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quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

PARA GANHAR UMAS COROAS!...

2 de Julho de 1968

Depois da extinção dramática da Sociedade de Escritores apareceu no mercado uma edição clandestina dos contos de Luandino Vieira (impressos no Brasil como constava do livro). A pedido da mulher do escritor, condenado a 14 anos de cadeia, o advogado Pires de Lima queixou-se da falsificação à Judiciária e esta acabou por descobrir que o livro havia sido secretamente editado em Lisboa pelo dono de uma tipografia - ´pasmo dos espantos maiores! – por um inspector da Pide!

Inquirido pelo Dr. Pires de Lima das razões do facto, o falsificador explicou:

- Foi para ganhar umas coroas!

A mulher do Luandino que se encontra tuberculosa. Pede 200 contos de indemnização.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume V

sábado, 11 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES

No dia 28 de Maio, às 11 horas, um grupo de escritores entregou no Ministério da Educação Nacional o seguinte documento:

Exmo Senhor Ministro da Educação Nacional

Contra a extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores e contra a campanha de descrédito que pretende desvirtuar a independência e a isenção dessa Sociedade, os escritores abaixo assinados vêm solenemente protestar perante V. Exa. E declarar que são inteiramente solidários com o comportamento digníssimo assumido pela Direcção da Sociedade e com o júri escolhido pela unanimidade dos corpos gerentes eleitos em 1965, que de acordo com os estatutos e a tendendo a um critério meramente estético, concedeu o Grande Prémio de Novelística de 1964 ao livro “Luuanda”. Tal critério meramente estético foi, de resto, o que informou outros júris na atribuição de prémios a diversas obras do mesmo autor, e até ao livro “Luuanda”, agora galardoado pela Sociedade Portuguesa de Escritores.
Com efeito, já em 1961, 1962, 1963 e em 1964, textos de Luandino Vieira foram respectivamente premiados pela Sociedade Cultural de Angola (1º Prémio do Conto), pela Casa dos Estudantes do Império (1º Prémio João Dias) pela Associação dos Naturais de Angola – que neste momento tanto se insurge contra a atribuição do prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, (1º e 2º Prémios de Conto) e, ainda há poucos meses, o 1º Prémio Mota Veiga. O facto destas instituições terem considerado exclusivamente o valor estético da Obra de Luandino Vieira e a circunstância muito significativa de o livro agora laureado pela Sociedade Portuguesa de Escritores ser exactamente o mesmo que em 1964 obteve, em Angola, o referido Prémio Mota Veiga, estando já condenado e preso o seu autor, reforçam sem dúvida a idêntica posição do júri do Grande Prémio de Novelística. Sendo assim, e dado que nunca foi levantado acerca daqueles prémios qualquer protesto relacionado com a conduta cívica de Luandino Vieira, nem extinta nenhuma das entidades que lhos concedeu, é licito presumir que a extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores manifesta estar ela a ser vítima de medidas especiais de discriminação cultural.
Os signatários exprimem a sua veemente repulsa pelo atentado à liberdade do espírito patente na campanha tendenciosa empreendida contra a Sociedade Portuguesa de Escritores. Solicitam portanto a V. Exª a reabertura da mesma sociedade e a garantia de que os membros do júri não serão sujeitos a pressões de qualquer natureza. Parece-lhes também inteiramente justo e necessário que V. Exª mande proceder a um inquérito rigoroso sobre os desacatos praticados na sede da Sociedade Portuguesa de Escritores por um grupo de indivíduos que deverão ser responsabilizados pelos prejuízos materiais e morais resultantes da sua repugnante acção
."


O documento está assinado por 161 escritores portugueses.


Dias antes, já os escritores-capachos-do-regime se tinham apressado a apresentar as suas demissões de associados da Sociedade Portuguesa de Escritores.


Gente menor, obviamente,


Alguém conhece Maria do Carvalhal?


Mas em “A Voz” de 23 de Maio de 1965 lia-se esta notícia:


“A escritora D. Maria do Carvalhal (D. Maria dos Prazeres Carvalhal), ao tomar conhecimento dos motivos por que foi mandada encerrar a sede da Sociedade Portuguesa de Escritores, pediu telegraficamente a sua demissão de sócio daquela colectividade.”


