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quinta-feira, 2 de maio de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


Relembremos o calendário do Mário Viegas quando disse que no dia 2 de Maio de 1974 acabou o seu 25 de Abril.

Ou como, passados alguns poucos anos, ironicamente, Mário Castrim escreveu:

«Cá por mim já foi tempo. Estivemos todos em estado de graça durante a infância da democracia. Era quando os polícias mandavam parar o trânsito para passar o carrinho do bebé. Era quando os responsáveis da GNR vinham à televisão e garantiam que se tinham tornado vegetarianos. Era quando as bandas fardadas abrilhantavam as festas do povo em Belém. Dá quase vontade de dizer que era no tempo em que os animais falavam.»

Ou ainda o sempre jovem poeta José Gomes Ferreira:

«De repente, recordo-me de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.»

Quando houver oportunidade, sem caracter diário, voltaremos aqui para recordar outras passagens dos dias que fizeram o tempo da nossa esperança.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


Aquele primeiro 1º de Maio…

 As ruas cheias de gente, homens e mulheres a chorarem, a abraçarem-se, que se chamaram «tu» sem se conhecerem de parte alguma, sonhos buliçosos, uma autêntica nave de loucos, fim de um tempo abjecto, desesperado, os nossos os jovens a morrerem numa guerra inglória.

Não acreditem no que as fotografais dos jornais, os registos dos filmes, mostram.

Foi muito mais do que aquilo que vos é mostrado.

Sabemos, hoje, que esses dias foram de uma perenidade violenta, esperanças frustradas, desilusões, esforços, muitos esforços mas que, pequenos que sejam., eram resultados.

Roubar a alguém o sonho duma vida inteira é pior, e mais imperdoável, do que privá-lo do pão que lhe é devido.

Como escreveu José Gomes Ferreira em Revolução Necessária:

 «A festa do 1º de Maio de 1974, em que milhares e milhares de pessoas vieram para a luz do mundo forra de carne humana e cores livres de bandeiras, os prédios, o céu, o vento, o pesadelo morto. Momento que já principia a parecer um sonho, talvez apenas possível de descrever com a tinta mágica das lágrimas que todos nós trouxemos para a rua nessa tarde tão generosa e inocente.

Mas oxalá essas lágrimas do povo não tenham um dia de gelar até à dureza de balas viris – mutação a que eu também já assisti em ocasiões terríveis de terramotos implacáveis.»

 VINDOS do exílio em Argel, chegam a Lisboa Fernando Piteira Santos e Manuel Alegre.

Manuel Alegre na Praça da Canção tem um poema: Nós Voltaremos sempre em Maio:

Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.

Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.

Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.

Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles

amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados.

OS 
EXILADOS políticos poderão, logo que entenderem, regressar a Portugal e com o pleno exercício dos seus direitos.

A VIOLAÇÃO da correspondência era feita por acção directa da PIDE/DGS e não pelos trabalhadores dos CTT.

O SINDICATO dos Escritórios denuncia que há patrões que não querem pagar o 25 de Abril aos trabalhadores e chegaram a despedir trabalhadores que faltaram nesse dia.

A RÁDIO RENASCENÇA é ocupada pelos trabalhadores com uma nova administração eleita, depois de a anterior administração ter censurado as reportagens da chegada a Lisboa de Mário Soares e Álvaro Cunhal e dos cantores Luís Cilia e José Mário Branco.

AOS POUCOS os jornalistas vão demitindo as direcções e conselhos de administração dos diversos órgãos de informação, colocando nos seus lugares jornalistas e pessoas que estejam com o espírito de Abril.

