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quinta-feira, 20 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS


Ensaio Sobre a Obra de Trindade Coelho

Rogério Fernandes

Portugália Editora, Lisboa, Outubro de 1991

Trindade Coelho considerava que a instrução popular era um dos factores mais importantes da reestruturação do «viver positivo dos homens». Para além do bem fundado da ideia da indispensabilidade de uma radicação nítida, no povo, da consciência dos seus direitos, não errava Trindade Coelho ao julgar a educação factor de não pequeno peso na recuperação do atraso em que se encontrava o País. De facto, a educação é um factor economicamente rendosos, e não pode pensar-se na transformação eficaz do viver económico de um povo sem vastas camadas humanas apetrechadas culturalmente para a realizarem.

quarta-feira, 13 de março de 2024

OLHAR AS CAPAS


O Senhor Sete

Trindade Coelho

Recolha, apresentação e notas: Augusto da Costa Dias

Capa: João da Câmara Leme

Portugália Editora, Lisboa, Agosto de 1961

Começo a dar hoje nestas doces páginas da Tradição tudo quanto a minha paciência para coisas do povo tem coligido – aqui, além, acolá -, em que entre o algarismo 7, que é, como se sabe, muito do agrado popular. Começarei pelas quadras que estão nesse caso, incluindo, está bem de ver, as que se referem ao Setestrelo; passarei depois aos ditados, rifões, parlendas e frases feitas, em que esse algarismo figure também; aos responsos, esconjuros, orações e adivinhas, em que o mesmo sede; e, por último (e quem sabe lá se o mundo se não acabará primeiro!) ao que também respiguei de setes na literatura popular já coligida: xácaras, romances, solaus, contos, etc., etc,

Valos lá, pois, com Deus, que temos muito que andar, e o que vale é que não pode o caminho ser mais bonito! 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

OLHAR AS CAPAS


In Illo Tempore

Trindade Coelho
Portugália Editora, Lisboa s/d

No tempo em que eu andava em Coimbra, ainda a boa e imortal sebenta reinava em todo o seu esplendor! Eu nem fazia sequer ideia, ao chegar a Coimbra, do que vinha a ser isso da sebenta; mas, industriado logo a tal respeito, vim a saber que era uma espécie de folhinha litografada, formato 8.º, que saía todos os dias compendiando a explicação do lente; que se chamava “sebenteiro” ao que a redigia; que custava sete tostões por mês cada uma; que eram três em cada ano, visto as cadeiras em cada ano serem três; e, finalmente, que, enquanto o lente explicava a lição para o dia seguinte, só o sebenteiro ouvia o lente, e que os mais, todos, e eu portanto, podiam muito bem ler o seu romance, fazer o seu bilhetinho e passá-lo ou comentar os que vinham dos outros – ou então, se preferíssemos, dormir ou fazer versos!

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Os Meus Amores

Trindade Coelho
Portugália Editora, Lisboa, Junho de 1962

No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras letras. A porta lá estava, com fortes pinceladas vermelhas, ao cimo da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la. Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um silêncio nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada, num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz da Helena dizer para o Sr. Professor, um de óculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa: 
– Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encomendinha. 
Oh!! Oh! A encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali estava a encomendinha! – Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão? 
E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia... E ali estava eu entre os joelhos do Sr. Professor, com o boné numa das mãos e a saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus. 
Choraminguei, quis sair na companhia dela. 
– Não, agora o menino fica – disse-me a Helena. 
– Isto aqui é uma escola onde se aprende a ler. – E agachando-se, diante de mim: – Olhe tanto menino, vê? 
– Mas fica tu também... – disse-lhe eu então.
 Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir, iracundo: 
– Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai tudo raso com bolaria! Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, pelos modos. Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes; cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão principalmente.
 – Isto é preciso muita paciência, Sr.ª Helena, muita soma de paciência. Um mestre precisa de ser um santo –, (Pausa. Olho duro sobre as bancadas.) – Mas está bem, diga lá que a encomendinha cá fica. Em boa hora entrasse...