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quarta-feira, 16 de julho de 2025

TRAVESSIA DA INFÂNCIA

Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas

lembro-me de uma janela
na Travessa da Infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez
o mundo

não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias

só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes
do mundo

mas isso foi depois
muito depois
repito


José Tolentino Mendonça

sexta-feira, 4 de julho de 2025

A ESTAÇÃO IMPOSÍVEL

O poema exprime-se em frases entrecortadas

linhas da corrente, irrisórias explosões

mas espera qualquer coisa

suficientemente brilhante

qualquer coisa

para lá dos caudais escoados

que no alto erga

a estação impossível

esse momento em que a língua dos homens

não possa mais mentir

José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 5 de maio de 2025

OS HOMENS NASCERAM PARA SEREM ESQUECIDOS

I

Os homens nasceram para ser esquecidos

perante o batalhão de bandeiras extintas

é natural que muitos se perguntem

para que servem as mãos

mas na penumbra, quando o coração bate

sem que saibamos porquê

vem-nos ao pensamento

que talvez a chama não esqueça

o silêncio onde se consumiu

 

II

 

A verdade nada suprime através das divisões

não tenta cancelar o desamparo de onde somos

nem reaver a pedra que apenas deixou a nossa mão

as cavilhas do tempo

fixam na escuridão o seu lençol

e é através dele que entrevemos

a vida a nós desconhecida

 

III

 

Que rápido avança o degelo

como carta rasgada em pedaços

o viajante quando voltar

não encontrará as próprias pegadas

na paisagem agora nítida

ancorada às suas margens

as andorinhas em revoada

descobrem a pupila de Deus.

 

José Tolentino de Mendonça

terça-feira, 26 de setembro de 2023

BICICLETAS

Por muito tempo amarei casas que existam apenas
para guardar uma bicicleta ou os remos de um bote
As casas interessantes não têm pretensão nenhuma
Estão perto de nós na hora necessária
mas a qualquer momento
com mais clareza
afastam-se das certezas que perdemos
e da imensidão que se avista de lá

Um velho provérbio diz:
Se deres um passo atrás, talvez te coloques a tempo
de uma estação clemente

José Tolentino Mendonça

sexta-feira, 21 de abril de 2023

PATTI SMITH EXPLICA O CÂNTICO DOS CÂNTICOS


Deitamo-nos juntos na noite ilegal
trespassados por faíscas de prata

Talvez fôssemos sem saber nessa hora
a senha aguardada por mundos futuros
Talvez desvendássemos um centro para as rosas
e agora é de lá que partem os comboios
a decidir o curso dos impérios

Pouco importa que tenha chegado a aurora
aos bares que cumprem o horário nocturno
e o cheiro dos desinfectantes mostre
como se apagam
os vestígios do amor

José Tolentino Mendonça em Resumo: a poesia em 2012

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

TU ÉS O MARAVILHOSO CANTO

Tu és o maravilhoso canto
no qual nós encontramos impulso
a música onde as formas são construídas.

Tu és o segredo do pensamento
graças ao qual tudo se move,
o esplendor está reunido em ti
como na ânfora o molho das canas.

Tu és o dedo do cipreste
que indica o caminho
e as tuas sobrancelhas se reúnem
num só arco.

Gregório de Narek em Rosa do Mundo

Tradução de José Tolentino Mendonça

domingo, 4 de abril de 2021

POR QUANTO TEMPO


Perguntas quanto tempo deves rezar?

a papoila na encosta

é vermelha sempre

José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

OS JUSTOS


                                                                                       para José Mattoso

 

Começam o dia louvando o imperfeito

o tempo que se inclina para o lado partido

as escassas laranjas que se tornam

amarelas no meio da palha

as talhas sem vinho

 

Olham por dentro a brancura da manhã

e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício

louvam o vulnerável e o inacabado

 

Estão sentados à soleira dos espaços

trabalhados devagar pelo silêncio

 

Quando Deus voltar

não terá de arrombar todas as portas

 

José Tolentino Mendonça em resumo: a poesia em 2012 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

