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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

OLHAR AS CAPAS


O Operário em Construção e Outros Poemas

Vinicius de Moraes

Selecção e Prefácio de Sérgio Buarque De Holanda

Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1979

 

Poema dos Olhos da Amada

 

                       Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ó minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

sábado, 25 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS


 Cinema

Vinicius de Moraes

Prefácio: Eucanaã Ferraz

Capa: André Carrilho

Colecção Horas Extraordinárias

O Independente Global. Lisboa 2004

Sou um apaixonado de Cinema. Só Deus sabe como gosto de um boa fita, o prazer que me traz ver «Cinema», discutir, ponderar, escrever, até fazer Cinema na Imaginação. Acho mesmo que só a Música traz-me uma tão grande sensação de plenitude e gratidão.

Não vou aqui me gabar – mas vi Luzes da Cidade mais de vinte vezes. Aliás não seja por isso porque Otávio de Faria viu mais de trinta.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Um lindíssimo livro.

Não só pelos poemas de Vinicius, mas também pelas pinturas e fotografias que completam o livro e fazem dele um objecto maravilhoso.

Grande parte dos poemas seleccionados viraram canções compostas pelas grandes da música brasileira quando disse alto que era o branco mais negro do Brasil.

Lembro-me que se considerava o branco

Encontrei-o num alfarrabista na Amadora e custou-me 7,00 euros.

Assim se ganha um dia e bonito seria se amanhã, depois de amanhã pudéssemos agasalhar os dias cinzentos e quase tenebrosos que vamis vivendo.

Colaboração de Aida Santos

OLHAR AS CAPAS


O Poeta Não Tem Fim

Vinicius de Moraes

Capa: Adriana Toledo de Almeida

Pinturas ilustrativas: Duilio Pierri

Colecção O Melhor de… nº 4

Arte Plural Edições, Cascais, 2003

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Colaboração de Aida Santos

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Operário em Construção e Outros Poemas

Vinicius de Morais
Selecção e prefácio: Alexandre O’ Neill
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Dezembro de 1975

Crepúsculo Em Nova York

Com um gesto fulgurante o Arcanjo Gabriel
Abre de par em par o pórtico do poente
Sobre New York. A gigantesca espada de ouro
A faiscar simetria, ei-lo que monta guarda
A Heavens, Incorporations. Do crepúsculo
Baixam serenamente as pontes levadiças
De U.S.A. Sun até a ilha da Manhattan.
Agora é tudo anúncio, irradiação, promessa
Da Divina Presença. No imo da matéria
Os átomos aquietam-se e cria-se o vazio
Em cada coração de bicho, coisa e gente.

E o silêncio se deixa assim, profundamente...

Mas súbito sobe do abismo um som crestado
De saxofone, e logo a atroz polifonia
De cordas e metais, síncopas, arreganhos
De jazz negro, vindos de Fifty Second Street.
New York acorda para a noite. Oito milhões
De solitários se dissolvem pelas ruas
Sem manhã. New York entrega-se.

Do páramos
Balizas celestiais põem-se a brotar, vibrantes
À frente da parada, enquanto anjos em nylon
As asas de alumínio, as coxas palpitantes
Fluem langues da Grande Porta diamantina.
Cai o câmbio da tarde. O Sublime Arquiteto
Satisfeito, do céu admira sua obra.
A maquete genial reflete em cada vidro
O ôlho meigo de Deus a dardejar ternuras.
Como é bela New York!
Aço e concreto armado
A erguer sempre mais alto eternas estruturas!
Deus sorri complacente. New York é muito bela!
Apesar do East Side, e da mancha amarela
De China Town, e da mancha escura do Harlem
New York é muito bela!

As primeiras estrelas
Afinam na amplidão cantilenas singelas...
Mas Deus, que mudou muito, desde que enriqueceu
Liga a chave que acende a Broadway e apaga o céu
Pois às constelações que no espaço esparziu
Prefere hoje os
ersätze sôbre La Guardia Field.

sábado, 3 de setembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Antologia Poética

Vinicius de Moraes
Capa: Bea Feitler
Editora do Autor, Rio de Janeiro, Agosto de 1960

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao meu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.