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domingo, 28 de fevereiro de 2021

OLHAR AS CAPAS


O Testamento Político de Pablo Neruda

Pablo Neruda

Tradução: Alexandre O’Neill

Agência Portuguesa de Revistas, Lisboa, Dezembro de 1975


A Canção do Castigo

 

Não há que contar com o seu arrependimento,

nem há que esperar do céu estre trabalho;

 

o que trouxe à terra um tal tormento

deve ter os seus juízes aqui em baixo,

pela justiça e também pelo escarmento.

 

Não o aniquilaremos por vingança

mas só pelo que canto e pelo que infundo:

minha razão é a paz e é a esperança.

 

Nossos amores são de todo o mundo.

 

E o insecto voraz não se suicida

mas enrosca-se e crava o seu veneno

até que com a canção insecticida,

soerguendo na aurora o meu tinteiro,

 

todos eu conclamo para apagar

o Chefe ensanguentado e embusteiro,

que mandou, pelo céu e pelo mar,

 

que não vivessem mais povos inteiros,

povos de amor e de sabedoria

que nesse outro extremo do planeta,

 

no Vietnam, nas longínquas terras,

ao pé do arroz, em brancas bicicletas

fundavam o amor e a alegria:

 

povos que Nixon, o analfabeto,

nem sequer de nome conhecia

e que mandou matar com um decreto,

 

esse chacal distante e indiferente.

domingo, 10 de maio de 2020

OLHAR AS CAPAS


Cem Sonetos de Amor
Pablo Neruda
Tradução Albano Martins
Capa: Joana Quental
Campo das Letras, Porto, Maio de 2004

Soneto LXXXIX

Quando eu morrer quero as tuas mãos em meus olhos;
quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas
passar uma vez mais sobre mim a sua frescura:
sentir a suavidade que mudou o meu destino.

Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos continuem a ouvir o vento,
que sintas o perfume do mar que ambos amamos
e continues a pisar a areia que pisamos.

Quero que tudo o que amo continue vivo
e a ti ame-tei e cantei-te sobre todas as coisas
por isso, ó florida, continua a florir,

para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que a minha sombra passeies pelos teus cabelos
para que assim conheçam a razão do meu canto.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Antologia Breve

Pablo Neruda
Selecção, tradução e prefácio: Fernando Assis Pacheco
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção Cadernos de Poesia nº 2
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1969

Madrigal Escrito no Inverno

No fundo do mar profundo,
na noite de longas riscas
como um cavalo atravessa correndo
o teu calado calado nome.

Dá-me lugar no teu ombro, ai, abriga-me,
aparece-me no teu espelho, de repente,
brotando do escuro, detrás de ti.

Flor da doce luz completa,
acode-me com a tua boca de beijos,
violenta de separações,
determinada e fina boca.

Pois digo-te, no mais longe dos longes,
de um esquecimento a outro moram comigo
os carris, o grito da chuva:
o que a escura noite preserva.

Acolhe-me no tear da tarde,
quando o anoitecer vai urdindo
o seu vestuário e palpita no céu
uma estrela cheia de vento.

Traze-me a tua ausência até ao fundo,
pesadamente, com os olhos tapados,
atravessa-me a tua existência, admitindo
que este meu coração está destruído.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Nasci para Nascer

Pablo Neruda
Tradução:
Eduardo Saló (texto em prosa)
Mário Dionísio (poemas)
Colecção Estudos e Documentos nº 159
Publicações Europa-América, Lisboa

Nas nossas Américas há achados: em ilhas desabitadas ou selvas irascíveis debaixo da terra depressa se encontram estátuas de ouro, pinturas na pedra, colares de turquesa, cabeças imensas vestígios de inúmeros seres desconhecidos que se têm de descobrir e nomear para que respondam do seu silêncio secular.
Se, numa ilha nossa, se encontrassem as capas sucessivas de Picasso, a sua monumental abstracção, a sua criação rupestre, as suas jóias exactas, os seus quadros de felicidade e terror, os arqueólogos, assombrados, procurariam os habitantes, as culturas que tanto fizeram acumulando jogos e milagres fabulosos.
Picasso é uma ilha. Um continente povoado por argonautas, caraíbes, touros e laranjas. Picasso é uma raça. No seu coração, o Sol nunca se põe.