OS HOMENS NASCERAM PARA SER ESQUECIDOS


I

Os homens nasceram para ser esquecidos
perante o batalhão de bandeiras extintas
é natural que muitos se perguntem
para que servem as mãos
mas na penumbra, quando o coração bate
sem que saibamos porquê
vem-nos ao pensamento
que talvez a chama não esqueça
o silêncio onde se consumiu

II

A verdade nada suprime através das divisões
não tenta cancelar o desamparo de onde somos
nem reaver a pedra que apenas deixou a nossa mão
as cavilhas do tempo
fixam na escuridão o seu lençol
e é através dele que entrevemos
a vida a nós desconhecida

III

Que rápido avança o degelo
como carta rasgada em pedaços
o viajante quando voltar
não encontrará as próprias pegadas
na paisagem agora nítida
ancorada às suas margens
as andorinhas em revoada
descobrem a pupila de Deus.

José Tolentino de Mendonça no JL 1 de Julho

terça-feira, 16 de junho de 2020

A INFÂNCIA DE HERBERTO HELDER



No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra

José Tolentino Mendonça

Legenda: Herberto Helder

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

REIS MAGOS


Uma mesa de plástico, branca
junto da tarde que morre
e renasce por pequenas paixões
de repente estávamos sozinhos
as ilhas muito inacessíveis
agora que escureceu
o menor desejo teria um sentido delicado
os olhos velozes de um gato
viam coisas belas
lado a lado com os homens
pareciam quase não ter sofrido

a mesa estava encostada às janelas do café
e nós de forma desolada
ignorados, aturdidos, de passagem
não muito mais

procuro desse facto uma versão
que me não conduza à inconfidência

era uma mesa lisa, branca
uma razão soletrava ao acaso
a medida soberana do incerto
olhos velozes de um gato os teus
olhos

José Tolentino Mendonça, poema tirada da Antologia Natal… Natais

quinta-feira, 13 de julho de 2017

EXISTEM PALAVRAS


Existem palavras por nós ignoradas
vivem ao lado das que mais usamos
e nunca sabemos quando
uma delas em fuga
com a calibração precisa
surgirá para transtornar a neutralidade

a língua arrasta a noite ancestral
um vento de neve
cheio de folhas mortas
a idade que possuímos em segredo
sem que nenhuma documentação civil 
a detecte

as línguas são portas
que se abrem rangendo
para coisas que não existem

José Tolentino Mendonça, poema colocado por Nicolau Santos na página de Economia do Expresso, 17 de Junho de 2017

Legenda: pintura de George Dunlop Leslie

sábado, 20 de maio de 2017

AS CASAS


As casas habitadas são belas
se parecem ainda uma casa vazia
sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz foi
entregue ao seu silêncio

Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa


José Tolentino Mendonça

sábado, 16 de abril de 2016

A CASA ONDE ÀS VEZES REGRESSO


A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça na antologia Em Nome do Pai

Legenda: pintura de Claude Monet

terça-feira, 28 de outubro de 2014

... E CONTO-TE A MINHA VIDA


«Paga-me um café e conto-te
a minha vida»

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

«Pago-te um café se me contares
o teu amor»



Legenda: imagem de Masculine-feminime de Jean-Luc Godard, (1966)

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

DENTRO DE CASA


Todas as casas se parecem
com um naufrágio ou um saque
testam sucessivamente a elasticidade de gerações
compõem-se de heranças, jogos descasados,
cinco ou seis cores que vão ficando
sinais de um poder apenas atenuado

Quando estamos fora
à mercê dos elementos
o mundo celebra em nós
aquilo que se extingue


José Tolentino Mendonça,  em Resumo: A Poesia em 2012, Assírio &Alvim, Lisboa Março 2013.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

DEIXA-ME DAR-TE O VERÃO


O Verão é feito de coisas
que não precisam de nome
um passeio de automóvel pela costa
o tenpo incalculável de uma presença
o sofrimento que nos faz contar
um por um os peixes do tanque
e abandoná-los depressa
às suas voltas escuras



Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.  

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A CASA ONDE ÀS VEZES REGRESSO


A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça

Legenda: pintura Edward Hopper