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sábado, 8 de maio de 2021

REQUIEM PREMATURO PELOS ELÉCTRICOS DE LISBOA


Quando acabem os eléctricos
Da Rua da Misericórdia
Tão amarelos por fora
Tão britânicos por dentro
Não gostarei de Lisboa

Quando os carris e os troles
Inúteis e desalmados
Pela Calçada do Combro
Deixarem de faiscar
Não gostarei de Lisboa

Quando no Largo do Carmo
À sombra dumas ruínas
Não me esperar indolente
O último para o Chile
Não gostarei de Lisboa

Quando da estreita travessa
Da cara de cada dia
Não surgir um velho arfante
Para apanhar o das oito
Não gostarei de Lisboa

E quando ao atardecer
Prostradas pombas e luzes
Não saltar do vinte e quatro
O sempre lépido ardina

Não gostarei de Lisboa.

José Carlos González em Lisboa e Outros Sapatos 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Lisboa e Outros Sapatos

José Carlos González
Prefácio: Urbano Tavares Rodrigues
Capa: José Araújo com base em desenho de Bernardo Marques
Colecção: O Campo da Palavra nº 10
Editorial Caminho, Lisboa Abril de 1980

Dístico

O poeta
é um homem que bebe imenso
o ar da vida.
Que entra tarde
e que sai cedo.
Que tem e que não tem medo
w só ser livre o ensina.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

CERVEJARIA DA TRINDADE


Por uns santos trinitários
foi fundada esta abadia
depois maçons libertários
fizeram da noite o dia

Um eléctrico doente
de amarelo-sulfamidas
avança com grandes dentes
e propósitos suicidas

pela calçada sebenta
de gasolina barata
pneumático e arrabenta
um alfarrabista escapa

ao som dos quatro elementos
água terra fogo e ar
e velhos jornais cinzentos
começam a navegar

com a cultura nas velas
e um barril a estibordo
com cotão nas entretelas
grandes histórias a bordo

Aqui de quatro canecas
dez reputações se fazem
É o espírito em cuecas
que os terramotos arrasem

Como o que arrasou o Carmo
benedictino e ogival.
Desgraças, sabiás e fado:
cervejas de Portugal

José Carlos González em Lisboa e Outros Sapatos


segunda-feira, 29 de abril de 2013

ESCADINHAS DO DUQUE


Quando chove em Lisboa
uma náutica gaivota
à toa
fixa o oriente.

Na barra alerta do Tejo

bombardeia o brejo
uma estrela candente.

Nos seios da empregadinha

uma luz que se adivinha
na noite pobre de sempre.

Escadinhas do Grão-Duque

batidas pelo levante
lavadas pelo poente.

E a noite amiga, madrinha.


José Carlos González em Lisboa e Outros Sapatos

terça-feira, 26 de março de 2013

ELEVADOR DE SANTA JUSTA


A justíssima ascensão
tem arcadas de zarção

Na noite de São João
relva queimada no chão

Luminárias de São Pedro:
madrugada, vinho azedo.

Pão a sair, aço novo
pintado da cor do povo.

Um castelo que alumia
os minaretes do dia.

E a graça que se vislumbra
do calcário da Rotunda.

As árvores da Avenida
lá em baixo, combalida
.
E o Eiffel que desde França
veio num rio de esperança

de maravilhar as agentes
cheias de Tejo e doentes

e ficou na corda estreita
de Santa Justa desfeita

por terramotos cansados
e horizontes espantados.

Sombra que se alonga este rio
nas pombas do meu Rossio.

José Carlos González em Lisboa e Outros Sapatos