Mostrar mensagens com a etiqueta Acordo Ortográfico. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Acordo Ortográfico. Mostrar todas as mensagens

sábado, 22 de agosto de 2026

SOLTAS


Por um deslize imperdoável, com o devido destaque, não foi referida a morte de Maria do Carmo Vieira, professora, ensaísta e voz crítica do acordo Ortográfico de 1990.

Servimo-nos da notícia do Público:


«Nascida em Lisboa, em 1952, Maria do Carmo Vieira desenvolveu grande parte da sua carreira como professora do ensino secundário, distinguindo-se pelo trabalho em defesa do ensino da língua portuguesa e pela reflexão sobre a literatura, a arte e a obra de Fernando Pessoa. Destacou-se “pela coragem, pela capacidade de tomar partido, pela sensibilidade ao sofrimento, pelo humor, pela análise aos disparates que o acordo ortográfico fez acontecer a um ritmo alucinante”, recorda ao PÚBLICO a sua irmã, a também professora e filósofa Maria Filomena Molder.

“Era um espírito compassivo, muito atento e muito exigente. Nunca esperava que lhe dissessem como devia agir. Queria mudar o mundo e isso foi muito visível com o acordo ortográfico, uma causa de que nunca desistiu. Nunca deixou de combater essa decisão tão errada, tão absurda e tão penosa para a língua portuguesa na sua ortografia.”»

1.

Dois irmãos, de 3 e 15 anos, foram abandonados pela mãe, há alguns dias, em Braga. Ambos foram resgatados pela PSP, na madrugada desta quarta-feira, e transportados ao Hospital Central de Braga, onde foram avaliados. A mulher já foi localizada pela PSP e constituída arguida pelo crime de exposição e abandono de menores.

Jornal de Notícias, 19 de Agosto

2.

O Hotel Cascais Miragem vai avançar com o despedimento de 177 trabalhadores, na sequência da realização de obras de remodelação que encerrarão a unidade hoteleira durante dois anos.

«Em causa está o despedimento coletivo de 142 trabalhadores efetivos e de 35 contratados a termo, num universo de 182 pessoas que trabalham na unidade hoteleira do concelho de Cascais (distrito de Lisboa), disse à agência Lusa Luís Batista, do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Sul.

De fora deste processo deverão ficar os cinco trabalhadores que desempenham funções administrativas.

"A fundamentação da empresa é que terá de despedir estes trabalhadores porque decidiu investir numas obras de luxo no hotel, onde prevê gastar 80 milhões de euros. Como não quer assegurar o pagamento dos salários, nem manter os postos de trabalho, tenta aqui utilizar uma figura jurídica, que é a figura de suprimento coletivo, para deixar de ter responsabilidades perante estes trabalhadores", apontou.

Segundo Luís Batista, o despedimento que a administração do Cascais Miragem pretende levar a cabo "não cumpre os pressupostos previstos no artigo 359.º do Código de Trabalho", argumentando que "não existe um nexo causal entre a realização das obras e a necessidade de despedir os trabalhadores".

"Não estamos perante uma empresa que tenha dificuldades económicas. Não estamos perante uma empresa que vai mudar o ramo de atividade ou que vai deixar de precisar de trabalhadores", apontou.»

3.

Médicos reformados a trabalhar no SNS batem recorde e mais de metade são médicos de família.

domingo, 18 de abril de 2021

O QUE DEVEMOS A JOSÉ SÓCRATES...

 

Sem que muitos tenham dado por isso, um dos grandes atentados que o povo português, nos últimos anos sofreu, chama-se Acordo Ortográfico 90.

A ideia rebenta, nesse ano, num dos consulados de Cavaco Silva.

José Sócrates, quando se apanha em primeiro-ministro do reino, determina e manda publicar a execução oficial do monstro.

