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quinta-feira, 25 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


As Viagens por Abril não têm fim.

Como perguntaria o Baptista- Bastos:

 «Onde estavas no 25 de Abril?»

É, andei por aí.

Com gente, procurando gente, pontes e vales, tem sido assim esta vida.

E houve aquele dia, 25 de Abril de 1974.

Dizem que por um Abril houve uma revolução, outros dizem que houve um golpe de estado, outros ainda que houve uma abrilada, sucederam coisas gritadas nas ruas, outras soavam nas sombras clandestinas.

Na escola disseram aos miúdos que tinham que ir para casa, estava a acontecer qualquer coisa em Lisboa.

Que comemoramos hoje? Que resta daquele dia?

O chefe de redacção telefonou ao repórter, gritou-lhe: Salta da cama. A Revolução está na rua e é precisos escrevê-la!

Isso é passado, é tão passado que eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que hoje não posso ver nenhum sinal, daquilo que o 25 de Abril trouxe.

Podemos saudar o desespero que nos invadiu perante algo que falhou?

Estragaram a tua festa pá!, cantaram no outro lado do Atlântico.

Houve quem dissesse que as revoluções são sonhadas por idealistas e realizadas por fanáticos, e quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.

O 25 de Abril é um dia e são dias. É daquelas datas que se constelam que estão antes de hoje, que hoje ecoam ainda, e que tremeluzirão no depois de hoje.

Quase sem darmos por isso, milhares de pessoas invadiram as ruas, ofereceram pão e cravos aos soldados, deram as mãos, sorriram, dos olhos saltavam sonhos e esperanças.

Alguém perguntou como era possível tanta e tanta gente quando meses antes, semanas antes, dias antes, eram tão poucos aqueles que apareciam para escrever palavras de ordem nas paredes da cidade, colar cartazes, distribuir uns panfletos impressos a stencil…

Será a memória curta? Apaga-se com facilidade?

 O apagamento de memória é chocante.

 Deste dia até ao 1º de Maio, é provável que muitos devem ter dormido, mas não se lembram bem. Uma semana de loucura já ninguém me tira, posso não ser feliz mas poucos chegaram tão perto disso a que chamam felicidade.

 É preciso ter vivido os anos terríveis, o tempo do desprezo, um tempo de ratazanas, para que aquele dia tivesse sido o que foi, um navio de sonho, uma nave de loucos, protagonistas duma enorme esperança, depois figurantes de um grande desencanto.

Terá sido assim há tanto tempo?

A ditadura acabou por ser derrubada por militares que antes desprezávamos.

Dezassete horas e 45 minutos bastaram para abater um regime que oprimiu um povo durante 47 anos, 10 meses, 34 dias e algumas horas.

Teremos feito tudo para que as novas gerações fossem mais felizes?

 Vale a pena assinalar a data quando nos esquecemos de ensinar a importância que aquele dia nos trouxe? Olham-se as pessoas de hoje, os jovens de hoje, formam um grupo largo e variado mas, olhando bem, estamos todos muito mal no retrato de conjunto…

Algures, numa dobra da história, alguma coisa falhou. O cantor, de viola às costas, acabou por dizer que houve alguém que se enganou.

A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém.

Naqueles dias, quase poderíamos dizer que a paisagem mudara para sempre.

As paisagens até podem mudar, o resto… o resto… o resto… é uma chatice… um busílis de questão…

O escritor perguntava e respondia: para que serve a utopia? Serve para que eu não deixe de caminhar.

Um dia voltaremos a encontrar-nos todos no imponderável azul celeste.

E recomeçamos a busca dum país liberto, duma vida limpa e dum tempo justo.

Mas será que ainda verei alguém desenhar os nomes daqueles que, na sombra, nos lixaram a festa?

 

Montagem concebida com textos de:

Jorge Silva Melo, Virgílio Martinho, Baptista-Bastos, José Saramago, Rui Cardoso Martins, Chico Buarque, Manuel António Pina, Manuel Gusmão, Rodrigues da Silva, João Gobern, José Mário Branco, Eduardo Galeano, Mário Dionísio, Cristina Carvalho, Sophia de Mello Breyner Andresen.


Legenda: ilustração de António Pimentel para o livro As Portas Que Abril Abriu de José Carlos Ary dos Santos. 

quarta-feira, 24 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


              Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 24 de Abril de 1974

Quando o país bocejante se deitou, só alguns dos seus habitantes, muito poucos, sabiam que esta não seria uma noite igual a tantas outras, seria mesmo uma noite invulgar.
Quando os espectadores que assistiram à “Traviata”, começaram a sair do Coliseu, já João Paulo Dinis, na emissão do Rádio Peninsular dos Emissores Associados, tinha enviado o primeiro sinal para os militares: “Faltam cinco minutos para as 23,00 horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74 – E Depois do Adeus”.
          

