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segunda-feira, 25 de agosto de 2025

COMO QUEM REGRESSA AO PAÍS DA SUA INFÂNCIA

Voltamos às pedras deste Cais.

Sim, eu sei: estou a ficar velho.

Como estou velho, repito-me ou apetece-me repetir, e volto a lembrar Mário Castrim.

Foi a grande bússola da crítica de televisão neste nosso país.

Começou a fazer crítica de televisão, no Diário de Lisboa, em 14 de Maio de 1965.

Nos tempos da ditadura, a malta encontrava-se nos cafés e quando algum chegava, a primeira pergunta não variava muito: «Já leste o Castrim?»

Quase quarenta anos a fazer crítica de televisão.

Em 1990, Fernando Assis Pacheco calculou que Mário Castrim já passara 17 mil horas frente ao televisor. Em Outubro de 2002, tempo da sua morte, as contas foram calculadas em 70 mil horas.

A censura, diariamente, esquartejava-lhe a prosa.

Mesmo assim, um dia, entenderam que o homem estava a ir longe de mais e proibiram o «Canal da Crítica»

Proveniente de todos os quadrantes, levantou-se um vendaval de protestos.

Outra coisa não restou às múmias ditatoriais, senão aceitarem o regresso de Mário Castrim.

Quando esse dia chegou, Castrim abriu com um lindíssimo texto.

Foi assim:

«Regresso. Comovido, como quem regressa ao país da sua infância. Ficou para trás a calma, o sono reencontrado, o silêncio por toda a casa. Ficou para trás a visita de amigos, a frescura da noite, o deambular descuidado. Ficou para trás o ser “como toda a gente”. E no entanto, este regresso, na sua felicidade perdida, tem o sabor de uma felicidade reencontrada. Vou de porta em porta apertando as mãos que se estendem, forte de uma grande família. Vou crucificar os olhos no fulgor violento do televisor. Vou, pelo túnel da noite, em perseguição das palavras úteis, ou necessárias, ou simplesmente possíveis. Difíceis sempre, arrancadas da carne a grande profundidade da pele. Palavras que seriam de amizade, a selar a presença vivida, revivida, de tantos rostos desconhecidos e atentos. Palavras de quem, regressando ao frio da noite, regressa também, a morosamente, ao país da sua infância, ao país do seu país.»

domingo, 17 de agosto de 2025

APENAS UM LEMBRETE

Com muita pena nossa, durante 7 dias, estaremos ausentes das pedras deste Cais.

Até lá!

domingo, 16 de fevereiro de 2025

CONVERSANDO


Já hoje foi citado, mas voltamos a esse rapaz a quem chamam diabo.

Por causa do centenário do nascimento do Carlos Paredes, andei à procura de um texto que há muito, e muito tempo mesmo, fiz sobre o disco Guitarra Portuguesa do Carlos Paredes. Julgava-o aqui colocado no Cais mas não está.

Nessa procura, acidentalmente, verifiquei que este Blogue no dia 7 de Fevereiro fez 15 anos.

Caramba! Como é possível?

Decididamente, números redondos para aqui não são chamados.

Pelos 10 anos do Cais do Olhar ainda arranjámos uma antologia de textos.

Que fazer?

Iremos re(publicando) o que, fruto do acaso dos dias, se for encontrando.

 

Legenda: fotografia Shorpy: ardinas em Skeeter's Branch, Jefferson perto de Franklin, St. Louis, 1910.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

OLHAR AS CAPAS


 

A Blogosfera Portuguesa

Sérgio Barreto Costa

Capa: Inês Sena

Fundação Francisco Manuel Santos, Lisboa, Fevereiro de 2021

A quantidade de pessoas que, tendo iniciado a sua exposição ao espaço público através da blogosfera, se encontra hoje em dia nos mais relevantes espaços mediáticos do país (televisões, jornais, Parlamento, Governo, paridos políticos, etc.).

terça-feira, 15 de outubro de 2024

AVISO À NAVEGAÇÃO


Este blogue tem andado um tanto ou quanto a fugir à normalidade.

Dias que se supõe estarem ultrapassados.

Os necessários pedidos de desculpa pelos tropeções que este Cais tem sofrido, aqui ficam.

Obrigado pela compreensão.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

QUE É VIAJAR, E PARA QUE SERVE VIAJAR?, PERGUNTAVA BERNARDO SOARES

Regresso a casa.

Viajar é sempre bonito. Porque para além do mais há sempre o prazer de regressar.

Para onde caminhamos, afinal?

