domingo, 6 de setembro de 2026

CRONICANDO POR AÍ

Há países que medem o seu desenvolvimento pelo PIB, pelos mísseis balísticos, pelos arranha-céus, pela quantidade de milionários, de cirurgias plásticas ou de bocas cheias de dentes de ouro. Ocorre-me outro indicador, pouco modestamente: o Produto Interno Estendido.

Nada é mais democrático do que o estendal. Uns têm melhores varandas, quintais, traseiras, seja o que for. Mas acabarmos todos no estendal é tão certo como nascer e morrer. Mesmo que alguém estenda a roupa por eles, são do senhor ministro as cuecas no estendal.

Abrimos a janela para deixar entrar o ar fresco. Mas estender a roupa é fazer o inverso: é a casa a expirar-nos e deixar o bairro respirar-nos.

E não vai mal ao mundo adivinhar a vida uns dos outros através dos estendais. O estrangeiro recém-chegado com os seus panos. Os miúdos e as camisolas do futebol. Os mais velhos e os seus abafos. Os estendais foram as redes sociais antes da Internet, mas com menos filtros. Cuecas, ceroulas, combinações, junto de lençóis, toalhas, meias com par ou desirmanadas.

Que dizer da arquitectura popular do estendal? Há estendais tímidos, escondidos nas traseiras. Há estendais orgulhosos, de peito feito para a rua. E há os que atravessam a rua, como se dois prédios estendessem as mãos, num aperto por cima das nossas cabeças.

E nós? Gostamos tanto de nos estender. Nos bancos dos jardins, nas esplanadas. E se formos à praia, nas toalhas. Num sofá ao domingo. Gente amarfanhada é como roupa que não foi ao estendal. É bom estendermo-nos ao comprido, sem vergonha do espaço que ocupamos, do sol que recebemos, do vento que nos seca. Nada disso é de ninguém.

Cidades tristes? Digam quantos estendais atravessam a vossa rua e já vos digo quanta vizinhança ainda praticam. Cidades gentrificadas? Os turistas conhecem uma cidade pelos monumentos. Mas ela conta-se a sério nos estendais. Às vezes basta um vestido a dançar na corda para imaginarmos uma vida inteira.
Estendais
À Barbárie Seguem-se os Estendais é um livro de poesia de Miguel Cardoso (&etc., 2015). O título enuncia um programa, os versos estendem-no sem molas: “as camisas nos estendais/ a pedir albas/ chuva, felicidade, isso”.

André Barata, Público de 4 de Setembro

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