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sábado, 26 de abril de 2025

JÁ NINGUÉM ESCREVE CARTAS


O romance Lusitânia, publicado em Dezembro de 1980, por Almeida Faria, encerra a trilogia de que fazem parte A Paixão e Cortes.

Uma sucessão de cartas escritas por diversas personagens que vão desde Abril de 1974 a Março de 1975.

Em 30 de Março  de 1985 o Diário Popular, pela mão de Baptista-Bastos, junta Almeida Faria, também por lá aparece o Dinis Machado, a entrevista está titulada com uma frase de Almeida Faria: «O Jornalismo dito cultural é um terrorismo interessado em promover a mediocridade.»

O recorte que ora se publica, não tem nada a ver com a entrevista do Bastos com o Almeida Faria, antes é uma carta inédita publicada pelo JL, dez anos depois da publicação de Lusitânia.

Já ninguém escreve cartas, Baptista-Bastos e Dinis Machado já nos abandonaram, e muita gente não saberá quem é Almeida Faria e pouquíssimos ainda são capazes de o ler.

quarta-feira, 5 de março de 2025

OLHARES


Cais do Sodré.

Conta Dinis Machado, em Reduto Quase Final que era a ali, junto ao relógio, que a malta miúda, vinda de diversas ruas do Bairro Alto, se encontrava para, nos domingos, todos juntos, irem para a praia.
“A propósito: quem é que tem a bola? Estive a ver as marés, temos terreno duro no domingo, na praia, da parte da manhã. Podemos estar a dar uns toques umas seis horas seguidas, mas é preciso apanhar o barco aí pelas oito horas. E com isto fecho a secção de informações. Quem é que tem a bola? Quem é que a levou para casa no domingo”.

Tinham nomes os barcos: “Zagaia”, “Flecha”, “Norte Expresso”. Travessia Cais do Sodré-Trafaria-Cova do Vapor. Aqui uma ponte de madeira desde o desembarque até à praia.
Mas os barcos no Cais do Sodré funcionavam apenas no Verão. Durante todo o ano, eram os barcos da empresa Damásio Vasques & Santos, Lda que faziam a travessia Belém-Trafaria. Também tinham nomes esses barcos: o “Alcântara”, o “Trafaria Praia”, o “Sempre Fixe”, outros que agora já não lembra.

A propósito quem é que tem a bola? 

domingo, 22 de agosto de 2021

COMEÇOS DE LIVROS


Acima de tudo gosta de livros.

Já comprou livros pelos começos, já comprou livros pelas capas – a capa de um livro é uma arte a que hoje pouco se liga e há capas muito bonitas .-, já comprou livros pelos finais.

Mas, acima de tudo, gosta de livros.

 Era o tempo em que havia livrarias e se folheavam livros naqueles silêncios monásticos.

Maria Gabriela Llansol, escritora em que nunca conseguiu entrar, apesar de diversas tentativas – o problema é todo dele! – escreveu um livro, Na Casa de  Julho e Agosto, que começa assim:

«O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos. Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo. Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia. Basta esperar que a “decisão da intimidade” se pronuncie.»

Dinis Machado no começo de Reduto Quase Final:

«Abertura com a mais velha estação de comboios do mundo» e acrescenta: «Qualquer maneira de começar é uma boa maneira de começar».

Para começar, havia muitos excelentes começos de livros, mas o começo de Paixões e Trabalhos de Benito Prada de Fernando Assis Pacheco, é simplesmente extraordinário.

Terrível aquele até lhe assava a memória.

«Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.

O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado.
«Caramba», disse o irmão do meio, que admirava todas as invenções do mais velho, «é à segoviana!»
«Mas não lhe pões o dente», cortou o outro.
Entretanto o mais novo, regressado já do Pereiro, aonde fora avisar o Padre Mestre, manifestou desejos de capar Manolo Cabra. O do meio olhou muito sério para o Padeiro Velho. Este cuspiu enojado e decretou:
«É tudo para os cães. E agora tragam-me lá a roupa do fiel defunto, que já não tem préstimo senão no inferno.»
Se perguntassem ao Padeiro Velho o que mais queria naquele momento, teria respondido:
«Assar-lhe até a memória.»