Eduardo Valente da Fonseca publica no República uma Carta Aberta a alguns jornalistas:

«Vocês que bajularam ministros, presidentes das câmaras, governadores civis, figuras proeminentes da política e da finança, vocês que se bateram à miseranda cartinha com uma gratificação dentro para tecerem toda a espécie de falsos elogios e louvores, que enriqueceram ou passaram a levar um estilo de vida que o vosso magro ordenado não comportava, que se puseram sempre do lado das autoridades contra os trabalhadores e os estudantes, vocês que sob o estado repressivo de Salazar e Marcelo nunca apareceram publicamente a manifestar o vosso desacordo, vocês não são dignos de escrever para um Povo que só agora se apressam a vir dizer que respeitam, e não são dignos de serem lidos por um leitor novo, que começa a despertar para ajudar o verdadeiro jornalista a construir com ele um outro país, uma nova relação humana sem censura nem camaleonismo. Desistam e reformem-se que o Povo, a Cultura e o Jornalismo agradecem.»

O ESCUDO subiu em Nova Iorque, também em Londres, o que é inédito numa revolução.

ANÙNCIO  no Diário de Notícias de 3 de Maio de 1974, um político libertado procura emprego: 


O TEATRO da Cornucópia decidiu suspender a peça que tinha em ensaios para começarem a trabalhar na encenação de «Grandezas e Misérias do III Reich» de Bertold Brecht.

A DIRECÇÂO do Teatro Nacional de S. Carlos decidiu a abolição da obrigatoriedade do uso de traje de rigor que se mantinha para os espectáculos de estreia. Aguarda-se uma nova política de preços.

 DEIXAM de publicar-se dois jornais que apoiavam o antigo regime: Novidades e Debate.

 FRANCISCO Pinto Balsemão pretende fundar um partido de centro-esquerda.

 CHEGAM do exílio no Brasil, Ruy Luís Gomes e José Morgado.

 A JUNTA de Salvação Nacional desmente a prisão de Amália Rodrigues.

 O PAIGC rejeita a autodeterminação de Spínola.

 O EX- MINISTÉRIO das Corporações passa a denominar-se Ministério do Trabalho.

DECRETADA a amnistia a refractários e desertores das Forças Armadas.

 MANIFESTAÇÃO do MRPP impede no Aeroporto o embarque de soldados para as colónias: Regresso imediato dos Soldados! Nem mais um militara para as colónias!

 FORAM em vão as diversas tentativas que o jornal Época fez para que o jornal passasse de intransigente defensor do antigo regime a apoiante do espírito de Abril.

Passou de Época a A Época, depois A Época Livre.

OS TEMPOS em que até os capitalistas respeitavam o Dia do Trabalhador, e faziam-no decretar, como publicidade paga, nos jornais:

terça-feira, 30 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


 30 de Abril de 1974

 Sim, amanhã é mesmo dia de festa.

Com ironia, Mário Viegas dirá que o 25 de Abril dele acabou no dia 2 de Maio.

Alguém, que não recordo agora o nome, disse que do 25 de Abril até ao 1º de Maio devo ter dormido, mas não me lembro. Na verdade, o dia mais longo da minha vida não foi bem um dia: começou naquelas horas vertiginosas do dia 25, até ao 1º de Maio, e que continuaram a sê-lo durante uns meses.

Por fim, uma outra citação anónima:

Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.

Em todas os jornais podem ler-se chamadas de atenção para que, nas manifestações do 1º de Maio, o povo e os trabalhadores, tivessem cuidado com eventuais provocadores.

Esta veio publicada no Diário Popular:


Na véspera, na RTP, Sá Carneiro deu uma entrevista com um blá-blá-blá de que Mário Castrim não gostou muito, e escreveu:

Diário de Lisboa lembrava que, no 1º de Maio, as padarias e os depósitos de pão estavam encerrados: e colocava em título:

Constante das notícias deste dia, o regresso a Lisboa, vindo do exílio, de Álvaro Cunhal.

Nas páginas interiores do República podia ler-se que certa gente começava a deixar as garras de fora.

A Junta de Salvação Nacional veio publicamente salientar que os trabalhadores dos CTT eram alheios a quaisquer diligências, actividades ou intervenção na violação da correspondência. Essa  violação era feita directamente pela PIDE-DGS, que requisitava aos CTT, a correspondência de suspeitos de actividades contra a ditadura.