Do documento-protesto não consta o nome da escritora Agustina Bessa Luís.


José Gomes Ferreira no III volume dos “Dias Comuns” dá-nos uma pista:


«Quando da dissolução da Sociedade Portuguesa de Escritores, a Sophia de Mello Breyner pediu-lhe a assinatura para o natural protesto dos escritores.
Como já se calculava, a Agustina Bessa Luís recusou. Com uma carta modelar de quem queria fingir que não recusava.
A Sophia leu-ma. E não resisti a dizer-lhe (ou a pensar que lhe dizia):
-Mande-a encaixilhar e pôr na parede. É um auto-retrato triste de quem não quer ter perfil.»

Texto publicado em 23 de Maio de 2010.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Vida e Obra de José Gomes Ferreira

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: José Cândido
Livraria Bertrand, Lisboa, Março de 1975

Encontrava-se este livro terminado há meses quando se deu o golpe militar de 25 de Abril, que pôs termo a quase meio século de Ditadura fascista e de acéfalo salazarismo. Pareceu-me então que a obra concluída necessitaria de ser totalmente refeita, já que a Censura acabava por fim de ser «arrolhada», e eu podia agora «desarrolhar» o manuscrito. A Mesa Censória era obviamente a mesma com que tinha velhas contas a ajustar, a mafia que tantas vezes pessoalmente enfrentara em largas discussões com os reformados coronelíferos capangas dela, em especial na militantíssima primeira metade da década de 60 (começara a Guerra em África), em que eu via os meus artigos para a Seara Nova, ou Diário de Lisboa, ou Jornal de Letras e Artes ou Jornal de Notícias (que não havia mais jornais que me aceitassem a prosa) reduzidos a nada, ou a uma fracção, quando, mercê dos cortes estratégicos dos ressuscitados inquisidores do Santo Ofício, a coisa não era ainda pior, pois que amputações bem calculadas transformavam o que já não seria brilhante em charadas onde fosse visível a inarticulação lógica quando não a burrice do escriba.
Os diálogos (?) com os Mercenários da Rolha não tive, porém, que continuá-los depois de 1965, ano da atribuição do Grande Prémio da Novela da Sociedade Portuguesa de Escritores a Luandino Vieira, facto que me levaria a mim, o Augusto Abelaira e o Manuel da Fonseca a um estágio forçado no Forte de Caxias, ao encerramento da Sociedade por decreto do Estado Novo, e ao desventurado autor de Luunda a nunca mais ver a cor aos 50 contos do prémio, quando já não bastasse a repressão mais sinistra de lhe ser prolongada a pena que então cumpria na paradisíaca estncia do Tarrafal, de himmleriana menória.

(Da Introdução de Alexandre Pinheiro Torres)

domingo, 21 de abril de 2019

O MEU ISOLAMENTO


Um Postal Sem Selo por aqui publicado, recolhia uma frase de Agustina Bessa-Luís:

«Houve gente bronca que me relacionou, a torto e a direito, com a ditadura. Talvez por eu não gostar de manobras políticas e ter demasiado talento, um desperdício numa mulher, como ainda hoje se pensa.»

Bronco que sou, no generalizado dizer de Agustina, terei que adiantar que o que sempre me impediu de ser um seguidor da escritora é a parte política que a envolve, principalmente no tempo da ditadura.

Eduardo Guerra Carneiro era admirador da prosa de Agustina mas deixou escrito que num boletim de voto jamais colocava a cruz no mesmo quadrado onde a escritora colocava o seu.

José Gomes Ferreira, no 3º volume dos seus Dias Comuns, entrada do dia 23 de Junho de 1967, conta assim:

«Quando da dissolução da Sociedade Portuguesa de Escritores a Sophia de Mello Breyner pediu-lhe a assinatura para o natural protesto dos escritores.

Como já se calculava, a Agustina Bessa-Luís recusou. Com uma carta modelar de quem queria fingir que não recusava.

A Sophia leu-ma. E não resisti a dizer-lhe (ou a pensar que lhe dizia):

- Mande-a encaixilhar e pôr na parede. É um auto-retrato triste de quem não quer ter perfil.»