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

POSTAIS SEM SELO


Não há dúvida, cresci. O casaco rebentava nas costuras, as calças deixavam as peúgas à vista. Era uma vez um miúdo que abriu um livro, entrou no livro e começou a andar pela vida fora. E saiu do livro quando a história acabou.

 Dinis Machado em Reduto Quase Final

Legenda: pintura de Winslow Homer

quinta-feira, 22 de abril de 2021

POSTAIS SEM SELO


Ó país de cristal, que longe eu estou, dava um ano de ordenado por um momento da minha inocência perdida.

Dinis Machado, em Molero a páginas zero.

quarta-feira, 3 de março de 2021

MISS MAPLE SABE TUDO


É que Miss Marple sabe tudo, como aquelas nossas tias antiquíssimas da província que, quando somos meninos, nos põem a mão na cabeça, nessa velha estação onde está um comboio para regressarmos a casa, e que sabem que chegaremos bem. Fazem pactos com o pressentimento e com a adivinhação, e dizem-nos adeus, quando o comboio arranca, com olhos brilhantes de amor num mapa de pergaminho. É a cara do tempo, de lenço branco na mão.

Talvez o que haja de mais surpreendente em Agatha Christie, escritora que aflora certas facilidades, inclinada ao lugar-comum, seja o conhecimento empírico de que Miss Marple (mais ainda do que a metodologia excêntrica de Poirot) tem da natureza humana. Esse é o seu terreno como o meio-campo adversário foi de Maradona no Mundial do México, ou como os palcos generosos para aa Unicef foram de Danny Kaye.

Como ela diz em Jogo de Espelhos, fui nova há muito tempo. A questão , claro, não é principalmente essa. Coloca-se mais em experiências de carpintaria e de encenação teatral, tendo-lhe sido atribuído, pela dramaturga em estado romanesco, o lugar do ponto. Miss Marple ajuda os actores da vida a esclarecerem, às vezes penosamente, motivos que catapultam horizontes de desastre.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas 

segunda-feira, 1 de junho de 2020

CONVERSANDO


Há livros únicos. Por isto e por aquilo.

O livro do Dinis Machado, O Que Diz Molero, é um desses livros.

Um êxito inultrapassável que paralisou, imobilizou, o autor, no fundo dos fundos o grande projecto que ele tinha de escrever um livro memorável.

Conseguiu.

Dinis Machado já tinha andado em aquecimento com três policiais com a assinatura de Dennis McShade, a que pouca gente não deu a necessária atenção, talvez por serem romances policiais. E de repente salta este Molero escrito com um sentimento de puro arraso, uma infinita ternura pelas palavras.

Depois deste livro, escreveu outros, não muitos, mas longe deste grande mergulho no mar da loucura daquele final de década de 70


O Helder Pinho, brilhante repórter, desde o seu 1º número, de A Capital, andava com um exemplar dentro do bolso, largamente riscado e anotado. Sempre que chegava ao café, olhava a malta, sacava do livro e lia uma citação e a conversa alongava-se. Dizia ele que cada um lê um livro com os olhos que tem, ou seja, lê-o a sua maneira e rematava que o livro nascera no sótão da infância do Dinis (os cigarros fumados às escondidas, meter golos com a trapeira nas janelas da vizinhança, os concursos para ver quem mijava mais longe, as alcunhas, os concertos das campaínhas dos prédios), um livro que só poderia ser escrito em Lisboa e por quem a conhece muito bem, por dentro e palmo a palmo.

Foi Luiz Pacheco quem abriu as hostilidades, que escreve uma crítica ao livro com expressões como «um livro-bomba, uma obra d’arromba, uma cavalgada furiosa de episódios, uma feira, um tropel de gente, uma festa popular da malucos e malucas, tudo chalado, uma alegria enorme quase insensata.»

E Eugénio de Andrade que não se metia nestas coisas apareceu a dizer: «Este livro é uma alegria» e a frase foi logo apanhada para as badanas do livro.