Por decreto, a Junta de Salvação Nacional, dissolvia a Acção Nacional Popular e destituía o Chefe de Estado Américo Tomás e o Chefe do Governo Marcelo Caetano.

O almirante Henrique Tenreiro apresentou-se voluntariamente da Cova da Moura e ficou detido.

Na 1ª página de A Capital, uma fotografia mostrava a ex-comissária da Mocidade Portuguesa Feminina a entregar a José Manuel Tengarrinha a chave das instalações onde passaria a ficar sediado o M.D.P:


Na última página do Diário de Lisboa ficava a saber-se que o ex-pide Sachetti foi preso quando tentava passar a fronteira em Valença.

No Porto, um ex-pide suicidava-se.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


29 de Abril de 1974

O quinto dia da nossa vida em liberdade.

 A importante, quase única, notícia que percorre todos os jornais:

É instituído como feriado nacional obrigatório o dia um de Maio, considerado o «Dia do Trabalhador.»

Por outro lado, continuam as manifestações, as reuniões políticas, a «caça ao pide.»

Outras decisões:

Amnistia para os Presos Políticos.

Abolida a censura aos espectáculos.

Dissolução da Acção Nacional Popular.

Destituído o Chefe de Estado, bem como todo o Governo do regime deposto.

Serão reintegrados os funcionários despedidos por motivos políticos

 Continuava o regresso dos exilados políticos.

 Os desertores e refractários do Exército Português, saúdam a Junta de Salvação Nacional, querem voltar e pedem amnistia.

 Tal como o MPLA, a FRELIMO rejeita a solução federativa entre Portugal e os países africanos.

 

1.

Na página desportiva do Diário de Lisboa, uma interessantíssima observação do jornalista Neves de Sousa e que constitui a abertura da sua crónica sobre o jogo entre o Sporting e o Belenenses para a Taça de Portugal.

Com tanto pide preso e barões e baronetes em fuga, gentes que tinham cartões de livre- trânsito para todos os jogos de futebol, não ocuparam os seus lugares…

2.

O República chama para a 1ª página uma afirmação de Mário Soares na sua chegada a Lisboa.


Nas páginas interiores noticia que essa figura sinistra, que dá pelo nome de Capitão Maltês e era o comandante da Polícia de Choque, ainda andava a monte.


Quem quisesse sair do País só poderia levar um máximo de 50 contos.

Na última página, ficava a saber-se que Henrique Tenreiro, ex-deputado e presidente da Junta Central da Legião Portuguesa, para além de outros títulos, apresentou-se, voluntariamente, à Junta de Salvação Nacional.

Também no República, uma notícia insólita: a administração dos TLP tenciona descontar aos trabalhadores o facto de não terem ido trabalhar no dia 25 de Abril.

3.

Na primeira página, A Capital dava conta da constituição do Movimento Democrático Português.

Para a Comissão Central Provisória, entre outros, foram votados Francisco Pereira de Moura, José Tengarrinha, Victor Wengorovius, Luís Moita, Henrique Neto.

domingo, 28 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


 

 28 de Abril de 1974

 Os portugueses viviam o seu primeiro domingo em Liberdade.

 Na 1ª página do “Diário de Lisboa” reproduzia-se um “poster” de João Abel Manta.

«Esta é a reprodução de um “poster” que apresentamos nas páginas centrais da nossa edição de hoje. O “poster” alusivo ao actual momento político português, é da autoria de João Abel Manta, artista que, por motivos demais conhecidos, há tempo não publicava qualquer trabalho no nosso jornal.»

Na redacção do Diário de Notícias, as janelas ainda não tinham sido escancaradas. Na 1ª página podia ler-se:

 “Serenidade e expectativa nos territórios do Ultramar”

 Na 7ª página um telegrama da “France Press”, proveniente de Montreal, revelava que Agostinho Neto, em nome do MPLA, não aceitava a proposta do General Spínola com vista à formação de uma Federação. O MPLA classificava a proposta como fascista, nazi e salazarista e reafirmava que a luta sempre foi por uma libertação completa e, apenas, neste princípio se dispunha a encetar negociações com Portugal.

