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domingo, 15 de março de 2026

RETRATOS


«Agustina Bessa-Luís.

Era uma mulher fascinante. A primeira vez que fui ao Porto, ela estava à entrada de uma livraria qualquer e disse-me: “Venho dar-lhe as boas-vindas em nome do Porto.” O Porto era ela!

Tinha Imensas coisas em comum... Quer dizer, ela tinha uma alegria de viver que eu não tinha: um imenso sentido de humor. Ela dizia: “Sou tão feliz com o meu marido que nos deviam chamar Casal Garcia.” Tinha muita graça. O Eduardo Lourenço, de quem sou muito amigo, dizia que lhe chamava rainha Vitória. Não era uma mulher fácil. Quando não gostava podia ser arrasadora. Para ela, havia muito pouca gente com talento. Nem sei como é que ela escrevia. Não fazia emendas. Deitava as folhas para o chão, que o marido, que era um santo, apanhava. Ela tinha qualquer coisa, muito bebida no Camilo, e o Camilo andou a beber nas fraldas do Filinto Elísio. Mas ela tem qualquer coisa que os outros não tinham.»

António Lobo Antunes

terça-feira, 7 de outubro de 2025

NESTE DIA


Neste Dia, que não é bem isso, será um qualquer dia de Outubro do ano de 1995, pegamos nas cartas trocadas entre Luiz Pacheco e em que verificamos que a maior parte não estão datadas.

Pacheco revela a Nicolau Santos que a tensão arterial vai alta (17,6 – 7,9 ou 16 -8,5), e a máquina de escrever enguiçou; o A foi-se. Vai à mão, e informa que a artigalhada versa a menina Agustina policiária:


Legenda: fotografia Editora Guerra & Paz

sábado, 4 de outubro de 2025

NESTE DIA


  Mário Sacramento foi o maior entusiasta dos Congressos da Oposição realizados, em Aveiro, nos tempos da ditadura.

    Tertúlia no Café Trianon, já desaparecido, com camaradas e companheiros.

Não neste dia, mas em 25 de Janeiro 1968, Mário Sacramento diz-nos que teve uma manhã de trabalho e uma tarde lagarteada.

Dias antes – a 18 -  escrevera que andava numa fase antidiarista.

pelo meio deixou: «Um homem só está vivo enquanto se projecta no futuro».

sábado, 27 de setembro de 2025

REOLHARES


 Só agora, fortuitamente, uma chatice, ultimamente tudo me acontece fortuitamente, dei conta que o Presidente da República atribuiu a Grã-Cruz da Ordem de Camões a António Lobo Antunes no 10 de Junho e entregue a Lobo Antunes a 1 de Setembro, dia do seu aniversário.
Segundo o jornalista João Céu e Silva, António Lobo Antunes deixou de escrever, de fumar (algo que para Lobo Antunes era como respirar), já não reconhece os seus próximos e perdeu a noção do mundo que o rodeia.
Voltar atrás, e reolhar este texto por aqui publicado no dia 5 de Maio de 2018:

«Em 2018, passam 20 anos sobre a atribuição a José Saramago do Prémio Nobel da Literatura.

Maria do Rosário Pedreira lembra no seu blogue Horas Extraordinárias:

«Há uns anos, pediam aos membros do P.E.N. uma sugestão de um autor português que devesse ser candidato ao Prémio Nobel, e o nome do escritor que colhesse mais «votos» era depois encaminhado para o P.E.N. Internacional que, suponho, teria voto na matéria e poderia propor nomeações. Eu puxei sempre a brasa à minha sardinha (de poeta) e indiquei, enquanto foi viva, Sophia de Mello Breyner e, depois, embora soubesse que provavelmente o recusaria, Herberto.»

Miguel Torga será o escritor português que mais vezes foi, pelos seus pares, indicado para o Prémio Nobel da Literatura.

Passou despercebida a notícia de que a Academia Sueca pediu formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura:

«Em nome da Academia Sueca temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018.

Os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram os nomes de Manuel Alegre, o mais votado, e Agustina Bessa-Luís.

Provavelmente, António Lobo Antunes, o eterno candidato português, não terá apreciado o gesto dos membros da Academia.

Mas tudo foi em vão.

Soube-se, hoje, que este ano não haverá Nobel da Literatura.

A Academia Sueca ficou sem quórum depois da última demissão e, por esse motivo, o prémio não pode ser atribuído. O impasse resulta do facto de, embora demissionários, os membros da Academia não poderem ser substituídos enquanto forem vivos.

Tudo começou em Novembro do ano passado, com o escândalo que envolve o fotógrafo Jean-Claude Arnault, marido da poeta Katarina Frostenson, um dos membros mais proeminentes da Academia: Arnault é acusado de assédio sexual por dezoito mulheres, mas, indiferente à controvérsia, Katarina Frostenson só se demitiu há poucas semanas.

Trata-se da primeira vez que, em tempo de paz, o prémio não é atribuído.

