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quinta-feira, 25 de junho de 2020

TODAS AS COISAS INTACTAS


Casimira amarra­va o lenço na cabeça, passava para trás e fechava a janela, alisava com as mãos o avental antes de a sentar ao colo, e era sempre Casimira que ainda nessa tarde a levaria á praia com Elisa, ela olharia da praia e poderia distinguir as paredes brancas, a porta, as pequenas janelas — lá estava, lá estava a casa, plantada no Verão. Todas as coisas iguais, recuperadas, porque não havia ainda nenhum intervalo no tempo. Os pés reconheciam as sandálias, como os ouvidos o vento, e o corpo o sabor do mar. Todas as coisas intactas, que de repente voltariam: o nevoeiro entrando pelas fisgas, como um assobio muito fino, o cheiro das manhãs em que chovia, os barcos, todos brancos, sobre o mar. E sobretudo a casa voltaria, idêntica, interior, envolvente, como o peso de dois braços, durante muitos anos voltaria, até que insensivelmente começaria a afastar-se como um barco partindo, e de repente havia uma distância intransponível entre ela e a casa –
O Verão em que chegara o circo e à tarde os acrobatas percorriam as ruas tocando os guizos, no dorsos de elefantes, o homem de boné branco atravessando a praia com uma lata de bolacha americana a tiracolo, um canudo comprido em que se pegava com jeito mas de algum modo se partia sempre, e tinha um sabor a farinha torrada, a mel, a hóstia, durante anos nenhuma coisa teve jamais um sabor assim, havia também os barquilhos, que saíam na roleta, sempre muito menos do que se esperava, de cada vez se jurava a si mesmo que seria a última, mas sempre que o homem perguntava «bolacha ou barquilhos» a tentação era mais forte e girava-se a roleta, e recebiam-se, corando de humilhação, tr~es ou cinco ou apenas um, havia a mulher que passava com um tabuleiro de caramelos embrulhados em papéis de cor e cada cor tinha seu paladar.


Legenda: imagem Shorpy

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A VIDA SE FAZ COM AS MÃOS

      
mas os outros, dissera Pedro, e também Clara, mas as muitas possibilidades das coisas, disseram, porque nada está nunca terminado enquanto se está vivo e é sempre possível recomeçar de outro modo, de repente estender a mão e inverter os termos da relação com o mundo, porque a vida se faz com as mãos, disse Clara, é apenas uma questão de desejar com força, deseja-se apenas ao de leve, como se não fosse verdade, mas se muita gente começar a empurrar o mundo ele vira-se para outro lado e transforma-se, há toda uma transformação subterrânea que sem se dar conta se opera, e de súbito há um outro horizonte possível, porque o mundo está ainda só muito imperfeitamente inventado.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Como na ancestral sabedoria africana, em que as pessoas nascem com as palavras que lhes pertencem na barriga, e morrem quando as disseram todas.

Teolinda Gersão

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Os Guarda-Chuvas Cintilantes

Teolinda Gersão
Capa: Henrique Cayatte
Sextante Editora, Lisboa, 2014

Esse ano demorou-se um só dia, e fugiu que nem um pássaro, pela janela entreaberta.
(Muitas vezes, depois, ela se haveria de arrepender de ter deixado a janela mal fechada).

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

PARA QUE SERVEM AS CASAS QUANDO TODOS PARTIRAM


para que servem as casas quando todos partiram – deixar o corpo atrás de si como uma casa vazia e ir embora, apenas isso, uma viagem rápida, fácil, correr as cortinas, apagar as luzes, fechar a porta atrás de si, nem sequer tão longo como o tempo de pensá-lo, nada tenho a explicar, quero apenas ir-me embora, as casas têm risos, chaminés, chapéus alto de feltro e luvas verdes, vestidos com fitilhos saindo de arcas da memória, trazem berços nos braços e correm ao nosso encontro como animais vivos, são quentes, loucas, imprevisíveis, fúteis, com os seus cortinados de folhos, as suas camilhas longas, os seus vidros brilhantes e os seus metais polidos, as suas botas cor de tijolo e os seus telhados inclinados, por onde escorre o tempo, mas às vezes morrem e é preciso cobri-las de terra para não suportar o horror de vê-las decompor-se, é preciso atirar depressa com pazadas de terra e deixá-las invisivelmente decompor-se, até deixarem de existir e serem levadas pelo vento.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Paisagem Com Mulher e Mar ao Fundo

