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sexta-feira, 27 de junho de 2025

A MEMINA DANÇA?


Lembranças do José Duarte, lembrança dos tempos em que havia programas de rádio.

Quando soube da morte do José Duarte, procurei este papel. Não o encontrei. Apareceu agora, quando procurava algo completamente diferente:

«Por um dia, um dia que seja, mande a televisão dar uma curva ao bilhar grande. Sente-se num poltrona e ouça rádio. Aos domingos das dez à meia-noite, na Rádio Comercial, «A Menina Dança?»

Mas é travessa a menina, pois só dança com o José Duarte, para desespero nosso.

Músicas dos anos 30, 40, 50. A música das «big bands», as orquestras dos «Dias da Rádio». Também as canções do Sinatra, como não podia deixar de ser. Músicas ao som das quais apanhei grandes «tampas» que, de imediato, afogava em taças de vinho branco fresquinho a cinco c’roas cada que gelavam dentro dum grande alguidar de zinco, repleto de blocos de gelo, nos bailes de bombeiros da Trafaria. Aquilo é que eram bailes. Com as avós, as mães, as tias, sentadas em cadeiras de madeira, rigorosamennte, vigiando os passes das meninas, as mãos do dançante. Com damas ao bufete e «swing».

Torne-se, pois, diferente em cada noite de domingo, e enquanto os outros vêem televisão, ouça rádio. E dance.

- A MENINA DANÇA», Rádio Comercial, FM Stereo, 97,4, aos domingos, 22,00/24,00 Horas.

sábado, 12 de abril de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Ao contrário da música clássica, o jazz não abundava lá por casa.

Lembro que, volta e meia, o meu pai sentava-se na Biblioteca da Casa e ouvia, religiosamente, um disco de Paul Robeson, mas será um tanto ou quanto abusivo colocar Robeson no jazz, antes na folk, e não deixar de lembrar que, acima de tudo, o importante estava na luta pelos direitos humanos dos negros americanos.

Ouvia os 5 Minutos Jazz do José Duarte, na 23ª Hora da Rádio Renascença, fui a 2 Concertos de Jazz em Cascais, no Sindicato da Marinha Mercante Aeronavegação e Pescas, conheci o Luís Villas-Boas e aproveitei a boleia para algo mais saber de jazz, pois era muito pouco o que sabia. Vagamente convivi com o José Duarte no British-Bar e aproveitei para me chegarem mais dicas Jazzisticas.

Np British fiquei a saber de um programa na Antena 1 que se transmitia aos domingos: A Menina Dança?

Conta o Zé Duarte:

«Fui convidado por Jaime Fernandes. Trabalhávamos na Rádio Comercial. Tinha eu escrito um texto para "O Jornal" sobre Irving Berlin, grande compositor norte-americano". Jaime Fernandes gostou e ficou admirado de meu saber sobre aquela música. Convidou-me para fazer um programa sobre "standards". Inventei então "a menina dança?" que é um programa semanal dedicado a grandes nomes vocais da música norte-americana e a grandes compositores do "American Song Book".»

Maravilha das maravilhas.

«Tudo acontece no salão de uma sociedade recreativa. É um baile ao som de canções. Como as canções devem ser: cheias de «swing», a puxar o pé para a dança. Ouvem-se os «crooners» ou  - Bing Crosby, Dean Martin, Tony Bennett – uns mais apaixonados, outros menos, ouvem-se outras vozes que fizeram as músicas da América. Ouve-se Sinatra e as suas histórias. Aos domingos à noite, quando a Menina encontra o seu par, são as grandes orquestras que se tocam, num qualquer baile de despedida; e são as histórias à margem do tempo que se relatam. O programa realizado por José Duarte podia ser o cenário para os «Dias da Rádio» de Woody Allen. Mas não é. No que diz respeito a rádio, vai mais longe.

«A Menina Dança» oferece um dos mais eficazes exercícios do uso da linguagem radiofónica: diálogos a uma voz definem cenários; afastam e atraem. Informam. E fazem com que a menina, de facto, exista. Ela é a personagem que ganha forma, a cada instante. Do desconhecimento da música passa ao espanto; e deste, ao saborear da descoberta. Mas isso não lhe basta: a Menina «troca as voltas», comanda o jogo e, às vezes, transforma num inferno a vida do seu par: a Menina torce um pé, a Menina pinta o cabelo de louro. A Menina é a Gata Borralheira que parte à meia-noite, abandonando o seu par.»

A menina, mais as suas danças, deixaram-nos a 30 de Dezembro de 2012.

Com José Duarte toda a vida tem a ver com swing.

Perguntaram-lhe:

- Portugal tem swing?

- Não! Somos uma maioria quadrada.

Para encontrar o indicativo para 5 Minutos Jazz, José Duarte vasculhou a enorme quantidade de discos que tinha lá por casa. Acabou por descobrir Lou’s blues tocado por Lou Donaldson.

É a música desta manhã. Também «The One I Love Belongs To Somebody Else» que José Duarte, numa carta que possivelmente Sinatra nunca leu, considerou ser esta canção «uma definitiva, perfeita obra-prima.



domingo, 6 de abril de 2025

À LUPA

«Cinema e jazz, artes do século, muito paralelas, à espera do infinito.