Curiosamente, tanto o dono da ideia, como o seu concretizador, são rapazes de um evidente analfabetismo cultural e, quando ouvem falar em cultura, só não puxam da pistola porque enfim…

Lembrar que os restantes países de língua oficial portuguesa borrifaram-se para a determinação governamental, o que a transforma num justo, claro e declarado enxovalho para a nação.

Devemos ainda lembrar os escritores, os editores, os jornais, que, de imediato, decidiram dar andamento ao vómito socrateano.

Não sei como toda essa gente consegue dormir!

quinta-feira, 11 de julho de 2019

AGREDIDOS PELO ACORDO


A regra é que os mais velhos traíram a memória da língua, e os mais novos vivem bem no mundo do Big Brother. O tecido cultural do país, agredido pelo acordo, não é feito de excepções mas sim da regra, e a contínua enunciação das excepções só serve para esconder a rera. Pode-se ser culto sem saber quem era Ulisses, ou Electra, ou Lear, ou Otelo, ou Bloom? Não, não pode. Como não se pode ser culto sem perceber a inércia, ou o princípio de Arquimedes. E, no caso português, sem ter lido umas frases de Vieira, ou saber quem era Simão Botelho, Acácio, o sr. Joãozinho das Perdizes, ou Ricardo reis, ele mesmo. E não me venham dizer que sabem outras coisas. Sabem, mas não chega, são menos, são diferentes, e não tem o mesmo papel de nos fazer melhores, mais donos de nós próprios e mais livres. Sim, livres, porque é de liberdade que se está a falar.

José Pacheco Pereira no Público

domingo, 2 de junho de 2019

ELE DISSE A BEM DA LÍNGUA E DO PAÍS...


Recorto este trecho da habitual crónica de António Guerreiro na 2ª página do Ipsilon, suplemento das sextas-feiras no Público.
Porque sou contra essa estúpida decisão que políticos analfabetos, deputados distraídos, a excepção pertenceu aos deputados do Partido Comunista, nos impuseram, pelos idos de 1990, porque exijo que, para além de outros e muitos disparates, quando digo «alto e pára o baile» quero que entendam que é qualquer coisa para acabar e não um «alto e para o baile» porque não estou a mandar ninguém dançar.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

DARÁ PARA ACREDITAR?


O acordo ortográfico de 1990 foi uma decisão política cometida por gente que nem português sabe falar e escrever.

Que esses políticos, e quem os apoiou, tenham cometido o supremo disparate, crime é a palavra exacta, é uma coisa, que jornais e jornalistas, editores e escritores, professores e demais gentes, lhes tenham seguido os passos é que me dana, me deixa terrivelmente chateado, triste, mesmo.

O disparate nunca chegou a ser ratificado por Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor Leste. Soube-se  agora que o Brasil de Bolsonaro – ao que chegámos!!! – o quer mandar borda fora.
Esta notícia do Expresso deixa leve a esperança que algo, por aqui, se transforme numa boia de salvação.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

REJEITAR A REJEIÇÃO!


O Acordo Ortográfico, em vigor desde 2011, é um disparate académico, uma infantilidade e uma irresponsabilidade do governo José Sócrates.

Que jornais, jornalistas, escritores, empresas, tenham aderido de imediato ao disparate, torna-o ainda maior.

Manuel Alegre no Público:

 «O ministro dos Negócios Estrangeiros diz que rejeita a revisão do acordo ortográfico. E eu rejeito essa forma de rejeição, porque a considero autoritária, arrogante, dogmática e deselegante para com a Academia das Ciências. A Academia, que é, de acordo com a lei, conselheira do Governo em matéria da língua, não foi ouvida nem achada no que diz respeito ao acordo. E limitou-se a apresentar, agora, um conjunto de sugestões indicativas para que se começasse a debater este assunto e para tentar melhorar, se possível, um acordo que nasceu mal, um acordo falhado.
Esta posição do ministro [Augusto Santos Silva], que fala em nome do Governo, revela um grande desprezo por todos aqueles que se têm oposto desde o princípio a este acordo. Desprezo por escritores, por gente das letras, por académicos, por professores e por muitos cidadãos que manifestam a sua oposição a este acordo, que está a fragmentar a língua e a dividir os portugueses. Já nem falo de mim, falo do Vasco Graça Moura, que mostrou de mil e uma maneiras todos os erros deste acordo, que, aliás, considerava inconstitucional. Não conheço nenhum escritor de nomeada que seja favorável a este acordo.»

