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sábado, 16 de março de 2024

OLHAR AS CAPAS



 

Joshua Benoliel

Joaquim Vieira

Capa: Fernando Rochinha Diogo

Colecção: Fotobiografias do Século XX

Círculo de Leitores, Lisboa Julho de 2009

Num tempo em que a fotografia estava ainda na infância como veículo de expressão e comunicação, um português apropriou-se da sua técnica e deu-lhe uma finalidade: documentar uma época, retratar um país, testemunhar a história.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Passo horas, às vezes, no Terreiro do Paço, à beira do rio, meditando em vão.

Fernando Pessoa em o Livro do Desassossego

Legenda: fotografia de Joshua Benoliel

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

UMA CERTA LISBOA


Mais um olhar sobre uma certa Lisboa.

O Tejo era um mundo de trabalho: cacilheiros, navios a descarregar ao largo, um mar de fragatas num vai-vem-rio-acima-rio-abaixo.
Olhava-as da mansarda da minha avó paterna, na Rua Senhora do Monte, mesmo na esquina com o Bairro Estrela D'Ouro.
Via-se o Barreiro, a névoa fabril a sair das chaminés, quando ainda as diversas fábricas da CUF não tinham sido construídas no Lavradio.

Fotografia do Ecomuseu Municipal do Seixal.


Padeiros de Lisboa.

Fotografia publicada por  
Lisboa no Guiness


Petrolino à porta.
A vizinha do rés do chão, no prédio onde nasci e cresci, vendia petróleo.
Todos os dias, excepto aos domingos, a carroça ficava armazenada, na Vila do Amaral, ao cimo da rua.
O macho era levado para os lados da Quinta da Eira.

Fotografia publicada por 
Digital Blue.



Natal do Sinaleiro.

Fotografia publicada por Siccapianos.


Um dos barcos a carvão que faziam a ligação Lisboa/Barreiro.
Quando assentei praça, em Tavira, ainda fiz a travessia num destes barcos. Chegou ao Barreiro à meia-noite para apanhar o comboio.correio. paragem em todas estações e apeadeiros.
Chegámos a Tavira às sete e meia da manhã.


Fotografia publicada por Alernavios


O China-das-gravatas.
Mas não eram apenas chineses que, deste modo, vendiam gravatas em Lisboa.

Fotografia de Garcia Nunes
 


Um miúdo-ardina de Lisboa.
Exploração de trabalho infantil ou, como se dizia naqueles tempos, o trabalho do menino é pouco mas quem o perde é louco.
Muitos dos ardinas de Lisboa, um número bem largo, eram corredores de Atletismo.
Vestiam as camisolas do Benfica e do Sporting.
Calcorrear, em alta velocidade, ruas de Lisboa era o tempo de treinar.
A maneira como embrulhavam o jornal e o lançavam para janelas e varandas.
Um assombro de pontaria, certa e colocada.

Fotografia de 
João Martins.


Fotógrafo à la minuta: «olha o passarinho!« Andavam pelos jardins de Lisboa, nas praias, nas feiras de Lisboa e arredores.
O meu avô materno foi fotógrafo à la minuta nos domingos em que não havia Concerto da Banda da Câmara.

Fotografia publicada por 
O Sabor do Olhar


Um aguadeiro na Lisboa antiga.
Como se lê em Memória de Elefante de António Lobo Antunes:
Os portugueses são estúpidos, informava o aguadeiro galego da história da mãe, vimos para aqui vender-lhes a água deles.

Fotografia de José Artur Leitão.




Pelo Natal, venda de perus nas ruas de Lisboa.
Não consegui encontrar nenhuma fotografia que mostrasse a venda no Martim Moniz.

Fotografia publicada por 
Restos de Colecção.


Moços de fretes ou de esquina.
A sós, ou em grupo, não havia nada que não transportassem,
O mandado mais simples era o da entrega de cartas. Mesmo as de amor.
O Armando, vivia na Vila Gadanho, junto à casa da minha avó materna.
Um pouco anormal mas um verdadeiro animal de força.
Um dia, transportou, às costas, uma secretária, desde o sexto andar da Rua da Senhora do Monte, à Graça, até à Mestre António Martins, na Penha de França.
Quis vinte e cinco tostões tostões e um copo, grande, de vinho.
E saiu com mil agradecimentos.
Os vinte e cinco tostões acabavam em mais vinho no Manel da Adega, na Rua Castelo Branco Saraiva.

Fotografia publicada por
 Adriano Pacheco.


Varina de Lisboa numa belíssima fotografia de Joshua Benoliel.
E aquele bonito poema de David Mourão-Ferreira, para música de Alain Oulman e eternizada na voz única de Amália.

 É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata

Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile
Baila no baile co’ o mar.

É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor de uma traineira.
E nas veias o latido
Do motor duma traineira
E nas veias o latido
Do motor duma traineira

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido, Lisboa
Seu nome próprio - Maria

Seu apelido – Lisboa.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A PRISÃO DE TORGA NO ALJUBE


No final de Novembro de 1939, Miguel Torga é preso em Leiria e, passados dias, é transferido para o Aljube, em Lisboa, onde permaneceu até Fevereiro de 1940.