(Escrito por motivo da celebração, em Paris, do 90º aniversário de Picasso, Outubro de 1971)

sábado, 2 de junho de 2018

OLHAR AS CAPAS


Plenos Poderes

Pablo Neruda
Tradução Luís Pignatelli
Capa: Fernando Felgueiras
Poesia Século XX nº 8
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Maio de 1977

Dever do Poeta

Àquele que não escuta o mar nesta manhã
de sexta-feira e encarcerado está dentro de algo,
casa, escritório, fábrica ou mulher,
ou rua ou mina ou árido calabouço…
a esse acorro eu e sem falar nem ver
chego e abro a porta da clausura
e ao abri-la um vago burburinho ouve-se dentro,
um longo trovão desfeito encorpora-se
ao peso do planeta e da espuma,
surgem os rios rumorosos do oceano,
vibra veloz no seu rosal a estrela
e o mar palpita, fenece e continua.

Assim pelo destino conduzido
devo sem descanso ouvir e conservar
o lamento marinho na minha consciência,
devo sentir a pancada violenta da água
e recolhê-la numa taça eterna
para que onde esteja o encarcerado,
onde sofra o castigo do Outono
esteja eu presente com uma onda errante,
circule eu através das janelas
e ao ouvir-me o olhar levante
dizendo: como chegarei eu junto do oceano?
Então sem dizer nada transmitirei
os ecos rutilantes da onda,
uma derrocada de espuma e areais,
um sussurro de sal que se afasta,
o grito cinzento da ave do litoral.

E assim, a liberdade e o mar responderão
por mim ao sombrio coração.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Odes Elementares

Pablo Neruda
Tradução: Luis Pignatelli
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção Poesia  Século XX nº 14
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1977

Ode à Tristeza

Tristeza, escaravelho
de sete patas quebradas,
ovo de teia de aranha,
ratazana descarnada,,
esqueleto de cadela:
Aqui não entras.
Não passas.
Vai-te.
Volta
para o Sul com o teu guarda-chuva,
volta
para o norte com os teus dentes de cobra.
Aqui vive um poeta.
A tristeza não pode
entrar por estas portas.
Pelas janelas
entra o ar do mundo,
as vermelhas rosas novas,
as bandeiras bordadas
do povo e as suas vitórias.
Não podes.
Aqui não entras.
Se agitares

as tuas asas de morcego,
eu calcarei as penas
que caírem de teu manto,
varrerei os destroços
de teu cadáver para
os quatro pontos cardeais
torcer-te-ei o pescoço,
e enterrarei, tristeza, os teus ossos roedores
debaixo da Primavera duma macieira.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Uma Casa na Praia

Pablo Neruda
Tradução: Serafim Ferreira
Ilustrações: Alfredo Martins
Contraponto, Setúbal, Novembro de 1996

A minha bandeira é azul e tem um peixe horizontal fechado ou enquadrado por dois círculos armilares. No inverno, com muito vento e sem ninguém por estes caminhos abandonados, agrada-me ouvir o agitar da bandeira e ver o peixe nadar pelos céus como se estivesse vivo.
E porquê este peixe?, perguntam-me. É místico? Sim, digo-lhes eu, trata-se do bem simbólico ictionim, do pré-cirstense, do cisternário, do lucicrático, do fritango, do verdadeiro, do frito, do peixe frito.
- E mais nada?
- Mais nada.
Mas, no fim do inverno, a bandeira ainda se agita lá no alto com o seu peixe, a tremer de frio, fustigada pelo vento e pelo céu.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

OLHAR AS CAPAS


Confesso Que Vivi

Pablo Neruda
Tradução: Arsénio Mota
Capa: Estúdios P.E.A.
Publicações Europa-América
Lisboa, Abril 1975

