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domingo, 20 de abril de 2025

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


No último dia de Março de 1979, o Diário de Lisboa, anunciava que ia começar a publicar, em folhetim, O Imenso Adeus de Raymaond Chandler, numa tradução de Mário-Henrique Leiria, há muito esgotado.

Para a apresentação do folhetim foi pedido ao Eduardo Guerra Carneiro para que realizasse a tarefa. Uma feliz ideia, porque o Eduardo sabia mesmo do assunto: de livros, de copos, de policiais, do Mário-Henrique Leiria, do Raymond Chandler, de cartas que há muito devia ao Zé Emílio, e tudo isso, algo mais que ele sempre esgalhava muito bem, ajudou-o no Itinerário encomendado pelo chefe de redacção.

Como se pode ler acima no recorte do Diário de Lisboa, chamou-lhe Com Chandler e Marlowe nos Bares do Cais do Sodré, e que o Eduardo nunca incluiu em nenhum dos livros onde reuniu crónicas e textos publicados na imprensa.

Começa assim:

«Marlowe entra no “English-Bar”, despe a trincheira, sacode-a da chuva de Março que, em morrinha, como em Vigo ou no Porto, ainda pinga, atira o chapéu para o bengaleiro e pede um “gimlet” duplo.
Humphrey Bogart está ao balcão e sorri-lhe, de esguelha, com o paivante aceso ao canto da boca. A “magrinha” ainda não tinha chegado. Eu bebia gin tónico, numa mesa do canto com o Chandler. O Mário-Henrique Leiria não pôde vir: mandou recado a dizer para bebermos dois ou três copos por ele. Lauren Bacall chegou agora, senta-se à nossa mesa e pede-me um cigarro na sua voz rouca, inconfundível. Reparo que Bogey está com ciúmes. Como não quer a coisa, de uma velha telefonia vem uma música de piano: “Casablanca”. Afinal Bogart deve estar ainda à espera da Ingrid Bergman. Chandler, que nada tem a ver com isto, começa a falar da Cabeleira de Prata.»

Agora pode entrar o tal Zé Emílio que é história que se pode ler na página 54 do tal caderdinho de capa vermelha onde, como dizia o velho, tudo anda ligado:

«Eu sei bem que te devo carta mas, sabes bem: words, words pouco valem para a saudade, é a palavra exact, saudades de ti, ó meu amigo a quem não disse quanto queria. Cheguei a ir, sabes , como no «Imenso Adeus» do Raymond Chandler, beber dois copos, para mim e para ti, a um outro lugar dos que gostavas. Mas, que é isso? A lírica ternura de que às vezes me acusavas.»

E, para fazer um The End adequado para este Itinerário, desengate-se um pedacinho do policial que aqui nos trouxe:

«Gosto dos bares à tardinha, logo que abrem. Quando ainda há ar fresco e limpo e tudo está luzidio e o tipo do bar dá a última olhadela aoa espelho para verificar se a gravata está direita e o cabelo bem liso. Gosto das garrafas arrumadas nas prateleiras do fundo e dos copos bem brilhantes e da sensação de antecipação que se tem. Gosto de ver o homem misturar a primeira bebida da tarde e pô-la no bar com o pequeno guardanapo bem dobrado ao lado. Gosto de a saborear sem pressa. A primeira bebida sossegada num bar sossegado – é estupendo!
Eu concordei.
- O álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é intenso e o terceiro é rotina. Depois só resta despir a rapariga.
- E isso é mau? – perguntei-lhe.»

quarta-feira, 5 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO

«Não respondi. Voltei a acender o cachimbo. Faz-nos parecer pensativos quando não estamos a pensar em nada».

Raymond Chandler em Perdeu-se Uma Mulher

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

CONVERSANDO


O pai, vezes sem conto em largos tempos, foi-lhe dizendo para ler Karl Marx, porque nele está tudo.

Apesar da Obra Completa, publicada pelas Edições Avante,  existir na Biblioteca da Casa, apenas folheou os 3 volumes e dedicou-se mais a leituras de Raymond Chandler.

Recorda-se de uma fala de Chandler em que nos diz que alguém terá de ser tão honesto  quanto se pode esperar de um homem, num mundo em que isso está completamente fora de moda.

Nos dias que agora atravessamos, diria ao pai que Philip Marlowe, para resolver o caso das gémeas, tratadas em Santa Maria, que começaram por ser brasileiras e, num estalar de dedos, passaram a luso-brasileiras, faria mais falta do que qualquer página de Marx.