O Nobel da Literatura foi, tal como os das restantes categorias, sete vezes não atribuído durante as guerras mundiais do século passado mas nunca por outros motivos.

Questionado pelo Diário de Notícias pela não atribuição do Nobel da Literatura, António Lobo Antunes reagiu assim:

 «O assunto Nobel não me interessa.»

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

NESTE DIA


A nova maneira para abordar os Diários que existem na Biblioteca da casa, permitem voos diversos.

Estamos, hoje, com o Diário de Miguel Torga.

Miguel Torga não é um escritor que me entusiasme. Provavelmente nunca o soube ler. Mas do que escreveu, os Diários são o que me despertaram uma atenção diferente das restantes obras.

Lamento de José Saramago no momento da morte de Miguel Torga:

«Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele.

(…)

Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem, ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.

Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde».

 José Saramago em Cadernosde Lanzarote, 3º volume

Agustina Bessa-Luís não gostava de Torga?

Provavelmente não.

Agustina Bessa-Luís em em O Livro de Agustina:

«Escrevi o Mundo Fechado enquanto minha filha dormia; a cozinha era de telha-vã e havia um ratinho esperto ao qual eu punha comida na dispensa todas as noites. E lá vinha o aroma das tílias anunciando os exames e o seu terror laureado de esperanças. O livro foi recebido com agrado, só o Torga me deu uma resposta convencional que não me caiu bem. Fiquei fula e qualifiquei-o entre os sete fariseus-hipócritas que estão registados no Talmude e dos quais faz a sátira.»

Luiz Pacheco sobre Torga:

«O Torga não era um escritor avençado! Era até um escritor único em Portugal, e no mundo, porque se editava a si próprio. Mas é um chato do caneco. Por exemploi, faz um poema para cada Natal: é como quem mata uma galinha ou um perú.»

Entrevista a Mário Santos no Público, Março de 1995 em O Crocodilo Que Voa

Miguel Torga, no dia 14 de Abril de 1974, está em S. Martinho de Anta. Neste dia, escreve um poema que intitula ABRIL, contrariando o Luiz Pacheco, não é um poema sobre o Natal:


Dia feliz, passeado.

Sol a jorros, sem calor;

Os santos de sentinela

Nos miradoiros lavados

Onde flameja a brancura

Da graça do seu renome;

Centeio a jurar à fome

O advento da fartura;

Ninhos, namoros, ternura,

E caminhos de amargura

Atapetados de flores

De uma insolência sincera:

Vulvas de todas as cores

No impudor da primavera.

 

A curiosidade possível deste simples poema é que 11 dias depois acontecerá o 25 de Abril e Torga escreve:

«Coimbra, 25 de Abril de 1974 — Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada...»

Miguel Torga, Diário  no 12º volume

segunda-feira, 9 de junho de 2025

REOLHARES



 O CORREIO DA NOITE

Num livrinho intitulado «As Estações da Vida» de Agustina Bessa-Luís, encontramos estas palavras:

«O comboio sempre me pareceu ter qulauqr coisa de profético. Abria-se a portinhola duma carruagem e imediatamente se abria na imaginação um processo romanesco. Tratávamos de divisar os passageiros e explorar a réstea de conforto que podíamos partilhar. Era o prelúdio duma viagem que podia ser o primeiro capítulo duma história.»

Na Biblioteca da Casa há uma antologia de contos de Natal, publicado em 1978.

Nele se encontram tres contos de Agustina Bessa Luís.  Escolhemos «O Correio da Noite», uma história maravilhosa.

 «Em 1934, passámos a véspera de Natal num velho vagão onde viajavam três cães perdigueiros, um hortelão de frades e uma criada de servir, a Rata, que estreava uma peineta nova, dessas que havia com aplicações de turquesa fingida. Não havia transportes e, pouco antes da meia-noite, meu pai lembrou-se de visitar a família, que não era numerosa e por isso lhe dava pena deixá-la, à ceia, na vasta mesa toda mordida por golpes de canivete que até parecia obra de talha. Sujeitámo-nos pois àquela viagem no correio da noite que, além do mais, ia cheio até aos tejadilhos. Alguns preferiram o furgão; levava caixotes de passas de Alicante e uma urna para um morto, coberta com um pano encerado, como se fosse destinada aos abismos do oceano. A Rata persignava-se e rezava umas estropiadas letanias que ela sabia. O hortelão, o Miguel Cunha, era da minha terra – o maior mentiroso, o mais famoso gastador de petas lá do sítio. Nunca vi tal arte feiticeira, tal cordura bem-falante em tecer fantasias. Aos poucos, íamos com ele na legenda dos assuntos e, se um céptico nos cortasse o passo, éramos como mastins sobre a sua lucidez idiota. Porque ao pé do Miguel Cunha, tão generoso a contar-nos novelas, casos tortos, extraordinárias missões do bicho homem, todos os outros eram tolos e leigos no sentimento de urdir a vida.

O comboio, na noite clara, soltava fagulhas verdes e douradas. Víamos o rasto delas pelas portas que iam meio abertas. Eu tinha nesse ano umas luvas de lã de punhos altos, de alpinista, e os dedos estavam vidrados pelo frio.

- Ah, lembra-me isto uma passagem que se deu em Argabiça – disse Miguel, na sua vozinha refilona e alegre. Eu pensei para mim: Temos espanholada. E a Rata interrompeu o seu piedoso discurso de Electra sobre a urna, para se arrumar comodamente entre as caixas de passas. Era uma rapariga a jeito de escultura Maya – estou a vê-la, um ar maciço, fecundo e antigo; os brincos de ouro tinham crostas de cera verde. – Os de Argabiça tinham uma fábrica de urnas – continuou Miguel. – E eram famosos por isso. Mandavam-nas para o Brasil, a direito pelo mar dentro, atadas com sogas umas às outras. E levavam seis dias e poucas horas a lá chegar. Seguiam as correntes; não saltavam as ondas, iam a par delas. Isto poupava-lhes muitas léguas. Eu andava nas podas, que não sou de Argabiça, mas um migalho mais acima. Dois moços chegaram-se a mim e desafiaram-me: Queres tu vir ao Pará? – Quero – disse eu. Pendurei a tesoura no cinto e meti-me com eles nos caixões, que era a nossa maneira de embarcar. O mar estava lesto, e o coração do mar batia como um sino. Ouvíamos cantar as sereias, e os filhos delas corriam no fio do cachão sem se afundarem. Chegámos ao Brasil aí pela noite do Ano Bom; a praia estava cheia de velinhas que alumiavam o mar, e as pretas traziam flores e atiravam-nas à água.

- Cala-te, fardeleiro, que te não posso ouvir! – disse a Rata. Desatou com fúria o nó do cabelo e voltou a torcê-lo.

- Eu morra se não falo verdade! – Os olhinhos amarelos do Miguel Cunha, a sua voz cantarina, o cabelo turdilho que ele já tinha, a pequena figura rabina, tudo se me pregou na memória. E o tambalear do vagão nos trilhos naquela noite de alto céu sem bruma.

- Enredas bem os teus enredos – disse meu pai, entre maravilhado e distraído.

- Que falo certo, e isso não me pesa… Tenho como testemunha um cafezal que podei com a minha tesoura antes de vir embora. Ainda lá está o cafezal. E no último pé botei-lhe duas letras, que foram um A e um B. Não era Ano Bom, não era nada disso. Era Adeus Brasil. Assim a luz do sol me alumie, como não foi aparença.

- Eu fio-me – tornou a Rata, moída de ronha, cega. – Olha que pecas! Olha que pecas!

Eu tive de repente medo. Quem viajava comigo naquele escuro lugar? Viam-se os pinheiros e os postes desenhados no claro da lua. Os fechos de cobre da urna tremiam levemente. Àquela hora, em casa, já a ceia tinha sido servida; e os gatos mediam a própria sombra, com elásticos passos, depois dum banquete de espinhas. Não havia presépio; só um Cristo de barro dentro dum fanal, com cravos nas mãos, pintados de purpurina. Eu não recebia presentes – era demasiado pueril e até um pouco ridículo dar presentes a quem se ama. O amor não se comemora. E o Natal até era mais belo quando era obscuro e quase inesperado no decurso dos dias sem história. Perguntei lá em casa:

- O Miguel Cunha mente muito?

- Como uma cesta rota.

Abstive-me de perguntar se ele era um pecador. E toda a vida guardei aquela porfia de alma de ir ao Brasil, conhecer o cafezal onde ficaram gravadas as letras tabeliónicas desse noveleiro, que foi criado de convento e podador em Argabiça»

 

Legenda:  «Le Train dans la Neige», pintura de Claude Monet

(Texto publicado em 24 de Dezembro de 2022)

domingo, 26 de janeiro de 2025

POSTAIS SEM SELO


A literatura serve para incomodar.

Agustina Bessa-Luís

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Há poucos homens que saibam amar as mulheres e merecê-las.

Agustina Bessa-Luís, lembrada por Manuel S. Fonseca

domingo, 11 de fevereiro de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


A História da Literatura Portuguesa de António José Seguro e Óscar Lopes tem sido a base de estudo e trabalho de quem andou, e anda, a interessar-se pela Literatura Portuguesa.

A obra começou a ser publicada em 1953 e, segundo informação colhida num JL, já vai em 17 edições. A História daLiteratura Portuguesa que existe na Biblioteca da Casa é a 3ª edição e, como habitual em algumas obras e editoras, não tem a data da edição. Uma lacuna, mas enfim…

Do prefácio da 1ª edição:

«Como os autores tinham em vista que este livro fosse um instrumento de trabalho e estimulasse a iniciativa dos estudantes e estudiosos, procuraram completar cada capítulo com uma indicação bibliográfica das principais fontes e textos e dos estdos interpretativos de maior interesse».