Sempre para casa.

domingo, 18 de agosto de 2024

AVISO À NAVEGAÇÃO

Abrimos a prosa com o pedacinho de um poema do Mário-Henrique Leiria:

«por não falar correctamente francês

já muita gente se tem enganado

acerca de viagens

Ao chegarem a Paris

vêem que   afinal    a   estação

é mesmo a de Estarreja»

Não corremos riscos – quem sabe!? – porque não vamos viajar, apenas vamos ali…

Mas isso vai dar para uma semana em que não pisamos as pedras do Cais.

Por isso entendemos dar notícia aos nossos viajantes.

Até lá!

terça-feira, 13 de agosto de 2024

POSTAIS SEM SELO


O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.

Umberto Eco

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

CONVERSANDO

Não frequento redes sociais.

Todos os dias, ou quase, há um ror de anos, visito uma dúzia de blogues.

Não tenho «facebook».

Não tenho telemóvel.

Em algumas manhãs, também tardes, vou até à esplanada do Café do Bairro.

Foi lá que me contaram que uns tinhosos, nas tais redes sociais, entenderam que o Fausto, com a sua música, as suas canções, fazia a apologia do colonialismo.

Não sei onde é que estes idiotas querem chegar. O problema maior é que há outros idiotas que lhe seguem as baboseiras e nelas acreditam.

Fausto nasceu algures no Oceano Atlântico, a bordo do navio Pátria, tendo sido, mais tarde, registado numa pequena freguesia do concelho de Trancoso e foi em Angola que viveu a infância e a adolescência.

Com estas corjas, incultas e desprezíveis, estamos entregues aos bichos!

sexta-feira, 5 de abril de 2024

POSTAIS SEM SELO


As redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho e não causavam nenhum mal para a colectividade.

Umberto Eco

terça-feira, 22 de agosto de 2023

VOLTAR, VOLTAR...

A ideia residia nuns seis/sete dias. 

Acabaram por ser onze.

Sempre a velha ideia de que o melhor das férias é o regresso a casa.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

REGRESSO

Raríssimo seria o dia em que a censura não esquartejava a crítica de televisão que Mário Castrim publicava no Diário de Lisboa. 

Acabou por chegar o dia em que Marcelo Caetano o mandou silenciar.

Proveniente de todos os quadrantes, levantou-se um vendaval de protestos.

 Outra coisa não restou às múmias ditatoriais, senão aceitarem o regresso de Mário Castrim.

 Quando esse dia chegou, Castrim abriu com um lindíssimo texto.

 Foi assim:

 «Regresso. Comovido, como quem regressa ao país da sua infância. Ficou para trás a calma, o sono reencontrado, o silêncio por toda a casa. Ficou para trás a visita de amigos, a frescura da noite, o deambular descuidado. Ficou para trás o ser “como toda a gente”. E no entanto, este regresso, na sua felicidade perdida, tem o sabor de uma felicidade reencontrada. Vou de porta em porta apertando as mãos que se estendem, forte de uma grande família. Vou crucificar os olhos no fulgor violento do televisor. Vou, pelo túnel da noite, em perseguição das palavras úteis, ou necessárias, ou simplesmente possíveis. Difíceis sempre, arrancadas da carne a grande profundidade da pele. Palavras que seriam de amizade, a selar a presença vivida, revivida, de tantos rostos desconhecidos e atentos. Palavras de quem, regressando ao frio da noite, regressa também, a morosamente, ao país da sua infância, ao país do seu país.»

 Mário Castrim começou a fazer crítica de televisão, no Diário de Lisboa, em 14 de Maio de 1965.

 Nos tempos da ditadura, a malta encontrava-se nos cafés e quando algum chegava, as palavras pouco variavam:«Já leste o Castrim?»

 Quase quarenta anos a fazer crítica de televisão.

 Em 1990, Fernando Assis Pacheco calculou que Mário Castrim já passara 17 mil horas frente ao televisor. Em Outubro de 2002, tempo da sua morte, as contas foram calculadas em 70 mil horas.

 Em vez de contar histórias para distrair camelos, regresso ao Cais com as palavras e a lembrança do Mário Castrim.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

NOVO AVISO À NAVEGAÇÃO

A nossa ignorância em relação a estas coisas e coisinhas da informática, dos computadores, é enorme.

O que se pensava ser uma coisa simples de resolver, revelou-se algo de dificuldades acrescidas.

Entretanto quem nos ajuda nestas «coisas e coisinhas», teve que ir de férias com a família e sem qualquer possibilidade de concluir o trabalho de recuperação, e tudo isto ficou coxo.