O que é pois certo é que o cinema nunca foi ao jazz, enquanto todo o jazz já foi ao cinema, até TeteMontoliu, pianista cego, foi ver Emmanuelle.»

José Duarte em Jazzé e Outras Histórias

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

VELHOS RECORTES


 

A Abril em Maio foi uma das muitas actividades que Eduarda Dionísio desenvolveu, ao longo da sua vida, no campo cultural. A Eduarda Dionísio deixou-nos em Maio de 2023 e como último grande trabalho deixou-nos a Casa da Achada onde se encontra o espólio, devidamente tratado e catalogado, de seu pai, o pintor e escritor Mário Dionísio.

A Wikipédia diz-nos o que foi a Abril em Maio:

«A Abril em Maio é uma associação cultural fundada em 1994, por ocasião dos vinte anos do 25 de Abril. Materializou, ao longo destes anos (1994-2005), um projecto singular de associativismo e de intervenção cultural que se inspirou na memória do movimento popular que marcou a revolução (em especial na sua dimensão emancipatória), tendo vindo a afirmar-se desde a sua fundação como uma alternativa às lógicas culturais de mercado. Daí que na declaração de princípios desta associação se leia: "À Abril em Maio não interessa o cultural em que a cultura se transformou, mas a cultura enquanto conjunto de saberes, de saberes-fazer e de saberes-viver, fundado numa prática colectiva em que os indivíduos e os grupos são actores da sua própria existência. À Abril em Maio interessam, sim, os produtos culturais (e muitos deles são arte) que, pelo modo como são produzidos e reproduzidos e o valor de uso que podem ter, resistem à instrumentalização política e económica. Aqueles que, de uma maneira ou de outra veiculem ideais de solidariedade e cooperação, visando a transformação, e que combatam o autoritarismo, a ideologia competitiva, o discurso dominante e os ditames do mercado. À Abril em Maio interessa o trabalho dos intelectuais e dos artistas que, em vez de aceitarem, aprovarem e aplaudirem a ordem estabelecida, a contestam, a criticam e tentam combatê-la.»

Estes dois velhos recortes são textos de José Duarte e Manuel Gusmão pedindo desculpas por não conseguirem mais colaboração para a Abril em Maio. Creio que também existe um texto do Vitor Silva Tavares sobre os mesmo pedido de colaboração da Eduarda, mas, apesar de voltas e mais voltas, não o encontro.

quinta-feira, 21 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


            Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                     João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

Abrimos a viagem de hoje com José Mário Branco e a recordação do seu primeiro LP.

Mudam-se os Tempos Mudam-se as vontades

Arranjos e direcção Musical José Mário Branco
Capa de Armando Alves e José Rodrigues
Gravação em 8 pistas no “Strawberry Studio” no Chateau d’ Hérouville.
Editado em 1971.

Lado 1


Abertura – Gare d’Austerlitz
Cantiga para pedir dois tostões – Sérgio Godinho/J.M. Branco
Cantiga do Fogo e da Guerra – Sérgio Godinho/J.M. Branco
O Charlatão – Sérgio Godinho
Queixa das Jovens Almas Censuradas – Natália Correia/ J.M. Branco

Lado 2


Nevoeiro – José Mário Branco
Mariazinha – José Mário Branco
Casa Comigo Marta – Sérgio Godinho/J. M. Branco
Perfilados de Medo – Alexandre O’ Neill/J.M. Branco
Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades – Luís de Camões/J.M. Branco e Jean Sommer

Bob Dylan já nos avisara que os tempos estavam a mudar.
Foi quando chegou José Mário, pela pena de um tal Luís de Camões, a dizer-nos que todo o mundo é composto de mudança. As vontades também. As vontades de José Mário Branco na luta contra o medo.

Só alguém possuído de uma fina sensibilidade, decide colocar, como faixa primeira do seu primeiro disco, o som da chegada de comboios na Gare d’Austerlitz, vozes, ranger de rodas nos carris, um acordeão em fundo, marcando vincadamente as vidas dos que saiam de um país cinzento em busca de uma qualquer nesga de sol.

 Havia também os que, a monte, saltavam fronteiras correndo todos os perigos.

 Muitos encontraram a morte.

 Miguel Torga, no seu Diário, lembra o aviltamento humano desses portugueses que se aventuraram e, na maior parte dos casos ficavam nas mãos de gente sem escrúpulos.

«- Entregas-me as peles em Moiros.
- A que horas?
-Às onze”»

As «peles», adianta Torga, eram os emigrantes clandestinos. 

 Este álbum de José Mário Branco, é uma peça admirável.