Óbvio que cada um tem a liberdade de ser o que muito bem entenda: direita, centro, esquerda.

Mas ensinaram-me que ser neutro, convencido que se abrange todos os lados, é que nunca.

Agustina Bessa-Luís, em Caderno de Significados tem uma entrada a que chama «O Meu Isolamento»:

«O meu isolamento teria sido mais fácil se me tivesse situado à esquerda ou à direita duma forma simplista. As pessoas admitem a solidão como efeito dum fracasso e não dum mérito reconhecido. Ser de esquerda ou de direita equivale a não saber libertar-se da sua personalidade. O saber dum homem ou duma mulher face à comunidade depende da medida em que os seus sentimentos e os seus actos são aplicados ao desígnio de fazer progredir os outros no caminho do conhecimento. Tento proceder assim. Por acaso cruzo a esquerda ou a direita ao fazer este percurso. Mas não entro numa classificação tão sumária.»

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES


A pedido de um leitor deste blogue, reproduz-se o Abaixo-Assinado que, no dia 28 de Maio de 1965, um grupo de personalidades entregou no Ministério da Educação Nacional, de protesto contra o assalto e extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores

quarta-feira, 27 de maio de 2015

EXTINTA A SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES


Maio de 1965.

Salazar mandou encerrar e destruir a Sociedade Portuguesa de Autores.

O pretexto foi a atribuição do Grande Prémio da Novela a Luandino Vieira pelo seu livro Luuanda.

Por aqui, acedendo à etiqueta Sociedade Portuguesa de Escritores, encontrarão mais pormenores sobre o miserável atentado.

Numa entrada, datada de 20 de Julho de 1968, José Gomes Ferreira, no 5º volume dos seus DiasComuns, regista o seguinte episódio:

O Nikias trouxe-me a notícia de que a Censura requisitou para ler (sabemos o que isso significa) a Apresentação do Rosto de Herberto Helder – exactamente o que o Carlos e eu tanto temíamos desde a saída do livro. E vai, por certo, mandar apreendê-lo.
É pena! ( Embora considere a Apresentação do Rosto inferior ao Retrato em Movimento. Pelo menos mais apressado.) É pena porque me custa não ver devidamente recompensados os actos de coragem. E nesta terra, destruir certos tabus sexuais literários ainda sabe a desafio de barricadas.
E aqui temos o Herberto Helder enrodilhado num sarilho contra si mesmo. O pobre Herberto Helder que, quando o Abelaira, o Manuel da Fonseca, o Pinheiro Torres, o Gaspar Simões e a Fernanda Botelho estiveram presos, se negou a assinar o débil protesto contra a dissolução da Sociedade Portuguesa de Escritores. Para não perder o emprego na Emissora – diz-se para aí nos Cafés deste país estranho de homens estranhos!
Também corre que a atitude de Herberto Helder, durante o julgamento por abuso de liberdade de imprensa do editor de um livro de Sade, não foi irrepreensível.
Bem. Já sabemos! Como cidadão o Helder pouco vale, nem quer valer, talvez. Sorri do alto do desdém de quem toca todos os dias no frio dos esqueletos.
Mas não escrevi eu já uma vez que o poeta tem deveres mais profundos e terríveis como poeta do que como cidadão?


Legenda: recorte do matutino, monárquico, católico e salazarista, A Voz de 22 de Março de 1965.

domingo, 6 de julho de 2014

DISTÂNCIAS...


Num qualquer dia, talvez numa entrevista, não tenho nenhuma referência, Agustina Bessa Luís disse de Sophia de Mello Breyner Andresen:

Nascemos para nos admirarmos e não para ser amigas uma da outra.

Tenho com Agustina lacunas várias que não sei se terei tempo de modificar, ou vontade para o fazer.

De Agustina, Eduardo Guerra Carneiro disse que jamais coincidiriam no quadradinho de voto eleitoral em que se desenha uma cruz, mas admirava-lhe a escrita.

O meu problema com Agustina é político, mas o tempo político não pertence ao pós-25 de Abril, vem de antes, dos tempos da ditadura.

Algo que, por exemplo, José Gomes Ferreira, no 3º volume dos seus Dias Comuns, entrada do dia 23 de Junho de 1967, conta assim:

Quando da dissolução da Sociedade Portuguesa de Escritores a Sophia de Mello Breyner pediu-lhe a assinatura para o natural protesto dos escritores.