Teolinda Gersão
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa, Junho de 1982

A interdição tácita de não ser feliz, de não viver satisfeita, de não achar que a sua era a melhor das vidas, uma vez que lhe diziam que era, a proibição de revoltar-se. Os livros permitidos e os livros proibidos, as ideias, desejos, sonhos, pensamentos proibidos. O imaginário que não se podia modificar nem por em causa. A mulher sem desejo nem corpo, porque só ao homem pertencia o desejo e o corpo. A mãe como um perfil de sombra, transparente a ponto de se tornar invisível, a casa perfeita, ordenada, silenciosa, como se se mantivesse no ar, suspensa.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

POSTAIS SEM SELO


Alguém que escreve o que tem a escrever e depois se vai embora. Desaparece. É assim que me vejo. Como vejo todos os que nasceram para a escrita. Como na ancestral sabedoria africana, em que as pessoas nascem com as palavras que lhes pertencem na barriga, e morrem quando as disseram todas.

terça-feira, 8 de maio de 2012

SARAMAGUEANDO


Com a prontidão costumada, a Wikipédia diz-nos que o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores é atribuído desde 1982 e visa consagrar uma obra de ficção de autor português, publicada no ano anterior à atribuição do prémio.

Começou com o valor de 750 contos, em 1990 passou para 2.000 contos e actualmente, o vencedor recebe 15.000 euros.

No início de 2005 recebeu a designação de Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB (Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas).

Apenas em 1993, com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o prémio da Associação Portuguesa de Escritores, é atribuído a José Saramago.

Mas antes de se chegar lá, passeemos um pouco pela história do prémio, mais concretamente, pelo ano da primeira atribuição, bem como o do ano de 1984.

José Gomes Ferreira dizia que a arte não se premeia, persegue-se.

Não gosto de prémios.

Premiar obriga a uma escolha, uma escolha que tem diversos cordelinhos a envolvê-la: amizades, ódios, invejas, gostos, tendências, conciliábulos, boatos, especulações, política.

Até hoje, muitos o foram, mas não é possível, francamente, existir unanimidade.

Na revista do Expresso de 1 de Abril de 1983, Regina Louro, reportava uma antevisão do prémio.

Título da peça: Grande Prémio para um escritor: quem será, será…

Na próxima quarta-feira haverá em Portugal um escritor feliz. Feliz e abonado. Terá ganho o Grande Prémio da Associação de Escritores, e o mesmo é dizer: o maior galardão literário existente entre nós.

O ano de 1982 dera uma safra de bons romances, se bem que no balanço publicado pelo Diário de Notícias, João Gaspar Simões chamou-lhe “o balanço impressionista de um ano pouco impressionante” e o balanço de Maria Lúcia Lepecki, no Expresso, deixa vincado que “não são numerosos os livros absolutamente invulgares, mas muitos são francamente bons”.

O júri, os nomes só viriam a ser conhecidos no dia da atribuição do prémio, debruçou-se sobre uma trintena de livros, onde se encontravam: Café República de Álvaro Guerra, Ora Esguardae de Olga Gonçalves, Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo de Teolinda Gersão, O Inventário de Ana de Maria Isabel Barreno, O Número dos Vivos de Hélia Correia, A Manta Religiosa de Nuno Júdice, Explicação dos Pássaros de António Lobo Antunes, Passeios do Sonhador Solitário, O Bosque Harmonioso de Augusto Abelaira, O Cais das Merendas de Lídia Jorge, Balada da Praia dos Cães de José Cardoso Pires, Rio Triste de Fernando Namora, Memorial do Convento de José Saramago.