quarta-feira, 11 de maio de 2016

UMA LUZINHA AO FUNDO DO TÚNEL


Um dos argumentos dos defensores do Acordo é que se trata apenas de mudar a ortografia e isso não muda a língua. Foi o argumento com que se me respondeu quando falei do abastardamento do português que, no meu ponto de vista e no de muitos outros, resulta da aplicação das novas regras ortográficas. Considero o argumento absurdo, como se na língua que falamos e lemos – insisto, falamos e lemos – a imagem física das palavras não contasse, e fosse o mesmo escrever aspeto e aspecto. As palavras transportam uma dimensão cultural e na sua escrita não são mera ortografia, como melhor do que ninguém João Guimarães Rosa compreendeu, tratando a língua portuguesa como sentido, som, e imagem.
O Acordo Ortográfico não é ciência, nem lei, é política. Como política, é prejudicial à nossa cultura a nível nacional e como elemento de política externa é um acto político clamorosamente falhado e cujas consequências do seu falhanço caem essencialmente sobre Portugal. O Presidente teve a coragem de levantar o assunto, convinha agora dar ao seu acto a força da opinião pública. Há muitas maneiras de o fazer, e os juristas e constitucionalistas certamente que encontrarão forma de dar expressão legal a esta “reversão”. Pode considerar-se a sua caducidade visto que não está a ser aplicado pelos outros signatários, “reverter” a sua imposição administrativa, ou, levar os portugueses a pronunciarem-se em referendo, mesmo que de forma não vinculativa, sobre o Acordo. Não são os opositores do Acordo quem tem medo do referendo, bem pelo contrário. Mas o tempo urge, visto que os defensores do Acordo pouco mais têm a seu favor do que a inércia.


José Pacheco Pereira no Público

quarta-feira, 4 de maio de 2016

SIM, A CULTURA




Podemos não concordar com muitos dos pensamentos, opções ideias de Marcelo Rebelo de Sousa.

Mas é gratificante saber que temos um presidente que se preocupa com a cultura do país.

Alguma vez a múmia de Boliqueime se preocupou com o Acordo Ortográfico?

Nunca!

Apenas números.

E mesmo assim, mal!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Parlamento aprovou esta sexta-feira a "criação urgente de um Grupo de Trabalho sobre o Acompanhamento da Aplicação do Acordo Ortográfico", só com os votos do PSD e sete deputados do CDS.
Os restantes deputados centristas votaram contra este projeto de resolução, que vem assinado pelas bancadas da maioria.
Os dois projetos de resolução do PCP e do BE que pediam a "renegociação ou desvinculação" do Acordo Ortográfico, no caso da proposta comunista, e a "revisão" do mesmo, na proposta bloquista, foram chumbados.

Fonte: Diário de Notícias.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

QUOTIDIANOS


A notícia vem da semana passada, mas vale a pena referi-la.

O Conselho Superior de Magistratura decidiu abrir um processo disciplinar ao juiz Rui Teixeira colocado no Tribunal de Torres Vedras. Em causa está um despacho em que o magistrado obriga os serviços prisionais a reescrever um relatório social de um recluso que estava escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico, atrasando o processo.

É confortante ouvir dizer que nos tribunais, pelo menos neste, os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso, e a língua portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário.

A aplicação do novo acordo foi mais um dos muitos disparates do governo de José Sócrates, com a agravante dos órgãos de comunicação social se apressaram a aplicar o acordês.