Torga já estava referenciado pela polícia política de Salazar e quando publica O Quarto Dia da Criação do Mundo em que faz uma referência à Guerra Civil de Espanha, essa impiedosa tragédia que Franco impôs ao seu povo.


No IX volume do seu Diário, Torga denuncia que vem de longe (em 1961 já eram 35 anos) a vigilância que a ditadura de Salazar exerveu sobre a sua pessoa e a sua obra:

Coimbra, 27 de Abril de 1961 — Há trinta e cinco anos (desde que, praticamente, comecei a ser gente) que vivo vigiado, como, de resto, todos aqui. E há trinta e cinco anos que olho com o mesmo consternado espanto os sujeitos que me vigiam. Nos tempos da Inquisição, ainda se poderia aceitar — com dificuldade, mas enfim… — que o fanatismo da fé levasse certos homens a comportamentos desumanos, embora Deus lhes não encomendasse o sermão. Mas agora nenhuma cega força interior motiva semelhante deformação. Um polícia secreto de hoje procede à margem de qualquer impulso sectário. Actua simplesmente por ofício. E é isso que me penaliza e assombra: que a intolerância possa constituir um modo de vida”

Salazar não gostou do que Torga escreveu sobre a guerra de Espanha, a opressão que ocorria na Itália fascista e, ao mesmo tempo, em Portugal.

Encontra aí motivos para mandar apreender o livro e ordenar a prisão do escritor.

No Diário, Torga não faz qualquer referência a essa prisão.

Apenas deixou registo em seis poemas, incluídos no 1º volume do Diário, poemas que expressam bem esses dias de raiva:

Exortação, ainda na prisão de Leiria, datado de 30 de Novembro;

Lembrança, já no Aljube, datado de 6 de Dezembro;

Pietà, datado de Natal de 39 – Como se fosse ainda em S. Pedro de Roma;

Canção, datado de 30 de Dezembro;

Claridade, datado de 1 de Fevereiro.

São estes os poemas:

Exortação

Meu irmão na distância, homem
Que nesta mesma cama hás-de sofrer:
Que nem a terra nem o céu te domem;

Nenhuma dor te impeça de viver.


Lembrança

Ponho um ramo de flores
na lembrança perfeita dos teus braços;
cheiro depois as flores
e converso contigo
sobre a nuvem que pesa no teu rosto;
dizes sinceramente
que é um desgosto.

Depois,
não sei porquê nem porque não,
essa recordação desfaz-se em fumo;
muito ao de leve foge a tua mão,
e a melodia já mudou de rumo.

Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite
na maior solidão,
vem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,

e um ramo de flores, que não existe, cheira!


Pietà

Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.

Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.

Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;

Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.
           

           
Canção

À janela da casa,
Ave só na lembrança,
Já nem levanta a asa
Que a mãe lhe deu de herança.

A sua dor é clara:
Bate-lhe o sol em cheio;
Um sol branco, que vara
Tudo de meio a meio.

Não é sede nem fome
(Água tem ela à mão,
E comida, que não come),
Doença má também não.

Falta-lhe a liberdade.
Só essa dor lhe dói.
Mas só por ela há-de
Não ser o que foi.


Ariane

Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.  
 


Clareou.
Vieram pombas e sol,
e, de mistura com Sonho,
pousou tudo num telhado...
(Eu, destas grades, a ver,
desconfiado.)

Depois,
uma rapariga loira,
(era loira)
num mirante
estendeu roupa num cordel:
Roupa branca, remendada,
que se via
que era de gente lavada,
e só por isso aquecia...

E não foi preciso mais:
Logo a alma
clareou por sua vez.
Logo o coração parado
bateu a grande pancada
da vida com sol e pombas
e roupa branca, lavada.


Legenda:
A fotoga fia do Aljube é de Joshua Benoliel.
Fotografias do cadastro de Miguel Torga na PVDE

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

UMA CERTA LISBOA


Num amontoado de papelada, à espera do dia-de-são-nunca-à-tarde para ser visto e revisto para um destino nunca definido, encontrei esta fotografia do Terreiro do Paço.

Foi publicada no DNA mas, lamentavelmente o recorte não tem data, nem o nome do autor da fotografia. A culpa é minha não do DNA. Talvez Joshua Benoliel mas é algo a necessitar confirmação.

Uma Lisboa de que me lembro, em que ainda havia carroças, polícias sinaleiros –  o Natal do Sinaleiro, as empresas, os automobilistas iam depositando presentes em redor do estrado redondo – ardinas, marçanos com grandes cestos às costas, varinas, padeiros, leiteiros, os electricos serpenteavam por toda a cidade, petrolino à porta, que também vendia lixivia e coisas assim, no Terreiro do Paço estacionavam os fotógrafos à la minuta, o Tejo era um mar de fragatas e os barcos para o Barreiro eram a vapor.