Nas badanas do disco escreveu José Duarte:

«primeiro em afirmações definitivas

num jornal cor de rosa

depois em cantigas do amigo dom dinis

a seguir com canções

em circuito concêntrico

por fim numa esplanada de paris

assim conheci josé mário branco

estamos perante um mural sonoro

do Portugal das últimas gerações

um mural onde as cores

são a mordacidade a caricatura

uma simbologia transparente

com tipos populares uma grande romaria

viva e em movimento

um mural onde os temas são a emigração

e o regresso

as guerras e os senhores

a juventude e as prendas

a esperança sem futuro

o medo e os fantasmas

o tempo e as novidade

tal como em perfilados de medo

a linha quebrada de sons electrónicos

é uma interferência uma ameaça

na arquitectura vertical e obstinada

do arranjo do medo

assim esta obra combate uma tradição

onde a palavra é o som mais inteligível

assim se encerra a fase confusa

da nova música portuguesa

assim se inaugura uma época nova

onde também cantar bem e compor melhor

serão condições a exigir a canção útil

da afinação da palavra

à desafinação das cordas

à percussão das peles e teclas

à imaginação nos arranjos

à criação melódica à vocalização justa

aqui o circo foi desmantelado

com todas as ferramentas do som»

E nos tempos confusos e cinzentos, que, hoje, o nosso quotidiano enfrenta recordemos Natália Correia e o poema da Queixa das Almas Jovens Censuradas que deu uma enorme canção do José Mário que faz parte deste belo e histórico LP:


«Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céul
evado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte


Os jornais publicavam uma  uma nota da Secretaria de Estado da Informação e Turismo:

“Noticiaram alguns jornais estrangeiros terem sido presos cerca de 200 oficiais implicados na insubordinação verificada no Regimento de Infantaria 5.
A este propósito, esclarece um informador oficial do Departamento da Defesa Nacional que esse número não corresponde à realidade, visto terem sido detidos 33 oficiais cujas responsabilidades estão a ser averiguadas pelas autoridades militares competentes.”


Rui Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros, de visita ao Rio de Janeiro, disse, numa conferência de imprensa, que a recente sublevação de alguns oficiais subalternos fora um acto isolado que não obteve eco favorável entre a maioria dos militares portugueses. Afirmou também que não há divergências de qualquer espécie entre os membros do seu governo relativamente às questões nacionais. O levantamento de uma unidade militar teve somente motivos de carácter profissional.

Na Assembleia Nacional  o ultra-salazarista-conselheiro Albino dos Reis, 86 anos de idade avisava:

«É indispensável que a espinha dorsal de um País, que são as suas Forças Armadas, se mantenham bem firmes. Se um dia as forças da dissolução conseguirem fazer quebrar essa espinha, desviá-la por qualquer forma, ai de nós, meus amigos, o que será feito deste país.»

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

REVISÃO DE TEXTOS E NOTÍCIAS LIDAS


 

Os jornais lêem-se.

Por vezes calmamente, outras vezes na viagem do Metro, outras ainda à mesa do café.

Deles guarda-se uma ou outra página para leitura mais vagarosa, mais atenta, num outro qualquer dia.

Serão as notícias relidas.


No dia 14 de Dezembro de 2023, na sua crónica das quintas-feiras no Público, Nuno Pacheco, lembrou a morte, no ano que há pouco terminou, de José Duarte, o Jazzé como ele gostava que o chamassem.

Durante muitos anos fui ouvindo dizer que o jazz em Portugal se registava como: Antes e Depois de Vilas Boas.

Agora, também se acrescentará: Antes e Depois de José Duarte.

Antes e depois de muita gente que, em Portugal, tem dedicado ao jazz um amor sem fim.

 Nuno Pacheco:

 «O jazz está a acabar? Vai morrer? Vai ceder em definitivo a outros géneros musicais e perder os seus traços distintivos?

Passando ao lado desta discussão, não deixa de ser curioso que um homem que lhe dedicou a vida, diluindo-o no seu ego até o absorver no nome, passando de José Duarte a Jazzé Duarte (como gostava de se apresentar e ser conhecido), mantivesse durante décadas uma posição pessimista acerca do futuro do jazz, em particular do seu futuro em Portugal. Numa das últimas mensagens que me enviou, por correio electrónico, datada de Outubro de 2022, escrevia que andava por cá “até ao fim a lutar por jazz causa perdida”. E despedia-se, como sempre, com um “até jazz”. Morreu passados cinco meses, em Março de 2023, mas, muito antes dessa data, aquilo a que ele chamava “causa perdida” parecia, pelo contrário, uma causa ganha, a julgar pelo número (e qualidade) de novos músicos, pela quantidade de escolas, pela proliferação de festivais de jazz e de iniciativas a ele ligadas.»

Para completar os amores de José Duarte pelo Jazz, Nuno Pacheco cita um livro editado pela Guerra & Paz.

A saber:

«Chama-se Histórias de Jazz (ed. Guerra & Paz) mas podia chamar-se Histórias com Jazz, já que em todas elas o jazz está presente, das mais variadas formas (discos, cassetes, instrumentos, evocações fantasmagóricas), mesmo na que evoca Frank Zappa, músico de rock cuja ligação ao jazz se fez por via de influências e colaborações.

O livro, em si, tem uma história curiosa. Leonel R. Santos, que desde 2006 mantém activo o site JazzLogical.net, com informações regulares acerca do que se vai fazendo na área do jazz, dirigiu em 2001 uma revista de que foi co-fundador, a All Jazz. Um dia, conta ele na introdução, apareceu na redacção um leitor com duas histórias para eventual publicação. Interessou-se por uma delas (Jitterbug Waltz), publicou-a, e desafiou leitores e amigos a escreverem outras. Recebeu várias, em forma quase final ou em esquissos, mas, como a revista acabou, ficaram num limbo. Até que, passado anos, voltou a lê-las, reescreveu-as e fez este livro onde inclui 13 histórias, duas de sua inteira autoria e as restantes fruto das adaptações ou reescritas a que livremente se entregou (os autores dos originais são mencionados na introdução).