Como já se calculava, a Agustina Bessa Luís recusou. Com uma carta modelar de quem queria fingir que não recusava.

A Sophia leu-ma. E não resisti a dizer-lhe (ou a pensar que lhe dizia):

- Mande-a encaixilhar e pôr na parede. É um auto-retrato triste de quem não quer ter perfil.

domingo, 3 de abril de 2011

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


No dia 20 de Maio de 1965, a ditadura de Salazar extinguia a Sociedade Portuguesa de Escritores, um crime aqui referenciado.
Este é um recibo de quotas do escritor Manuel Agra referente ao mês de Dezembro de 1961. Manuel Agra era o pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca, também conhecido por Mário Castrim.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

AINDA A SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES


Em Maio andei por aqui a relatar os acontecimentos que desembocaram na extinção, pela PIDE, da Sociedade Portuguesa de Escritores.

No utilíssimo bloguue “Frenesi livros”, deparo com a carta que o escritor Manuel Mendes endereçou a Joaquim Paço d’ Arcos, a propósito de A Dolorosa Razão de Uma Atitude, que define bem a estirpe e a verticalidade dos intelectuais que se opunham ao regime.

A Frenesi livros” tem à venda, por 175,00 euros, uma edição de Luuanda de Luandino Vieira, A Dolorosa Razão de Uma Atitude de Joaquim Paço d’Arcos, que tem junta a carta de Manuel Mendes:

«Ex.mo Senhor
Joaquim Paço d’Arcos
Ex.mo Senhor:
O meu primeiro impulso foi devolver-lhe, indignadamente, o pasquim que teve o atrevimento de me enviar, o que desde logo considerei como insultuoso. Todavia quis reflectir, ponderar nas minhas razões, evitando obedecer a movimento acaso inconsiderado, mas tentei ler segunda vez essa protérvia e não consegui: repugnou-me. V. Ex.cia devia, como as ninfas de Camões, tapar ao menos com um ligeiro cendal as pudibundas partes. É indecoroso o que exibe.
No seu acrisolado patriotismo – Heróis do mar!... –, V. Ex.cia mistura, desavergonhadamente, a Sociedade Transzambezia Railways, de que é mui prestante delegado do Governo, com a Companhia Portuguesa de Escritores, a que presidiu com tão fina elegância mundana. Tenha juízo e não ande a fazer dos outros parvos.
Todos sabemos – e nas dores do espírito e da carne – que tal insolência só é possível a coberto da censura. Sem ela, estaria V. Ex.cia caladinho como um rato. Abotoe a braguilha, para decoro nosso. Lições de patriotismo, não está V. Ex.cia em condições de as dar, mas antes de as receber, se pode em verdade entendê-las. Era o que nos faltava. Medite, por exemplo, como se comportou com a guerra da Argélia o Sartre, e os restantes dos cento e dez intelectuais franceses que ousaram protestar como lhes competia. Mas isso é gente de coluna vertebral direita e com os atributos da virilidade no seu lugar. A guerra dá para morrer – não há horror maior! –, mas dá também a uns tantos para ganhar alegremente a vidinha – não há infâmia que se lhe compare! Tenha pelo menos uns laivos, já não digo de pudor, mas de cautela, e nunca mais se atreva a estender a mão a quem ofendeu e das veras da alma o detesta
Lisboa, 20 de Junho de 1965
Manuel Mendes»

quarta-feira, 26 de maio de 2010

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES (08)


Numa das suas primeiras sessões, a direcção da Associação Portuguesa de Escritores, deliberou constituir um grupo de trabalho que pormenorizasse a história da destruição da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Desconheço se esse projecto veio a ter concretização.

Continuo a pensar que a destruição da Sociedade Portuguesa de Escritores, nos seus mais sórdidos meandros, é uma história por fazer.

Desde o primeiro momento se tornou claro que, a atribuição do Prémio de Novelistica a Luandino Vieira, funcionou como o pretexto de que Salazar necessitava, não só para encerrar a Sociedade Portuguesa de Escritores como a destruição, por parte de um grupelho de pides e legionários, não só das instalações como de todo o património histórico e cultural que nela existia .