Em Abril de 1983, apenas tinha lido as obras de Cardoso Pires, de Saramago, de Teolinda Gersão, de Abelaira, de Hélia Correia, de Lídia Jorge.

No lote dos favoritos estavam Saramago, Cardoso Pires e Namora.

Volto ao artigo de Regina Louro:

É claro que eu poderia confessar que já sei, a uma semana de distância, quem é que vai ganhar. Ninguém me prenderia por isso, ao que suponho, e até talvez aumentasse a minha reputação jornalística.

No dia 6 de Abril de 1983 ficava a saber-se que, por unanimidade do júri, José Cardoso Pires era o primeiro galardoado com o prémio da Associação Portuguesa de Escritores.

O júri era composto por Jacinto Prado Coelho, Maria da Glória Padrão, Maria Lúcia Lepecki, Óscar Lopes, Álvaro Salema.

Quando o prémio foi anunciado, José Cardoso Pires, estava sentado na plateia do Apolo 70 a deliciar-se com o filme de Francis Ford Copolla Do Fundo do Coração.

Perguntaram-lhe, pouco depois, o que ia fazer com o dinheiro:

Vou pagar impostos atrasados e algumas dívidas pessoais.

Clara Ferreira Alves no JL:

Dizia-se a meia voz e pelos cantos habituais que o júri zaragateava, barafustava, gritava e discutia com veemência os méritos dos principais candidatos à paternidade da que seria considerada a melhor obra de ficção de 1982.

Olham-se os nomes que constituíam o júri, e muito dificilmente, tanto quanto deles se conhecia, se entende a unanimidade.

Suspeito que sou, a minha escolha recaía em José Saramago, mas também gosto do livro do Cardoso Pires.

Como lá trás se diz sobre o raio das escolhas: amizades, ódios, invejas, gostos, tendências, conciliábulos, boatos, especulações, política.

Final de Balada da Praia dos Cães:

É então que vê passar as três jaulas rolantes vindas não se sabe donde. De longe. Certamente da auto-estrada do norte, Avenida do Aeroporto abaixo, atravessando a cidade. São três transportes de circo, gradeados mas sem feras, que avançam de madrugada. Dentro deles viajam os tratadores com um ar estúpido, ensonado. Desfilam pelas ruas desertas, sentados no chão, pernas para fora, caras entre grades.
Elias deixa de cantar. Durante o resto do caminho pensa nos tratadores enjaulados a atravessarem a noite sobre rodas: o que mais impressiona é que pareciam vaguera sem destino.
                   
                     Passagens de zarzuela e trechos avulsos entoados pelo chefe de brigada
               Elias Santana durante o seu passeio nocturno:
                      - La Violetera   
                      - O Último Couplet
                      - Carmen, de Bizet
                      -  Oh, Sole Mio
                      - Os Sinos Corneville.)
          

quarta-feira, 30 de março de 2011

OLHAR AS CAPAS


O Silêncio

Teolinda Gersão
Capa: Rogério Petinga
Livraria Bertrand
Lisboa, Janeiro de 1981

Lídia imaginou um corpo deitado numa praia, ao lado de outro corpo. Eram um homem e uma mulher e falavam. E o que diziam, ou o que a mulher dizia, era a tentativa de um diálogo fundo, mais fundo do que o diálogo de amor que se trava, ao nível do corpo, entre uma mulher e um homem. Ela procurava uma forma de encontro, através das palavras, um encontro que era, antes do mais, consigo própria, e só depois com o homem que escutava. Ou era apenas um jogo de palavras? Hesitou de repente, sem ver claro. Em algum lugar, é verdade, a falsidade começava. Talvez porque a mulher imaginada pressentia que o homem estava parcialmente fora do diálogo e lhe resistia, como se ele representasse, de certo modo, um perigo, e se pudesse finalmente converter numa agressão contra ele próprio. Talvez por medo, sim (pensou), o homem recusasse participar e levar a sério o que a mulher contava, aceitava-o apenas como um passatempo, compreensível numa praia em que todas as horas eram iguais e vazias.