Assim, por entre ingredientes a que o jazz não é alheio (“amores desesperados, amizade, sexo, sangue, suor e lágrimas, traição, humor e fantástico”), somos conduzidos no desfecho de cada história a audições que lhes servem de banda sonora: de Frank Morgan (A lovesome thing) a Anthony Braxton (Opus 58), passando por Miles Davis (Sketches of Spain), John Coltrane (Every time we say goodbye), Jimmy Smith (Hackensack), Hank Mobley (Smokin’) e tantos outros. Ou ainda Charles Lloyd com Billy Higgins, no disco que gravaram em duo (só saxofone e bateria), Which way is East, com a particularidade de serem ambos chamados a protagonizar uma das histórias, Higgins, onde Charles chora no saxofone a morte de Billy, “porque um pedaço dele tinha morrido com o amigo”. Um livro de histórias para “ouler” com curiosidade, parafraseando o “ouver” de Jazzé.»

Termino recontando uma história já por aqui citada:

 Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:

«Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, obrigaram o José Duarte a pagar excesso de bagagem.»

sábado, 23 de dezembro de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ


Fechamos as canções de (não) Natal com Love Been Good To Me por Frank Sinatra.

Socorro-me de José Duarte:

José Duarte gostava de Frank Sinatra.

Com a menina, nas noites de baile da Antena 1, só dançava canções do Sinatra, aquele swing, dito único.

Entendia-o como a sua «alienação favorita», chamava-lhe São Sinatra.

Chegou a escrever:

«São raros se é que existem os ouvintes que sabem ouvir e que não gostam de ouvir Sinatra quer homens até mulheres como se justificarão os escassos contras? Que ele era da Mafia – por ser italo-americano não comento eu nasci no Bairro Alto.»

A propósito de Love Been Good to Me, ainda o José Duarte que numa carta que possivelmente Sinatra nunca leu, considerou ser esta canção «uma definitiva, perfeita obra-prima.»

sábado, 22 de julho de 2023

OLHAR AS CAPAS


O Roque e a Amiga

Bernardo Brito e Cunha

Prefácio: José Duarte

Capa: Luís J. Furtado

Produções Águas Livres, Lisboa s/d

Roque entrou em casa com uma das mãos atrás das costas e começou a procurar a amiga pelas várias divisões. Encontrou-a na terceira, estendida a ler o dicionário. Chegou-se ao pé dela, sempre com a mão escondida atrás das costas, fez-lhe cócegas na planta do pé e deu-lhe um beijo na orelha.

A amiga, naturalmente, espantou-se:

- O que se passa?

Roque sorriu.

- É que hoje é um dia especial.

Um dia especial? Como assim?

-É que faz hoje cinco meses que você veio cá para casa.

E tirando finalmente a mão de atrás das costas, ofereceu-lhe um raminho de mimosas violetas. A amiga ergueu-se, abismada, no sofá.

- O Roque! Você lembrou-se… Que querido!

Cheirou as violetas, olhou-o ternurenta e disse:

- Você é um amor, Roque. Um amor perfeito.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

CONVERSANDO


 O que é uma cidade sem livrarias?

Só os loucos fazem estas perguntas. O resto não se importa com isso, com o que quer que seja,

Sou do tempo em que a cidade tinha livrarias, que havia livreiros que amavam os livros e disso faziam o seu mundo.

Continuo com saudades do José Duarte.

Tão cedo irei largar os livros que nos deixou.

Hoje, recordo um final de texto do «Jazzé e Outras Histórias». Tem por lá uma frase maravilhosa, única:

«… lia-se mais, lia-se melhor…»

O texto está na página 75:

« Agora já se pode escrever (poder-se-á) que naquela esquina nos anos 50 para os 60 havia livreiros com livrarias resistentes. Sempre que entro na «Barata» as recordo: a própria «Barata» pequenina, a cultura, sim a «Cultura» ali ao pé do Liceu Camões. E o medo à saída com os livros embrulhados debaixo do braço e o medo em casa com eles ainda meio-escondidos… Lia-se mais, lia-se melhor, aprendia-se, estava-se na idade.» 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

O JORNALISMO É COMO O JAZZ DE JOSÉ DUARTE?


Nunca estive na mesma sala que José Duarte. Falei, algumas vezes, com o autor do programa de rádio Cinco Minutos de Jazz ao telefone por motivos profissionais. E, no entanto, a notícia da morte dele, na passada quinta-feira, enlutou-me.

Se gosto de música (de jazz e de muitas outras), se penso ideologicamente do lado progressista da política, devo isso ao trabalho de muitas pessoas e uma delas, desde os meus 10/11 anos, foi o trabalho de José Duarte: os seus programas na rádio e na televisão, os seus artigos, os seus livros deram-me centenas de horas de prazer, toneladas de saber e possibilidades infinitas de reflexão - uma dívida que nunca agradeci.

Vou tentar retribuir, aqui, citando uma parte da comunicação que José Duarte fez no Congresso dos Jornalistas de 1998.

