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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

JÁ NÃO HÁ MORDAÇAS

Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, em que os
poetas são os próprios versos dos poemas e onde
cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar. Ninguém
teme as mordaças ou algemas. – O braço que
bater há-de cansar e os poetas são os próprios
versos dos poemas.

Versos brandos… Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada, onde
cada poema é uma bandeira desfraldada e os
poetas são os próprios versos dos poemas.


Sidónio Muralha

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

SONETO IMPERFEITO DA CAMINHADA PERFEITA

Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar
Ninguém teme as mordaças ou algemas

- o braço que bater há-de cansar
e os Poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.

- Eu já não me pertenço: sou da Hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas
.

Sidónio Muralha de Passagem de Nível em O Novo Cancioneiro

quinta-feira, 7 de junho de 2018

PARA VÓS O MEU CANTO...


Para vós o meu canto, companheiros da vida!
Vós, que tendes os olhos profundos e abertos,
vós, para quem não existe batalha perdida,
nem desmedida amargura,
nem aridez nos desertos;
vós, que modificais um leito dum rio;

- nos dias difíceis sem literatura,
penso em vós: e confio;
penso em mim e confio;

- para vós os meus versos, companheiros da vida!

Se canto os búzios, que falam dos clamores,
das pragas imensas lançadas ao mar
e da fome dos pescadores, 
- penso em vós, companheiros,
que trazeis outros búzios para cantar...

Acuso as falas e os gestos inúteis;
aponto as ruas tristes da cidade
a crivo de bocejos as meninas fúteis...

Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis ruas com outra claridade
e outro calor no apertar das mãos.

E vou convosco. - Definido e preciso,
erguido ao alto como um grito de guerra,
à espera do Dia de Juízo...
                                           Que o Dia do Juízo
não é no céu... é na Terra!

Sidónio Muralha em Novo Cancioneiro

sábado, 17 de março de 2018

PASSAGEM DE NÍVEL


Velho dos dias sem sol e das noites sem estrelas
que passas junto a mim apregoando,
apregoando cautelas,

- até quando?

Menina da casa estreita e sem janelas
que vives trabalhando, trabalhando...

- quando virá o Dia, quando?

Quando vier, eu que estou à sua espera
hei-de sentir na minha poesia
um hálito de primavera...

Mas não a primavera dos sonetos de almanaque,
encarcerada em versos bafientos,
em que um sujeito de fraque
desfiava pensamentos...

Meus versos serão límpidos, correntes,
porque se beijam na rua os namorados
e não são indecentes nem decentes
- são simplesmente apaixonados.

Verei janelas rasgadas, fatos limpos,
mãos dadas numa franca simpatia,
- e hei-de sentir a primavera
a desprender-se da minha poesia...

Até lá, um rio de raiva rola, ecoa
nos meus versos, rebenta no meu coração...

E aquele que não me perdoa
que saiba que eu não peço o seu perdão!

Sidónio Muralha em Novo Cancioneiro

Legenda: pintura de Vanessa Bell

segunda-feira, 9 de junho de 2014

LISBOA


Lisboa é tê-la
e passeá-la,
descê-la, subi-la,
roçar seus telhados.
Eu me desandei
por  mundos além
numa fúria idiota
de encontrar não sei quê
e vi que o exílio
é a terra da gente
esboroada em saudade
nos países dos outros .

Sidónio Muralha em A Caminhada

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

NATAL


Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
em letras grandes e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos também
dos bodos, bodos e bodos,
em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.

- Mas quando será de todos?

Sidónio Muralha

Poema retirado de Natal… Natais, antologia de Oito Séculos de Poesia Sobre o Natal, organizada por Vasco Graça Moura, “Público”, Lisboa s/d

Legenda: Fotografia de Edouard Boubat