Ao longo das sucessivas edições foram introduzidas as necessárias correcções. A partir de uma certa altura, os autores começaram a introduzir novos colaboradores que, aos poucos, foram conduzindo o trabalho e o hão-de continuar.

Não foram muito fáceis as relações de trabalho entre António José Saraiva e Óscar Lopes. Existe, aliás, um livro, Correspondência entre António José Saraiva e Óscar Lopes, onde surgem interessantes trocas de ideias e métodos de trabalho. Principalmente quando o assunto é Agustina Bessa-Luís por quem Saraiva tinha uma veneração quase louca e que esbarrava em Óscar Lopes que estava um tanto ou quanto longe de tanto endeusdamento.

Num texto de homenagem a Óscar Lopes, Manuel António Pina, escreve:

«Na minha primeira aula de Literatura no Porto dei com um professor severo e distante que, de uma penada, varreu toda a confiança que eu trazia do Liceu de Aveiro: “Não recomendo manual nenhum. Disse ele indiferentemente; mas se recomendasse, recomendaria a História da Literatura de Óscar Lopes”. Foi a primeira vez que ouvi o nome de Óscar Lopes. Mais tarde, no Café Diu, os colegas explicar-me-iam, com ar vagamente conspirativo, o mistério da singular recomendação-não-recomendação de António Salgado Junior: História da Literatura de Óscar Lopes era um livro “proibido”; o próprio Óscar Lopes, professor também do Manuel II, estaria “proibido” de dar aulas de Literatura…»

Manuel António Pina, ao tempo, quis comprar o livro, mas os trocos eram escassos e teve que esperar por um Natal para encontrar um “livro de estudo” no sapatinho:

«Guardo-a ainda. Essa velha edição da História da Literatura Portuguesa, porque, de alguma forma, ela me abriu a inteligência e o coração para um mundo então absolutamente novo: o secreto e fascinante mundo das relações da literatura com o pensamento e a vida».

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

AS FÉRIAS VISTAS POR AGUSTINA


As férias, os livros para férias, vistos por Agustina Bessa-Luís no seu Caderno de Significados: 

1.

Desde os dez e os quinze anos, nós imitamos a despreocupação, mas não a vivemos nunca mais. As férias dos adultos são a consagração das suas neuroses. Sendo assim, escolhemos para as um livro que não lemos, traçamos um plano que nos fatiga, compramos coisas que não nos interessam, achamos admiráveis as paisagens que mais dispensamos. E por fim aborrecemos os outros dizendo-lhes como nos divertimos; porque a alegria não se transacciona, e toda a gente sabe isso. Está dito que eu não gosto de férias.

2.

Um livro para férias não deve ser escolhido. O que se escolhe serve à personalidade, e as férias são o pretexto para sermos impessoais, fazer o que muitos fazem, ir para onde muitos vão. Pegue num livro que não pese mais de 200 gramas e leve-o consigo. Leia três páginas, esqueça-o na gare ou no banco das termas, na praia ou no restaurante, e aí, sobretudo, aí tenha a certeza que é o bom livro para férias; se você não tiver pena de o ter perdido.

sábado, 29 de julho de 2023

TORGA ENTRE OS SETE FARISEUS-HIPÓCRITAS

«Escrevi o Mundo Fechado enquanto minha filha dormia; a cozinha era de telha-vã e havia um ratinho esperto ao qual eu punha comida na dispensa todas as noites. E lá vinha o aroma das tílias anunciando os exames e o seu terror laureado de esperanças. O livro foi recebido com agrado, só o Torga me deu uma resposta convencional que não me caiu bem. Fiquei fula e qualifiquei-o entre os sete fariseus-hipócritas que estão registados no Talmude e dos quais faz a sátira.»

Agustina Bessa-Luís em O Livro de Agustina

terça-feira, 18 de julho de 2023

CONVERSANDO

Encontrei uma pasta com uma série de recortes sobre e de Agustina Bessa-Luís. Foi um propósito que englobava o quanto Agustina Bessa-Luís, após a sua morte, caiu num certo esquecimento, mesmo por aqueles que sempre a idolatraram.

Pela minha parte o não apreciar Agustina é uma questão política.

«Fico mais espantada quando as pessoas dizem que gostam de mim. Não vejo razões para gostarem de mim porque eu também não gosto  da maioria das pessoas.»

Irei voltar a esta pasta agustiana. 

sábado, 24 de dezembro de 2022

O CORREIO DA NOITE


 Num livrinho intitulado «As Estações da Vida» de Agustina Bessa-Luís, encontramos estas palavras:

«O comboio sempre me pareceu ter qulauqr coisa de profético. Abria-se a portinhola duma carruagem e imediatamente se abria na imaginação um processo romanesco. Tratávamos de divisar os passageiros e explorar a réstea de conforto que podíamos partilhar. Era o prelúdio duma viagem que podia ser o primeiro capítulo duma história.»

