Ninguém dizia versos como
ele, tal como disse Pedro, o irmão mais novo, nas exéquias nos Jerónimos.
Gostava de conhecer vozes
novas, quando descobriu o António Franco Alexandre, considerava-o um poeta
extraordinário, escreveu para o Público sobre ele, que não conhecia, nem
sabia quem era, o que fazia, mas pareceu-lhe um escritor de grande qualidade.
Lamentou muitas vezes não
ter sido poeta.
Mas era mesmo um poeta.
Algumas das suas crónicas
são verdadeiros poemas, o mesmo em relação a algumas páginas dos seus livros.
Mas foi escrevendo poesias
e a sua editora, em Outubro de 2002, publicou um livrinho de cantigas que
António Lobo Antunes dedicou a Vitorino:
«Ao Vitorino, para quem estas letrinhas foram
escritas, quase todas em toalhas de papel de restaurante».
Soube-se agora que a
editora publicará em livro, que já andava a preparar, poemas do António Lobo
Antunes.
O livro chama-se Poemas
e sairá em Abril.
Mas não só o Vitorino fez
das letrinhas canções, outros artistas o fizeram.
No blogue A Nossa Rádio poderão encontrar os
intérpretes que musicaram e os artistas que cantaram poemas de José Saramago.
O primeiro foi Luís Cília, durante o seu exílio em Paris.
Depois apareceu Manuel Freire em Eps e um LP «Devolta».
Já depois do 25 de Abril, Manuel Freire, reuniu essas cancões num CD a que
chamou As Canções Possíveis. São
estes os poemas das canções de Manuel Freire:
Circo
Nem Sempre a mesma rima
Ouvindo Beethoven
Retrato do Poeta quando jovem
Jogo do Lenço
Tenho um Irmão Siamês
Dispostos em Cruz
Fado do Velho do Restelo ao Astronauta
A Ponte
Dia Não
É tão fundo o Silêncio.
Três são os livros de poemas de José Saramago: Os Poemas Possíveis, Provavelmente Alegria
e O Ano de 1993.
Gosto do José Saramago poeta. Não é impunemente que
descobri Saramago quando, no final de uma tarde de chuvoso Novembro, na
Livraria Portugal, comprei os Poemas Possíveis,
sem sequer conhecer o nome, quem era, donde vinha. E tudo começou logo no
primeiro poema do livro:
“Até ao Sabugo”
“Outros porão em verso outras razões, Quem sabe se mais úteis e urgentes, Mas ninguém se refaz a natureza, E como quem prevê acusações, Aqui direi que busco a só maneira De todo me encontrar numa certeza, Leve nisso ou não leve a vida inteira.
Assim como quem rói as unhas rentes.”
Na única vez que estive com José Saramago, Festa do
Avante de 1977, lembro-me de lhe ter dito que apreciava muito os seus poemas.
Com aquele seu sorriso tímido, acabou por dizer que não era mais do que um
poeta mediano.
A Música pela Manhã de hoje, detém-se num poema de José
Saramago cantado por Mísia no seu álbum «Garras
dos Sentidos».
O fado, música
de Franklin Rodrigues, chama-se Nenhuma Estrela Caiu e é uma letra
adaptada do poema A Ponte que consta do livro Provavelmente Alegria.
Estes são os versos cantados por Mísia:
Janelas que me separam Do vento frio da tarde Num recanto de silêncio Onde os gestos do pensar São as traves duma ponte Que não paro de lançar
Vem a noite e o seu recado Sua negra natureza Talvez a lua não falte Ou venha a chuva de estrelas Basta que o sono desperte O sonho que deixa vê-las
Abro as janelas por fim E o frio vento se esquece Nenhuma estrela caiu Nem a lua me ajudou Mas a ruiva madrugada Por trás da ponte aparece.
E este é o poema A
Ponte, tirado de Provavelmente Alegria: