar mais na Cultura e que tenha sido tratada “como um parente pobre”.

Pois!...


Adriano Correia de Oliveira, de parceria com Rui Pato, também musicou este poema de Fiama.
Faz parte do EP da Orfeu Elegia (1967) e na Obra Completa de Adriano, editada em CD, no ano de 2007, pela Movieplay, aparece integrado no disco A Noite dos Poetas.

A capa do EP da Orfeu é uma cortesia IÉ-IÉ.

Lisboa tem suas barcas
Agora lavradas de armas.
Lisboa tem suas barcas
Agora lavradas de armas.

São de guerra as barcas novas
Sobre o mar com sua guerra.
São de guerra as barcas novas
Sobre o mar com sua guerra.

Barcas novas levam guerra
E as armas não lavram terra.
E as armas não lavram terra.

De Lisboa sobre o mar
Barcas novas são mandadas.
De Lisboa sobre o mar
Barcas novas são mandadas.

Barcas novas levam guerra
Sobre o mar com suas armas.
Barcas novas levam guerra
Sobre o mar com suas armas.

Barcas novas levam guerra
E as armas não lavam terra.
E as armas não lavam terra.


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O JUSTO JUÍZO VEM SEMPRE DEPOIS...



 Há 19 anos morria Fernando Lopes-Graça.

Sabe-se a importância que tem na cultura portuguesa, nada mais há a acrescentar, o importante é nunca esquecê-lo.

Fui buscar esta data por motivos que têm a ver a ver com o problema da solidão em Fernando Lopes-Graça

Perguntado sobre essa história da solidão, o Alexandre O’ Neill respondeu:

A procurada é boa, a não procurada às vezes é chata.

Fernando Lopes, durante a sua vida, enfrentou grandes dificuldades.

Nos anos 60 chegou a passar fome, a ditadura persegui-o implacavelmente, mas toda a sua vida foi uma luta desesperada contra a solidão.

Em 1940 é-lhe proposto dirigir os Serviços de Música da Emissora Nacional. Não chega a tomar posse do cargo porque recusa assinar a declaração de repúdio activo do comunismo e de todas as ideias subversivas que, então, era exigida a todos os funcionários públicos.

Numa noite em que o acompanhava até à sua casa na Parede, Olga Prats ouviu-lhe a amargura:

Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse, homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.

Para os seus amigos era o Graça.

Para alguns, um homem brilhante e especial, para outros pessoa de trato difícil., uns e outros sem nunca colocarem em cauda o ser uma das grandes figuras da cultura portuguesa.

Na entrada que colocou no 1º volume dos Cadernos de Lanzarote, dois dias depois da morte, de Lopes-Graça, José Saramago escreveu:

 Morreu o Fernando Lopes-Graça. Telefonaram hoje da TSF, muito cedo, para pedir-me, como depois verifiquei no gravador, o cumprimento desse dever mediático a que se dá o nome de depoimento. Deixaram números de telefone, mas não liguei. Por pudor acho eu. E agora acabo de saber, por Carmélia, que o Graça morreu sozinho. Creio que esta última solidão me doeu mais ainda que a própria morte. Não vai faltar quem diga que o Lopes Graça morrendo aos 88 anos, tinha vivido já a sua vida. Como frase de consolação, talvez sirva para quem se satisfaça com o que lhe foi dado. Por mim, penso que nunca acabamos de viver a nossa vida.

Nesse dia, José Saramago não ligou para a TSF, mas dias depois, escreveu um depoimento para o JL, que também pode ser lido nos Cadernos:

Morreu o querido Graça, o amigo do coração, o camarada fidelíssimo e leal. Tudo isso acabou. Sim, já sei, a recordação, a memória, a saudade, a lembrança. Essas coisas duram, de facto, mas porque duram, cansam. Um dia destes a evocação de Lopes-Graça só causará uma leve mágoa, que disfarçaremos contando uma das sua mil vezes repetidas anedotas. Buscaremos então o Graça onde ele verdadeiramente sempre esteve: nos seus livros, de uma linguagem puríssima que poderia servir de lição a escritores, principiando por este; nos seus discos, mas também nas salas de concerto, que não lhe abriram tanto quanto deveriam enquanto viveu. O homem acabou, não podemos pedir-lhe mais nada, mas a obra aí ficou, à espera do que sejamos capazes de pedir a nós próprios. O justo juízo vem sempre depois, quase sempre tarde de mais. Talvez seja essa a causa do amargor de boca que sinto ao terminar estas linhas.