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domingo, 6 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Se alguma vez me tivesse sentido mal no partido, tinha saído, e se um dia me sentir mal, saio. As minhas discordâncias, que são sérias, e em alguns casos sobre pontos essenciais, não foram suficientes para abandonar o partido. Creio que por causa da minha própria convicção, e sem esforço. É o único parido onde a minha convicção está à vontade e tem suficiente resposta.

José Saramago, entrevista ao Expresso de 2 de Novembro de 1991

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS



José Saramago: Aproximação a um Retrato

Baptista-Bastos
Capa: Emília Abreu
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 1996

Se disser escritor comunista isso significará, talvez, que sou um escritor preocupado em fazer passar aquilo que é a mensagem – usemos esta palavra gasta – do comunismo. Se dissesse que sou um comunista escritor, então seria um comunista que tinha decidido ser escritor para fazer passar essa mesma mensagem. Eu prefiro dizer que sou uma pessoa que é, ao mesmo tempo comunista e escritor. E que, se é preciso meter aqui uma ordem, então a ordem teria de ser necessariamente cronológica. Comecei a escrever aos 25 anos. O meu primeiro livro saiu nessa altura, quando eu ainda não era comunista, portanto parece-me que comecei por ser escritor. Mas também é certo que os meus livros mais importantes vieram quando eu já era, formalmente, militantemente, um comunista.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

OLHAR AS CAPAS


Biografia – José Saramago

João Marques Lopes
Caoa: Ilídio J.B. Vasco
Ilustrações Lucy Pepper
Prefácio João Tordo
Guerra e Paz, Editores S.A.
Distribuído hoje com a Visão – 5,90 euros.

Aliás, fonte próxima do escritor e à época também envolvido na imprensa confirma que Saramago, ao contrário do que acontecia, por exemplo n’ “O Século”, onde os militantes comunistas da direcção do jornal aplicavam a linha ditada pelo PCP e mantinham contactos regulares com o “controleiro” Carlos Brito, suspendeu os contactos com o partido e conservou uma orientação independente mal vista pelos quadros dirigentes. Daí o ostracismo a que foi votado nos tempos a seguir ao 25 de Novembro.

sábado, 15 de janeiro de 2011

SARAMAGUEANDO


“Não é o santo que alguns louvam nem o demónio que outros aborrecem, é, mas não simplesmente, um homem. Chama-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a comer os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e a decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos prováveis e possíveis do partido de que foi, por muitos anos, contínua e quase solitária referência. Quer no plano nacional, quer no plano internacional, não duvido de que sejam de amargura as horas que vive o meu camarada Álvaro Cunhal. Não é o único, e ele o sabe. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele foi, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultado que se visse, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Álvaro Cunhal quando ele se retirou. Agora, quando cumpre os seus noventa anos, talvez já não precisemos dele. Mas o que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso.”

Este texto de José Saramago, por ocasião dos 90 anos de Álvaro Cunhal, foi publicado na revista “Pública” do “Público” de 9 de Novembro de 2003

sexta-feira, 30 de julho de 2010

TENHO O PARTIDO QUE TENHO



Exemplar do nº 16, da revista “Ler”, referente ao Outono de 1991, e editada pelo “Círculo de Leitores”.Contém uma entrevista, a José Saramago, feita por de Francisco José Viegas.

“Não abdica do ideal comunista, escreveu um livro (a publicar em Novembro próximo) sobre a vida de um Cristo imaginado humano. “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, a lançar pela Editorial Caminho, é, em simultâneo, uma biografia de Jesus e do seu tempo, e uma reconstrução das suas ideias e obras, antes de o cristianismo as deter e reter para si, Uma vida apaixonante de Cristo, de Deus, de Maria e de S. José, por José Saramago.”Aborda-se “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” mas, quando a entrevista foi concedida, viviam-se dias agitados na URSS, um golpe pretendia pôr em causa a “Perestroika.” Francisco José Viegas não perde a oportunidade de saber o posicionamento de Saramago sobre esses acontecimentos, bem como em relação à sua militância como membro do PCP.

“As suas actividades políticas não o impediram de escrever nos últimos dois anos?

“Não nunca me interromperam o trabalho, para já porque as minhas actividades políticas estão, neste momento reduzidas a nada. Além do mais, o meu partido, o PCP, entende que eu não tenho que ser distraído do meu trabalho com actividades políticas mais imediatas.
É possível a sobrevivência do comunismo?

Acho que sim. Repare, a ideia, o ideal comunista não nasceu ontem, não nasceu com Lenine, com Marx. Acompanhou o homem desde o início de tudo. Desde o início dos tempos… o facto de os recentes acontecimentos na URSS apontarem claramente para um caminho que se situa fora da área do comunismo não quer dizer que o comunismo tenha acabado. O modelo falhou não tenho dúvidas. É mais do que óbvio. Podemos dar-lhe os nomes que quisermos, socialismo científico, socialismo real, mas os factos estão aí, a dizê-lo e a prová-lo claramente: o modelo real falhou. Este era um dos modelos possíveis. Mas penso que o ideal não morre.
(…) Eu tenho o partido que tenho, e não tenho outro. Se estou dentro, tenho de enfrentar todas as consequências. Na minha relação com o PCP não entro em conta com a minha “base social de apoio” (a expressão é do Eduardo Prado Coelho) enquanto escritor, ou cidadão. Se tiver de acontecer que o facto de o PCP não ter feito a sua “perestroika” afecte a minha vida pública como escritor, não é por isso que deixo o meu partido. Não, não deixo o partido.”