 Na página 3, “A Capital” avançava que tudo levava a crer que o 1º de Maio iria ser decretado, pelas Forças Armadas, Feriado Nacional. O pedido fora formulado por Francisco Pereira de Moura, na reunião que, na véspera, a CDE mantivera com o General Spínola.

Na pág. 14 era publicada esta fotografia.

 A legenda dizia que “um elemento anónimo do 1º Comité de Acção Popular, baptiza a ponte sobre o Tejo.”

 O corpo da notícia esclarecia que o “Comité de Acção Popular” nascera espontaneamente, e propunha-se realizar uma série de acções com vista à eliminação de símbolos do regime derrubado a 25 de Abril.

A alteração do nome de Ponte Salazar para Ponte 25 de Abril era o primeiro desses actos.

A propósito deste acontecimento, um oficial, não identificado, da Junta de Salvação Nacional, declarou: “estamos aqui, não para desrespeitar os mortos mas pare defender os vivos.”

 Na Junta de Salvação Nacional, também as janelas estavam por escancarar!


Esta é a capa do nº1 do ano I de A Época.

Barradas de Oliveira é demitido de director do jornal Época, que ontem não saiu para as bancas. 

Depois de populares terem, anteontem, tentado destruir as instalações do jornal, que era um sustentáculo da ditadura, o Conselho de Redacção nomeou José Manuel Pintasilgo, chefe de redacção de ex-Época, como director do jornal, que passa, a partir de hoje, a publicar-se com o nome de A Época.

Começam a esboçar-se os primeiros sinais de camaleonismo.

Atente-se no final da sua declaração de princípios:


Uma notícia quase perdida no volume noticioso dos dias:

«Os desertores do Exército apelam para uma amnistia que lhes permita regressar a Portugal.»

Destaque na 1ª página de O Século para a prisão de Silva Pais, o tenebrosos ex-director da PIDE-DGS.

sábado, 27 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


 27 de Abril de 1974

A  imprensa diária continuava a publicar notícias, fotografias, reportagens sobre o Movimento dos Capitães, a libertação dos presos políticos, o desmantelamento da PIDE/DGS, bem como reacções internacionais aos acontecimentos verificados no país.

 Título da 1ª página do “Diário de Lisboa”:

“170 Pides nas celas de Caxias.”

Em baixo, à direita, uma fotografia com a seguinte legenda:

“Máscaras de medo, de terror caracterizavam os Pides ao darem entrada nos camiões que os conduziram da Rua António Maria Cardoso para a prisão de Caxias – medo e terror que durante largos anos se comprazeram em espalhar no povo indefeso e nos estoicamente lutavam para restituir a Portugal a justa liberdade”.

Neste sábado, o “Expresso” fazia, após os acontecimentos do dia 25, a sua primeira edição. 

Em editorial declarava que “não precisamos fazer meia volta como tantos outros (…) continuaremos, portanto, naturalmente, pelo mesmo caminho. Aceitando sem reticências o desafio necessário que a nova situação política nos lança. Participando na batalha contra os outros necessários desafios. Lutando por que o país e cada um dos seus cidadãos saibam adaptar-se e beneficiem da mudança que já estamos a viver.”

Também em editorial, o “Diário de Notícias” dedica-se, à moralidade, ao perfeito cinismo, ou o começar de pôr água na fervura do caldo, género portem-se bem meninos, que isto não é o da Joana:

“O que os Portugueses não devem entretanto perder de vista é que para se ter liberdade é preciso merecê-la. Cada um de nós tem de provar por si que é digno dela, adquirindo hábitos de tolerância e respeito pelo próximo que andam muito esquecidos. Só por esse modo poderemos triunfalmente refutar o argumento dos que negam ao povo português a maturidade necessária para ser livre”

Na sua página 5 dava conta da romaria que ia acontecendo pela rua onde reside Spínola:

 “Milhares de pessoas de todas as camadas sociais têm-se dirigido à residência do general Spínola, na Rua Rafael de Andrade, dando àquela artéria um movimento sem precedentes. A intenção é sempre, de saudar o presidente da Junta de Salvação Nacional e de lhe manifestar a sua adesão.”