O capachante Expresso colocou-se logo na primeira linha e tem por lá uns rapazes que são ferozes defensores do disparate. Claro que têm de levar com alguns colaboradores que os obria a colocar no fim dos artigos de que foram escritos de acordo com a antiga ortografia.

Sobre o caso do juiz, o atento e venerando Expreeso, naquela disparatada coluna de Altos e Baixos, não hesitou, como se pode ver no topo, em colocar o episódio no capítulo dos baixos.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

BOM SENSO


O Governo brasileiro adiou, esta sexta-feira, a aplicação obrigatória do novo acordo ortográfico em três anos, para 1 de janeiro de 2016, de acordo com o decreto publicado no "Diário Oficial da União".
Até então, o decreto promulgado em 2008 previa a aplicação obrigatória das novas regras em janeiro de 2013, já na terça-feira.
A iniciativa do adiamento surgiu após um pedido de parlamentares da Comissão de Educação do Senado, que ouviram, numa audiência pública, as críticas de destacados linguistas brasileiros às novas regras.
Para os especialistas, como o linguista e professor brasileiro Ernani Pimentel, o adiamento é um primeiro passo para a reforma do Novo Acordo que, na sua opinião, não simplifica suficientemente a língua portuguesa.
Dos Jornais

domingo, 9 de dezembro de 2012

MINHA PÁTRIA É MINHA LÍNGUA


Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.


Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.


Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.


Clarice Lispector


Nota do editor: o título é tirado da canção Língua de Caetano Veloso.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

UMA TRISTE NOTÍCIA


O Público há muito que deixara de ser o jornal de referência que foi no  seu início e se manteve durante um bom par de anos.

O Público errou.

Demasiado!

O Público, segundo expressão do engº Belmiro de Azevedo, dava, em 2008, o prejuízo de 2.095,47 euros por dia.

O Público há muito que denotava variações direitistas, tendências muito pró-governamentais: o conflito entre Relvas e a jornalista Maria José Oliveira é um dos muitos exemplos.

O Público anunciou, hoje, aos editores que iniciou um processo de despedimento coletivo no jornal envolvendo 48 trabalhadores, sendo 36 da área editorial.

A direção disse aos editores que esta foi a negociação possível dado que a administração pensou mesmo em fechar o jornal em Março. Todas as secções serão atingidas.

O despedimento coletivo implicará o fecho das secções locais do jornal e ainda da agenda. A direção está neste momento a chamar um a um os jornalistas colocados na lista de despedimentos.

O jornalismo do Público perdeu os princípios da sua existência, perdeu inteligência, sensibilidade, diversidade de comentadores, nos últimos anos eram os mesmos e todos do mesmo lado.

Quando aqui se chega, sabe-se o que, mais tarde ou mais cedo, acontece.

José Manuel Fernandes começou a abrir a cova, Bárbara Reis fez o resto.

Perdeu-se a memória de um título.

O palco cada vez está mais vazio.

Há quem goste assim

Eu não!

Em tempo:
A informação on-line da Sonaecom, anunciando o despedimento de trabalhadores, deixa um aviso:

Este comunicado foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico.

Edificante!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O'NEILL



Começo de Alexandre O’Neill Uma Biografia Literária de Maria Antónia Oliveira (1):

No dia em que Alexandre O’Neill morreu, 21 de Agosto de 1986, Lisboa estava, como é costume da época, deserta e encalorada. Os portugueses tinham debandado para o Algarve. Portugal entrava na CEE e saía da crise económica. As Amoreiras acabavam de ser inauguradas. Mário Soares era presidente da República desde Fevereiro, e Cavaco Silva era primeiro-minisyto recente, quase um desconhecido. Os jornais ocupavam-se do acordo ortográfico, do julgamento das FP25, dos efeitos da CEE no Alentejo. Uma nota muito discreta anunciava que o filme de João Botelho Um Adeus Português (título do mais célebre poema de O’Neill) ia representar Portugal na mostra de cinema europeu de Rimini.