Na Biblioteca da Casa há uma antologia de contos de Natal, publicado em 1978.

Nele se encontram tres contos de Agustina Bessa Luís.  Escolhemos «O Correio da Noite», uma história maravilhosa.

 «Em 1934, passámos a véspera de Natal num velho vagão onde viajavam três cães perdigueiros, um hortelão de frades e uma criada de servir, a Rata, que estreava uma peineta nova, dessas que havia com aplicações de turquesa fingida. Não havia transportes e, pouco antes da meia-noite, meu pai lembrou-se de visitar a família, que não era numerosa e por isso lhe dava pena deixá-la, à ceia, na vasta mesa toda mordida por golpes de canivete que até parecia obra de talha. Sujeitámo-nos pois àquela viagem no correio da noite que, além do mais, ia cheio até aos tejadilhos. Alguns preferiram o furgão; levava caixotes de passas de Alicante e uma urna para um morto, coberta com um pano encerado, como se fosse destinada aos abismos do oceano. A Rata persignava-se e rezava umas estropiadas letanias que ela sabia. O hortelão, o Miguel Cunha, era da minha terra – o maior mentiroso, o mais famoso gastador de petas lá do sítio. Nunca vi tal arte feiticeira, tal cordura bem-falante em tecer fantasias. Aos poucos, íamos com ele na legenda dos assuntos e, se um céptico nos cortasse o passo, éramos como mastins sobre a sua lucidez idiota. Porque ao pé do Miguel Cunha, tão generoso a contar-nos novelas, casos tortos, extraordinárias missões do bicho homem, todos os outros eram tolos e leigos no sentimento de urdir a vida.

O comboio, na noite clara, soltava fagulhas verdes e douradas. Víamos o rasto delas pelas portas que iam meio abertas. Eu tinha nesse ano umas luvas de lã de punhos altos, de alpinista, e os dedos estavam vidrados pelo frio.

- Ah, lembra-me isto uma passagem que se deu em Argabiça – disse Miguel, na sua vozinha refilona e alegre. Eu pensei para mim: Temos espanholada. E a Rata interrompeu o seu piedoso discurso de Electra sobre a urna, para se arrumar comodamente entre as caixas de passas. Era uma rapariga a jeito de escultura Maya – estou a vê-la, um ar maciço, fecundo e antigo; os brincos de ouro tinham crostas de cera verde. – Os de Argabiça tinham uma fábrica de urnas – continuou Miguel. – E eram famosos por isso. Mandavam-nas para o Brasil, a direito pelo mar dentro, atadas com sogas umas às outras. E levavam seis dias e poucas horas a lá chegar. Seguiam as correntes; não saltavam as ondas, iam a par delas. Isto poupava-lhes muitas léguas. Eu andava nas podas, que não sou de Argabiça, mas um migalho mais acima. Dois moços chegaram-se a mim e desafiaram-me: Queres tu vir ao Pará? – Quero – disse eu. Pendurei a tesoura no cinto e meti-me com eles nos caixões, que era a nossa maneira de embarcar. O mar estava lesto, e o coração do mar batia como um sino. Ouvíamos cantar as sereias, e os filhos delas corriam no fio do cachão sem se afundarem. Chegámos ao Brasil aí pela noite do Ano Bom; a praia estava cheia de velinhas que alumiavam o mar, e as pretas traziam flores e atiravam-nas à água.

- Cala-te, fardeleiro, que te não posso ouvir! – disse a Rata. Desatou com fúria o nó do cabelo e voltou a torcê-lo.

- Eu morra se não falo verdade! – Os olhinhos amarelos do Miguel Cunha, a sua voz cantarina, o cabelo turdilho que ele já tinha, a pequena figura rabina, tudo se me pregou na memória. E o tambalear do vagão nos trilhos naquela noite de alto céu sem bruma.

- Enredas bem os teus enredos – disse meu pai, entre maravilhado e distraído.

- Que falo certo, e isso não me pesa… Tenho como testemunha um cafezal que podei com a minha tesoura antes de vir embora. Ainda lá está o cafezal. E no último pé botei-lhe duas letras, que foram um A e um B. Não era Ano Bom, não era nada disso. Era Adeus Brasil. Assim a luz do sol me alumie, como não foi aparença.

- Eu fio-me – tornou a Rata, moída de ronha, cega. – Olha que pecas! Olha que pecas!

Eu tive de repente medo. Quem viajava comigo naquele escuro lugar? Viam-se os pinheiros e os postes desenhados no claro da lua. Os fechos de cobre da urna tremiam levemente. Àquela hora, em casa, já a ceia tinha sido servida; e os gatos mediam a própria sombra, com elásticos passos, depois dum banquete de espinhas. Não havia presépio; só um Cristo de barro dentro dum fanal, com cravos nas mãos, pintados de purpurina. Eu não recebia presentes – era demasiado pueril e até um pouco ridículo dar presentes a quem se ama. O amor não se comemora. E o Natal até era mais belo quando era obscuro e quase inesperado no decurso dos dias sem história. Perguntei lá em casa:

- O Miguel Cunha mente muito?