Na sua 1ª página “O Século” noticiava que Mário de Soares partiria de Paris de comboio, estando prevista, para domingo a sua chegada a Santa Apolónia.

Após demoradas negociações, são libertados os presos políticos que se encontravam nas prisões da PIDE. Os presos tinham decidido que ou saiam todos ou não saia nenhum.

Palavras de Hermínio Palma Inácio, ao sair da prisão de Caxias, captadas para uma reportagem publicada na página 5:

 “Isto é maravilhoso!.. Sabemos ainda pouco sobre os objectivos da Junta… Oxalá não seja só uma liberdade de doze meses.”

Noticiava, ainda “ O Século” que grupos de populares invadiram as instalações da Comissão de Exame Prévio, ex-Censura, destruindo mobiliário e vasta documentação e colocava um apelo do capitão Salgueiro Maia, pedindo aos populares que não  destruíssem arquivos de valor histórico inestimável.

Pelas ruas da cidade os populares começavam a caça aos pides, publica-se uma fotografia que ficou para a História. Da notícia retiro este pormenor: “entretanto eram presos vários agentes da DGS entre os quais um morador no Bairro Espírito Santo em Odivelas, que foi denunciado por uma senhora. Trazia uma pistola de guerra nas “roupas íntimas inferiores.”

Em “Ultimas Notícias” referia-se que o embaixador de Portugal no Brasil, José Hermano Saraiva” dirigiu-se pela rádio e televisão à comunidade portuguesa:

“O processo que o país atravessa é pacífico, sem violências, e representa um caminho em busca da solução dos seus problemas, disse.

A página desportiva, falando do regresso da equipa do Sporting, tinha este curioso título: 

A eliminação da Taça das Taças esquecida na Cortina de Ferro por razões óbvias.

O jogo realizara-se em Magdeburgo, na então chamada Alemanha Oriental.

Como os restantes jornais, O Século noticiava o assalto que populares fizeram ao edifício do jornal Época, que não se publicou neste dia, e que obrigou à intervenção de elementos das Forças Armadas.

Face a este incidente, e outros que iam acontecendo, a Junta de Salvação Nacional emitia um comunicado: 

 Noticia “A Capital” que foram demitidos os governadores de Angola, Moçambique e Guiné, nomeados novos comandos para as regiões militares, GNR e PSP, as tomadas de posição de diversos sindicatos, que no Técnico reabria a Associação de Estudantes bem como a reunião da Junta de Salvação Nacional com a CDE, a Sedes, a Convergência Monárquica e directores dos diversos órgãos de informação.

A CDE fazia-se representar por Francisco Pereira Moura, José Manuel Tengarrinha, Herberto Goulart, Pedro Coelho e Gilberto Ramos, a Sedes por Sá Borges, Magalhães Mota, Teodoro da Silva, A Convergência Monárquica por Rodrigo Montezuma, Pedro Paiva Pessoa e João Vaz Serra e Moura.

Exilado no Brasil o Prof. Rui Luís Gomes anunciou o imediato regresso a Portugal.

Na primeira página o “Diário Popular” informava que os bancos reabriam ao público na segunda-feira, enquanto na pág. 17 realçava um comunicado da assembleia da Conferência Episcopal da Metrópole. Os senhores bispos, tão silenciosos em tempo de ditadura, entenderam formular votos para o bem-estar da Sociedade portuguesa.

 Diário Popular dava conta que, em Beja, foi preso pela polícia um homem que ostentava um cartaz a pedir a extinção da PIDE.


A edição do “República” salientava que ainda continuavam à solta, e armados, mais de dois mil agentes da PIDE/DGS.