O “Diário de Notícias” há-de escrever que um Coliseu, repleto de público, assistiu a uma récita da “Traviata” com Alfred Kraus e que consagrou Joan Sutherland e que a récita terminou em delírio colectivo, com ovações intermináveis e inúmeros cravos atirados das frisas.

 O MESMO DIÁRIO DE NOTÍCIAS, publica na 1ª página um editorial com o título: “Balas de Papel”. Terminava assim:
“Só nós, Portugueses, somos senhores do nosso destino. E estamos tão estoicamente empenhados na defesa dos lusos territórios ultramarinos, como preparados para enfrentar as batalhas de opinião, desencadeadas – sabe-se lá – por que interesses feridos ou conveniências não acauteladas…
Parece-nos, entretanto, oportuno prevenir os franco-atiradores dispersos pelos países amigos, de que não receamos as balas de papel – como não tememos as outras. Elas não conseguirão desalojar-nos das atitudes assumidas e das posições tomadas.”

LOGO PELA MANHÃ, Otelo Saraiva de Carvalho desloca-se à estação dos CTT da Estefânia, fronteira à Academia Militar, de onde envia para os Açores o telegrama codificado que combinara com Melo Antunes, com a data e a hora do golpe:

 “Tia Aurora parte Estados Unidos 250300. Primo António.”

EM CONVERSA TELEFÓNICA com um dos seus ministros, que lhe dá conta dá conta de movimentações militares, Marcelo Caetano terá dito:

 “Isso é mais um boato desgastante”
Marcelo Caetano no seu “Depoimento”, publicado no exílio no Brasil, escreve que “a
Revolução veio efectivamente de surpresa.”

O chefe de Estado, almirante Américo Tomás deslocou-se à Feira Internacional de Lisboa para uma visita ao Salão de Antiguidades. Será este o último acto oficial como mestre-corta-fitas da ditadura.

FORAM ESTAS AS últimas determinações, dos serviços de censura do reino, para os jornais que se publicavam no Porto.

PARA O DIA 25, os serviços de meteorologia previam: “Céu pouco nublado, por vezes muito nublado; vento fraco de norte; possibilidade de trovoada e aguaceiros”

NOS PRIMEIROS VINTE MINUTOS DO NOVO DIA, no programa “Limite”, transmitido pelos emissores da Rádio Renascença, o locutor Leite de Vasconcelos dirá a primeira quadra de “Grândola, Vila Morena” e começam a ouvir-se aqueles passos cadenciados na estrada que anunciam que “o povo é quem mais ordena, dentro de ti ó cidade.”

O navio de sonhos largara do cais de silêncio rumo à estrela polar.

Chegara o Dia das Surpresas.

Como nos anos 60, ouvindo Beethoven, poetisara José Saramago.

terça-feira, 23 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


              Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


23 de Abril de 1974

 

Dizíamo-nos, citando José Afonso, filhos da madrugada e sabíamos que não podíamos amar serenamente porque muitos dos nossos amigos estavam na prisão, tentávamos o possível e esse possível era sempre tão escasso que, por vezes, o desânimo invadia os dias e as noites. Depois alguém começava: canta amigo canta, vem cantar a nossa canção, tu sozinho não és nada, juntos temos o mundo na mão, um outro, com um entusiasmo sereno, lembrava que há coisas que não têm fim, a esperança num melhor, por exemplo, e a luta por conseguir esse mundo.

Acreditar que num qualquer tempo, um microfone falaria às 4 e tal…

Não falou às 4 e tal, falou antes, mas era o sinal para a madrugada por que tantos esperaram.   

SOB A PRESIDÊNCIA do Prof. Doutro Marcelo Caetano, reuniu, hoje, em São Bento, o Conselho de Ministros.
O Conselho ocupou-se largamente da conjuntura económica do País e da necessidade de acompanhar a marcha da inflação, nos aspectos que não possam ser totalmente travados, de modo a combater a especulação e a moderar quanto possível a alta dos preços.
Iniciou também o estudo de providências sobre a situação do funcionalismo.
Os trabalhos prosseguirão sobre estas matérias em reuniões do Conselho de Ministros para Assuntos Económicos, até estarem prontos os diplomas a aprovar.

FOI TORNADO PÚBLICO um aviso dirigido a todos os mancebos que se apresentem às Juntas de Recrutamento Militar, no ano em curso de que devem fazê-lo acompanhados dos documentos necessários e obrigatórios para a sua identificação e regular funcionamento das Juntas, nomeadamente o bilhete de identidade, a cédula de recenseamento, certificados de habilitações literárias e carteiras profissionais ou sindicais.

O SERVIÇO de Informação Pública das Forças Armadas anuncia a morte de dez militares: quatro na Guiné e três em Moçambique, em combates, e três “por doença” em Angola.

É ADIADO para 15 de Maio, por falta de testemunhas, o julgamento de Maria Helena Vidal, acusada de ter feito parte do comando que assaltou um avião da TAP, em 1961, espalhando panfletos, em Lisboa e Porto, contra o regime.

 EM ESPANHA começa a “Vuelta” com a presença de Joaquim Agostinho mas sem o super-campeão Merckz.

OTELO SARAIVA DE CARVALHO, no seu livro “Alvorada em Abril”:
«Se a gente perder? Vocês digam nos interrogatórios, quando forem presos, que não têm nada a ver com isto. Que houve um major de artilharia chamado Otelo, maluquinho da cabeça, que teimou em deitar o Governo a baixo e vos convenceu a entrar nesta guerra. Digam que ele é o culpado de tudo.»

segunda-feira, 22 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL



 

                   Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                            João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

22 de Abril de 1974

Os jornais trazem nas suas primeiras páginas, fotografias do almoço íntimo que o chefe de estado Almirante Américo Tomás ofereceu, ontem, no Palácio Nacional de Belém do Chefe do Governo.

Sem protocolo, revestido de cunho de cordialidade, num ambiente extraordinariamente amistoso, escreveram os jornalistas. Não adiantaram os motivos do festim mas, sabe-se por portas travessas que Tomás, com esta reunião, tentou conciliar os ministros que, ouvia-se pelos corredores, andavam às turras, uns com saudades de Salazar, outros por Marcelo andava tropeçar nos próprios passos.

Olha-se a fotografia, publicada pelo ultra-fascista jornal Época, e vemo-los descontraídos e sorridentes.

Desconheciam ainda que almoçavam, todos juntos, pela última vez, tal como desconheciam que poucos dias faltavam para deixarem de sorrir.

O pânico haveria de tomar conta das suas excelsas e distintas pessoas.

O JORNAL REPÚBLICA conseguiu, numa pequena notícia, dar conta que quatrocentos democratas marcaram presença na homenagem a Óscar Lopes.

No mesmo jornal, o jornalista e escritor Álvaro Guerra, encarregado pelos capitães da ligação com a imprensa, no seu habitual Ponto Crítico, abordava a meteorologia e, se pudéssemos ter decifrado as entrelinhas, teríamos ficado a saber que o tempo ia mesmo mudar.

«A Primavera continua chuvosa, um resto de invernia que se arrasta, retardando o sol aquém, de tantos sóis adiados, se vai fartando e chegando ao Inverno da vida com um levíssimo e já frio raio de luz teimando penetrar na floresta desencantada da memória.
Naturalistas, alegóricos, nostálgicos, vamos seguindo os caprichos do clima, mitigando a ausência das palavras primaveris com a decifração de eternos boletins meteorológicos.»

OTELO SARAIVA DE CARVALHO comunica aos seus camaradas que tem pronto o Plano Geral das Operações.

DINIZ DE ALMEIDA, em Origens e Evolução do Movimento de Capitães, conta, que neste dia, «Grândola» de José Afonso foi escolhida como canção-segunda-senha para saída, em todo o país, dos regimentos afectos ao Movimento dos Capitães.

A canção foi escolhida por Almada Contreiras que, mais tarde, justificará a escolha: «em primeiro lugar, porque sou alentejano, depois porque gosto muito da canção. Se fosse minhoto, provavelmente a senha seria um “vira”, não sei».

domingo, 21 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                   Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                            João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


21 de Abril de 1974

Há 50 anos, o dia 21 de Abril calhou a um domingo, um dia simpático para que Américo Tomás, juntasse, no Palácio de Belém, sem  saber que o faria pela última vez, num almoço íntimo, algumas das principais figuras da vida nacional, e outras personalidades.

Para além da veneranda figura, sentaram-se à mesa, Marcelo Caetano, os presidentes da Assembleia Nacional, da Câmara Corporativa e do Supremo Tribunal de Justiça, os ministros da Defesa Nacional, da Justiça, das Finamças, o procurador geral da República, os conselheiros de estado dr. Albino Reis, prof. Costa Leite (Lumbrales), dr. Luís Supico Pinto, o governador civil de Lisboa, o deputado contra- almirante Henrique Tenreiro.

Não se sabem razões para a realização do festim, tão pouco foi pública a ementa.

Quatro dias depois deste festim, aconteceria a tal madrugada que Sophia registou para a História.

DINIZ DE ALMEIDA no seu livro Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, regista que a redacção do programa do Movimento havia-se entretanto processado a partir de um documento inicialmente discutido entre Almada Contreiras, Martins Guerreiro e Melo Antunes.

Nessa redacção intervieram:

Pela Armada: Crespo, Contreiras, Lauret, Simões Teles, Vidal Pinho.

Pelo Exército: Melo Antunes, Costa Brás, Charais, Vítor Alves, José Maria Azevedo.

Pela Força Aérea, praticamente fora do assunto, só se fará sentir a sua opinião já no final dos trabalhos, em 24 de Abril de 1974.

A versão definitiva do programa, passada à máquina directamente pelo próprio Hugo dos Santos, ficou estabelecida em casa de Vítor Crespo, no dia 21 de Abril de 1974, domingo (epílogo das muitas reuniões efectuadas sobre o programa).

NA PRAIA DA AGUDA, em Gaia, e por iniciativa do jornal Opinião, realizou-se um jantar de homenagem  a Óscar Lopes.. A censura interveio com uma série de cortes pelo que as notícias publicadas, pouco ou nada referem. Os serviços da censura avisavam que as fotografias e as legendas da homenagem teriam que ser enviadas ao Dr. Ornelas.

EM ABRIL DE 1974, Portugal era um país onde coexistiam a maior miséria e a riqueza mais faustosa. Com oito milhões de habitantes, em cada mil crianças nascidas 56 morriam antes de completarem um ano de idade e em cada mil habitantes 15 morriam de tuberculose pulmonar. Apenas 40 por cento da população tinha água em casa e 75 por cento não dispunha de esgotos. Em cada 100 portugueses 37 eram analfabetos e em cada 100 alunos que frequentavam o ensino primário 30 não o completavam e apenas 2 por cento vinham a obter uma graduação universitária.

E havia uma guerra em África. 

Milhares e milhares de mortos, feridos, estropiados.

A Pátria não se discute, defende-se!

PASSAGEM PELO LIVRO  40 Anos de Servidão de Jorge de Sena:

«Uma vez eu, chegando a Portugal 

após muitos anos de ausência minha e alguns

de guerras africanas, encontrei uma vizinha

muito estimável que era casada com

um operário categorizado e antigo republicano.

O filho dela estava nas Africas, arriscando

a vida dele e a dos outros em defesa

do património da pátria de alguns (muito mais

que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).

Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.

E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:

- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!»

EM SANTA MARIA DE BELÉM realizou-se a tradicional bênção dos bacalhoeiros, repetida todos os os anos por ocasião da partida da frota para os mares da Terra Nova e da Gronelândia.

sábado, 20 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


  

            Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                     João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


20 de Abril de 1974

 

DENTRO DE UM LIVRO, um guardanapo de papel com versos de um poema do José Gomes Ferreita:

«Esperança: o teu nome verdadeiro é teimosia de querer ouvir as pedras a cantar.»


Nas paredes da cidade começam a aparecer inscrições: O 1º DE MAIO É VERMELHO!


NA NOTA DA DGS, que acima se reproduz o recorte, publicada nos jornais.

Pode ler-se:


«A Direcção-Geral de Segurança fez divulgar, através da Secretaria de Estado de Informação e Turismo”, a seguinte nota:
“Desde o início do corrente mês, mas com maior intensidade nos últimos dias, tem-se verificado por parte de várias organizações comunistas, uma grande actividade na difusão de panfletos e outras actuações de propaganda através das quais se incita a acções revolucionárias no 1º de Maio.
Com base nas averiguações feitas, foram detidos em Lisboa 15 indivíduos e 15 no Porto, especialmente aos sectores de “informação e divulgação” daquelas organizações, alguns dos quais estão de há muito referenciados como seus orientadores activos.

As averiguações conduziram a apurar que era nas oficinas do semanário «Notícias da Amadora que se imprimia muito do material subversivo, tendo nelas sido apreendidos largos milhares de exemplares de panfletos revolucionários.»

NA 1ª PÁGINA  do Diário de Notícias, com a respectiva fotografia, lia-se que o «venerável chefe de estado Almirante Américo Thomaz» visitara uma feira de antiguidades na FIL.

NUMA BREVE NOTÍCIA O Século informava que três jovens, dois canadianos e um argentino, foram detidos sob a acusação de prática de imoralidade. Foram presos por, segundo o agente da PSP, estarem descalços e de tronco nu deitados na relva. No relatório enviado ao Comando da corporação, o agente informa que aqueles cidadãos estrangeiros estavam a ofender a moral pública.

NA SECÇÃO de Breves notícias, o Expresso informava que o governo tinha autorizado  Miguel Quina a localizar um estaleiro de reparação na Cova do Vapor e Champalimaud pediu autorização para abrir um banco de investimento em Angola e instalar uma frota de navegação de longo curso para o comércio entre Moçambique e Angola,

NESTE DIA conta Otelo Saraiva de Carvalho no seu livro Alvorada em Abril, que Vítor Alves lhe perguntou qual era a percentagem de probabilidades de êxito que ele atribuía ao movimento.
Otelo respondeu:
«Não entrando em linha de conta com os imponderáveis, garanto uma probabilidade de êxito de oitenta por cento para uma vitória concretizada em doze horas a partir da Hora H.
Vítor Alves olhou-o “estupefacto” e comentou:
Booolas! Se me tivesses respondido com vinte por cento de probabilidades de êxito, eu tinha achado sensacional! Invertendo os valores e garantindo oitenta, não estarás, como de costume, a ser demasiado optimista?»

sexta-feira, 19 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                    Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                             João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


19 de Abril de 1974

O que acima se reproduz, é a legenda de uma fotografia publicada na 1ª página de O Século, que dava conta que o ministro do interior César Moreira Baptista deslocou-se ao Porto para a tomada de posse do Governador Civil.

«Para a sua primeira deslocação ao Porto como ministro do Interior, o dr. César Moreira Baptista escolheu mais democrático dos meios de transporte ao seu alcance: o comboio. Como um vulgar passageiro embarcou, no rápido das 8 e 40 em Santa Apolónia e, ora entretido na leitura, ora contemplando a paisagem através das amplas “vidraças” da carruagem, “venceu, a distância, chegando ao Porto à hora do almoço, para, durante a tarde e a noite cumprir o programa oficial que ali o aguardava.»

Apenas três pormenores: o repórter invoca o comboio como o mais democrático meio de transporte, o ministro como «vulgar passageiro» e durante a viagem, entretido com a paisagem ou com a leitura.

Mas não diz o que o ministro lia, ele que era um perfeito analfabeto.

A CENSURA determinava para os jornais que eram proibidas todas as notícias a dizer “Traineiras não foram para o mar.” 

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Américo Tomás visita a Barragem da Aguieira

O MINISTRO DO ULTRAMAR, Baltasar Rebelo de Sousa, ao despedir-se de um grupo de alunas do Instituto de Odivelas, que se preparava para visitar Angola, garantiu-lhe que naquelas terras se sentiriam “ainda mais portuguesas perante a lição de patriotismo que as populações de todas as etnias lhes vão proporcionar, pela comunhão humana que ali se respira e pelo entusiasmo galvanizante de todos, especialmente da sua generosa e promissora juventude”

NUMA REPORTAGEM  no Mercado de Alcântara o jornalista do Diário de Lisboa registava as queixas de uma florista de que cada vez se vendiam menos flores. “Só nos sábados é que as pessoas compram um raminho para alindar as casas. As rosas vermelhas estavam a 25 escudos e os cravos, de qualquer cor, a 20  escudos.

NESTE DIA, conta Dinis de Almeida no seu livro «Origens e Evolução do Movimento dos Capitães»:
«Acompanhado do capitão Almeida Pereira, dirigi-me ao C.I.C.A, 4 onde contactei o major Borges.
Posto ao corrente da situação, não aderiu, embora se comprometesse inclusive a colaborar passivamente em tudo o que não o comprometesse directamente.»

quinta-feira, 18 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

              Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


18 de Abril de 1974


O dia 18 de Abril, segundo António Mega Ferreira num futuro número do Expresso (25-04-1981), amanheceu cinzento. Um céu pesado, envolvia Lisboa numa promessa de chuva. Ao fim da tarde, porém, o estado do tempo agravou-se: uma violenta trovoada desabou sobre a cidade e choveu torrencialmente.

Nessa tarde do dia 18, Marcelo Caetano não escondia o seu desalento: «Não sei se algum Governo terá tido tantas dificuldades para governar como o meu,

O governo de Marcelo  não vive momentos de unidade, as forças conservadoras minam tudo. O próprio presidente da república  era mais um escolho e um foco de oposição;

Uma frase de Marcelo retida por António Mega Ferreira:

«Os meus ministros vêm aqui crucificar-me! Sou tido por responsável de tudo o que se faz e do que não se faz neste país.»

UMA PORTARIA do Ministério das Comunicações determina que as provas teóricas de condução de automóveis deixem de ser feitas oralmente e passam a ser prestadas de testes escritos.

MARCELO CAETANO convida o reitor da Universidade Clássica de Lisboa, Veríssimo Serrão, para substituir com urgência, Veiga Simão na pasta da Educação.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

                 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                          João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.



17 de Abril de 1974

 
A POUCO E POUCO, caminhamos para os dias últimos de Marcelo Caetano & Cª.

JORNAIS continuam a publicar comunicados das Forças Armadas dando conta das mortes de militares em teatro de guerra, a maior parte motivadas por “acidentes de viação”.

OS SERVIÇOS DE CENSURA do Reino estão numa actividade febril.

NO TRIBUNAL PLENÁRIO de Lisboa continua o julgamento de “cidadãos acusados de pertencerem à Acção Revolucionária Armada (ARA)” A censura “aconselhava” que as notícias do julgamento deveriam ser reduzidas “à expressão mais simples”.
O editorial do “Diário de Notícias” deste dia tinha por título “A Orelha de Mão” onde eram explicados os motivos por que a Rússia e a China travam em África uma guerra surda pela conquista de zonas de influência.

 
MARCELO CAETANO agradece à Universidade de Luanda o título honoris causa.

A censura proibia qualquer referência à homenagem ao professor Óscar Lopes.

Proibida também a notícia da confraternização de antigos alunos do Colégio Militar.

O Coronel Roma Torres, censor-mor deste dia, lembrava aos senhores jornalistas que têm de MANDAR SEMPRE CÁ, os assuntos que os senhores jornalistas, às vezes, se esquecem de mandar…


                                       Circular nº 45/74 dos Serviços de Censura:


“Para os devidos efeitos, elucido V. Exª de que todas as notícias de sessões públicas de qualquer índole deve, sem excepção, ser submetidas a exame prévio.
A BEM DA NAÇÃO
Alberto Alexandre Pestana de Ornelas.”

AINDA UM VOLTAT ATRÁS...

«Declaro por minha honra que estou integrado na Ordem Social estabelecida de Constituição Política de 1933 com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas.

Torres Vedras, 23 de Novembro de 1966»


Pasar de olhos pelos Dias Comuns, Vol I , de José Gomes Ferreira:

«8 de Outubro de 1965
Momento sinistro de pensamento mutilado…
Como é possível viver numa pátria assim! – de livros proibidos, de jornais proibidos, de peças proibidas, de homens proibidos – em que só o silêncio é justo?»

terça-feira, 16 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

                     Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                              João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


16 de Abril de 1974

 
O MINISTÉRIO DO ULTRAMAR, em nota enviada para os jornais, dava a conhecer que, contrariamente ao que diziam os inimigos da Pátria, os missionários combonianos não foram expulsos de Moçambique mas convidados a sair “para salvaguarda da sua segurança”. O mesmo no que diz respeito ao Bispo de Nampula.
Missionários e Bispo eram acusados de serem responsáveis por um “documento altamente ofensivo da nação portuguesa e também da hierarquia da Igreja, pondo em causa s relações entre Portugal e a Santa Sé.”

No topo do texto desta Viagem de Abril encontra-se, através do Notícias de Portugal, a versão do governo de Marcelo, que, como habitualamente, é uma completa mentira.

UMA NOTA da PIDE/DGS informa que “Com base nas averiguações feitas foram detidos 15 indivíduos em Lisboa e Porto”, implicados em “acções revolucionárias no 1º de Maio. Mais se informava que uma brigada apreendeu “largos milhares de exemplares de panfletos revolucionários” nas oficinas do semanário oposicionista «Notícias da Amadora».

TÃO SURREALISTA, como hilariante, o despacho da Comissão de Censura enviada para o «Jornal de Notícias e transcrita no livro de César Príncipe «Os Segredos da Censura».

Aqui se dá conta que o censor de serviço também lamentava os aumentos das tarifas de correios e telefones mas, infelizmente, não se pode dizer…

«Sobre aumentos dos correios e telefones – não se pode falar em «público reage». A propósito da reportagem o senhor coronel Saraiva não viu inconveniente nenhum, pois ele até ficara “desgostoso, termo que satisfaz nestas coisas de novos preços. O público reage é que não, pois dá a ideia de “barulho. de contestação agressiva.”

segunda-feira, 15 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                       Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                                João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

15 de Abril de 1974

Neste dia, de há 50 anos, existem notícias curiosas.

1ª                                                                                                                              

Henry Kissinger, de má memória, falecido há meses, como secretário de estado americano, ofereceu em Nova Iorque um jantar ao vice-primeiro ministro chinês Deng Xiaoping, chefe da delegação chinesa à sessão especial da Assembleia Geral da ONU sobre matérias primas. Apesar do clime de bom entendimento entre Washington e Pequim, desde a visita, dois anos antes, do presidente Nixon à China, Deng não poupou críticas na ONU aos seus anfitriões, acusando os Estados Unidos e a União Soviética de serem «os dois maiores exploradores e opressores internacionais».

2ª                            

O Egipto ameaçou declarar guerra a Israel se o estado hebraico persiste nos seus ataques contra a Síria e o Líbano. «Não ficaremos de braços cruzados deixando Israel atacar impunemente o Líbano e a Síria».

O maestro António Victorino de Almeida foi nomeado adido cultural em Viena. O maestro realizou  um trabalho meritório na capital austríaca, com excelentes programas realizados para a então RTP ,que foram largamente referidos por Mário Castrim nas suas críticas que publicava no Diário de Lisboa.

MAS HÁ QUE VOLTAR às inúmeras reuniões, realizadas em todo o País, com vista à concretização da queda da ditadura. Não sei em que dia, finais de Novembro de 1973, Luís Ataíde Banazol, no meio de uma série de conversas repetidas, acabou por dizer:

«Meus caros camaradas:

Estão a esgotar-se com um assunto que não vale a pena. Isto não é uma questão de galões. O que vocês estão, e todos nós, é agonizantes. Estrangulados por um regime que nos conduz directamente para o abismo. É preciso que acordemos do pesadelo, é preciso acabarmos de vez com a maldita guerra colonial. Impõe-se a revolução armada desde já, seja qual for o seu preço e as suas consequências.»

Legenda: a fotografia que encima o dia de hoje é uma reunião-chá-canastra das «senhoras» do Movimento Nacional Feminino com vista a angariação de fundos para comprarem esferográficas, crucifixos,  imagens pequeninas da senhora de Fátima, terços, aerogramas, alguns cigarros, não muitos, porque o tabaco mata, ao contrário da guerra em África, que as madamas com o seu fervor católico, apoiavam fervorosamente!

domingo, 14 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                          Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                               João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

14 de Abril de 1974

O Chefe de Estado Almirante Américo Thomaz continuou a dar despacho à sua preenchidíssima agenda de visitas, inaugurações e recepções.


RECEBEU o Prof. Mendes Ferrão, secretário de Estado da Agricultura, e os Drs. Tiago Pereira e Joaquim Portugal, respectivamente director-geral dos Serviços Pecuários e director da Estação Zootécnica Nacional. A audiência teve por finalidade convidar o Almirante a visitar aquela estação e inaugurar novas instalações introduzidas nos últimos anos, nomeadamente as de fomento de ovinos, laboratórios de apoio e ensaio de raças e sua adaptação no nosso país.O Presidente da República aceitou o convite, devendo a visita efectuar-se em 14 de Maio próximo.

RECEBEU o Dr. Ascensão Azevedo, governador civil do distrito de Braga, e os membros da comissão da feira Agro-74, que lhe dirigiram convite para se deslocar à capital minhota por ocasião daquele empreendimento nortenho.

NOUTRA AUDIÊNCIA, o Engº João de Brito e Cunha, e D. António de Lencastre, respectivamente presidente e vice-presidente da direcção do Instituto do Vinho do Porto, ofereceram a sua excelência um exemplar da medalha comemorativa do 40º aniversário da criação daquele instituto.

A UNIÃO dos Sindicatos Ferroviários deslocou-se ao gabinete do ministro do Ultramar, Baltazar Rebelo de Sousa, para lhe manifestar o seu reconhecimento pelos benefícios resultantes de alterações ao acordo colectivo de trabalho introduzidas por este ministro quando era titular das Corporações e Segurança Social. O líder da União, Olímpio da Conceição Pereira, aproveitou para deixar dito que o Governo “pode contar sempre com os dirigentes corporativos dos verdadeiros ferroviários” na sua política ultramarina.

sábado, 13 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                     João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.  

13 de Abril de 1974

As Viagens de Abril podem levar-nos a tempos que, esperávamos que não mais poderiam voltar, mas apareceu por aí uma pandilha, com azáfama demoníca, que exigem, à viva força, que as mulheres voltem para casa porque, como dizia o botas de santa comba, «o trabalho das mulheres fora de casa não deve ser incentivado porque uma boa dona de casa tem sempre muito que fazer», que volteam a ser mulheres-despeja-penicos , que lhes lavem os pés, que lhes cortem as unhas, que tenham o jantar pronto quando eles chegam a casa, no fundo dos fundos, que as donas-de-casa, tenham um estatuto.

Esta gente católica, prufundamente reacionária e ignorante, não tem ponta de vergonha, não entendem que o mundo está sempre a pular e a avançar.

E não se pode exterminar?, tal como ouvi gritar, numa peça de Karl Valentin, encenada por Jorge Silva Melo, em 1979, no saudoso Teatro da Corbucópia, no Bairro Alto.

Mas fechemos a triste viagem de hoje, lembrando partes de outras tristezas.

A censura proibia qualquer notícia relativa ao «Julgamento das Três Marias» em que as escritoras Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno, eram acusadas de «a partir de data ignorada de Outubro de 1971, terem escrito em conjunto, mediante prévia combinação, um livro ao qual deram o título de “Novas Cartas Portuguesas que contém diversas passagens de conteúdo imoral e pornográfico, atentórias da moral pública.”
Como poderiam, aquelas almas penadas-censórias, que mal ouviam falar de cultura puxavam da pistola, ter outros procedimentos que não estes?

Só (?) a MariaTeresa Horta sabe a autoria dessas maravilhosas cartas. Prometeu que nunca as revelará. Estranha atitude, mas enfim!... Que se terá passado na cabeça das moças?

Sabe-se apenas que a primeira carta é de Isabel Barreno.

                                                                                                    

                                                                                               Primeira carta

Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício.
 
Não será portanto necessário perguntarmo-nos se o que nos junta é paixão comum de exercícios diferentes, ou exercício comum de paixões diferentes. Porque só nos perguntaremos então qual o modo do nosso exercício, se nostalgia, se vingança. Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria recuar; o que não nos faria destruir. Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício do seu sentido.
 
Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças, faremos um Outubro, um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos?
 
1/3/71

sexta-feira, 12 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

      Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                              João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Deixamos, por agora, os urgentes trabalhos dos Capitães, as viagens dos ainda ministros de Marcelo, e voltamos à música.

E voltamos com um dos grandes discos da música portuguesa: as viagens de Fernão Mendes Pinto com letras e músicas de Fausto.

Duplo LP editado em 1982 pela Triângulo com Produção da Casa Sassetti – TR-002/3


FACE A

É O Mar Que Nos Chama (instrumental) - O Barco Vai De Saída - Porque Não Me Vês - A Guerra É A Guerra - De Um Miserável Naufrágio Que Passámos

FACE B

Como um Sonho Acordado – A Ilha – A Voar Por Cima das Águas – Olha o Fado

FACE C


Por Este Rio Acima - O Cortejo dos Penitentes - O Romance de Diogo Soares - Navegar, Navegar

FACE D

O Que A Vida Me Deu - Lembra-me Um Sonho Lindo - Quando Às Vezes Ponho Diante dos Olhos


Arranjos: Eduardo Paes Mamede e Fausto

Orquestrações, direcçaõ musical: Eduardo Paes Mamede

Concepção de 2º violas Acústicas, Braguesa e Cavaquinho: Júlio Pereira

Captação de som: José Fortes, Rui Novais e Luís Flor

Fotografias: João Castel-Branco

Coros: Lena, Zélia, Isabel, Toinas, Pedro Casaes, Ed e participação especial de Maria do Céu Guerra e outros actores de Teatro A Barraca.

Capa de José Brandão.

Por este disco, eu que, nas velhas edições da Romano Torres, li Emílio Salgari, que li uma antologia da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, publicada pela Seara Nova, abalancei-me a outros voos: naus catrinetas, navegantes loucos, ilhas do tesouro, terras de pimenta e de todas as especiarias, como sonhos acordados e  quem  conquista sempre, rouba.

«O barco vai de saída, adeus ó cais de Alfama, meu amor adeus, tem cuidado se a dor é um espinho, por mais que seja santa, a guerra é a guerra, o escuro é muito grande, o tempo é mais frio, o mar é muito grosso, como se a terra corresse inteirinha atrás de mim, olhamos tudo em silêncio na linha da praia, vai de roda quem quiser e diga o que tem a dizer, e na verdade o que vos dói, é que não queremos ser heróis, a terra a navegar meu bem como eu vou por este rio acima, abranda Senhor a pena dos mortos, p’ra que te louvem com sono quieto, os anais do grande general chamado o «galego, o homem dos olhares fatais, navegar navegar ó minha cana verde, mergulhar no teu corpo entre quatro paredes, ó mar leva tudo o que a vida me deu, tudo aquilo que o tempo esqueceu, lembra-me um sonho lindo, quando ás vezes ponho diante dos olhos a lusitana viagem, medonha, que eu dobrei, os tormentos passados,  e os fados que chorei.»