Voltaremos tão breve quanto possível.

As nossas desculpas.

domingo, 7 de agosto de 2022

AVISO À NAVEGAÇÃO

Por o blogue necessitar de ligeira intervenção técnica, voltaremos na próxima quinta-feira.

Os nossos pedidos de desculpa.

Obrigado.

domingo, 27 de junho de 2021

PORQUE HOJE É DOMINGO

Não sou de certezas, mas sei que foi a 8 de Junho que o blogue começou a tropeçar nas pedras do cais, e algumas vezes, como na velha canção, a tropeçar na mesma pedra.

Pode a pandemia trazer a incapacidade de escrever uma linha que seja?

Lembrei-me disto quando, hoje, escrevi um comentário no «Largo da Memória» e saltou uma frase do avô: «Eu não te avalio pela quantidade de vezes que tu cais, mas pela rapidez com que te levantas.»

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

REGRESSO


De repente, o computador deixou de aceitar as palavras que queríamos escrever.

No fundo dos fundos, a conclusão que tinha chegado o seu fim.

Restava ir buscar o velhinho LP em que o trompetista Nini Rosso, tão anos 60, interpreta «Il Silenzio».

Mas o Luís, conseguiu dar a volta ao texto e ontem, já tarde na tarde, apareceu com tudo reposto nos seus lugares.

Talvez haja computador para mais uns cinco anos… ouviu-se como murmúrio.

No início de Fevereiro, «o mais ignorado dos meses», para citar a Patti Smith, estamos de volta.

Obrigado pela compreensão.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

AVISO À NAVEGAÇÃO

O computador onde nasce o Cais do Olhar, vai entrar em serviços de manutenção.

Prometeram-nos ser breves.

terça-feira, 28 de julho de 2020

AVISO À NAVEGAÇÃO



Nestes 10 anos de Cais do Olhar apenas abandonámos o antro do bicho, por 8 dias, no primeiro ano. 
Vamos, agora, repetir a cena por três dias.
O que por aqui se publica nestes dias, é material que já estava agendado.
Como não temos equipamentos sofisticados, respostas a comentários, se os houver, acontecerão no próximo sábado.
Obrigado e voltem sempre.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

NOTÍCIAS DO CIRCO


Na semana passada, Marcelo Rebelo de Sousa convidou, para converseta, sessões de memes  e visita ao Palácio de Belém, uma série de gente a que chamam «influencers» que  eu entendo – mas quem sou eu ?! – ser gente que não se recomenda a ninguém, que se «notabilizam» por terem milhares de seguidores no Instagram, no Twitter, no Facebook, no sei lá mais o  quê, que  eu que nestas coisas das redes sociais considero-me  um E.T.

Esta gente, para além de frivolidades, intrigas, boatos, notícias falsas, não têm nada para dizer seja a quem for, e muito menos a um Presidente da República.

Mas Marcelo é assim.

Uma coisa destas, como ele um dia disse, não lembra ao careca.

domingo, 8 de setembro de 2019

A CARREIRA DA SAUDADE


No tempo em que os blogues eram interessantes, passava algum tempo a lê-los.

Fiz gratificantes descobertas , muitos acabaram e, hoje, os dedos das mãos dão para saber quantos blogues ainda me levam a uma leitura.

Essa coisa infantil, leviana, quiçá idiota, que dá pelo nome de «Facebook» matou os blogues.

Porque um blogue dá trabalho, pouco ou muito, dá trabalho, necessita de um outro tratamento, enquanto que o «Facebook» tem aquela ligeireza que dispenso.

Quando digo que não tenho «Facebook», as pessoas lançam um indignado: O quê? Não tens «facebook?»

O intróito serve para falar de O Largo da Memória, blogue que frequento há uns bons 10 anos.

Não lembro como entrei naquele largo, mas fiquei visita pelas fotografias, pelas histórias, pelos dizeres, pelas ideias, pelo sossego, pelo devagar dos dias, das gentes, coisas simples, aquelas coisas insignificantes que nos emocionam até aos limites da ternura.