Tinha 20 anos por ocasião deste miserável crime.

Os documentos que aqui comecei a colocar, apenas têm o intuito de revelar um dossier de recortes que fui recolhendo, com muitas omissões, possivelmente imprecisões, ao longo dos tempos. Lembrar algo que, porventura, alguns tenham esquecido e outros desconhecem por completo.

No topo do post, a ilustração mostra a capa do primeiro número de “Loreto 13”, revista literária da Associação Portuguesa de Escritores.

Publicada em Janeiro de 1978, custava 40$00 e tinha como directora Maria Velho da Costa que, com estas palavras, fazia a apresentação da revista:

“Os lugares de intervenção especificamente literária escasseiam. O autor português, porém, após um relativo silêncio que muitos confundiram com vazios e outros sabiam ser escrever no chão e deixar-se inscrever pelas paixões da rua nesse texto que entoámos todos do post-25 de Abril, volta agora com relativa frequência aos livreiros. Mas os espaços colectivos onde debater, propor, expor, dar presença aos novos e estímulo aos de sempre, quase não há – poucas páginas literárias, apenas uma revista de periodicidade larga, outra mais que incerta.
Quanto à periodicidade e certezas desta, garantimos o que podemos – garanti-la aos sócios e público enquanto durara a verba e o mandato, lançá-la aberta a toda a escrita de qualidade, legá-la como coisa viva a quem depois de nós vier ocupar o espaço já rodado – LORETO 13.
Sempre é um endereço.”

terça-feira, 25 de maio de 2010

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES (07)

Aproveitando aquela floresta de enganos que ficou conhecida na história como “primavera marcelista”, Urbano Tavares Rodrigues escreveu no “República” de 28 de Outubro de 1968, um artigo em que falava da “urgente necessidade do restabelecimento da Sociedade Portuguesa de Escritores.”

O apelo teve eco e os escritores mobilizaram-se para que voltassem a ter uma casa que os representasse.

A 13 de Março de 1970 o “Diário De Lisboa” noticiava:

“Cerca de 125 escritores presentes (ou representados) numa reunião, ontem à noite, realizada na Casa do Alentejo, aprovaram unanimemente, na generalidade, o projecto de estatutos da Associação de Escritores Portugueses (ou Associação Portuguesa de Escritores: a escolha ficou deferida para final). “

Em 28 de Setembro de 1972 o “República” noticiava:

“A novel Associação Portuguesa de Escritores, cuja criação foi agora autorizada por despacho do Ministro da Educação Nacional, nasce ao fim de três anos de esforços e cerca de treze meses volvidos sobre a Assembleia-geral que determinou a sua formação. Nos fins prosseguidos sucede à Sociedade Portuguesa de Escritores, dissolvida em 1965”O escritor Manuel Ferreira diria:
“Foi ganha a penas a primeira batalha”.Na tarde de 13 de Abril de 1973, no 13º Cartório Notarial de Lisboa, à Rua das Portas de Santo Antão, quinze sócios oficializaram a fundação da Associação Portuguesa de Escritores.

A 7 de Junho desse mesmo ano, eram eleitos os primeiros corpos gerentes da Associação Portuguesa de Escritores.

Direcção:
Presidente: José Gomes Ferreira
Vice-Presidente: Manuel Ferreira
Vogais: Casimiro de Brito, José Saramago, Maria Velho da Costa, Pedro Tamen e Rogério Fernandes
Suplentes
Álvaro Guerra, António Modesto Navarro, Gastão Cruz, Isabel da Nóbrega, Maria Alberta Meneres, Maria Amélia Neto e Nuno Júdice
Assembleia-geral
Presidente: Sophia de Mello Breyner Andresen
Vice-Presidente: Alexandre Babo
Vogais: E.M. de Melo e Castro e Fernando Assis Pacheco
Suplentes: Eduardo Prado Coelho e Maria Isabel Barreno
Conselho Fiscal
Presidente: Faure da Rosa
Vogais: João Rui de Sousa e Mário Ventura
Suplentes: Armando da Silva Carvalho e Vasco Miranda

A 14 de Junho de 1973, em cerimónia realizada na Casa da Imprensa, tomavam posse, para o triénio 1973-1975, os Corpos Gerentes da Associação Portuguesa de Escritores.

“Devo declarar que considero a aceitação do cargo em que fui agora empossado o primeiro acto verdadeiramente poético da minha vida.”, disse José Gomes Ferreira no seu discurso de tomada de posse.

Só um poeta ousaria ser presidente de uma associação sem sede, sem dinheiro, sem nada.
A sede da Associação situou-se na Rua do Loreto, num 2º andar, bem por cima do velho piolho que toda a Lisboa conhecia: o "Loreto"

segunda-feira, 24 de maio de 2010

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES (06)



Petição de Recurso apresentada ao Supremo Tribunal Administrativo.

Tentativa para que fosse reparada a decisão ilegal e injusta do encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores.

A petição foi apresentada pelo advogado Eduardo Figueiredo em nome da Sociedade Portuguesa de Escritores, Jacinto do Prado Coelho, Joel Serrão, Matilde Rosa Araújo, Maria Judite de Carvalho, Álvaro Salema, João José Cochofel, Natália Nunes, Bernardo Santareno, Orlando da Costa, Egidio Namorado,

José Gomes Ferreira nos seus "Dias Comuns" Vol. II

24 de Fevereiro de 1967
Volto ao presente, por gosto de precisar de respirara vida, e reencontro a paisagem amarga de sempre com algumas notícias graves. Assim a Sociedade Portuguesa de Escritores foi definitivamente assassinada pelo Supremo Tribunal Administrativo, por meio de um acórdão injusto."

domingo, 23 de maio de 2010

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES (05)

28 DE MAIO DE 1965

No dia 28 de Maio, às 11 horas, um grupo de escritores entregou no Ministério da Educação Nacional o seguinte documento:

Exmo Senhor Ministro da Educação Nacional

Contra a extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores e contra a campanha de descrédito que pretende desvirtuar a independência e a isenção dessa Sociedade, os escritores abaixo assinados vêm solenemente protestar perante V. Exa. E declarar que são inteiramente solidários com o comportamento digníssimo assumido pela Direcção da Sociedade e com o júri escolhido pela unanimidade dos corpos gerentes eleitos em 1965, que de acordo com os estatutos e a tendendo a um critério meramente estético, concedeu o Grande Prémio de Novelística de 1964 ao livro “Luuanda”. Tal critério meramente estético foi, de resto, o que informou outros júris na atribuição de prémios a diversas obras do mesmo autor, e até ao livro “Luuanda”, agora galardoado pela Sociedade Portuguesa de Escritores.
Com efeito, já em 1961, 1962, 1963 e em 1964, textos de Luandino Vieira foram respectivamente premiados pela Sociedade Cultural de Angola (1º Prémio do Conto), pela Casa dos Estudantes do Império (1º Prémio João Dias) pela Associação dos Naturais de Angola – que neste momento tanto se insurge contra a atribuição do prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, (1º e 2º Prémios de Conto) e, ainda há poucos meses, o 1º Prémio Mota Veiga. O facto destas instituições terem considerado exclusivamente o valor estético da Obra de Luandino Vieira e a circunstância muito significativa de o livro agora laureado pela Sociedade Portuguesa de Escritores ser exactamente o mesmo que em 1964 obteve, em Angola, o referido Prémio Mota Veiga, estando já condenado e preso o seu autor, reforçam sem dúvida a idêntica posição do júri do Grande Prémio de Novelística. Sendo assim, e dado que nunca foi levantado acerca daqueles prémios qualquer protesto relacionado com a conduta cívica de Luandino Vieira, nem extinta nenhuma das entidades que lhos concedeu, é licito presumir que a extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores manifesta estar ela a ser vítima de medidas especiais de discriminação cultural.
Os signatários exprimem a sua veemente repulsa pelo atentado à liberdade do espírito patente na campanha tendenciosa empreendida contra a Sociedade Portuguesa de Escritores. Solicitam portanto a V. Exª a reabertura da mesma sociedade e a garantia de que os membros do júri não serão sujeitos a pressões de qualquer natureza. Parece-lhes também inteiramente justo e necessário que V. Exª mande proceder a um inquérito rigoroso sobre os desacatos praticados na sede da Sociedade Portuguesa de Escritores por um grupo de indivíduos que deverão ser responsabilizados pelos prejuízos materiais e morais resultantes da sua repugnante acção
."