O tratamento das gémeas envolve o Presidente Marcelo, seu filho Nuno, uma série de gente, até chegar a um secretário de estado, Lacerda Sales, que agora se declara completamente esquecido do que se terá passado com a assistência médica que, em Santa Maria. foi prestada às gémeas.

Aqui no pedaço, precisaríamos de tudo, menos de um embrulhado caso como este.

Neste tempo-quase-Natal, os deuses, os anjos, se tornam nossos amigos.

Tanto dinheiro dado nas igrejas, e fora delas, aos santos, às santas, para agora levarmos com uma encomenda destas!..

terça-feira, 22 de novembro de 2022

CONVERSANDO


 O que ele gostava de fumar cachimbo.

Lembrou-se de Raymond Chandler:

«Não respondi. Voltei a acender o cachimbo. Faz-nos parecer pensativos quando não estamos a pensar em nada».

Raymond Chandler em Perdeu-se Uma Mulher

sexta-feira, 16 de abril de 2021

COM TODA A SERIEDADE...


José Sócrates, numa entrevista a Clara Ferreira Alves dada em tempos idos, terá dito que lera a Metafísica dos Costumes de Kant, p'raí umas dez vezes. 

Vitor Dias, autor de O Tempo das Cerejassabe que vai morrer sem ter lido sequer um quarto de O Capital, «embora tenha repetido a leitura de muitas obras de Raymond Chandler».

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

NÃO PENSAR EM NADA


Não respondi. Voltei a acender o cachimbo. Faz-nos parecer pensativos quando não estamos a pensar em nada.

Raymond Chandler em Perdeu-se Uma Mulher

Legenda: Greta Garbo

sexta-feira, 20 de abril de 2018

TENHO O LIVRO À MINHA FRENTE


Chandler, Lettres.
Tenho o livro à minha frente. Releio, às vezes, uma ou outra carta. São cartas serenas, inquietas, tímidas, polémicas, orvalhadas de pudor. E de magia. A magia da escrita que ele confessa perseguir. Chandler fala dele, dos outros, de gatos, do seu trabalho. A arquitectura, a atmosfera, o tricot do romance policial. Philip Marlowe aberto de alto abaixo, como um boneco, exposto, depositado, transmitido. Mais um adjectivo: quotidiano. Saem das suas entranhas as vítimas de Sammy Glick, Sammy Glick ele próprio, seus compostos e derivados, a maratona incansável do sucesso, a Black Mask toda inteirinha, dinâmica, estereotipada, esquizofrénica, consumível, e que em Chandler atinge, através dos seus filtros verbais, aquele estádio superior que é o exercício equilibrado de uma paixão: o plano sólido da história, o encaixe de situações desencaixadas, o relance certeiro, o descritivo absurdamente minuciosos, o diálogo coruscante, os factos, a névoa dos factos, a rarefacção do conjunto, a elipse, a tecla silábica, the-la-dy-in-the-la-ke, a estúpida brutalidade, a humidade do beijo, a bala na têmpora, o enlace das aquisições, o desenlace, essa quase geométrica flor de papel pintada a sangue que é cada um dos seus livros.

sábado, 23 de setembro de 2017

ÀS VEZES NUNCA MAIS LÁ VOLTAMOS


Connosco é assim, meu rapaz. Somos polícias e toda a gente nos detesta. E, como se já não bastassem as arrelias da profissão, ainda temos de aturar tipos como você. Arriscamos constantemente a vida em casos sórdidos, sempre à espera de receber um punhado de «chumbo» no corpo, enquanto nos esperam em casa para jantar. Às vezes nunca mais lá voltamos. Há noites em que chegamos a casa tão cansados que não conseguimos comer, nem dormir, nem sequer ler as mentiras que os jornais dizem a nosso respeito. Ficamos acordados, às escuras, numa casa humilde de uma rua modesta, a ouvir os bêbedos que passam pela rua. E, no momento preciso em que pegamos no sono, o telefone toca, levantamo-nos e a rotina recomeça. Nada do que fazemos merece aplauso. Quando obtemos uma confissão, dizem que a conseguimos à força de espancar um tipo e, no tribunal, há sempre um que nos chama Gestapo. Se cometemos um erro, põem-nos fardados na rua e passamos as agradáveis noites de verão a apanhar bêbedos caídos na sargeta, a ser insultados por prostitutas e a desarmar teddy-boys. Mas tudo isto não basta para nos tornar inteiramente felizes. Precisamos de tipos como você.