- Como uma cesta rota.

Abstive-me de perguntar se ele era um pecador. E toda a vida guardei aquela porfia de alma de ir ao Brasil, conhecer o cafezal onde ficaram gravadas as letras tabeliónicas desse noveleiro, que foi criado de convento e podador em Argabiça»

 

Legenda:  «Le Train dans la Neige», pintura de Claude Monet

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Comprando o Público de hoje, apenas 2 euros, encontrará um livrinho-revista de 104 páginas comemorativo do Centenário de Agustina Bessa-Luís.

O jornal da Sonae, por vezes, bem poucas, tem destas surpresas.

Compõe-se de um conjunto de ensaios e diversos olhares sobre Agustina que, talvez, redundem num pretexto de futuras leituras da autora de A Sibila.

Não sou um leitor atento de Agustina.

Aquando da sua mote a genialidade foi chamada diversas vezes.

Os seus pares e os jornalistas esgotaram os adjectvos.

Mas, no fundo, Agustina tinha razão: era mais conhecida que lida.

«Decorre a apresentação do livro de Cavaco Silva no salão nobre do Centro Cultural de Belém, e os carros pretos dos ministérios sobem a rampa com uma lentidão consular. Eu escrevi cinquenta e não me prestam tanta atenção. Pelo que fico, por um momento, desencorajada.» escreveu Agustina em 1994. 

domingo, 16 de outubro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Em geral, nós somos o discurso dos outros. Nós, por nós próprios, não temos discurso. Não devemos ter. Mas mesmo que quiséssemos ter também não tínhamos. Agora, cada um, no seu relacionamento com o outro tem uma imagem. Culturalmente, no domínio da imagem pública, sou um ensaísta. E já estou crucificado nessa maravilhosa cruz.

Agustina Bessa-Luís

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS



Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constituem os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

No dia 14 de Outubro de 1922 nascia Agustina Bessa-Luís.

Também há cem anos mas a 16 de Novembro nascia José Saramago.

Tempo para recordar algumas abordagens que Saramago fez a Agustina.

Peguemos antes de mais no livro José Saramago: A Luz e o Sombreado de Fernando Venâncio:

Fomos muitos os que passámos uma fase de deslumbramento por Agustina. De José Saramago é que não se adivinhava semelhante fraqueza. São duas as vezes que dela na Seara Nova se ocupa, à distância de seis meses, e tanto parece ter bastado para a quebra do feitiço. Decerto: logo começara por achar que as ideias da romancista “não se limitam a ser conservadoras: são retrógadas.” Mas, pergunta-se ele, “como é possível não ser submergido pela beleza torrencial desta escrita, que não tem igual na literatura portuguesa deste tempo?” E conclui: se há em Portugal “um escritor de génio”, esse é Agustina Bessa-Luís.

Saramago estava apanhadinho. Mas, meio ano depois, caía em si. Começa devagar, com passos de felino: “Sendo ou não sendo o maior escritor de hoje, é caertamente o que melhor domina e molda o barro da língua.” Mas… ela tem “os defeitos das suas virtudes”, E poderá acabar embalada na música que ela própria produz. Deste modo, “tanta beleza plástica, tanta profundidade”, vão terminar afundadas na confusão, na incoerência.

Pode dizer-se: José Saramago admirava Agustina Bessa Luís.

É numa crítica, publicada na Seara Nova de Maio de 1967, ao livro de Agustina As Relações Humanas, que Saramago expõe essa admiração:


Algumas das ideias de Agustina Bessa Luís não se limitam a ser conservadoras: são retrógradas. Repugnam a um nosso deliberado amor de claridade, de abertura para o inteligível, de definição e construção de um sistema de relações em que a magia não seja utilizada como meio (entre tantos) de dominação de classe. Mas… Como é possível, resistindo e opondo-nos embora no plano das ideias e da sua prática, não ser submergido pela beleza torrencial desta escrita, que não tem igual na literatura portuguesa deste tempo? Como é possível ficar indiferente a certas bruscas iluminações que vão mais longe e mais fundo, no sentido do conhecimento de si e do outro, que todo o material de análise que comumente manuseamos? Como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vá esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?

(…)
Quem escreve assim, quem assim resolve, mistura e separa um universo de figuras dramáticas, mais que humanas, num cenário que mesmo quando quotidiano, apresenta sempre um ondular crispado de mundo em transe de criação, pode dar-se talvez ao supremo desdém de não exprimir ideias concretas ou de exprimi-las segundo uma escala de valores para nós, mortais de consumo corrente, ultrapassada e negativa. Fica uma lição e uma profissão de beleza. E a beleza, essa, não é concretamente um valor ultrapassado.