O documento está assinado por 161 escritores portugueses.

Dias antes, já os escritores-capachos-do-regime se tinham apressado a apresentar as suas demissões de associados da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Gente menor, obviamente,

Alguém conhece Maria do Carvalhal?

Mas em “A Voz” de 23 de Maio de 1965 lia-se esta notícia:

“A escritora D. Marai do Carvalhal (D. Maria dos Prazeres Carvalhal), ao tomar conhecimento dos motivos por que foi mandada encerrar a sede da Sociedade Portuguesa de Escritores, pediu telegraficamente a sua demissão de sócio daquela colectividade.”

Do documento-protesto não consta o nome da escritora Agustina Bessa Luís.

José Gomes Ferreira no III volume dos “Dias Comuns” dá-nos uma pista:

“Quando da dissolução da Sociedade Portuguesa de Escritores, a Sophia de Mello Breyner pediu-lhe a assinatura para o natural protesto dos escritores.
Como já se calculava, a Agustina Bessa Luís recusou. Com uma carta modelar de quem queria fingir que não recusava.
A Sophia leu-ma. E não resisti a dizer-lhe (ou a pensar que lhe dizia):
-Mande-a encaixilhar e pôr na parede. É um auto-retrato triste de quem não quer ter perfil.”

sábado, 22 de maio de 2010

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES (04)

22 DE MAIO DE 1965

Deste modo, o “Diário de Notícias” não deixava de referir a louvável decisão do governo ao encerrar a Sociedade Portuguesa de Escritores.

“Era inevitável, A atribuição do Prémio, por um júri da Sociedade Portuguesa de Escritores, a Luandino Vieira, pseudónimo de um individuo preso em Luanda, a cumprir pena de 14 anos por crime de terrorismo, provocou a mais viva repulsa de todos os portugueses. Na Metrópole como no Ultramar, e de mais sentida em Luanda, que justamente considerou a decisão do júri daquela Sociedade como um ultraje à memória dos mortos e à bravura dos vivos que se deram e dão pela Pátria. De todos os lados e dos mais diferentes sectores da vida portuguesa nos chegam as manifestações da repulsa de quem apenas sabe cultivar sentimentos patrióticos.”

Uma notícia de “Ultima Hora”, publicada no jornal “ Voz”, dava conta:

“Ontem á noite, numeroso grupo de estudantes portugueses e antigos combatentes do Ultramar promoveram grande manifestação em frente da Sociedade Portuguesa de Escritores, como protesto conta a concessão de um prémio a um terrorista. Os jovens acabaram por penetra no edifício e espatifaram o que restava da extinta Sociedade Portuguesa de Escritores.”

sexta-feira, 21 de maio de 2010

SOCIEDADE PORTUESA DE ESCRITORES (03)



21 DE MAIO DE 1965

"Traiçaõ Premiada" era o título do Editorial do jornal “A Voz”, apoiante do regime.
Começava assim:

“Não tenhamos ilusões. Tudo são pretextos para nos desarmar doutrinariamente, e não para insinuar que a intelectualidade e o talento estariam ao serviço de ideias contrárias”

E assim terminava:

“O livro premiado não tem efectivamente categoria literária. É sofrível, entre os 10 e os 12 valores. Há muito disso por cá e não acreditamos, ninguém acredita, que o prémio não tenha tido objectivo político. Entretanto, o Mundo irá criando a imagem dum mártir, dum “grande escritor” preso nos cárceres dos “colonialistas”. Chessman foi também um vil assassino, e de todo o mundo comunista e afins surgiram mensagens para o livrar da cadeia eléctrica. Ao laureado e à Sociedade Portuguesa de Escritores bastarão, para os condenar, o sangue dos nossos soldados, as lágrimas das mães portuguesas, o sentimento ancestral da Grei. A traição foi premiada”.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES (02)

20 DE MAIO DE 1965

Despacho do Ministro da Educação Nacional, I. Galvão Telles:

“Considerando que a Sociedade Portuguesa de Escritores, através de júri designado pelos seus corpos gerentes, atribuiu o Grande Prémio de Novelistica a um indivíduo condenado criminalmente a 14 anos de prisão maior por actividades de terrorismo na Província de Angola;
Considerando que, apesar de tornadas do domínio público a identidade e a situação do mesmo indivíduo, nem o júri revogou aquela decisão nem os corpos gerentes a repudiaram;
Considerando, com efeito, que tal repúdio se não contém, nem mesmo de forma implícita, no comunicado remetido pela Direcção da Sociedade à Imprensa e de que a mesma direcção me enviou cópia;
Considerando a gravidade excepcional dos factos referidos que, além do mais, profundamente ofendem o sentimento nacional, quando soldados portugueses tombando no Ultramar vítimas do terrorismo de que o premiado foi averiguadamente agente;
Considerando que a situação exposta é legalmente justificativa de extinção da Sociedade em referência;
Determino, nos termos do Artº 4º do Decreto-Lei nº39 660, de 20 de Maio de de 1954, a extinção da Sociedade portuguesa de Escritores."


No comunicado da Direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores, referido no despacho do ministro da Educação poderia ler-se:

“A Direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores desconhecia inteiramente a identidade do autor do livro “Luuanda”, subscrito pelo pseudónimo de Luandino Vieira”.

A finalizar:


“Como resulta não só do que anteriormente se disse mas também das directrizes a que, estatutariamente, obedece a Sociedade Portuguesa de Escritores, a atribuição do “Grande Prémio de Novelistica” baseou-se exclusivamente no valor literário da obra, de modo nenhum, significando um juízo referente às actividades de que o autor é acusado.”

quarta-feira, 19 de maio de 2010

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES (01)



 19 DE MAIO DE 1965

A Sociedade Portuguesa de Escritores atribuiu os prémios “Camilo Castelo Branco," “Grande Prémio de Novelística e “Grande Prémio de Ensaio”, - segundo foi hoje comunicado – respectivamente a Isabel da Nóbrega, pela sua obra “Viver Com os Outros”; Luandino Vieira, pelo seu livro “Luuanda”; e Armando de Castro pelo seu livro “A Evolução Económica de Portugal – Sec. XII a XV”.

O "Prémio Camilo Castelo Branco-64", no valor de 50 contos, é instituído pelo Grémio Nacional dos Editores e Livreiros e patrocinado pela Sociedade Portuguesa de Escritores.
O júri era constituído pelos escritores António Coimbra Martins, José Palla e Carmo, José Régio, Mário Dionísio e Óscar Lopes.

O “Grande Prémio de Novelística”, no valor de 50 contos, o mais alto galardão para a novela portuguesa, foi instituído pela Sociedade Portuguesa de Escritores com o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian.

O júri era constituído pelos escritores Alexandre Pinheiro Torres, Augusto Abelaira, Fernanda Botelho, João Gaspar Simões e Manuel da Fonseca.

O “Grande Prémio de Ensaio”, também no valor de 50 contos, foi instituído pela Sociedade portuguesa de escritores, com o patrocínio da Gulbenkian.



O júri era constituído pelos escritores Augusto Saraiva, Castelo Branco Chaves, José Cardoso Pires e Teixeira da Mota.”

O “Diário de Lisboa”, noticiando a atribuição dos prémios, comentava:

“Isabel da Nóbrega e Luandino Vieira são, no panorama literário, escritores com posição de relevo, entre os valores mais expressivos da modernidade, cuja obre os impõe por méritos reais, agora consagrados a tão alto nível, do mesmo moído que é distinguido o valor, como economista de robusta estrutura, de Armando Castro, um nome firmado pelas capacidades do historiador da economia nacional."

No dia 20 de Maio de 1965 “A Voz”, em telegrama da ANI, denunciava que Luandino Vieira era o pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça e que fora condenado em 22 de Junho de 1963, num tribunal de Luanda, a catorze anos de prisão, por crimes de terrorismo praticados na província de Angola.

Legenda:
"Luuanda", Editora e Distribuidora "Eros", Ltda, Belo Horizonte, 1965
Recorte do jornal "República" de 19 de Maio de 1965, noticiando a atribuição dos prémios da Sociedade Portuguesa de Escritores