O meu povo foi o mais atraiçoado deste tempo. Dos desertos do nitrato, das minas submarinas do carvão, das altitudes terríveis onde jaz o cobre e o extraem com esforços sobre-humanos as mãos do meu povo, surgiu um movimento libertador de dimensão grandiosa. Esse movimento levou à presidência do Chile um homem chamado Salvador Allende, para introduzir reformas e medidas de justiça inadiáveis, a fim de resgatar as nossas riquezas nacionais das garras estrangeiras. (…).
Aqui, no Chile, estava a construir-se, entre enormes dificuldades, uma sociedade verdadeiramente justa, bem assente na base da nossa soberania, do nosso orgulho nacional, do heroísmo dos melhores habitantes do Chile. Do nosso lado, do lado da
revolução chilena, estavam a Constituição e a lei, a democracia e a esperança.
Do outro lado não faltava nada. Tinham arlequins e polichinelos, palhaços a granel. Terroristas de pistola e algemas, monges falsos e militares degradados. Uns e outros davam voltas no carrossel do despeito. O fascista Jarpa andava de mãos dadas com os seus sobrinhos de «Pátria e Liberdade», dispostos a partir a cabeça e a alma a tudo quanto existe, contanto que recuperassem a quinta
que eles intitulam o Chile. Junto com eles, para amenizar a farândola, dançava um grande banqueiro e bailarino, já
manchado de sangue - o campeão de rumba González Videla, que, sempre rumbando, entregou há tempo o seu partido aos inimigos do povo. (…)
O Chile tem uma longa história civil, com poucas revoluções e muitos governos estáveis, conservadores e medíocres.
Muitos presidentes sem envergadura e só dois grandes presidentes: Balmaceda e Allende. É curioso que os dois proviessem do mesmo meio, da burguesia endinheirada, que aqui se faz chamar aristocracia. Como homens de princípios, empenhados em engrandecer um país enfraquecido pela oligarquia medíocre, foram ambos conduzidos à morte da mesma maneira. Balmaceda foi até ao suicídio porque resistiu a entregar a riqueza mineira dos nitratos às companhias estrangeiras.
Allende foi assassinado por ter nacionalizado a outra riqueza do subsolo chileno, o cobre. Nos dois casos, a oligarquia chilena organizou revoluções sangrentas. Nos dois casos, os militares portaram-se como uma matilha de cães. As companhias inglesas no tempo de Balmaceda, as norte-americanas no tempo de Allende, fomentaram e apoiaram esses movimentos militares. (…)
As obras e os feitos de Allende, de inesquecível valor nacional, enfureceram os inimigos da nossa libertação. O simbolismo trágico desta crise revela-se no bombardeamento do palácio do Governo. Lembra a Blitz-krieg da aviação nazi contra indefesas cidades estrangeiras - espanholas, inglesas, russas. Agora, cometeu-se o mesmo crime no Chile.
Pilotos chilenos atacaram em voo picado o palácio que durante dois séculos tinha sido o centro da vida civil do país.
Escrevo estas rápidas linhas para as minhas memórias apenas três dias passados sobre os factos inqualificáveis que levaram à morte o meu grande camarada: o presidente Allende. O seu assassinato foi mantido em silêncio. Foi sepultado secretamente. Só a sua viúva teve licença para acompanhar aquele cadáver imortal. A versão dos agressores é que encontraram o seu corpo inerte, com sinais evidentes de suicídio. A versão publicada no estrangeiro é diferente.
Após a acção de bombardeamento aéreo, entraram em acção os tanques, muitos tanques, lutando intrepidamente contra
um único homem: o presidente da República do Chile, Salvador Allende, que os aguardava no seu gabinete, sem outra companhia além de um grande coração, envolto em fumo e chamas.
Havia que aproveitar tão bela ocasião. Era preciso metralhá-lo - porque ele jamais renunciaria ao cargo. Aquele corpo foi enterrado secretamente num sítio qualquer. Aquele cadáver que foi para a sepultura acompanhado por uma única mulher, que carregava consigo toda a dor do mundo, aquela gloriosa figura morta, ia crivada e despedaçada pelas balas das metralhadoras dos soldados do Chile, que mais uma vez tinham atraiçoado o Chile.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

OLHAR AS CAPAS


Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada

Pablo Neruda
Tradução: Fernando Assis Pacheco
Desenhos: Cipriano Dourado
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro 1974

Brincas todos os dias com a luz do universo.
Subtil visitadora, chegas na flor e na água.
És mais do que a pequena cabeça branca que aperto
como um cacho entre as mãos todos os dias.

Com ninguém te pareces desde que eu te amo.
Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas.
Quem escreve o teu nome com letras de fumo entre as estrelas do sul?
Ah, deixa-me lembrar como eras então, quando ainda não existias.

Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada.
O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.
Aqui vêm soprar todos os ventos, todos.
Aqui despe-se a chuva.

Passam fugindo os pássaros.
O vento. O vento.
Eu só posso lutar contra a força dos homens.
O temporal amontoa folhas escuras
e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.

Tu estás aqui. Ah tu não foges.
Tu responder-me-ás até ao último grito.
Enrola-te a meu lado como se tivesses medo.
Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha pelos teus olhos.

Agora, agora também pequena, trazes-me madressilva,
e tens até os seios perfumados.
Enquanto o vento triste galopa matando borboletas
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.

O que te haverá doído acostumares-te a mim,
à minha alma selvagem e só, ao meu nome que todos escorraçam.
Vimos arder tantas vezes a estrela d’alva beijando-nos os olhos
e sobre as nossas cabeças destorcerem-se os  crepúsculos em leques rodopiantes.
As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te.
Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno.
Creio-te mesmo dona do universo.
Vou trazer-te das montanhas flores alegres, “copihues”,
avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos.
Quero fazer contigo
o que a primavera faz com as cerejeiras.