Raymond Chandler em IngénuaPerigosa

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

GIRANDO-O DE ENCONTRO À CHAMA


O detective saiu também. A porta fechou-se. O barulho confuso lá fora dilui-se um pouco e Breeze e eu sentámo-nos a olhar um para o outro atentamente.
Passado um pouco, Breeze cansou-se de olhar para mim e tirou um charuto da algibeira. Rasgou a película de celofane com um canivete, cortou a ponta do charuto e acendeu-o com todo o cuidado, girando-o de encontro à chama e segurando o fósforo ainda mais um pouco a olhar pensativamente para nada. 
Deu algumas profundas fumaças no charuto para se assegurar de que ele ardia da maneira que ele gostava, sacudiu o fósforo com gestos lentos e inclinou-se para o pousar no peitoril da janela aberta. 
Depois fitou-me mais um pouco.
- Você e eu – declarou – vamos entender-nos.
- Isso é óptimo – respondi.

Raymond Chandler em A Janela Alta

terça-feira, 15 de agosto de 2017

COMO SOBREMESA NÃO ESTÁ MAL!


Em 1979, o Diário de Lisboa, publicou em folhetim, O Imenso Adeus de Raymaond Chandler, numa tradução de Mário-Henrique Leiria. A apresentação do folhetim foi feita pelo Eduardo Guerra Carneiro com o título Com Chandler e Marlowe nos Bares do Cais do Sodré publicado no Diário de Lisboa de 31 de Março de 1979 e que o Eduardo nunca incluiu em nenhum dos livros onde reuniu crónicas e textos publicados na imprensa.

Começa assim:

Marlowe entra no “British-Bar”, despe a trincheira, sacode-a da chuva de Março que, em morrinha, como em Vigo ou no Porto, ainda pinga, atira o chapéu para o bengaleiro e pede um “gimlet” duplo.
Humphrey Bogart está ao balcão e sorri-lhe, de esguelha, com o paivante aceso ao canto da boca. A “magrinha” ainda não tinha chegado. Eu bebia gin tónico, numa mesa do canto com o Chandler. O Mário-Henrique Leiria não pôde vir: mandou recado a dizer para bebermos dois ou três copos por ele. Lauren Bacall chegou agora, senta-se à nossa mesa e pede-me um cigarro na sua voz rouca, inconfundível. Reparo que Bogey está com ciúmes. Como não quer a coisa, de uma velha telefonia vem uma música de piano: “Casablanca”. Afinal Bogart deve estar ainda à espera da Ingrid Bergman. Chandler, que nada tem a ver com isto, começa a falar da Cabeleira de Prata.
Interrompo Raymond para lhe contar uma história insólita, mas verdadeira. Esta, do parágrafo seguinte:
-Era um jantar em casa do Buda, ali junto à Escola Politécnica. Como de costume, raparigas bonitas, boa comida, muito vinho, muito álcool. Presente: o Mário Henrique-Leiria que traduziu o teu «The Long Goodbye». Conversas sobre a América do Sul, guerrilheiros, generauis de opereta ou de bananas, prisões, copos, a receita do «gimlet» que o Terry Lennox conta – partes iguais de gin e sumo de lima, mais nada. De repente – acredita, sócio! – a conversa começou a ficar tão quente, tão quente, que a gente foi à varanda p’ra apanhar fresco. Olhámos: a Faculdade de Ciências estava a arder!

Na notícia da morte de Mário Henrique-Leiria, que o Eduardo Guerra Carneiro escreveu para o Portugal Hoje, 14 de Janeiro de 1980, lembra o parágrafo atrás transcrito e acrescenta:

O que não escrevi faço-o agora – é que dizias, com o humor negro sempre engatilhado: «Como sobremesa não está mal!»

Legenda: fotografia de Rui Ochôa, Expresso

terça-feira, 1 de agosto de 2017

QUOTIDIANOS


Olhei para o meu relógio. Eram nove e cinquenta e quatro, horas de ir para casa, calçar as chinelas e jogar uma partida de xadrez, horas de uma bebida fresca, num copo alto, e de um cachimbo longo e pacato. Eram horas de estar sentado com os pés ao nível do corpo, sem s pensar em nada. Horas de se começar a bocejar, por cima da folha do jornal dos costume, horas de nos sentirmos um ser humano, um dono de casa, um homem sem ter mais nada que fazer senão descansar, respirar o ar da noite e refazer o cérebro para o dia de amanhã.