O meu Molero não está tão anotado como o do Helder, mas está bem riscadinho e, volta e meia, pego-lhe.

Este pedacinho é da página 26:

«O que poderá levar um homem a destravar uma cadeira de rodas?, perguntou Mister De Luxe num tom de voz muito baixo. «A monotonia, a solidão, os sonhos espremidos até ao osso, o falhado desejo louco de correr até o coração saltar pela boca», sugeriu DeLuxe, «acho que é  cadeira de rodas, ela mesmo».

Falta a gargalhada do Helder, a sua loucura, o momento em que depois sorria sorriria e logo percorreria outras passagens, acompanhadas por uma filosofia resplandecente de ternura, tudo isto no «país de cristal, os momentos da nossa inocência perdida.»

Legenda: cartaz da adaptação teatral de Nuno Artur Silva do livro de Dinis Machado.

sábado, 26 de janeiro de 2019

POSTAIS SEM SELO


É demasiado o que há para contar. E o que é demais torna-se exíguo.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas

Legenda: pintura de  Massimo Marchetti 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

DESCOBRI UM LIVRO GIRO...


Ainda a entrevista de Luiz Pacheco a João Pedro George:

O Luiz foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso de O Que Diz Molero. Como é que isso se passou?

Eu estava em Massamá e tive a informação de que a Bertrand me queria editar a Obra Completa. Um dia fui à Bertrand, na Venda Nova, e encontrei o Dinis Machado, que foi gentilíssimo comigo e com o Paulo... encheu-o de álbuns, papel, livros... e deu-me as provas do Molero – portanto a minha crítica saiu no Diário Popular antes de o livro estar à venda. No dia seguinte comecei a ler aquela merda, aquilo são dois gajos a discutir, e eu disse ao gajo onde estava o meu filho Paulo, o Henrique Garcia Pereira: «O pá, eu estou fodido com este gajo, este gajo foi tão simpático comigo e com o meu filho, deu-me tanta merda, e agora isto é uma porcaria, não se percebe nada». Até que de repente entrei na cegada da cena de porrada com os camones no Bairro Alto... aquilo tinha uma coisa, é que era um livro que já não era escrito com medo da censura, via-se que havia ali... o gajo não era nenhum novato, já tinha escrito 3 romances policiais... havia ali de repente uma força, porque estes gajos se tivessem um bocadinho de vergonha não publicavam os livros que publicaram durante o fascismo… bom, então escrevi o artigo «Descobri um Autor». Só na semana seguinte é que o Molero saiu à venda. Estava na feira do livro e apareceu-me o Afonso Praça: «Olha, comprei aquela coisa do Molero por causa da tua crítica, opá julguei que estavas a gozar, mas tinhas razão, aquilo é muito giro…» Depois disse muito mal do Reduto Quase Final, numa entrevista ao B-B. Um gajo também não escreve só obras-primas, há altos e baixos... Se um gajo vai  facilitar, a não pensar, se o gajo não é o leitor mais exigente de si mesmo, está fodido, tem a classificação que merece. Eu de facto não descobri autor nenhum, descobri um livro giro…

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

OS CÉLEBRES ORIGINAIS NA GAVETA


Carta de António José Saraiva, datada de Maio de 1980, para Óscar Lopes:

Mas do ponto de vista científico devo prevenir-te contra os efeitos nefastos do fanatismo. Por exemplo, na p. 1139 da 11ª edição da História da Literatura ligas os romances do Nuno de Bragança e de Dinis Machado ao 25 de Abril. Ora o livro principal do Nuno Bragança foi publicado em 1969, e o do Dinis Molero (que na minha opinião está longe de ser um grande livro) podia perfeitamente ter sido publicado antes, pois nada tem que ver com a problemática do 25 de Abril. Claro que tomas preocupações de estilo: falas de «uma carreira recente» e do «fulminante êxito de um livro ambos marcados pela problemática e pelo degelo trazidos pelo 25 de Abril.» A «carreira» é a do Nuno de Bragança, o que te permite meter no mesmo saco A Noite e o Riso (que é um grande livro) e a Directa (1977) que está longe de atingir o mesmo nível. Mas quem ler desprevenidamente julga que o 25 de Abril teve algum efeito na literatura, o que sabes perfeitamente que é falso. Já lá vão seis anos e não se viu nada, nem sequer os célebres originais «na gaveta». O que prova afinal que a literatura tem muito pouco a ver com as peripécias da política, como alíás já sabíamos. É lamentável que tenhas deixado passar para um livro científico um slogan ideológico, ou melhor partidário.