É do Largo da Memória que retiro este comovente A Carreira da Saudade, texto de Joaquim Nascimento. A imagem também pertence ao Largo da Memória:

«Mais do que o seu percurso entre a Meda e o Pinhão, a carreira era para nós a velha camioneta que vinha todos os dias pela EN 222 e nos ligava à Vila, ao Comboio e ao Mundo, pela linha do Douro.
A carreira da Meda ou a carreira da Viúva passava nos Pereiros todas as manhãs, pelas oito horas e trinta minutos, e regressava às quatro e meia da tarde, depois de subir penosamente, curva-contra-curva, Pinhão, Bateiras, Casais, Ervedoza, até ao planalto da Pesqueira, num esforço notável para a provecta idade dos veículos que a firma Viúva Carneiro & Filhos, Ld.ª escolhia para fazer este percurso diário e exigente.
À ida, chegava à Pesqueira um pouco depois das nove, para que as pessoas dos Pereiros, do Vilarouco, do Vidigal e mesmo de freguesias mais afastadas da EN 222, como Valongo, Trevões e Vázeas, pudessem estar na Vila à hora de abertura das repartições onde a burocracia as chamava, sempre com algum receio da sua parte e quase nunca com qualquer proveito.
À vinda, passava outra vez pela Pesqueira, um pouco depois das três horas e ali fazia uma curta espera. Mostrar-se na Avenida para ver passar a carreira constituía a actividade social mais importante da gente da Vila, podendo dizer- se que o trabalho da parte da tarde só se iniciava depois de a carreira ter passado, ou era interrompido durante esse período e não vestir a melhor roupa para solenizar esse momento desqualificaria qualquer cidadão.
Neste curto intervalo desfilavam pela Avenida funcionários, artistas, comerciantes, desocupados, donas de casa virtuosas e meninas casadoiras, bisbilhotando que pessoas tinham chegado e imaginando o destino da viagem das que seguiam, assim alimentando o seu imaginário de moradores desta pequena vila do interior, onde nada se passava desde os tempos do Senhor Marquês de Pombal e da Real Companhia Velha.
Alguns grupos exibiam distintivos profissionais por si criados, como os alfaiates que espetavam na lapela do seu casaco escuro uma agulha onde enrolavam um bom pedaço de linha branca com as duas pontas a esvoaçar e, se estou a ver, punham mesmo ao pescoço a fita métrica do ofício feita de linóleo de cores berrantes.
A carreira da Meda também servia de relógio, nesse tempo em que os relógios eram raros e não se usavam todos os dias. “Já passou a carreira?” equivalia a perguntar “que horas são ?” e responder“ passou mesmo agora” era o mesmo que dizer “são oito e meia” se era de manhã, ou “quase cinco horas” se era de tarde, e dizer “hoje nem me dei conta de ter passado a carreira”, equivalia a afirmar “andei tão absorvido que nem dei pelas horas terem passado”.
Em boa verdade, a maior parte das vezes nem se via passar a carreira, pois a estrada velha, assim chamávamos à estrada nacional lá em cima, por contraposição ao pequeno ramal finalmente aberto e a que chamávamos a estrada nova, a estrada velha, dizia, não se avistava de todo o povo e, por isso, se quiséssemos ser rigorosos, teríamos que dizer, ouvi passar a carreira, pois era o ruído do seu cansado motor a arrancar para a paragem seguinte, na Horta, que chegava cá em baixo e despertava os nossos sentidos.
A nós, os dos Pereiros, onde o tempo se calculava pelo Sol, sem grande rigor, a carreira da Meda iniciou-nos no dever de cumprir um horário, pois toda a gente aceitava a obrigação de estar a horas, pois “ a carreira não espera por nós, nós é que temos que esperar por ela” , como responderia qualquer pessoa que subisse mais cedo até à paragem, dois quilómetros mais acima, a quem observasse “ainda é cedo, tens muito tempo” , e assim se aprendia, com naturalidade e os meios ao dispor, o dever de pontualidade.
A carreira da Meda também cumpria com muito rigor o seu compromisso de pontualidade com os passageiros e raramente terá chegado à paragem dos Pereiros, depois da sua hora, a menos que fosse Inverno e a neve lhe tivesse pregado alguma partida, e não consta que alguma vez tenha perdido, no Pinhão, o combóio descendente, ou que tenha daí partido antes de ver instalados todos os passageiros do combóio ascendente que a procuravam e isto constituía, ao fim e ao cabo, a obrigação maior deste transporte colectivo de passageiros e bagagens empilhadas no tejadilho, quando acabou o compartimento “J”.
Pela carreira da Meda se emigrou para o Brasil, para a África, para a França e para a cidade grande, com o coração apertado pela saudade e pelo receio do desconhecido e pela mesma carreira alguns regressaram um dia, umas vezes com a felicidade estampada no rosto, outras vezes mal disfarçando nas suas rugas cavadas as desilusões de uma vida, pois a sorte, contrariamente ao Sol quando nasce, não é para todos.»