Raymond Chandler em ADama do Lago

sábado, 1 de julho de 2017

A ATENAS DA AMÉRICA


- Não quer que encoste a minha cabeça ao seu ombro?
- Com este trânsito é impossível. Anos atrás, esta cidade agradava-me. Havia árvores ao longo do Wilshire Boulevard. Beverly Hills era uma cidade interior. Hollywood era constituída apenas por um agrupamento de casas sobre a linha interurbana. Los Angeles era apenas uma enorme terra soalheira e seca, cheia de casas feias, sem estilo, mas de boa gente e onde reinava a tranquilidade. As pessoas dormiam nos pórticos das casas. Pequenos grupos que se intitulavam intelectuais, chamavam-lhe a Atenas da América. Não o era, mas também não era um bas-fond iluminado a néon.

Raymond Chandler em Ingénua Perigosa

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

QUOTIDIANOS


…um comunista que, por razões de idade e preguiça intelectual, vai morrer sem ter lido sequer um quarto de O Capital embora tenha repetido a leitura de muitas obras do Raymond Chandler.

Vitor Dias em O Tempo das Cerejas

quinta-feira, 10 de junho de 2010

TARDE DE CHUVA

iLuís Sepúlveda, o autor de O Velho Que Lia Romances de Amor, dizia que nada melhor no Inverno que a acompanhia de um bom conhaque e das Obras Completas de Georges Simenon.

Não estamos no Inverno, mas chove na tarde de Lisboa e, talvez por isso, os romances policiais vieram-me à lembrança.


Os dias do meu pai em Almoçageme eram passados a ler romances policiais. A esmagadora maioria dos volumes da Colecção Vampiro que por aqui estão, foi ele que os comprou. No intervalo das leituras subia ao Café Adraga, pedia ao João uma sandes mista em pão saloio – não te esqueças que é aparada! – e fazia descer, bem fresca, meia garrafinha de branco Beira-Mar.

Tenho um recorte de jornal que fala da Colecção Vampiro. 


Lamentavelmente não tem indicação, nem do autor, nem do jornal mas acho-o uma maravilha. Reza assim:

António Gedeão, poeta, escreveu: “A terra do meu pai era pequena e os transportes difíceis. Não havia automóveis, nem aviões, nem mísseis.” Mas havia com certeza, livros da Vampiro. A Vampiro não é uma colecção. É uma instituição. Uma perseguição. Nasci e minha mãe, combalida, lia entre duas mudas de fraldas, “A Morte de Lord Edgware”, de Agatha Christie. Mais tarde, o pai do meu amor embalou-a, numa tarde de domingo, com a mão esquerda apenas, pois a direita segurava o “O Caso da Loura Provocante”, de Stanley Gardner. Em 1969, o Homem pisava pela primeira vez a Lua e a minha irmã lia o “O Ouro da Evasão”, de Frank Gruber. Cinco anos depois, o 25 de Abril interrompeu-me a leitura de “Seis Segundos Para Matar”, de Brett Halliday, e, aqui há tempos, levei para a maternidade, enquanto esperava que a minha filha nascesse, “O Mistério da Estrela da Manhã”, outra vez de Agatha Christie.

Ainda por romances policiais.


Em tempos, o JL pediu, a alguns escritores e cineastas portugueses, que escolhessem os melhores livros da Colecção Vampiro.

Esta foi a escolha de Dinis Machado:

O Imenso Adeus – Raymond Chandler
Perdeu-se Uma MulherRaymond Chandler
O Erro de Maigret Georges Sinenon
O Assassinato de Roger Ackroyd Agatha Christie
Os Crimes do BispoS.S. Van Dine
A Chave de Vidro Dashiell Hammett
O Caso sos Bombons EnvenenadosErle Stanley Gardner
O Homem do Fato Castanho Agatha Christie
A Aldeia de VidroEllery Queen
O Sinal do Morto John Dickson Carr
Um Homem de TalentoPatrícia Highsmith.

Para mim, O Imenso Adeus de Raymond Chandler, na brilhantíssima tradução de Mário-Henrique Leiria, é mesmo o melhor livro da colecção. 


A ele tenha voltado vezes que já não consigo contar:



Gosto dos bares à tardinha, logo que abrem. Quando ainda há ar fresco e limpo e tudo está luzidio e o tipo do bar dá a última olhadela aoa espelho para verificar se a gravata está direita e o cabelo bem liso. Gosto das garrafas arrumadas nas prateleiras do fundo e dos copos bem brilhantes e da sensação de antecipação que se tem. Gosto de ver o homem misturar a primeira bebida da tarde e pô-la no bar com o pequeno guardanapo bem dobrado ao lado. Gosto de a saborear sem pressa. A primeira bebida sossegada num bar sossegado – é estupendo!
Eu concordei.
- O álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é intenso e o terceiro é rotina. Depois só resta despir a rapariga.
- E isso é mau? – perguntei-lhe.