De seu nome completo, Alexandre Manuel Vahia de Castro O’Neill de Bulhões, vulgo Alexandre O’Neill, morreu com sessenta e um anos e estava internado desde 16 de Abril, na sequência de um acidente vascular cerebral.

Poeta caixadòclos, esticalarica que se vê considerava-se o maior dos poetas menores, asmático, uma vida permanentemente vivida na corda bamba, um eterno cultor do lugar-comum.

De novo Maria Antónia Oliveira:

«Como conceber Cesário Sem Lisboa? Como conceber Pascoaes sem o Marão», perguntara O’Neill, recordando o poeta de Amarante por ocasião da sua morte: Como conceber O’Neill sem Lisboa, acrescentaremos nós, os do século XXI. A nossa ideia da cidade de Lisboa de segunda metade do século XX ficará indelevelmente marcada pela poesia de Alexandre O’ Neill, tal como Lisboa dos finais do século XIX perpassam os versos de Cesário Verde.

Numa entrevista, ao Expresso, deixou bem vincado que a morte é uma fuga definitiva a todas as chatices, e, aos 30 anos escreveu para si o seguinte epitáfio:

Aqui jaz Alexandre O’Neill
um homem que dormiu
muito pouco
Bem merceia isto

Resta deixar um texto seu, extraído de Uma Coisa em Forma de Assim (2)

MULHERES

Aqui estão espraiadas, as mulheres. Viram-se e reviram-se sobre as toalhas para bem se tisnarem por todos os lados. Trazem sacos e maridos para a areia. E filhos. De repente, sentam-se. Gritam: Ó Luís, ó Bruno Manuel, ó Fernando Jorge, ó Mafalda Sofia, ó Joana Filipa! Maternais e enfastiadas, vigiam os pequenos. Ralham com os maridos como se estivessem a cantar uma canção de trabalho. Querem-nos à Mão.
Entram no mar pé ante pé. Quando a primeira onda lhes dá uma umbigada, soltam um bando de gritinhos. Afoitam-se, cabeça muito levantada para que a cabeleira não se molhe. E, então, começam a sorrir. Não há, nesse momento, quem as arranque do mar. Mas, com a muita, muita água, um pensamento indesejável assalta-lhes as imaginativas cabecinhas: o peixe que, do largo, pode vir, ligeiro, engolfar-se-lhes entre coxas.
Regressam às toalhas, aos guarda-sóis. Chamam, pelos seus nomes aos pares, os pares de crianças. Esbofeteiam-nas, beijam-nas, prodigalizam-lhes sanduíches de areia. Entretanto, os maridos foram dar uma volta.
Mulheres! Afinal sempre sozinhas sob a rosa do sol...

(1)   Alexandre O’Neill Uma Biografia Literária, Publicações Dom Quixote, Lisboa Janeiro de 2007
      (2) Uma Coisa em Forma de Assim, Editorial Presença, Lisboa 1985

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A CONSPIRAÇÃO ORTOGRÁFICA


Crónica de Manuel António Pina no Jornal de Notícias de hoje:

Ainda não vi ninguém queixar-se (e, que diabo!, não acredito que seja só eu o eleito e o escolhido): fui atacado por um "hacker" anónimo ao serviço da Kultura e do dr. Malaca Casteleiro e, em silêncio, sem aviso, o meu Word adoptou o celerado Acordo Ortográfico. Mesmo agora acaba de sublinhar a vermelho a palavra "adoptou" (e voltou a fazê-lo!)