Na sua agenda de  espectáculos, podia ler-se a seguinte nota:

“Como os nossos leitores se têm apercebido, a programação da RTP foi profundamente alterada, não sendo ainda possível a organização de horários. Aconselhamos portanto a manterem os aparelhos ligados para a captação de qualquer informação importante ao País.”

No meio da alegria generalizada, a notícia da morte do poeta Pedro Oom, fulminado por um ataque cardíaco. O poeta que tinha 47 anos, um pouco menos que o regime deposto, e não resistiu à emoção de ver cair a ditadura.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25

A fotografia mostra a decisão de Mário Viegas na sua Auto-PhotoBiografia (não autorizada), quando determina que o seu 25 de Abril foi de curta duração.

 No dia 25 de Abril de 1974, quando o Movimento dos Capitães saiu para as rua, já os matutinos estavam em fecho de edição. Alguns ainda conseguiram colocar uma pequena notícia, a informação possível, na 1ª página, mais tarde fariam 2ª e 3ª edições. Os vespertinos tiveram mais desenvolvimento, mas só no dia seguinte, as notícias, as reportagens, os comentários conseguem um outro tipo de desenvolvimento.

Em alguns jornais poderia ler-se a frase histórica: «não terem sido visados por qualquer comissão de censura.

Os acontecimentos ocorridos na véspera são referidos: a rendição de Marcelo Caetano, a apresentação, madrugada alta, através da RTP, da Junta Nacional de Salvação, a rendição da PIDE/DGS, a libertação, em Caxias, dos presos políticos, a partida de Marcelo Caetano e Américo Tomás para a Ilha da Madeira.


Aos poucos, a rotina do quotidiano entra na normalidade.

Caminha-se para os empregos, para as escolas, para as fábricas, os mesmos passos, os mesmos rostos, mas têm uma outra vivacidade, um outro fulgor.

O Diário de Lisboa é o único que puxa para a primeira página a grande notícia do dia: a libertação dos presos políticos.

No miolo da reportagem uma pergunta óbvia, uma resposta com o seu quê daquilo que mais tarde irá acontecer:

- O que vão fazer aos pides, pergunta o repórter ao comandante dos páras.

- Temos que ter compaixão e humanidade para com eles, respondeu-nos o capitão.


Na página 15 do República uma pequena, mas lamentável, notícia dá conta de que, apesar da intervenção dos militares, não foi possível salvar muitos arquivos e documentos da Censura que o povo lançou à rua e foram destruídos.

Aqueles documentos eram parte da nossa história.

Estava lá nesse momento, assisti ao crime, mas como se poderia tê-lo evitado?

Quarenta e oito anos de ódio e repressão sobre um povo, cegam, pesam muito.

Na sua 3ª página “O Século” noticiava que, presidida pelo engº Amaral Neto, e com a presença de 38 deputados, reunira o plenário da Assembleia Nacional.

A sessão demorou quinze minutos e, não mais, como Nacional, voltaria a reunir.

Também em O Século, a primeira fotografia publicada na imprensa da prisão de três pides, passos iniciais do que vai ficar a ser conhecido como a «caça ao pide.»

Num Diário de Noticias, de que não possuímos a data, uma História de Joaquim Santos da Póvoa de Santo Adrião:

«Exm.º Senhor Director-Geral,
Informo V. Exª que ontem, dia 25 de Abril de 1974, vários funcionários faltaram ao serviço, invocando ter ocorrido uma revolução no País.
Esclareço que esta revolução não foi autorizada superiormente, não vendo qualquer justificação para as faltas, tanto mais que o serviço se atrasou consideravelmente.
Como na legislação vigente não estão previstas faltas pelo ocorrência de revoluções, submeto o assunto ao alto critério de V. Exª, na certeza de que o mesmo merecerá a atenção devida.
Lisboa, 26 de Abril de 1974
A Bem da Nação
O Chefe da 3ª Secção
Ambrósio Silva»