Lembro-me dos chineses, nas ruas da Baixa, a venderem gravatas, dos moços-corda-ao-ombro, nas esquinas da cidade à espera de alguém que lhe pedisse um mandado, de no Martim Moniz pelo Natal venderem-se perus, vindos do Alentejo e criados a bolota.

Já não sou é do tempo, dos aguadeiros galegos, mas ainda lembro as camionetas que, de Caneças, traziam água em bilhas de barro, nem das vacarias de que fala o José Gomes Ferreira no seu Irreal Quotidiano:


Na minha infância o leite jorrava mesmo dos odres das vaca e havia qualquer coisa de sagrado nesses bichos em que, segundo os antigos, Júpiter escondera por astúcia a pobre Io, para a livrar dos ciúmes de Juno.
Ordenhavam-nas diante de nós, nas vacarias. E, algumas vezes, até, ao ar livre das ruas, pois nesses tempos a cidade e o campo ainda se confundiam na igual doçura de trabalho espreguiçado.

Legenda: também não foi possível identificar o autor/origem da fotografia das vacas leiteiras. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O SALVADOR DE LIVROS


A páginas 148 de A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón, alguém observa: por que se queimam os livro? Por estupidez, por ignorância, por ódio… vá-se lá saber.

Num livro de Andrew Walker, sobre o julgamento de Nuremberga, um dos factos a que se aludiu no julgamento foi a queima por soldados e oficiais alemães da biblioteca de Tolstoi para se aquecerem. Quando alguém objectou, um oficial alemão respondeu que gostava de se  aquecer à luz da literatura russa.

Corria o ano de 2010 quando os jornais noticiaram o que de há muito se sabia ser  prática regular e generalizada de algumas editoras que, por falta de espaço para armazenamento, também pelos custos desse espaço, destruíam livros.
Foi o caso que o grupo editorial Leya acabara de guilhotinar dezenas de milhares de exemplares de  96 títulos de diversos autores, entre eles livros de Eugénio d’Andrade, Jorge de Sena, Vasco da Graça Moura, Maria Teresa Horta.

Um director do grupo apressou-se a dizer que os livros não tinham ido para o lixo, foram destruídos para reciclagem, para obter papel.

Gabriela Canavilhas era ao tempo ministra da cultura do governo de José Sócrates e chamou-lhe um massacre prometendo envidar esforços para que, a curto prazo,  fossem encontradas soluções tal crime.

 Faltavam escassos dias para o Natal de 2012, quando mão amiga me enviou uma mensagem  que, enrtetanto, recebera do jornalista Joaquim Vieira:

As editoras Círculo de Leitores e Bertrand comunicaram-me que vão destruir sobras de alguns livros de que fui autor ou que dirigi, pertencentes às colecções Portugal Século XX  e Crónica em Imagens e Fotobiografias do Século XX.

 Os títulos são os seguintes:

 - Fotobiografia de Fernando Pessoa (texto de Richard Zenith)
- Fotobiografia de Amadeo de Souza-Cardoso (texto de Margarida Magalhães
  Ramalho e Margarida Cunha Belém)
- Fotobiografia de Amália Rodrigues (texto de Cristina Faria)
- Fotobiografia de Amélia Rey Colaço (texto de Júlia Leitão de Barros)
- Fotobiografia de Vasco Santana (texto de Luís Trindade)
- Fotobiografia de Joshua Benoliel (texto meu)
 - Portugal Século XX - Anos 40 (texto meu)
- Portugal Século XX - Anos 50 (texto meu)
- Portugal Século XX - Anos 60 (texto meu)
- Portugal Século XX - Anos 70 (texto meu)

O preço de mercado destes livros, com 200 páginas cada (216 no caso do Portugal Século XX), capa dura, sobrecapa, formato de 30 cm x 24 cm, papel couché, amplamente ilustrados, é de 35 euros.

As duas editoras deram-me a opção de adquirir os exemplares para abate a um valor muito baixo, e, porque me custa assistir à destruição de livros, resolvi adquirir algumas quantidades e disponibilizá-los a quem os quiser adquirir ao preço de 6 euros cada.

Lembrei-me de que, nos tempos que atravessamos, estes livros podem ser interessantes prendas de Natal adquiridas a muito baixo custo.
.
Não tenho qualquer notícia das soluções governamentais encontradas, se é que as houve, para evitar a destruição de livros.

Nunca entendi muito bem por que o governo não adquire os livros em vias de destruição, a preços razoáveis e os envia  para escolas, hospitais, prisões, outras instituições.

Contudo, é gratificante saber dos cuidados de Joaquim Vieira em encontrar um final feliz para os livros que orientou, escreveu e estavam em vias de destruição.

Grande parte destes livros sempre os quis adquirir, mas encontravam-se em patamares fora do orçamento familiar.

Agora, imaginem o brilho dos meus olhos naquele Natal de 2012.

Chamei-lhe um Natal feliz.