Não tenho conhecimentos de informática nem tempo para tentar desactivar (outra vez!) no corrector (de novo!) ortográfico o cavalo de Troia nele alojado não sei por que sinistro Torquemada linguístico, e irrita-me saber que alguém vigia o modo como escrevo pois, a seguir a isso, há-de vir também a vigilância sobre aquilo que escrevo. (O biltre sublinhou o "há-de" a vermelho; só falta notificar-me, como nas cartas de condução, de que já cometi x ou y infracções (outra vez!) ortográficas graves e de que ficarei impedido de escrever durante um mês ou, sabe-se lá, para sempre). Que fazer? A quem pedir satisfações? Ao Windows Update? Ao dr. Miguel Relvas? Ao SIS? À Loja Mozart?

Por que obscura porta se terá infiltrado a Coisa no meu computador? Poderá entrar igualmente pela minha consciência e pela minha vontade dentro, censurando a vermelho o que penso e o que quero como censura o que escrevo? Já pensei voltar a escrever à mão, mas temo que até esferográficas e lápis tenham já sido programados pelo dr. Casteleiro para não me deixarem escrever consoantes mudas.


Legenda: capa do livro Como se Corrigem Provas Tipográficas de Alexandre Vieira e Gonçalves Piçarra, Edição de Albagráfica, Lisboa 1951

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

JANELA DO DIA


1.

O ministro-adjunto dos Assuntos Parlamentares, de-seu-sorridente-nome-Miguel-Relvas, mandou fazer 100 livros, edição de luxo, e pagou 12 mil euros por ajuste directo a uma gráfica.

O livro que custou a módica quantia de 120 euros por exeplar, tem um nome: Compromisso para uma Nação Forte, nada mais é que o programa do governo o balanço dos seus 100 primeiros dias, e destina-se, exclusivamente, aos membros que o constituem.
Chama-se a isto brilhante gestão dos dinheiros públicos.

Lembrei-me de uma velha história do Pedro Oom:

Num pequeno país atrasado e pobre o Primeiro-Ministro preocupava-se muito com a ignorância do seu povo.
A percentagem de iletrados era tal que não se descortinava maneira de arrancar do estado de subdesenvolvimento para a fase industrial a que o país necessitava chegar.
O Primeiro-Ministro reuniu os melhores pedagogos do país que elaboraram um pequeno livro de bolso, a que chamaram a “Cartilha Paternal”, onde se resumia em frases simples toda a Ciência existente.
A “Cartilha Paternal” foi distribuída gratuitamente a todo o Povo, o qual lhe deu a serventia que estava habituado a dar a tudo o que fosse papel, liso ou impresso.

2.

Os funcionários públicos podem passar a ser obrigados a mudar de serviço ou de organismo, mesmo que isso implique ir viver para qualquer outro concelho do país.
A medida faz parte de um documento que o secretário de Estado da Administração Pública enviou na terça-feira aos sindicatos e que pretende estimular a mobilidade geográfica dos trabalhadores do Estado.

3.

A taxa de poupança das famílias desceu em Janeiro, fixando-se em 93,1, face a 97,1 em Dezembro.

4.

A crise grega parece estar à beira de um novo capítulo, com a vinda a público de divergências entre os parceiros europeus sobre a opção por um segundo resgate, com alguns a preferirem que o país entre em bancarrota.


5.

O Santuário de Fátima está a preparar a comercialização de azeite com marca e embalagem próprias, oriundo de um olival situado na zona do Monte dos Valinhos e Aljustrel, junto à Cova de Iria, anunciou a instituição.

6

A agência Lusa divulgou uma notícia em que admitia, segundo fonte idónea do Sporting, que o treinador Domingos Paciência andara em encontros com elementos do F.C. do Porto.

Hoje, a direcção  de informação da agência  veio reconhecer  não ter respeitado as normas  do Código Deontológico do Jornalista nem o Livro de Estilo da Agência e ameaça:

A direcção de informação reserva-se, contudo, o direito de denunciar a identidade da fonte, caso venha a averiguar que essa fonte agiu de má fé, induzindo a Lusa em erro.

O jornalismo de sarjeta no seu melhor.

7.