Legenda: Nuno Bragança

terça-feira, 18 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Há homens que não são fáceis de adjectivar.

Dinis Machado na morte do seu camarada de profissão e amigo Roussado Pinto, vulgo Ross Pynn, em Gráfico de Vendas Com Orquídea 

segunda-feira, 16 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


O Cerdan morreu num desastre de avião, se a memória não me trai. Ia discutir com o Graziano essa velha questão de saber qual é o melhor do mundo. Paris chorou. Os cegos musicais de Lisboa, esse tão magoado lirismo das sargetas, que tantas vezes me surpreendeu de ternura ao virar da esquina, tocaram alguns dias, a troco de tostões, castanhos e avaros, em fins de tarde cansadas, «La Vie en Rose». E havia uma letra que falava de Cerdan. Rimava com titã.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas 

Legenda: Marcel Cerdan

sexta-feira, 20 de abril de 2018

TENHO O LIVRO À MINHA FRENTE


Chandler, Lettres.
Tenho o livro à minha frente. Releio, às vezes, uma ou outra carta. São cartas serenas, inquietas, tímidas, polémicas, orvalhadas de pudor. E de magia. A magia da escrita que ele confessa perseguir. Chandler fala dele, dos outros, de gatos, do seu trabalho. A arquitectura, a atmosfera, o tricot do romance policial. Philip Marlowe aberto de alto abaixo, como um boneco, exposto, depositado, transmitido. Mais um adjectivo: quotidiano. Saem das suas entranhas as vítimas de Sammy Glick, Sammy Glick ele próprio, seus compostos e derivados, a maratona incansável do sucesso, a Black Mask toda inteirinha, dinâmica, estereotipada, esquizofrénica, consumível, e que em Chandler atinge, através dos seus filtros verbais, aquele estádio superior que é o exercício equilibrado de uma paixão: o plano sólido da história, o encaixe de situações desencaixadas, o relance certeiro, o descritivo absurdamente minuciosos, o diálogo coruscante, os factos, a névoa dos factos, a rarefacção do conjunto, a elipse, a tecla silábica, the-la-dy-in-the-la-ke, a estúpida brutalidade, a humidade do beijo, a bala na têmpora, o enlace das aquisições, o desenlace, essa quase geométrica flor de papel pintada a sangue que é cada um dos seus livros.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Não acredito, mas também não me oponho. Sempre tive de Deus uma noção um pouco infantil: um irmão mais velho, mais sabedor, que não sei onde está, que não sei se chegou a nascer. Tenho com Deus (que não tenho) uma relação epidérmica, saudável, que até me permite lançar-lhe uma pida. Saúdo assim o seu mais provável sentido de humor, essa omnipotência sorridente. Talvez mais do que irmão: avô. Nas horas piores, fico-me. Falta-me a fé, faltam-me as regras teológicas, tudo se complica.

Dinis Machado em Reduto Quase Final

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

sábado, 4 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO



Não há dúvida, cresci. O casaco rebentava nas costuras, as calças deixavam as peúgas à vista. Era uma vez um miúdo que abriu um livro, entrou no livro e começou a andar pela vida fora. E saiu do livro quando a história acabou.

 Dinis Machado em Reduto Quase Final

Legenda: pintura de Winslow Homer

domingo, 8 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Cada leitor é soberano na sua opinião.