Fica por saber, se José Saramago manteve, para sempre, essa admiração.


Numa entrada, 10 de Outubro de 1994, no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote, escreve José Saramago:


Agora chegou-me a notícia de que Agustina Bessa Luís passou a dedicar-se também a estas activ9dades conjuntas de polícia, ministério público e juiz. Declarou que eu não sou um «grande escritor», que sou apenas «produto de diversas circunstâncias»… Ser eu, ou não, um «grande escritor» não tiraria nem acrescentaria nada à glória literária e à importância social de Agustina Bessa Luís, mas isso para ela é insignificante perante a ocasião que lhe deram de mostrar-se tão traquinas quanto lho pede a natureza. Mesmo que demoradamente explicasse, Bessa Luís não compreenderia que nunca pretendi ser um «grande escritor», mas um escritor simplesmente. Bessa Luís tem os ouvidos tapados para estas distinções, tão tapados como parece que esteve neste caso o seu entendimento ao deixar os leitores da entrevista dada ao Independente sem saber – porque as não mencionou – de que as circunstâncias perversas sou eu mistificador produto. Muito pior ainda, se é possível, foi ter Agustina Bessa Luís calado as circunstâncias que fizeram dela a «grande escritora» que sem dúvida acredita ser…


Anos mais tarde, em Uma Longa Viagem com José Saramago, dirá a João Céu e Silva:


Não que seja um génio, mas apareço com o meu trabalho feito e a natureza do meu trabalho, o meu tipo de escrita, os temas que eu trato – que saem fora da rotina mais ou menos convencional de uma situação sentimental ou de conflito familiar. Isso é uma área que não me interessa – e os livros têm êxito, os leitores multiplicam-se e isso não se me perdoou. O Vergílio Ferreira… A Agustina, numa entrevista que deu disse que em Portugal só havia dois escritores que mereciam o Prémio Nobel: um era o Vergílio Ferreira outro era ela. E também diz a certa altura: «Não o José Saramago não é um grande escritor. É o produto de certas circunstâncias» e por aqui se ficou. Nem disse quais eram as circ8unstãncias nem disse como é que se chegava a ser grande escritor como certamente ela supunha que era. Não vale a pena, no fundo a inveja é uma coisa que todos mais ou menos sofremos. Alguns dominam-na e transformam-na noutra coisa. Se eu invejo aquele tipo que aquele tipo que é mais alto do que eu, vou fazer ginástica para ser mais alto que ele…

Enquanto crítico da Seara Nova, José Saramago debruçou-se duas vezes sobre livros de Agustina Bessa Luís:  As Relações Humanas e  Homens e Mulheres. 

Numa chamou “génio” a Agustina, noutra disse que Agustina “corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”

Quem não achou piada alguma à história foi José Gomes Ferreira, possivelmente, por entender que José Saramago seria a última pessoa no mundo a chamar génio a Agustina Bessa-Luís. 

A 2 de Janeiro de 1968 escreve José Gomes Ferreira no 4º volume dos seus Dias Comuns:

«Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem; Gaspar Simões, Óscar Lopes, José Régio, sei lá quantos).

Agora, chegou a vez ao Saramago que, no último número da “Seara Nova”, não resistiu a proclamar: “como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vã esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?»


Legenda: Recorte da crítica de José Saramago ao livro «Relaçoes Humanas» de Agustina Bessa-Luís publicado na «Seara Nova» nº 1467, Janriro de 1968.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 

Assim passamos e as coisas passam por nós.

Agustina Bessa-Luís

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Para o dia de hoje, os sublinhados saramaguianos recaem num livro sobre José Saramago. Trata-se de José Saramago, A Luz e o Sombreado, uma reunião de textos versando José Saramago que Venâncio foi escrevendo para diversos jornais e revistas.

No prefácio esclarece:

«Contra uma concepção assépica dos estudos literários, aceito que a literatura é uma fonte de prazeres e uma fonte de constrangimentos. A minha leitura de José Saramago foi até hoje, e talvez deva continuar a ser, ocasião de desencontradas sensações. Não sei se isso é sinal, ou mesmo prova, da grandeza do objecto. Só sei que José Saramago é um escritor que me desvanece e me agasta, e isto só pode querer dizer que é um escritor que me interessa. Mais certezas não tenho.»

Na primeira abordagem, a atenção recai sobre o capítulo 4 do livro: «Obscuro crítico, 45 anos» que envolve o tempo em que Saramago exerceu crítica literária  na Seara Nova.