O Jornal de Angola publicou, há dias, um editorial dedicado ao Acordo Ortográfico, em que são expressas duras críticas a semelhante aborto:

 Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam”, pondo em causa futuras negociações.

Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

JANELA DO DIA


Por norma os fins-de-semana são dias parcos em notícias, os políticos os fala-barato, vão arejar e, apenas ficam as outras notícias, normalmente mortes outras tragédias, por vezes, um acontecimento feliz.

É um tempo propício para colocar à janela o que, nos últimos dias fui lendo pela concorrência.

1.

Para receber a enésima tranche de «ajuda» internacional – chamemos-lhe assim – a Grécia, depois de tudo o que já fez, vai despedir 15 mil funcionários públicos e, provavelmente, reduzir outra vez o salário mínimo. No mínimo. Ainda bem que a austeridade está a resultar. Imaginem que não resultava.

Mário Carvalho na Devida Comédia

2.

Se Pedro Passos Coelho conhecesse mais empresas para além das do seu amigo Ângelo Correia e o País para lá dos jantares da carne assada do PSD saberia que o problema da nossa produtividade nada tem a ver com as horas que trabalhamos. Nem com os feriados. Tem a ver com características da nossa economia, com o mau funcionamento do Estado e com a má organização das empresas.

Daniel Oliveira no Arrastão

3.

Por que razão a comunicação social dá importância a coisas sem importância nenhuma?

José Pacheco Pereira no Abrupto

4.

Vasco Graça Moura sempre se opôs ao Acordo Ortográfico. Está no seu direito É a sua opinião. Mas ser nomeado para dirigir o CCB e tomar como primeira decisão a suspensão da aplicação desse diploma já não é um direito. Vasco Graça Moura não é dono e senhor da língua portuguesa e nem sequer é o CCB. Não pode confundir a sua pessoa com a instituição que dirige nem sobrepor a sua vontade à lei. Longe vão os tempos do Rei Sol, do absolutismo, da coincidência entre o Estado e os caprichos de quem o dirige. Caso contrário, imagine o que seria se cada recém-chegado a um cargo público ordenasse que se escrevesse consoante as suas preferências, por exemplo, com esta mesma ortografia anterior à revisão de 1911.
Desobediência civil, aclamam alguns, batendo palmas. Ai, pobre Henry David Thoreau dando voltas na tumba. Só que esta decisão de corajosa ou coerente nada tem. Pelo contrário. Coragem e coerência teriam existido se o ex-deputado europeu tivesse declinado o lugar, alegando incompatibilidade entre as suas posições quanto ao AO e o exercício de um cargo público. Em si mesmo, esse seria um acto de grande pressão, legítima, sobre o governo e o parlamento para a revogação do AO. Assim, a imposição do ex-deputado europeu é mera prepotência. É este tempo.

José Medeiros Ferreira no Córtex Frontal

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

OLHARES


Se há coisas que abomino, ir ao dentista, é uma delas.

O consultório fica num prédio no Largo da Estefãnia que, entre outras lojas, tem uma farmácia. Um reclamo moderno e luminoso informa que é ali a Farmácia Mundial, com placa a dizer que foi fundada em 1887.

A farmácia também dá para a Rua Dona Estefânia e, por cima da montra, em bonitos azulejos, pode ler-se Pharmacia.

Interroguei-me sobre o que terão dito os nossos bisavós, ou avós, ou pais, quando se viram impelidos a, entre outras alterações, escrever farmácia em vez de pharmácia.

Este blogue declarou-se contra o Acordo Ortográfico que entrou em vigor no dia 1 de Janeiro.

Não por birra, ou por ser do contra, mas por uma questão de gosto, por já não ter idade, paciência, para escrever de modo diferente daquele que, aprendi, na velha instrução primária da Escola nº 68 na Rua da Penha de França, uma aprendizagem com as inerentes dificuldades e lembranças das reguadas do professor Amilcar

A mão ardia e o professor Amilcar, para atenuara a dor, sugeriapô-la no cromado dos tinteiro da carteira.