Há 25 anos, era Bill Clinton presidente da América, José Duarte, em defesa da ideia de que a comunicação social deveria dar mais espaço e relevância às artes e à música, sobretudo às que não são conhecidas da maioria das pessoas, fez um paralelo entre o papel do jazz e o papel dos jornalistas.

Penso que não era mau nós, jornalistas, voltarmos a escutar, nestes tempos de bolhas comunicacionais, pensamentos únicos e orgulhosa intolerância perante a diferença, lermos com atenção o que se segue:

"Um jornalista, qualquer jornalista deve ser uma individualidade culta, com atenção a áreas que ultrapassam a sua área de atuação.

Quem sabe que um penálti é quase golo garantido deve saber que Parker não foi quem inventou as canetas de tinta permanente, mas sim um saxofonista genial.

Tal como quem sabe os solos de Miles Davis de cor deve saber que Clinton toca (saxofone) tenor e pode decidir sobre bombardeamentos.

"Os programas [de José Duarte] na rádio e na televisão, os seus artigos, os seus livros deram-me centenas de horas de prazer, toneladas de saber e possibilidades infinitas de reflexão - uma dívida que nunca agradeci."

Todos lutamos por um povo culto com jornalismo culto e ser culto é reconhecer e conhecer Outras Culturas, Outras Músicas, que são a propósito delas as minhas principais denúncias.

Um especialista - também se sabe - é todo aquele que cada vez sabe mais de cada vez menos.

Um jornalista não deve ser um especialista cego, mudo e surdo em relação a outras áreas essenciais que não a sua.

Quantas vezes deparei e deparo com um certo, quase sempre assumido, hábito de marginalizar informações sobre áreas desconhecidas da maioria, como se alinhar pela maioria fosse condição obrigatória, indispensável ou única sequer.

Apoiar um programa de rádio, a sua programação, um concerto, uma referência a uma gravação de músicas diferentes é atitude profissional sempre a avaliar.

Claro que sei que há jornalistas da especialidade, que sei nada de golfe e de outras tantas atividades; refiro-me, sim, à abolição da atitude de marginalização de áreas de Culturas de minorias, musicais e outras.

(...)

Jornalistas são personalidades com grandes responsabilidades culturais, sejam eles quem forem dentro da organização de uma publicação que serve a informação pura, simples.

Paz e igualdade na informação para Outras Artes, Outras Músicas é uma exigência incontornável.

Respeitar o que se desconhece é outra.

(...)

O Jazz quando escrito (coisa rara), é escrito em papel, papel que passa a ser O Papel do Jazz

Por outro lado, o papel do jazz é um papel de permanente criatividade, de constante imprevisibilidade, de incansável imaginação, papel de saudável iconoclastia, investigação e falta de respeito pelo óbvio, papel, pois, da frente, papel progressista.

(...)

O papel do jazz é também o papel de qualquer jornalista."

Se substituir as palavras "música", "artes" ou "cultura" por outras áreas de cobertura jornalística como "política", "internacional" ou "economia", o pensamento que aqui deixo é totalmente replicável.

Vou ser mais específico e glosar a parte final do texto de José Duarte, substituindo a palavra "jazz" por "jornalismo": "O papel do jornalismo é um papel de permanente criatividade, de constante imprevisibilidade, de incansável imaginação, papel de saudável iconoclastia, investigação e falta de respeito pelo óbvio, papel, pois, da frente, papel progressista".

Assino por baixo - o jornalismo é como o jazz... e precisa de swing, que anda escasso.

Pedro Tadeu no Diário de Notícias de hoje.

domingo, 2 de abril de 2023

VELHAS CANÇÕES


 «Ne Me Quite Pas»

Não será, como alguns dizem, o grande clássico de Jaques Brel, mas é uma extraordinária canção.

Milhentas são as versões que correm mundo pelos mais variados intérpretes.

Jacques Brel considerou a versão de Nina Simone como algo de extraordinário, fazendo referência ao modo como Nina fazia deslizar o seu francês e José Duarte, na sua crónica a «A fotografia da música», não deixou de salientar que «o sotaque do seu francês é saborosíssimo».

Existe uma outra excelente versão da canção de Brel, uma interpretação da brasileira Maysa Matarazzo. Possivelmente Brel ouviu-a mas não conheço qualquer referência que lhe tenha feito.

Hoje ficamos com a versão de Nina Simone, numa outra ocasião, traremos aqui Maysa.

A FOTOGRAFIA DA MÚSICA


 1 de Setembro de 1989.

Nina Simone actuou no Casino Estoril.

Dela dizem que bebe muito e tem mau feitio. Nina esteve mal, dizem.

Zé Duarte não viu, mas no seu «Jazzé e Outra Histórias», mostra uma fotografia de Nina Simone e trata de a ver, rever, interpretar. Chamou-lhe «A Fotografia da Música»:

«Está sentada.

Como fundo foi escolhido um misterioso motivo muito simples que se repete muito.

Como certa música africana.

Há uma ou duas folhas de planta de clima quente no canto inferior direito.

O pano que a cobra quase toda não tem botões, nem cinto, nem mangas, embrulha-a só em diagonal no tronco, revela a área do ombro que nos está mais próximo.

As tiras estampadas no pano – algodão? – reproduzem flores, plantas.

Como a Fleurette Indienne de Ellington.

O cabelo é curto, afro, sempre o usou assim, às vezes com touca de malha justa, africana.

As sobrancelhas finas desafiam, até porque a direita subiu mais que a esquerda.

Altiva.

A câmara, em contra-plongé, ajuda a pose. O que para o caso, é maneira de ser e estar, mas os olhos não olham para nós, olham de cima para baixo, para a nossa direita.
Rainha nunca cruza os olhos com os súbditos.

Estrela tem lux própria.

Há um brinco só, jóia branca, em forma de quarto crescente pendurado.

Lábios grossos, sensuais, que guardam a voz igual a eles, educada na igreja, na secular pregação de textos religiosos musicados.

O porte é magnífico, dá-o a elegância do pescoço, o aprumo da coluna.

Há raça e majestade, seriedade e mistério, algum orgulho, talvez provocação soberba.

Magnetismo.

A pele, a cor e a pureza de linhas do ombro, peito e quase nada de um seio.

Fera em repouso.

Pulseira com medalhas variadas no braço, pulseiras simples nos pulsos.

Nos tornozelos?

África.

Mãos grandes descansam nas coxas, dedos compridos e largos, mãos treinadas nas boas escolas de música de Nova Iorque e Filadélfia, mãos de professora de piano, mãos de compositora de melodias para letras de notáveis poetas afro-americanos: Paul Junbar, Langstone Hughes.

«Nova, Dotada e Negra» - como escreveu Hughes e ela canta.

Tem 56 anos.

As linhas olíquas em fundo contrariam a verticalidade da impressionante mulher, destacam a sua imagem de desafio e coragem, símbolo de luta, provas dadas quando compõe, toca e canta as misérias do racismo, da condição feminina, das realidades sociais.

Está-se mesmo a ver, basta olhá-la, que ela não esquece o elogio do Homem, do sexo.

Reportório variado, entre o Homem e o Deus, das alegorias sexuais aos misticismos desbragados, incluindo mesmo uma cantiga onde o sotaque do seu francês é saborosíssimo e outras pobres comerciais antes de por ela terem sido transformadas.

Tão boa pagã como mística, em concerto provoca sempre e quase numa toada média. Música e letras entoadas, um estado de sensualidade sugerida que paira e satura o ar.

Chega a dirigir-se ao público, depende dele.

Um animal de todos os prazeres.

O pano que a cobre deve chegar-lhe aos pés, como ela gosta.

O mistério das pernas sempres ocultas, reverso de Tina, outra fera, mas essa em permanente ataque, enquanto está em permanente ameaça, portanto muito mais inquietante.

Sentada ao piano já dança um pouco, com os ombros, com o tronco, mas quando estica as pernas e se levanta o bailado tem ainda mais magia, embora contido, denso. Só um ou outro requebro discreto, dançar só da cintura para cima, movimentos raros, secos, inesperados sempre em contratempo.

Às vezes bate palmas, poucas em esquema rítmico difícil.

A América africana.

A grande música negra.

Cuidado quando, logo à noite no Casino, Nina Simone se levantar…»

Numa entrevista ao Expresso, 6 de Fevereiro de 2016 (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos« Cinco Minutos de Jazz», perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz.

José Duarte lembrou-se de um, deliciosos mesmo, que, por acaso. mete Nina Simone:

«Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.»

Um orgulho tão grande, tão grande que, certamente, na chegada à Portela, obrigaram o José Duarte a pagar excesso de bagagem.

sábado, 1 de abril de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ


Aos sábados é hábito colocarem-se por aqui músicas e canções.

Na semana em que José Duarte nos deixou, e pegando no seu livro «Jazzé e Outras Músicas», temos por lá músicos e cantores que o Zé viu em espectáculos e alguns entrevistou.

De tanta gente que por lá se fala, acabei por ficar na página 100, em que aparece Tony Bennett quando pela primeira vez esteve em Lisboa.

Reportando para o DL, José Duarte tinha para Tony uma pergunta pertinente que metia Nossa Senhora de Fátima.

Assim:

«Como, depois de Boulevard of Broken Dreams, sua primeira gravação, e de Because of You, seu primeiro milhão vendido, e no meio da lista de sucessos dos anos 50 até I Left My Heart in S. Francisco em 62, que foi pico da carreira, aparece o tema Our Lady Of Fatima?!!...

Nesse tempo, disse ele, quem escolhia as cantigas para gravar não era ele, eram os outros. Preço para uma carreira que começava. Hoje é diferente, claro. E Fátima seria que Bennett sabia o que é? Não. Expliquei-lhe, devoto. A CBS, multinacional atenta, deu-me um toque no cotovelo e corrigiu-me. O milagre não é dos anos 40, é de 1917! Repórter envergonhado, ainda tentei convencer a estrela a cantar Fátima no Casino, alegando o grande sentimento religioso de nós, os latinos…

Que não, que já não se lembra do poema, nem da melodia, nem sequer quem são os autores. Mas que lá cantar, cantou e que foi um êxito, foi. Bennett cantou Fátima, pronto, pont.

É verdade.»

Sim, realmente, Tony Bennett gravou «Our Lady  of Fatima» em 1950.

Uma página da Rádio Renascença na net. conta-nos:

 “Our Lady of Fatima”, uma canção composta pela irlandesa Gladys Gollahon, uma pianista amadora que vivia em Cincinnati, Estados Unidos, tornou-se rapidamente um êxito naquela cidade. Quando a WSAI, uma rádio local, passou a canção pela primeira vez, o telefone não parou de tocar, com ouvintes a pedir que a repetissem uma e outra vez.

A música foi comprada, em 1950, pela editora Robbins e gravada, nos meses seguintes, na voz de vários artistas famosos na época, como Red Foley, Kitty Kallen e Ricard Hayes, Andy Williams e Bill Kenny.

Na sua autobiografia “The Good Life: The Autobiography Of Tony Bennett”, Tony Bennett recorda que quando entrou em estúdio, em Julho de 1950, os seus produtores aconselharam-no a fazer uma versão desta canção, já que era um “êxito provado”.

O cantor descreve a música como “melodramática”, mas diz ter sido uma gravação importante na sua carreira, já que foi a primeira vez que trabalhou com o orquestrador Percy Faith.

Nesse ano, canção atingiu o sexto lugar na “hit parade”, um "ranking" de músicas da revista Billboard - um feito pouco comum para uma música religiosa.

A mesma página da Rádio Renascença, também informa que Elvis Presley gravou uma canção sobre Fátima:

«No dia 15 de Maio de 1971, o rei do rock gravou uma canção sobre o milagre de Fátima. A música seria divulgada no ano seguinte, a 20 de Fevereiro, no álbum "Elvis Now!".

Permanece um mistério a razão pela qual Elvis Presley, criado na Igreja Evangélica Assembleia de Deus, quis gravar uma canção dedicada ao rosário, uma oração tipicamente católica.

Chama-se "The Miracle of the Rosary" e foi escrita pelo homem que ensinou Elvis a tocar guitarra aos 13 anos: Lee Denson, um amigo da família Presley, casado com uma católica devota de Nossa Senhora de Fátima.

A canção foi escrita em 1960, quando Denson se aproximou também do catolicismo. Algum tempo depois, o Papa Paulo VI chegou mesmo a abençoar a canção.»




Deixando Fátima de lado, a função fecha-se com duas canções dos primeiros tempos de Tony Bennett: Because of You e Boulevard of Broken Dreams.


sexta-feira, 31 de março de 2023

POSTAIS SEM SELO


O jazz apenas é. Quem gosta, gosta, e quem não gosta, não gosta.

José Duarte

SAUDADES DA RÁDIO

A rádio está associada à minha vida.

Quando havia programas de autor e a ditadura das «play-list» não tinha entrado portas adentro.

Nos primeiros meses de 1980, João David Nunes ainda podia dizer:

«Acho que alguma da Rádio que já se vai fazendo, neste momento, em Portugal, não nos deixa muito envergonhados em relação à Rádio que se faz lá fora.»

Há dias, morreu Jaime Fernandes, um dos homens dessa rádio de autor.

Numa entrevista ao Jornal de Notícias, Janeiro de 2011, José Duarte falava de um dos seus programas de assinalável êxito na rádio: «A Menina Dança?»

Fui convidado por Jaime Fernandes. Trabalhávamos na Rádio Comercial. Tinha eu escrito um texto para "O Jornal" sobre Irving Berlin, grande compositor norte-americano". Jaime Fernandes gostou e ficou admirado de meu saber sobre aquela música. Convidou-me para fazer um programa sobre "standards". Inventei então "a menina dança?" que é um programa semanal dedicado a grandes nomes vocais da música norte-americana e a grandes compositores do "American Song Book".»

O texto que se segue julgo pertencer a uma qualquer crítica ou sinopse do programa:

«Tudo acontece num salão de uma sociedade recreativa. É um baile ao som de canções. Como as canções devem ser: cheias de «swing», a puxar o pé para a dança. Ouvem-se os «crooners» ou  - Bing Crosby, Dean Martin, Tony Bennett – uns mais apaixonados, outros menos, ouvem-se outras vozes que fizeram as músicas da América. Ouve-se Sinatra e as suas histórias. Aos domingos à noite, quando a Menina encontra o seu par, são as grandes orquestras que se vocam, num qualquer baile de despedida; e são as histórias à margem do tempo que se relatam. O programa realizado por José Duarte podia ser o cenário para os «Dias da Rádio» de Woody Allen. Mas não é. No que diz respeito a rádio, vai mais longe.

«A Menina Dança» oferece um dos mais eficazes exercícios do uso da linguagem radiofónica: diálogos a uma voz definem cenários; afastam e atraem. Informam. E fzem com que a menina, de facto, exista. Ela é a personagem que ganha forma, a cada instante. Do desconhecimento da música passa ao espanto; e deste, ao saborear da descoberta. Mas isso não lhe basta: a Menina «trova s voltas», comanda o jogo e, às vezes, transforma num inferno a vida do seu par: a Menina torce um pé, a Menina pinta o cabelo de louro. A Menina é a Gata Borralheira que parte à meia-noite, abandonando o seu par.»

A menina, mais as suas danças, deixaram-nos a 30 de Dezembro de 2012.

Não vivíamos para ouvir rádio. Somente para melhorar essa vida.