Dinis Machado em Reduto Quase Final

sábado, 29 de abril de 2017

ENTÃO REGRESSO



Estávamos em Maio, o mês das flores. Mas em Nova Iorque não há fragrância de flores, há o cheiro dos homens que correm atrás da vida e há o cheiro do cimento que lhes absorve as horas e as ideias, por causa do dinheiro. Naquele momento, eu era um dos poucos novaiorquinos que não corria atrás de coisa alguma: dinheiro, poder, mulheres ou a juventude perdida. E se não fosse a circunstância de ter contra mim o Sindicato do Crime e a Mafia, podia considerar-me do lado de fora da maior competição fratricida do mundo, uma espécie de Jogos Olímpicos do Dólar. Ou uma peça chamada Estados Unidos da América, com milhões de figurantes seguindo a bandeira do Dólar, com dólares desenhados nos olhos, com dólares escondidos no coração, com dólares atravessados na garganta, dias muito dinâmicos e noites muito cansadas, publicidade, bairros de lata e arranha-céus, publicidade, combates de boxe e avenidas a «néon», publicidade, o eterno problema dos negros e «compre hoje mesmo o seu frigorífico», publicidade, mais material de guerra e «sorria como William Holden», publicidade, comprimidos para lembrar e comprimidos para esquecer, publicidade, e a manhã que nasce e tudo recomeça.
O meu último contrato rendera-me bom dinheiro. Partira para Roma seis meses antes. Parto sempre para Roma quando não me sinto seguro. Revejo a Capela Sistina, as garotas da Praça de Espanha, vejo o último Fellini ou o último Rosselini, compro livros que dificilmente encontro nos Estados Unidos, e espero que Johnny Arteleso, meu companheiro de infância e meu único verdadeiro amigo, me diga de Nova Iorque que o tempo está sereno. Então regresso.


Legenda: pormenor da capa feita por Antunes para a edição do Círculo de Leitores de Mulhere Arma Com Guitarra Espanhola.

terça-feira, 4 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


«O poema diz: Há pombos esquecidos nas estátuas desta cidade naufragada. Mastros de sombra escrevem o teu nome e em cada letra reconheço a madrugada. Mulheres e homens, enlaçados de cansaço, dormem um sono fundo, com raízes. Das margens desse sono se levantam as pedras das palavras que não dizes. Foge o mar dos meus dedos entre a noite, e a noite é uma canção que te procura. Nos meus olhos ardem estrelas encharcadas que rodeiam de azul a tua altura. Cada esquina é um cais à tua espera. Faróis e candeeiros chamam por ti. Como um sonho deslizo e permaneço na rua da janela onde te vi. Finalmente os pombos largados, partindo desta estátua que tu és».

Dinis Machado em O Que Diz Molero

Legenda; não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


O real já se sabe o que é: tropeça-se nele; o imaginário é o resto onde cabe tudo.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas

Legenda: fotograma de Tree of Life de Terence Malik

domingo, 25 de dezembro de 2016

O QUE RESTA DO MEU SONHO AMERICANO


Hoje, dia de Natal (que notícia mais estranha, ouvida a olhar para o pinheiro), morreu a alegria ela mesmo, a melancolia ela mesmo, a esperança ela mesmo, a geometria exacta do lirismo: morreu Charlie Chaplin. Realmente, só faltava esta: morrer o Chaplin. Não era possível, realmente, descobrir notícia mais interessante, realmente, para dar no dia de Natal, do que nos virem dizer que morreu o Chaplin. O que vale, menino, é que já nada nos surpreende.
Cá por mim, íntimo de Charlot até à última costela, que passei com ele as passas do Algarve, já nem ligo. O meu amigo Charlie, ninguém o mata. É o matas. Seria matar esta gargalhada que ainda hoje dou, esta fraternidade de estar de pé, para estar de pé. Nisso, sou intransigente. Ninguém mata o Charlot porque não quero. Ninguém mata as luzes da cidade, ninguém mata as quimeras de oiro.
Estou aqui para defender esta ideia, defendê-la contra a morte. Nem que tenha de pedir a pistola emprestada ao Bogart, nem que tenha de não sei quê.
Porque é isto que resta do meu sonho americano.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas