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sábado, 7 de março de 2026

OS POBREZINHOS


«Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto

(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)

de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros

- O que é que o menino quer, esta gente é assim

e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar

e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis»

António Lobo Antunes em Livro de Crónicas 1º volume

sábado, 2 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                                      Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                     João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Anos 50, 60, por aí fora.

Em algumas terras do interior deste país à beira-mar plantado, poderia ler-se certos avisos:

«É proibida a mendicidade».

Esta semana a Cáritas alertou que a pobreza em Portugal pode ser ainda mais elevada do que o consta das estatísticas nacionais. Segundo a instituição revela, em 2022, 17% dos portugueses estavam no limiar da pobreza.

Ricos e Pobres. Pobres e Ricos.

Há alguns meses, uma velhota, a sair de um pequeno mercado na Rua Morais Soares, desabafava para si própria.

«Há mais gente a pedir que a trabalhar!»

Lidia Jorge numa entrevista ao Público:

«A pobreza entre nós é um escandalo. É a questão mais urgente em Portuga.»

Roger Vailland em Cabra-Cega:

Na verdade qualquer amizade é, por definição, impossível entre o rico e o pobre; o primeiro suspeitará sempre que o segundo é um crava e este que o rico é egoísta e avaro. Se houvesse verdadeira amizade, o rico não seria rico ou o pobre não seria pobre.

Jurei a mim mesmo, de uma vez por todas, não ser delicado para com os ricos. É uma promessa difícil de cumprir, porque é agradável ser-se louvado pelos poderosos.

Rodrigo deixa Marat a monologar».

sábado, 16 de julho de 2022

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...

Outras guerras.

Guerras antigas na Ásia, em África…

Milhares de manifestantes em Colombo, no Sri Lanka, romperam as barreiras policiais e ocuparam a residência oficial do presidente do País, precipitando a sua demissão.

A falta de comida, combustíveis e medicamentos é um dos sintomas mais evidentes daquela que é uma das piores crises económicas das últimas décadas, no Sri Lanka.

A fome e a crise continuam no Sri Lanka.

Entretanto o presidente do Sri Lanka Rajapaksa já fugiu do país, refugiando-se em Singapaura, e o Parlamento, no dia 20, elegerá o substituto o presidente corrupto.

Ucrânia, outra guerra, uma guerra sem fim à vista.

O primeiro-ministro da Hungria, o ultranacionalista Viktor Orbán, voltou a criticar a União Europeia pelas sanções impostas contra a Rússia pela invasão da Ucrânia, medida que, na sua opinião, vai causar uma recessão.

 O envio de armas de guerra dos países da NATO para reforçar as tropas de Volodymyr Zelensky, na Ucrânia, fez disparar o alarme nas polícias europeias. Há fortes suspeitas de que, juntamente com os refugiados que fogem da invasão russa, estejam a circular pela Europa operacionais das máfias ucranianas, aproveitando-se da livre circulação dos que sofrem na pele com o conflito armado iniciado em fevereiro. As autoridades temem que estes grupos criminosos estejam a preparar terreno para avançar com negócios ilegais de armamento em vários pontos da Europa.

1.

As televisões portuguesas são esgotos a céu aberto.

Tudo lhes serve para, durante horas e dias, invadirem os écrans com directos, seja a morte, por maus tratos, de uma criança, seja o futebol, sejam os incêndios que devastam o país.

Uma verdadeira vergonha, uma histeria inenarrável.

Nos dias que agora correm, florestas que ardem, casas destruídas, famílias que encontram abrigo em ginásios e estádios de futebol, e os repórteres televisisvos, quais abutres, perseguindo  os bombeiros para lhes arrancarem notícias sobre o evoluir dos incêndios, ou para saberem para que lado vai soprar o vento… 

Retenho uma repórter a entrevistar uma velhota, por trás a casa destruída, onde passou toda uma vida, e a pergunta: «como se sente?»

Lembro-me da tarde do 25 de Abril, a revolução a avançar e em pleno climax, um jornalista num começo de  palavrar com um capitão: não houve rendição por parte das forças que estão sitiadas…  O oficial rápido: “Porra! Vocês são uns chatos, não deixam de fazer perguntas. Uma senhora está a dar à luz e vão perguntar à senhora se ela está com dores?

É isso!

2.

Os 37 482 hectares de área ardida em Portugal desde o início do ano até quinta-feira, estão a fazer de 2022 o segundo pior ano da última década ao nível de fogos florestais, até ao momento.

3.        

O antigo secretário de Estado da Proteção Civil José Artur Neves e o ex-presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil Mourato Nunes foram acusados no caso das golas anti-fumo de autoproteção no âmbito do programa "Aldeia Segura - Pessoas Seguras, implementado na sequência dos incêndios florestais de 2017.

Yambém neste caso, o ex-ministro Eduardo Cabrita, deixou uma série de pontas soltas.

4.

O antigo banqueiro João Rendeiro, segundo dados fornecidos pelas autoridades, teria quase dez milhões de euros em contas bancárias que estavam congeladas na Suíça.

Estes dados foram fornecidos pelas autoridades suíças a Portugal, depois de terem sido pedidos pelo juiz Carlos Alexandre há mais de dez anos.

5.

A CP aconselhou as pessoas a não viajar de comboio nestes dias de calor.

O surreal  aviso-conselho foi entretanto retirado.

6.

A percentagem de pessoas em risco de pobreza aumentou de 16,2% para 18,4% entre 2019 e 2020.

Em 2020 um terço das famílias perdeu 25% do seu rendimento anterior.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

ELES SABEM O QUE FAZEM!...


De um Diário de Notícias s/d.

Legenda. Este pedinte de Jerusalém pensou, ingenuamente, que os prelados poderiam ser particularmente generosos. Infelizmente, apareceu-lhe o bispo Joseph Bernardim, de Chicago, que não usa trocos, só cartões de crédito. Estados Unidos «oblige».

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O POBRE NÃO O SERÁ ETERNAMENTE


Meus inimigos vão em retirada.
Na sua própria rede se prenderam.

Ainda vibra o clamor dos oprimidos.

O pobre não o será eternamente
e a esperança dos humildes
não há-de pelos séculos malograr-se.

Simples mortais nós somos.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

domingo, 4 de agosto de 2013

OS POBREZINHOS


De O Livro da Primeira Classe, Ministério da Educação Nacional, 1958

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

À LUPA


Isabel Jonet falou ao jornal i do êxito da última campanha nos supermercados e também do estado do País. Explicou que não está preocupada com os casos de idosos que aparecem mortos em casa, mas sim com as carências por que passam enquanto são vivos. Teceu criticas aos jornalistas que deturpam as declarações dos entrevistados e garantiu que é por isso que muitos fogem da comunicação social. Acima de tudo afirmou não estar nada preocupada com o que dela se escreve.
 Quando questionada pelo i sobre o trabalho do Banco Alimentar, e se o mesmo fazia "caridade" ou "solidariedade", Jonet afirmou que a caridade se prende com "amor" e "espírito de serviço". "É o outro precisar de nós sem que nós precisemos do outro e portanto levemos o que ele precisa e não o que nós queremos levar". Já a solidariedade, por outro lado, "é algo mais frio, que incumbe ao Estado e que não tem a ver com amor mas sim com direitos adquiridos". Embora admita que ambas se completam e fazem parte "do bem fazer", diz ser "mais adepta da caridade do que da solidariedade".

Diário de Notícias

sábado, 10 de novembro de 2012

HÁ QUE MANDÁ-LOS PELA JANELA FORA!


São até ao momento 10 385 os alunos que 253 agrupamentos de escolas públicas sinalizaram como crianças com carências alimentares.

O número foi revelado ontem pelo secretário de Estado da Educação, João Casanova de Almeida, durante a audição da comissão parlamentar de orçamento, finanças e administração pública.

È neste país da caridadezinha que as Jonets chafurdam, que os Antónios Borges dizem que há que baixar, ainda mais, os salários, que os Ulrichs gritam que ah! eles aguentam, aguentam!

Salazar em 1943 dizia:

Nós somos um país pobre, que, tanto quanto se enxerga, não pode aspirar a mais que à dignidade de uma vida modesta.


Legenda. Os pobrezinhos, texto da pág. 45 de O Livro da Primeira Classe (1952).

(Clicar para aumentar a imagem)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

INACREDITÁVEL!...


Um estudo feito por uma companhia de seguros concluiu que a crise financeira é o principal motivo de preocupação dos portugueses que se traduz em noites mal dormidas.

O estudo reúne 4522 entrevistas e foi feito em oito países europeus: Portugal, Reino Unido, Suíça, Espanha, Alemanha, Áustria, Itália e Rússia.

Em Portugal, além da actual situação económica do país, o estudo mostra que 47% dos portugueses não dormem à noite devido às preocupações com os filhos, à gestão da economia familiar a pressões no trabalho ou na escola.

Entretanto, Isabel Jonet uma tia, estou a ser muito comedido, que é presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, disse ontem na televisão que cá em Portugal não existe miséria apesar de estarmos mais pobres.

Mais disse a senhora:

 Se não temos dinheiro para comer bifes todos os dias, não comemos bifes todos os dias. E esse empobrecimento é porque comemos bifes todos os dias e achávamos que podíamos comer bifes todos os dias e não podemos.

Face aos momentos dramáticos que a esmagadora dos portugueses vivem, estas afirmações são um insulto.

Para além de outros óbvios chamamentos, apetece perguntar:

Oh Jonet! Foi você que pediu um pano encharcado nas trombas?