 

quinta-feira, 30 de março de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Aprender jazz é como aprender a falar.

Aprende-se vai-se aprendendo.

Balbucia-se, imita-se, copia-se.

O vocabulário vai chegando, a gramática também.

 José Duarte em Cinco Minutos de Jazz

 Legenda: pintura de Robert McGinnis

SÃO SINATRA


 José Duarte gostava de Frank Sinatra.

Com a menina, nas noites de baile da Antena 1, só dançava canções do Sinatra, aquele swing, dito único.

Entendia-o como a sua «alienação favorita», chamava-lhe São Sinatra.

Chegou a escrever:

«São raros se é que existem os ouvintes que sabem ouvir e que não gostam de ouvir Sinatra quer homens até mulheres como se justificarão os escassos contras? Que ele era da Mafia – por ser italo-americano não comento eu nasci no Bairro Alto.»

Lembrando o Zé Duarte, escolha caseira, ficam três canções do Sinatra.






Mas fica também «The One I Love Belongs To Somebody Else» que José Duarte, numa carta que possivelmente Sinatra nunca leu, considerou ser esta canção «uma definitiva, perfeita obra-prima.»


JOSÉ DUARTE (1938-2023)


Morreu José Duarte.

Chega-se quase à idade em que partiremos, e enquanto não chega esse dia, vamos perdendo os que tanto admiramos e a quem tanto devemos.

Li os seus livros, ouvia os programas, tanto os de televisão como os de rádio, o fabuloso «A Menina Dança?»

Conheci José Duarte em alguns findares de tarde no «British-Bar».

Tem etiqueta própria aqui no Cais.

Não consigo dizer muito mais sobre o Zé Duarte.

Passem por lá. 

domingo, 12 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS



Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE…

Uma em duas, duas em uma, como preferirem.

Carlos Paredes já há muito nos deixou, um homem do outro mundo, José Duarte dixit.

Nada passou a ser como era.

«Que saudades meu amigo
Das flores do teu jardim
Eu sentada num degrau
E tu esquecido de mim
Eram flores de fim de dia
Tinham gotas de luar
Que saudades meu amigo
Do teu jardim de encantar»

Y.K. Centeno

A TAP está em vias de, selvaticamente, deixar de ser nossa.

Só não se sabe quando.

Há uma boa dezena de anos, ou mais, disse-me o Hans-Martin, um amigo alemão, que de aviões e companhias de aviação percebe, que a TAP era das melhores companhias de aviação do mundo, só não disse que era a melhor porque, por difícil de validar, essas coisas não se dizem.


Por um aniversário, a TAP convidou Carlos Paredes para gravar um disco para ser distribuído pelos passageiros e feito da seguinte maneira: eu fiz dois temas dedicados exclusivamente à TAP - «Asas sobre o Mundo» e «Nas Asas do Saudade» - que depois misturei com outros já gravados, e fez-se um disco novo, um disco que eu tive o cuidado de relacionar com aspectos da vida nacional: as sua paisagens, etc.

José Duarte que o ouvia, acrescentou: «é a maneira de a tua música andar a voar por aí… »
Disse, então, Carlos Paredes, naquela humildade que se lhe conhecia:

«Tenho muita honra e devo à TAP imensos favores. Um deles é deixar levar no avião a guitarra junto a mim, porque se fosse para o porão podia sujeitar-se a ser furada…»


Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2013.

domingo, 22 de março de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

NUNCA CAMINHARÃO SOZINHOS

Foram os ingleses que inventaram o futebol, têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe «The Beautiful Game.»

Vivem o jogo como ninguém.

Deslocam-se, enchem os estádios.

Avós, pais, filhos, netos, bisnetos: a família.

A festa.

Nem em tempo de Natal o dispensam.

Bem pelo contrário: exigem que haja jogos nesses dias.

Nos dias de transmissão do futebol inglês, quando as câmaras focam as bancadas, vêem-se espectadores das mais variadas idades. Por vezes, parece que toda uma família, do mais novo ao mais velho, foram ao futebol.

Uma das claques mais conhecidas, no Reino Unido, é a do Liverpool.

Tomaram como hino You’ll Necer Walk Alone, uma canção composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical da Broadway Carousel, de 1945 e que, em 1956, foi adaptado ao cinema por Henry King.

Mas seria com a versão de Gerry &The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade, que a canção se tornaria o hino do clube.

Hoje, outros clubes, em outros países, o adoptaram como hino, mas nada como em Anfield Road.

Simplesmente  arrepiante.

Uma visita ao You Tube permite ficarmos a saber dos grandes nomes da música norte-americana, bem como outros, que gravaram You'll Never Walk Alone.

Shirley Jones gravou-a para a banda sonora de Carousel, mas há versões de Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha Franklin, Mahalia Jackson, Nina Simone, Louis Armstrong, Elvis Presley, Barbra Streisand, Andy Williams, Judy Garland, Frank Sinatra, Johnny Cash, Roy Orbinson, The Rigteous Brothers, Tom Jones.

Também é possível encontrar uma versão dos Beatles.

Estas são as minhas escolhas.

A versão da Nina Simone é tocada ao piano.

Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:

Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, obrigaram o José Duarte a pagar excesso de bagagem.

Texto publicado em 24 de Maio de 2016