Numa carta, datada de 8 de Maio de 1967, José Saramago diz a José Rodrigues Migueis:

«Sabe que fui promovido a crítico literário? E da Seara, ainda por cima, que é coisa fina. Eu conto: Aqui há meses telefona-me o Costa Dias a dizer que queria falar comigo. Que era, que não era, e vai daí vem o convite. Abri a boca de puro pasmo. Encontrámo-nos, e eu, honesto e perplexo, modesto e desconfiado, dou as minhas razões Contra: falta de preparação e de grau universitário, pouco tempo disponível ou nenhum, independência ideológica, etc., etc. A nada o Costa Dias se moveu. Que eu sou um sujeito assim, que eu sou um sujeito assado, e por aí fora. Acabei por aceitar. E lá estou. Veremos por quanto tempo. É que, de mim para mim, assentei que à mais pequena pressão ou torcidela de nariz, tiro de lá os pés. Para o último número, escrevi duas críticas, uma das quais a Censura deitou abaixo. Bom princípio.»

José Saramago publica a sua primeira crítica na Seara Nova no nº 1459 referente a Maio de 1964, e a última aparece no nº 1476, referente a Outubro de 1968.

Fomos muitos os que passámos uma fase de deslumbramento por Agustina. De José saramago é que não se adivinhava semelhante fraqueza. São duas as vezes que dela na Seara Nova se ocupa, à distância de seis meses, e tanto parece ter bastado para a quebra do feitiço. Decerto: logo começara por achar que as ideias da romancista “não se limitam a ser conservadoras: são retrógadas.” Mas, pergunta-se ele, “como é possível não ser submergido pela beleza torrencial desta escrita, que não tem igual na literatura portuguesa deste tempo?” E conclui: se há em Portugal “um escritor de génio”, esse é Agustina Bessa-Luís.

Saramago estava apanhadinho. Mas, meio ano depois, caía em si. Começa devagar, com passos de felino: “Sendo ou não sendo o maior escritor de hoje, é caertamente o que melhor domina e molda o barro da língua.” Mas… ela tem “os defeitos das suas virtudes”, E poderá acabar embalada na música que ela própria produz. Deste modo, “tanta beleza plástica, tanta profundidade”, vão terminar afundadas na confusão, na incoerência.

Enquanto crítico da Seara Nova, José Saramago debruçou-se duas vezes sobre livros de Agustina Bessa Luís:  As Relações Humanas e  Homens e Mulheres. 

Numa chamou “génio” a Agustina, noutra disse que Agustina “corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”

Quem não achou piada alguma à história foi José Gomes Ferreira, possivelmente, por entender que José Saramago seria a última pessoa no mundo a chamar génio a Agustina Bessa-Luís. 

A 2 de Janeiro de 1968 escreve José Gomes Ferreira no 4º volume dos seus Dias Comuns:

«Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem; Gaspar Simões, Óscar Lopes, José Régio, sei lá quantos).

Agora, chegou a vez ao Saramago que, no último número da “Seara Nova”, não resistiu a proclamar: “como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vã esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?»

Escreve Fernando Venâncio:

«Fomos muitos os que passámos uma fase de deslumbramento por Agustina. De José saramago é que não se adivinhava semelhante fraqueza. São duas as vezes que dela na Seara Nova se ocupa, à distância de seis meses, e tanto parece ter bastado para a quebra do feitiço. Decerto: logo começara por achar que as ideias da romancista “não se limitam a ser conservadoras: são retrógadas.” Mas, pergunta-se ele, “como é possível não ser submergido pela beleza torrencial desta escrita, que não tem igual na literatura portuguesa deste tempo?” E conclui: se há em Portugal “um escritor de génio”, esse é Agustina Bessa-Luís.

Saramago estava apanhadinho. Mas, meio ano depois, caía em si. Começa devagar, com passos de felino: “Sendo ou não sendo o maior escritor de hoje, é caertamente o que melhor domina e molda o barro da língua.” Mas… ela tem “os defeitos das suas virtudes”, E poderá acabar embalada na música que ela própria produz. Deste modo, “tanta beleza plástica, tanta profundidade”, vão terminar afundadas na confusão, na incoerência.»

Legenda: imagem de David Alexander Colville


quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

DEVIAM-ME TER PERGUNTADO

11 de Maio de 1992

Segundo o Público, interrogada em relação à atitude de Sousa Lara no caso do romance de José Saramago, Agustina Bessa-Luís respondeu: «Foi um acto impolítico. Deviam-me ter perguntado primeiro, eu explicava tudo, ninguém percebia nada, mas ficavam todos contentes.

A literatura é exactamente isto.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

sábado, 25 de setembro de 2021

DOS AUTISMOS...

E daqui deriva também a fisionomia das suas leituras de outros poetas: elas são mais o prolongamento do fluxo através do outro do que a análise enriquecedora da complexidade dos textos. Nesse plano, podemos dizer que Ramos Rosa construiu uma verdadeira cidadela – um quase autismo. Mas os grandes autores são autistas – como o Herberto, a Llansol, a Agustina, o Vergílio ou o Eugénio de Andrade. E poderíamos dizer de Ramos Rosa que nenhum autismo foi tão generosos na demanda do outro para nele se prologar e confirmar – cartas, poemas, desenhos, leituras, confluência de palavras apaixonadas.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I