Mesmo que eu quisesse escrever, segundo o acordo, quando, por exemplo, escrevesse es recetor, o computador alertava que se escreve receptor.


Suponho que os experts informáticos já trataram de arranjar um qualquer programazito, adaptado às exigências do Acordo.

Mas não me vou meter nisso, a troika, diariamente, dá-me cabo do orçamento e não me sobra guito para coisas supérfluas.

Esta velha geringonça vai ficar assim.

Todo este paleio, não só para vos mostrar os azulejos da Farmácia Modelo, mas para me congratular com o que hoje li no Público:

O recém-empossado presidente do Centro Cultural de Belém, Vasco Graça Moura, fez distribuir ontem à tarde uma circular interna, na qual dá instruções aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico Acordo Ortográfico e para que os conversores - ferramenta informática que adapta os textos ao Acordo Ortográfico - sejam desinstalados de todos os computadores da instituição.

Vasco da Graça Moura é um excelente tradutor, um excelente poeta e romancista, um óptimo conversador. Não se compreende – pode ser que haja uma qualquer razão… mas enfim… - como um homem culto é apoiante deste governo e de Cavaco Silva.

Diz o cínico que coabita em mim que ele devia ter dito que não aceitaria o cargo porque não queria ser incoerente e escrever segundo um acordo que é um atentado à língua e à cultura portuguesas.

Mas, por norma, o cínico que me acompanha, a maior parte das vezes, não tem razão e, agora, deixem-me gozar esta decisão de Vasco Da Graça Moura e ficar à espera do que têm para dizer as sumidades linguísticas que venderam a nossa língua a meia dúzia de obscuros académicos brasileiros.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

JANELA DO DIA


1.

A administração dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo ainda não pagou os salários do mês de Dezembro e admite desconhecer quando fará as transferências, tendo em conta a total incapacidade para obter fundos.


2.

A família Soares dos Santos, que detém a maior participação na Jerónimo Martins vendeu os seus 56% do capital à subsidiária do grupo na Holanda.

Na base da mudança está uma manobra de gestão que visa fugir a uma dupla tributação com a entrada na Colômbia - onde a dona do Pingo Doce quer investir 400 milhões de euros até 2014 - mas também a antecipação de eventuais mudanças na lei portuguesa que possam penalizar ainda mais as SGPS.

É por estas e por outras que dizem que se o país está como está aos trabalhadores se deve.

 3.

Até Novembro de 2011, o número de empresas envolvidas em despedimentos colectivos já ultrapassou o de 2010 e o número de trabalhadores despedidos ronda o total de afastados em todo o ano passado. Esta é a conclusão que se extrai dos números divulgados recentemente pela Direcção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho .
Nos primeiros 11 meses de 2011, houve 699 empresas que recorreram ao despedimento colectivo para afastar trabalhadores, o que corresponde a mais 53,4% do que os valores verificados no mesmo período de 2010. Essa subida reflectiu-se igualmente no número de trabalhadores envolvidos. De Janeiro a Novembro de 2011, foram despedidos 6917 trabalhadores, ou seja, mais 6,6% do que o contabilizado no mesmo período de 2010.

Em Novembro passado, os serviços de emprego receberam a inscrição de mais 68 mil desempregados.

4.

Os empresários da restauração vão suportar parte da subida de custos causada pelo aumento de impostos para evitar perder mais clientes, disse à Lusa o presidente da respectiva associação patronal.

5
.
O Diário de Notícias, a partir do dia 1 de Janeiro, aferiu ao Novo Acordo Ortográfico.
Ferreira Fernandes, na véspera, escrevia na sua habitual coluna diária:                  

Este é o último ano em que vou ser optimista aqui. Para o ano adiro ao acordo ortográfico e passarei a otimista.